Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

um poema para o dia de amanhã

Continuo com grandes dúvidas quanto à necessidade de um poema… Mas o que é certo é que lá vou tropeçando em palavras que se juntam sem pedir licença. Desta vez, por diversão feicebuquiana (com a Rosário Freitas) dei por mim agricultor… e surgiu isto:

POEMA PARA O DIA DE AMANHÃ

certo dia plantei uma metáfora
no húmus de vaga ideia
que sem saber me aflorara
adubei-a a réstias de inspiração
e protegia-a de agruras de ventos crus
ou de fera maresia

quando vi que enraizara
enxertei-lhe um soneto lento
de rima cadenciada
a meia altura da base
até um ponto incerto
algures entre o desconhecimento
e coisa nenhuma
só para ver se florescia

cerquei-a de vivências torpes
de mal-queridas verdades
de atropelos e más sortes
mas também de três sorrisos
um de papoila
outro estrela
e outro de ouvir o mar
onde o tempo esmorecia

e quando chegou Abril
já muitos anos depois
de um tempo de clausura
vi a aventura crescer
direita ao céu
perturbante
em cada folha uma pena
em cada fruto um poema
e Abril acontecia.

– Jorge Castro
em tempos de covid19, de 16 de Abril de 2020

alguém me recordou José Gomes Ferreira, o poeta

Porventura pela evocação do sacrifício de (outro) cordeiro pascal, tocou-me a mensagem da minha amiga Júlia Coutinho, que me recordou, hoje, um poema de José Gomes Ferreira, que é sempre oportuno. Aqui fica a mensagem da minha amiga e o poema, para que a memória nos auxilie a criar um mundo melhor.

E hoje, que estou a reler José Gomes Ferreira, envio um poema seu de Set 1979 quando a GNR matou dois trabalhadores no Alentejo.

O poeta chorou… e eu, não sendo poeta, fiquei tão chocada que não consegui reter as lágrimas durante dias. No Portugal de Abril a guarda matava um homem de 40 e um jovem de 17 por quererem trabalhar as terras.

Abraço amigo e… Páscoa Feliz nesta fase de reinvenção dos dias. 

julia

Aqui
Nesta planície de sol suado
Dois homens desafiaram a morte, cara a cara,
em defesa do seu gado
de cornos e tetas.

Aqui onde
agora vejo crescer uma seara
de espigas pretas

Quando os dois camponeses desceram às covas,
Ante os punhos cerrados de todos nós,
Chorei!

Sim, chorei,
Sentindo nos olhos a voz
do que há de mais profundo
nas raízes dos homens e das flores
a correrem-me em lágrimas na face.

Chorei pelos mortos e pelos matadores
– almas de frio fundo.

Digam-me lá:
Para que serviria ser poeta
Se não chorasse
Publicamente
Diante do mundo?

José Gomes Ferreira

(Em memória de José Caravela e António Maria Casquinha, mortos em Montemor-o-Novo às mãos da GNR em Set. de 1979 por defenderem a Reforma Agrária)

pão caseiro confinado

Hoje está a dar-me mais para o serviço público. E, assim sendo, publico algo que vimos fazendo cá por casa… pelo menos até que os açambarcadores não limpem a farinha toda dos mercados. Segue imagem do produto final, que aperfeiçoamos a cada dia que passa e que está ao alcance de (quase) todas as bolsas. Apresento, também, a receita, em forma de exercício «enquadrado». Trata-se então do PÃO CASEIRO CONFINADO:

ontem eu fiz um pãozinho
hoje um pãozinho farei
e amanhã devagarinho
faço o pão como eu cá sei

junto à farinha algum sal
junto ao sal algum fermento
e misturo o farinhal
amassando a meu contento

e depois de levedar
ponho o chouriço e o toucinho
embrulho tipo folar
e espero um bocadinho

o bocado já passado
toca de ir para o forno
que não esteja assanhado
p’ra não queimar o contorno

passada uma meia horita
e depois de arrefecer
um tintol que me espevita
… e então é só comer!

Jorge Castro
06 de Abril de 2020

NOTA DO AUTOR – Pode, até, distribuir-se pela vizinhança, atirando-o de janela a janela. Para tal, deve moldar-se a massa em forma de disco voador, como quem brinca na praia…

covid 19 – 21º dia de reclusão – reflexões avulsas acerca da plantação de couves

Há uma perturbadora e profunda sensação de irrealidade em tudo isto. Algo que se situa ali a meio caminho do filme de ficção, mas demasiado palpável.

