Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

GOA – Roteiro de uma viagem

Um bom amigo, João Coutinho, serviu de guia, numa viagem a Goa, em busca das suas raízes, levando consigo um grupo de amigos. Dessa viagem resultou, agora, a publicação de um livro – «Goa – Roteiro de uma viagem» -, em co-autoria do João Coutinho com Conceição Zagalo, Constança Vasconcelos, Graça Pacheco Jorge e Ana Bela Mendes e edição da Modocromia, livro que condensa os diversos olhares e sentires colhidos nesse périplo, através de imagens fotográficas, pinturas, notas gastronómicas, descrição de lugares… um sem fim.

O livro encontra-se disponível nas grandes livrarias. Em minha opinião: imperdível.

e, agora, uma ponderação arriscada em contexto de esquerdas

Eu sei que muitos dos meus círculos de relações mais próximos estão danados com o Bloco de Esquerda pela sua anunciada votação contra o orçamento de estado. E lá terão as suas razões, porventura detendo mais informação do que aquela que eu tenho.

Chegam alguns ao ponto de equipararem o Bloco ao Chega e demais direitolas nesse voto «contra» o governo. O que me parece excessivo, mas é só a minha opinião, sendo que só me tenho na conta de livre pensador.

De facto, qualquer de nós pode não estar de acordo com o orçamento actual pelas mais diametralmente opostas razões. E umas bem mais ponderosas que outras. Mas, em termos de voto para definir a posição, só existe o voto contra ou a abstenção, sendo que esta tem sempre muito de táctica política. Ou não é assim?

E a «união das esquerdas» é um dos partos mais difíceis que apareceram na sala de Ginecologia da História.

Talvez convenha, entretanto, aqui recordar que, ao contrário do que muitos dizem, foi Catarina Martins a primeira a propor a criação daquilo que viria a chamar-se a geringonça, lá por 2015 e num debate televisivo com António Costa a que assistiu quem quis e pôde.

Agora, também me parece muito visível é que o desidério primeiro de António Costa e do PS é conduzir à arreata os seus «parceiros de coligação», o que, convenhamos, não será o melhor exercício democrático, mas tem tudo a ver com o exercício do poder.

Falar de chantagem por parte do Bloco de Esquerda em relação ao PS faz-me lembrar muito o poema do Brecht: «Do rio que tudo arrasta se diz que é violento; mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem».

E o Bloco de Esquerda decidiu votar contra quando já se tinha apurado que o orçamento passava… Taticismo político? Claro, como o de todos. E, afinal, o orçamento passa, na mesma. 

Aguardemos, serenamente, os próximos episódios, porque o mundo ainda não acaba hoje…

estou para aqui a pensar na
Constituição da República Portuguesa…

Note-se que sou daqueles que alinha com Jorge Torgal quando nos diz que, em Portugal, os resultados no combate à pandemia têm sido bastante positivos, nomeadamente, em comparação com muitos outros países europeus.

Dito isto, não deixo de me sentir perturbado, enquanto cidadão, com algumas – vamos chamar-lhes assim – «emanações» pontuais das diversas autoridades, a começar pelo governo… e por aí abaixo, onde são exorbitadas as competências definidas na lei.

Refiro-me, agora, especificamente ao enclausuramento concelhio obrigatório entre os próximos dias 30 de Outubro e 03 de Novembro, sem invocação de razão nenhuma de especial monta, a não ser a putativa romagem aos cemitérios (?).

Neste contexto, decretar o dia 02 de Novembro como dia de luto nacional para prestar homenagem «a todos os falecidos», em particular às vítimas mortais da covid-19, até soa a hipocrisiazinha de mau gosto.

Não vou atenazar-vos a paciência com matéria já tão submetida aos mais desvairados comentários. Deixo, apenas, para apreciação, um bocadinho da Constituição que nos rege, a mim, a si e aos governantes, também:

Artigo 19.º

Suspensão do exercício de direitos

1. Os órgãos de soberania não podem, conjunta ou separadamente, suspender o exercício dos direitos, liberdades e garantias, salvo em caso de estado de sítio ou de estado de emergência, declarados na forma prevista na Constituição.

Artigo 44.º

Direito de deslocação e de emigração

1. A todos os cidadãos é garantido o direito de se deslocarem e fixarem livremente em qualquer parte do território nacional.

Artigo 137.º

(Competência para a prática de actos próprios)

Compete ao Presidente da República, na prática de actos próprios:

d) Declarar o estado de sítio ou o estado de emergência, observado o disposto nos artigos 19.º e 141.º

Assim, ou o presidente Marcelo volta a promulgar o estado de emergência ou o primeiro-ministro Costa não pode decretar o impedimento de circulação ou não estamos, assumidamente, num estado de direito.

Uma de três e, permanecendo em democracia, temos pena, mas não fica alternativa!

A prática reiterada deste tipo de atropelos, que enveredam pela lógica de que os fins justificam os meios, apenas fragiliza a Liberdade e a Democracia. Haja disso a consciência!

dia do poeta

hoje é dia do poeta
como se ontem não fosse
ou amanhã não será

ser poeta é um momento
do tamanho do universo
que nasce ao correr do tempo
sem ter ontem e amanhã

mas desfalece ou perece
quando ao tempo lhe parece
um poema coisa vã

mas não é
nunca será
porque um poema é o tempo
que trazemos lá de trás
e que se faz da esperança
no dia que lá virá.

e poeta então será
quem quer que atravesse o tempo
ontem
hoje
ou amanhã.

  • Jorge Castro
    20 de Outubro de 2020

Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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