carnaval à portuguesa

E vivó Carnaval! Há uns dias fiquei de publicar por aqui, a pedido de várias famílias, uma brincadeira carnavalesca, em forma de poema, que fiz, já há uns anitos, mas que me parece não ter perdido muita actualidade. Cá fica, então, para cumprimento de promessa:

Carnaval à portuguesa

Lucinda veio a terreiro
trouxe um corpete ligeiro – saia curta – perna ao léu
no treme-treme da dança
treme o seio – treme a esperança
treme quanto Deus lhe deu
e no mar de lantejoulas entrevê o seu Honório
exibindo as ceroulas do avô que já morreu
– que em acabando a folia hão-de tratar do casório
tal qual ele lhe prometeu –

e a turba já se atordoa c’o trio eléctrico à toa
num espavento de som
que vindo lá dos brasis espanta os nossos civis
que aquilo sim é que é bom

Lucinda agita este corso
seio à mostra mostra o dorso – dá à pernoca com alma
haja calma – haja calma
grita o agente aflito agarrando um expedito
que corria no asfalto p‘ra tomar Lucinda a salto
que pernoca assim mostrada perturba a rapaziada
no desvendar do mistério
deixem lá que é Carnaval ninguém leva nada a mal
nem nada é caso sério

Lucinda toda ela vibra mostrando bem de que fibra
é o corpetinho de lã
e no cume do collant onde a saia acaba a racha
por lá se perde e se acha a rendinha da cueca
que desponta em cada passo queimando qual alforreca
um olhar sem embaraço

pretinha assim rendilhada no contraforte da meia
meia-volta volta e meia deixa a malta entusiasmada
quais brasis nem qual Veneza
assim sim à portuguesa
uma coxa bem mostrada

e as plumas do pavão em frente ao seu coração
vibram mais porque afinal
em tempos de Carnaval no tempo amargo de crise
o que o corpete desvenda é dádiva – não está à venda
dá de si o que ela entenda
enche um olhar que precise.

Jorge Castro

Natal 2023
um brinde aos meus amigos

daqui segue o meu afecto
brindado com um bom Porto
ergo o meu copo bem certo
de ao manifesto dar corpo

passaste na minha vida
um pouco por mero acaso
mas ficou reconhecida
a vida por esse caso

se não for mais o Natal
do que um mero solstício
que ele nos deixe o sinal
de ensaiar um novo início

que te sirva como a mim
p’ra descobrir universos
num voto que deixo assim
nesta quadratura em versos.

  • Jorge Castro
    24 de Dezembro de 2023

Natal 2023

Boas festas, festas boas…!

Vai este meu arremedo de poema ao vosso encontro, esperando encontrar-vos de boa e duradoura saúde e com a força anímica necessária e suficiente para fazer da vida o que ela tenha de melhor para vos (nos) oferecer.

imagine

Nos dias que vão correndo, em que se adensam velhas querelas e se dão grandes passos no sentido de um conflito mundial generalizado pelas sempiternas vontades hegemónicas de uns poucos sobre as vidas de tantos outros, sob o manto pouco diáfano das múltiplas religiões, apeteceu-me relembrar aqui o sonhador John Lennon e o seu tema «Imagine», sempre oportuno, sempre actual.

Esta tradução é de minha responsabilidade, sem especiais preocupações de retroversão poética, porque o importante é a mensagem transmitida, que é para ser entendida muito para além de ser apenas cantarolada.

Imagine não haver paraíso
Imagine there’s no heaven
É fácil se você tentar
It’s easy if you try
Nenhum inferno por baixo de nós
No hell below us
E por cima somente o céu
Above us, only sky

Imagine todas as pessoas
Imagine all the people
Vivendo para o dia de hoje
Livin’ for today

Imagine não haver países
Imagine there’s no countries
Não é difícil fazê-lo
It isn’t hard to do
Nada por que matar ou morrer
Nothing to kill or die for
E também nenhuma religião
And no religion, too

Imagine todas as pessoas
Imagine all the people
Vivendo a vida em paz
Livin’ life in peace

Você pode dizer que eu sou um sonhador
You may say I’m a dreamer
Mas eu não sou o único
But I’m not the only one
Espero que um dia se junte a nós
I hope someday you’ll join us
E o mundo será um só
And the world will be as one

Imagine não haver possessões
Imagine no possessions
Pergunto-me se será capaz
I wonder if you can
Não haver necessidade de ganância ou fome
No need for greed or hunger
Uma irmandade do homem
A brotherhood of man

Imagine todas as pessoas
Imagine all the people
Partilhando todo o mundo
Sharing all the world

Você pode dizer que eu sou um sonhador
You may say I’m a dreamer
Mas eu não sou o único
But I’m not the only one
Espero que um dia se junte a nós
I hope someday you’ll join us
E o mundo viverá como um só
And the world will live as one

Enfim, será mesmo assim tão difícil de imaginar…?

exercício em defesa da escultura «Amores de Camilo» de Francisco Simões e contra os moralistas de outras eras

Em 2012, a Câmara do Porto aceitou a doação da estátua “Amores de Camilo”. Essa doação foi aprovada pelo Executivo Municipal, motivo que impede que seja retirada (felizmente…).

«que terão eles visto na estátua que eu não vi nem viste tu?
perturba-os a senhora nua ou o Camilo não estar nu?»
– isto vai dizendo o Eça à Verdade que ele enlaça…

ah houvera quem vos dera no vosso alvar frontispício
mesmo em retórico exercício
senhores donos do pudor
com um bronze ou um granito que vos esculpisse algum grito
sem vos causar mal maior
mas recentrando a esfera da cabeça… se a tivéreis

não sabeis vós que a nudez afinal foi quem vos fez?
ou será que a vossa afronta vem de algo de pouca monta
que sem força não ergueis
– falo eu do argumentário
que de frustre e passadista
mais soa a reaccionário com presunção moralista

«olhai bem para o que eu digo
não cuideis de quanto eu faço»
diz o abade ao abrigo de seus filhos no regaço…
não sejais tais sacripantas
sacristas ou até eunucos
tudo em redor conspurcando com seus aleivosos mucos

não frequentais vós as praias
oh cruzados da moral?
não vos perturbam as belas com tanto fio dental?
que mostra mais do que esconde
quanto na mulher avonde
e é de si primordial?

deixai-vos lá dessas tretas
ou armados em ascetas
proibireis o areal?

– até o mar que as banha
havia de vos querer mal!

  • Jorge Castro
    17 de Setembro de 2023

o azar do poema

ao costurar dois conceitos
cuidei ter feito um poema
eram meros preconceitos
preceitos para uma cena
de teatro de fantoches
ou até de marionetas
onde por mais que deboches
assim nascem os poetas

dois conceitos saturados
do sal que a vida nos traz
em contraluz ofuscados
com sol batendo por trás
como quem tange a rebate
um sino que não está lá
por electrónica que farte
do tanto que ela nos dá

um poema incontinente
de mil pés ambulacrário
a correr de trás para a frente
e sempre em modo contrário
quem o ouviu poema o disse
quem o sentiu mais choroso
chamou poema-chatice
ao tal poema manhoso.

  • Jorge Castro
    24 de Julho de 2023