Há cerca de quinze dias, na quietude do remanso pequeno-burguês em que tantos de nós se aconchegavam, onde estavam as nossas preocupações?

Talvez no próximo destino de férias. Talvez no modo de inventar dinheiro para manter o filho na universidade. Talvez no preocupante degelo da Antártida. Talvez na escolha da melhor oportunidade para trocar o carro. Talvez em adquirir mais um telemóvel topo de gama ou quase. Talvez na aquisição de uma entrada para ver jogar o seu clube de eleição…

Outros haveria – e diz-se que são bem mais de muitos – no desespero singelo de assegurar o pão-nosso-de-cada-dia, contemplando, de caminho, o pagamento da renda da casa, da água, da luz…

E eis-nos, sem aviso, a vivenciar essa obra de ficção científica, retidos em casa, em profunda clausura, cujo imperativo parte de nós mesmos, sem necessitarmos, praticamente, de qualquer influência exterior.

E sobrevém o ócio. Esse tempo insidioso em que temos tempo. Pra respirar. Para viver. Para a introspecção e, muito mais perigosamente, para reflectir, falando com os nossos botões – algo esquecido entre as virtualidades do velcro e do fecho éclair – exercício que caiu em desuso, como tantas outras pequenas coisas, na vida frenética a que nos entregámos, sem crítica e tantas vezes sem critério.

Olhando para as notícias diárias, parciais, desinformativas, voláteis e volúveis, dou por mim a ouvir, sem espanto, que o país conhecido como sendo o mais rico do mundo, os Estados Unidos da América, se debatem com a falência total de meios de protecção para os seus profissionais da saúde…

Ouço e vejo, logo mais, que a República Popular da China se transformou – e não terá sido da noite para o dia – na fornecedora global daqueles meios de protecção. A França recorre à China. A Itália recorre à China. A Alemanha recorre à China. Portugal recorre à China. Os Estados Unidos recorrem à China. A própria China recorre à China. O mundo, enfim, recorre à China!

E se, ontem, nos chocava – com lágrimas de crocodilo, tantas vezes – o regime ditatorial da República Popular da China, hoje faríamos uma peregrinação de joelhos a Fátima para agradecer as toneladas de equipamentos fornecidos pela China. Já para nem referir os médicos oriundos de Cuba, apesar dos indecorosos bloqueios com que convivemos, alegremente, anos a fio… O que dirão, hoje, os espíritos liberais e neoliberais perante esta realidade, em face da destruição dos tecidos industriais e comerciais para que tanto contribuíram, no seu apego aos «mercados», mas onde agiram como verdadeiras quintas colunas dos interesses transnacionais, sem pátria nem rosto?

E sempre com o cinismo hipócrita de nos garantirem que assim tem de ser porque assim funcionam os «mercados».

Aqueles que votam nos Boris, nos Trumps e nos Bolsonaros, mas que também votaram (e votarão) Cavaco, a quem devemos, cá pelas nossas paragens, a destruição das pescas, das indústrias pesadas (e das outras), da agricultura, da rede ferroviária, enfim, da nossa necessária autonomia, enquanto nação, o que nos dirão, agora, perante a nossa escassez de quase tudo? Perante a sangria, contada pelas muitas centenas de milhares de jovens (e menos jovens) com formações de topo, a quem aconselhámos o estrangeiro porque, por cá, sem empregos ou com ordenados insultuosos, só tínhamos para lhes oferecer uma mão cheia de nada?  

E lá foram para a Holanda, onde os ordenados que auferem podem beneficiar do dinheiro que empresas «portuguesas» lá depositam. Mas foram, também, para o Reino Unido prestar os excelentes serviços que a formação em Portugal lhes proporcionou – e que ao Reino Unido nada custa – apenas porque podem receber, em dobro ou em triplo o que a mesquinhez e a ganância dos nossos empresários, com a cumplicidade dos diversos governos, lhes paga aqui.

E disto, dos nossos estimados parceiros europeus, que contrapartida colhemos nós?

A União Europeia desvanece-se, cada dia mais, perante o imperativo de fechar fronteiras, com cada país a voltar-se para si próprio, sem qualquer estratégia global e solidária, lambendo as suas feridas, sem olhar para os vizinhos, cultural e geograficamente tão próximos, salvo algumas, muito poucas, exemplares excepções.

Faltam máscaras de protecção? Liga aí à China. Faltam luvas? Liga aí à China. Faltam ventiladores? Liga aí à China. E a tal ditadura transforma-se na salvadora das pátrias e do mundo, o que pareceria até paradoxal se não fosse a realidade com que deparamos.

Se, em Portugal, pugnarmos pela «res publica» portuguesa seremos chamados de nacionalistas serôdios ou Velhos do Restelo, porque somos Europa. Mas quando a República Popular da China dá mostras de uma enorme pujança industrial, espantámo-nos, aplaudindo e, até, estranhando tal competência… Pobres e iludidos somos. Como se duas mãos na China valessem mais do que duas mãos em Portugal ou em qualquer outra parte do mundo.

Lembram-se do poema que nos dizia que «algo está podre no reino da Dinamarca»? Pois assim parece.

Equacionaremos estas questões quando, finalmente, sairmos do pesadelo? Ou já não haverá condições, sequer, para equacionarmos o que quer que seja?

Digo, há muitos anos, que quando algum de nós planta uma couve no seu quintal, isso também é economia. Apenas com a diferença de que ninguém o contabiliza como tal. Mas não é por isso que deixa de ter existência real.

Talvez seja esta a nossa oportunidade de passarmos a dar mais valor, então, às couves que cada um plante (se ainda houver quem as saiba plantar).

Jorge Castro

02 de Abril de 2020 – no 44º aniversário da Constituição da República Portuguesa

era um dia sem ninguém

era um dia sem ninguém

e a terra ardia

no silêncio que em todo o mundo se ouvia

um silêncio mais tremendo

mais profundo

bem maior que o tamanho deste mundo

só brilhavam no céu

umas estrelas

que ainda ontem por lá não as havia

e brilhavam tanto mais

por cintilarem

no mais negro universo e mais profundo

no entanto

o seu brilho anunciava

que outro dia a nascer acontecia

– Jorge Castro – em 30 de Março de 2020

a propósito do distanciamento social

Porque em situações adversas a criatividade pode ser salutar, aqui fica uma sugestão e um apelo à indústria nacional: que tal criar e produzir massivamente uma protecção para o imperioso distanciamento social como aquele que se apresenta na imagem anexa? Já viram o impacto que teria nos transportes públicos, nas idas aos mercados… eu sei lá! E, passado o vírus, poderia ser utilizado como casota para o cão, galinheiro, casinha de brincar para os filhotes, etc., etc.,,,

Houve, até, quem me sugerisse que poderia ser electrificada!

um dia na vida do Corona Vírus – 17º dia de confinamento – reflexões avulsas

São oito horas e dez minutos da manhã. Espreguiço-me na cama. Hoje até era capaz de ir dar um passeio pela praia de Carcavelos mas, como não tenho cão, não sei se posso passear com a minha gata. Mas receio que ela não esteja pelos ajustes, tão dada que é ao livre arbítrio. Além disso, na praia nem se deve passear o cão, mas enfim… Com a minha companheira presumo que não posso. Pelo menos, não está anunciado no Estado de Emergência meiguinho que nos calhou em sorte e, se não está, é melhor não tentar essa sorte.

Levanto-me para as rotinas matinais. Dirijo-me ao espelho da casa de banho e reconheço vagamente o tipo que está ali a olhar para mim, a quem cumprimento, com um esgar um pouco despenteado, confesso.

Abro, em rotina, as portadas da casa toda, confirmando que a minha companheira já se adiantou no pequeno-almoço, como tem vindo a ser hábito ultimamente, pois fico até tarde repartido entre a televisão e o computador, só reparando, então, que o dia está bonito. Ficar acordado até tarde é no que dá: levantar tarde e perder o amanhecer. Assim vai o desequilíbrio do meu mundo… Ainda por cima, fui informado de que dormir pouco fragiliza o sistema imunológico. 

O confinamento, entretanto, tem aspectos curiosos: temos tempo para pensar. Desde as mais sublimes altitudes até à mais comezinha reflexão. Da salvação do mundo até à limpeza do excremento do cão que um vizinho passeante deixou à minha porta, que a clausura tem as suas fugas e dádivas inopinadas.

Tomo o pequeno-almoço visitado, como habitualmente, pela passarada que se habituou a partilhá-lo connosco. Bastaram umas poucas sementes diárias e restos de pão rotinadamente colocados num comedouro improvisado para lhes comprar uma confiança relativa, mas muito aprazível.

Não devemos, no entanto, abusar deste subsídio, pois interessa que a passarada não se desabitue de colher o pão-deles-de-cada-dia, não vá dar-se o caso de lhes faltar, inopinadamente, o fornecedor e eles ficarem sem saber como se amanhar. E este tempo não está para dados adquiridos nem hábitos de calaceirice. E isto vale para o ser humano como para o pardal.

Há coisas a fazer, claro. Cortar a sebe, aparar a relva, retirar ervas daninhas, cortar e armazenar lenha obtida de móveis velhos, fazer pão, sei lá que mais… O que vou cumprindo, calma e apaziguadamente. E, outra vez, essas tarefas propiciam a reflexão constante que antes refiro. 

Dou por mim a matutar que, numa escassa quinzena, já fui informado de que devia usar luvas de protecção e de que não as devia usar; por outro lado, que devia usar máscara e, logo mais, que seria melhor não a usar; que a desinfecção dos pavimentos é crucial mas, as mais das vezes, é um esforço inútil…  

Recentemente, colhi até a informação de que usar barba era contraproducente. Presumo, entretanto, que esta situação se referirá prioritariamente à população masculina. Mas fico desconfortável, como é evidente. É que se, amanhã, vierem contradizer este ditame, vai levar-me uma data de tempo a recompor a pelagem.

Assisti a um frenético açambarcamento do papel higiénico como se todos padecessem de infernal diarreia e ao desaparecimento do pão fresco… que vem depois a aparecer, bolorento, nos caixotes do lixo. Façam açorda, pelo menos, ó alminhas aflitas!

O distanciamento ao meu semelhante (leia-se este semelhante na perspectiva de ser alguém tão atreito como eu a captar o malfadado vírus), tem vindo a aumentar. Começou por um discreto e comedido «distanciamento razoável» para o imperativo de um metro e a última versão já implica um mínimo de dois metros. Hoje, de manhã, a fila/bicha para o supermercado, sempre percursor, que frequento já atinge os cento e cinquenta metros… para uma dúzia mal contada de clientes em espera.

Como o ventinho tem estado fresco, talvez aconteça que aquela espera propicie, até, uns resfriadozitos para dar mais sabor à vida. Nada de preocupante, embora, e sempre ficamos com um entretimento doméstico complementar.

Tenho, entretanto, uma angústia que me acompanha nestes dias de clausura: por que não ir fazendo testes de detecção da Covid 19 a toda a população? Não há testes que cheguem? Pois constou-me que já soluções preconizadas por cientistas portugueses, vejam lá! E com possibilidade de produção ilimitada.

Mas o que mais me tem marcado é, sem margem para dúvidas, a incidência da maleita na população sénior, na qual me vou incluindo, valha a verdade.

Esta malévola discriminação só pode ter sido congeminada por algum pequeno deus menor e insidioso com tendência para a Economia, tipo Lagarde e outras abencerragens.. Mas o certo é que a avassaladora percentagem de óbitos recai, sem margem para dúvidas, nos escalões etários a partir dos setenta anos.

E isto, então, traz-nos para um campo em que nem a ironia, nem o sarcasmo, nem o bom humor têm lugar: os famigerados lares da terceira idade.

Num mundo que se está objectiva e institucionalmente nas tintas para os anciãos de cada sociedade, a recolha e resguardo dos cidadãos em fim de vida e, mormente, na chamada velhice desvalida, vai competindo aos lares. Instituições privadas, quase todos, sujeitos, portanto, às «regras de mercado», com pessoal de preparação e competências profissionais mais do que duvidosas em tantos e tantos casos que todos conhecemos.

Como poderá alguém manifestar surpresa por serem estes locais os coios onde prolifera a contaminação?

Com um mercado de trabalho canalha – que também (quase) todos conhecemos – chega um momento, na vida de cada família, em que os filhos não têm condições para acolher e tratar dos pais, por mais entes queridos que sejam. E não necessariamente por razões económicas directas, mas por razões de vida que – outra vez – todos conhecemos e os que não conhecem, se procurarem um pouco nas respectivas famílias, logo encontram e com múltiplas facetas. 

E isto traz-nos ao remate desta minha frágil e canhestra crónica:

Que este confinamento a que estamos obrigados, que fez surgir à luz do dia tantas e tão clamorosas carências de âmbito social, em todo o mundo, ainda que em certos países mais do que noutros por consabidas razões, que este confinamento, dizia, nos alerte para a necessidade de encarar o problema da chamada terceira idade com a dignidade que ele merece.

Que interiorizemos e obriguemos os respectivos governos a criar uma rede de cuidados a prestar aos anciãos tão relevante como o nosso Serviço Nacional de Saúde no tratamento das doenças e na manutenção da Saúde dos cidadãos.

Esta não é uma matéria que deva ou possa estar entregue a interesses privados. Malfadada a sociedade em que vivemos que se deixou resvalar para esta insensibilidade institucional, onde nem sequer se apura que se está a falar de cidadãos que, na sua esmagadora maioria, pagaram os seus impostos, taxas e taxinhas, e que, assim, ergueram a sociedade em que nos movemos.

Se, depois, algum afortunado quiser pagar do seu bolso uma estadia de rei, que o faça e que recorra a seguros e a lares principescos e tudo por aí fora. Mas, antes, o cidadão comum, o velho sem amparo, porventura sem família ou com família sem condições, sem amigos e que apenas convive com a sua solidão deverá ter o direito à dignidade que advém da sua própria cidadania.

Estão a ver para o que havia de me dar o confinamento?

Jorge Castro, em 28 de Março de 2020

dia mundial da Poesia e da Árvore e tudo

Poderia lançar aqui um poema circunspecto, quiçá conceptual, um tudo ou nada selecto… Mas é dia de poesia em que vivo constrangido… e por tal constrangimento falo de um dia vivido:

Um dia de Corona

já eu estou que nem me tenho
sem poder sair do ninho
com a parceira me avenho
de longe aceno ao vizinho
corta aqui – fura acolá
em arranjos sem ter fim
p’ra que serve, digam lá
ter um tão lindo jardim?
na calçada queimo ervinhas
libertando olor profundo…
– estou a falar das daninhas,
ó almas do outro mundo!
lá dou de comer ao melro
ao rabirruivo, ao pardal…
tenho lenha, se não erro
p’ra cortar ‘té ao Natal
se tivesse cão iria
para a praia passear
mas como tenho a Maria
em casa devo ficar
bem chateia um tanto estar
no nem ata nem desata
vou tentar deambular
pondo uma trela na gata
pelo feicebuque passeio
traseiro bem instalado
apuro cenas pelo meio
e fico mais ilustrado
ilustrado nem é bem
pois lá passeiam vaidades
gostamos do que convém
e o resto nem são verdades…
mas sempre lanço uns bitaites
como se filosofasse
depois visito alguns «saites»
e espero que o tempo passe
para tratar do traseiro
temos cá muito papel
não faço da merda tinta
nem dos dedos um pincel
vejo filmes, leio livros
e sou feliz de algum modo
e se me faltam convívios
vou-me às árvores… e ali podo
depois uma especiaria
à refeição apurada
eu e a minha Maria,
a gata… não falta nada
vejo então televisão
– Corona de ponta a ponta
e Marcelo até mais não,
mas o António é que conta
e em vez de dar um grito
vem-me o Aleixo à memória
neste momento aflito
que confunde até a História:
ó vós que do alto império
prometeis um mundo novo
calai-vos que pode o povo
querer um mundo novo a sério…

111ª sessão das Noites com Poemas
– Resistir!

Amizades,
A sessão que estava aprazada para o próximo dia 27 e que eu vos iria anunciar foi cancelada, mesmo antes desse anúncio, por razões que estão na ordem do dia. Também canceladas foram todas as iniciativas previstas para o Dia Mundial da Poesia.
Mas estamos aí! Direi que não há vírus que corte a raiz ao pensamento… E se as circunstâncias aconselham e impõem confinamento, seja. Mas a vida continua! Proponho-vos, então, uma sessão virtual, em que todos podem entrar:

 – Abaixo segue um poema meu, suscitado pelos dias que correm.

Aqueles de vós que assim o quiserdes, respondei-me em forma de poema ou de prosa poética (dimensionalmente contida, claro) e, se não tiverdes problemas de foro autoral, eu publicá-lo-ei, por ordem de chegada, no meu blog Sete Mares (sete-mares.org). Quem sabe, não desagua a coisa em publicação, para depois do vírus… 

  • Jorge Castro, 16 de Março de 2020

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da Lourdes Calmeiro

Resistir para amanhecer:

  • Se COVID 19 (CoronaVirus) = infectados+pessoas++++mortes — FIQUE EM CASA !!!
  • Mas as Romãs = Ácido Elágico (antioxidante+anti-inflamatório+imunológico) + zinco + magnésio + vitamina C…

Para amanhecer melhor a Vida tem opções…

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De Clotilde Moreira

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De Cândida Ferreira

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De Maria do Rosário Freitas

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De Arthur Santos

¢ArthurSantos2020

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De Arnaldo

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De Ana T. Freitas

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permaneço coronadamente confuso…

O momento é difícil. Ponto. Requer uma atitude cidadã consciente e activa. Ponto, outra vez. Nada a dizer e estejamos atentos e cumpridores ao que nos for sendo imposto tendo em vista a contenção da propagação do flagelo.

Mas, de repente, a malta vai para a praia porque a universidade fechou e cai o Carmo e a Trindade… Os órgãos da dita comunicação exasperam-se e vituperam os prevaricadores; comentadores desvairados insultam os veraneantes extemporâneos; as forças vivas (ou assim-assim) vêm à televisão recordar que aquilo não são férias…

Mas porquê? Então, o Sol não fortalece, até, a nossa imunidade e, como tal, é uma terapia oportuna? E será que, nas diversas escolas, os alunos foram industriados devidamente a enclausurarem-se nos respectivos abrigos? Ou, como habitualmente, tudo vai sendo feito «à Lagardère», tipo a-escola-fechou-até-mais-ver-podem-ir-embora…?

Já numa ida ao meu talho habitual, onde curo do meu abastecimento semanal, em vez de esperar cinco minutos – como é a bitola – tive de aguentar duas horas e meia na fila, para ser atendido, com toda a malta a levar quase todo o jardim zoológico para casa, como se estivéssemos à espera do armagedão já para logo à noite…

Mas, espera aí, aquela senhora que palita os dentes com o dedo mindinho, alterna esta modalidade desportiva com o apoiar-se na vitrina das carnes, uma e outra vez, apontando o naco pretendido ao talhante; aqueloutra, já de idade, vai-se apoiando, alternadamente, mão direita, mão esquerda, o braço todo, as costas na mesma vitrina, enquanto afaga a cabecinha loura da possível netinha, ao colo da filha, também ambas com as mãos pespegadas no vidro delambido. E aquele senhor que tosse e limpa as mãos às calças e, logo mais, ao mesmo vidro da mesma vitrina, apoiando-se enquanto pergunta a um dos talhantes se pode passar à frente, pois tem o restaurante sem carne, ainda que esteja às moscas e já estamos na hora do almoço… E as duas amigas, velhotas já, que estão também numa espécie de desafio, a dar à língua, enquanto esperam, vai para duas horas e à falta de melhor, também se apoiam à sacrossanta vitrina, à míngua de cadeiras onde repousarem o traseiro fatigado…

Quer-se dizer, só nestas escassas duas horas e meia assisti a um potencial imenso de transmissão de vírus, os mais diversos e transviados, à vista de todos e com a maior e mais santificada inconsciência e beatitude e – mais importante – sem que aparecesse uma qualquer câmara para um qualquer canal de tv, a moralizar aquelas massas inconscientes e, quiçá até, prevaricadoras.

E no talho nem está sol. Pelo contrário, o ambiente é muito fresquinho e propício a virulências.

Também fico atónito perante aquela senhora que enche três carrinhos do supermercado com rolos de papel higiénico e com a última vintena de pacotes de guardanapos de papel, ainda existentes na prateleira. Será o receio de alguma pandemia de dejectos?

Ou perante a descontrolada e chorosa funcionária, chamada a trabalhar no seu turno de descanso, porque «isto está pior do que no Natal», debulhada em lágrimas no limiar da exaustão, ainda que soltando risadinhas nervosas perante o despautério aquisitivo de algum cliente do tipo vale-mais-prevenir… apresentando-lhe para pagamento duas dezenas de caixas de comida para cachorro.

E aquele senhor, na feira de Carcavelos, que me disse, ainda hoje, que lhe parecia muito mal o açambarcamento, mas que não era nada mal pensado precavermo-nos para o dia de amanhã, não vá o Diabo tecê-las, e até já tinha um quartinho destinado a armazenar aquelas coisitas que fazem sempre falta… Quando lhe perguntei sobre o papel higiénico, diz-me ele «e porque não?».

Apesar de toda esta gente estar a exercer o seu direito de adquirir o que lhe dê na gana, se calhar, há alguma esquizofrenia nisto tudo… Para não lhe chamar loucura colectiva, claro. Em dois dias, sem qualquer indício de coisa nenhuma, o povo pirou? Este mundo está perigoso!

Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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