não me digam que ainda é cedo, porque Abril é sempre

Em cada ano celebro Abril com um poema que dedico à Associação 25 de Abril (https://a25abril.pt/), de quem muito me apraz registar o bom acolhimento.


Aqui vos deixo o meu poema para o 47º aniversário do «dia inicial, inteiro e limpo», tal como Sophia também o imortalizou:


NESSA MANHÃ CINZENTA MAS RADIOSA

é Abril que está a chegar
meu filho por nascer
é Abril que te vou dar para que possas florescer
rubro cravo a dar cor à madrugada
transformada em rumo e estrada a percorrer


sacudido o manto frio do inverno
no inferno de uma guerra sem saída
é o tempo de dar tempo à nossa vida
e colher todo o ardor da primavera
mas não é tempo algum de estar à espera
de ilusões
de quimeras
sonhos vãos
é Abril e como vês
somos irmãos
e marchamos lado a lado neste chão
ao encontro do futuro
mão na mão
e o futuro é o Abril que nós fizermos
se quisermos ir além da servidão


é Abril
meu filho
assim quisemos


mas é este o Abril que ainda queremos
e este Abril é a nossa redenção.

  • Jorge Castro
    Abril de 2021

poema das fracas rimas em -ado

jamais consegui voar e bem tenho eu tentado
tento voar quando sonho mas nalgum sonho acordado
entre um copo de medronho e algum serão bem passado
quando chega a primavera – é um dos sonhos sonhado
ao ver voar abelhões e eu para aqui sentado
quando o inverno é uma fera e se fica enregelado
olhando voar o fumo ou um papel mal queimado
quando a notícia me traz um futuro amordaçado
ou o presente nos faz ficar assim ou assado
indiferentes como aquele caminhando ao nosso lado
a voar só na aparência estando afinal parado
pois é o mundo que roda embalando o nosso fado
agora então – voar como? – assim para aqui confinado
com as asas sabotadas e o viver amortalhado
correntes na liberdade e futuro congelado
num medo frio de fome roendo um pão estragado

jamais consegui voar e bem tenho eu tentado
da passarola ao avião ou noutro objecto alado
mesmo aí de pés no chão não voo sou só levado

eis então que me redime a palavra que buscava
e largo as rimas em -ado
e voo como sonhava.

  • Jorge Castro
    29 de Março de 2021

o poemículo dos subentendidos


(isto só pode ser «overdose» do dia dos poetas ou excesso de pólen primaveril…)

ser poeta é uma arrelia e a poesia uma treta
coisa de fazer azia por dá cá alguma peta
não nos fiemos nas flores
nos madrigais
nos amores
uns figadais outros mais ou menos destemperados
que eles dizem querer ir aos fados
mas anseiam bacanais
ah o mundo que lá vem e o outro onde eu quero ir
mas só se vieres também que a coisa está de fugir
deixa-me fazer-te um verso tão profundo e pertinaz
que se leia pelo inverso e da frente para trás
que ninguém bem o entenda mas que se estenda pela rua
gritando não estar à venda mas vendido até na Lua
é garantido sucesso
flor de sal da literatura
probóscide ou abcesso
abstrusa criatura
ganhará fama e proveito até ao momento grave
em que ao pôr-se tanto a jeito
nem é poeta
é uma ave
ou um pássaro bisnau planando ao sabor do vento
como sem leme uma nau voga ao rumo do momento
falo-te agora em papoilas
lunares ou
pior
cuidares que são moçoilas
campestres
com apetites rupestres disfarçados de alguidares
vá lá
não me jures perceber o que não é entendível
no limite diz-me ser algo assim meio impossível
mas que tem graça e inspira
o estro
o astro
e o mastro daquela nau à deriva
mas que transpira poesia tal qual uma almotolia
transporta o azeite do dia
oleando
oleando
olé-olé até quando…?

  • Jorge Castro
    23 de Março de 2021

celebrando o Dia da Poesia

um dia como qualquer dia
tenhamos sempre presente
que é criação a poesia
é a palavra liberta
por vontade ou acidente
sob um vento de feição
é a nau à descoberta
com o velame e o leme
ou o sonho mais estreme
que nos traz a língua-mãe
onde campeiam afectos
epopeias e tragédias
gritos-lamentos também
mas também de uma revolta
de amor na palavra à solta
e todo o entretecer de teias
que nos levam mais além
de algum viver comezinho
de algum estar sem sentido
onde vamos sem ter volta
a tolerância do nada
e a intolerância do tudo
onde a vida quase acaba e o viver fica mudo
é o dia de voarmos para fora desse enredo
desse ninho
desse medo
em busca de uma aventura
sendo nós a criação mas também a criatura
no ensaio de uma vida
que é feita de todos nós
onde é cada um poeta
tanto maior essa meta de jamais ficarmos sós
e há-de ser esse o dia
em que nasceu um poeta e deu à luz poesia

  • Jorge Castro
    21 de Março de 2021

lembrar os amigos nunca é demais

Associá-los à Cultura, por maioria de razão. Hoje, por circunstâncias fortuitas, tropecei com esta feliz e oportuna entrada de Ana Sofia Paiva, que funde António Gedeão, Mário Piçarra, Águeda de Sena e Olga Roriz.

Com os meus agradecimentos à autora e para quem não conheça a versão musicada que Mário Piçarra criou para o poema de António Gedeão, a Calçada da Carriche – nas palavras de Tito Lívio, a melhor versão musicada deste excelente poema -, aqui fica, em fundo… e para ouvir até ao fim:

aos que dizem que não votam…

Alguns amigos talvez se melindrem, mas asseguro-vos que não vale a pena. O que agora escrevo é uma mera opinião, não é um juízo moral ou ético. É uma reflexão crítica abstracta, se quiserem. Um desabafo, também, perante algo que me é incompreensível – de onde, porventura até, a insuficiência seja minha…

Mas, na verdade, não compreendo a atitude do não-voto. Imaginemos, então, que estamos numa reunião de amigos, à volta de uns copos de boa camaradagem, em amena discussão de tempos livres…

Compreendo o desencanto. Compreendo a fadiga ou «exaustão democrática». Compreendo o aborrecimento. Compreendo o sentimento de assistirmos sistematicamente a expectativas defraudadas.

Como compreendo bem tudo isso, ainda para mais eu que, desde o 25 de Abril de 1974, voto sempre nos vencidos, quaisquer que sejam as eleições.

Mas somos cidadãos, gente! E mesmo que saibamos ser «o cadáver adiado que procria», para quê antecipar esse estatuto?

Por vezes, tendemos, até, a complicar raciocínios, esgrimindo elaboradas catilinárias – justificadíssimas, aliás – contra a política e os políticos, que sustentam a nossa lassidão.

E isso não nos dá um novo alento para nova demanda de algum Santo Graal nas nossas vidas… ou na dos nossos filhos, dos nossos netos ou tão-só daqueles a quem queremos bem?

E a sensação de pertença a uma comunidade, da qual não somos marginais, por muito avessa que ela nos seja?

Eremitas não somos, mesmo que alguns poetas pretendam afastar-se do mundo mundano, esse é sempre mais um estado mental do que uma realidade vivida.

E por falar em poetas, recorrendo e parafraseando um dos maiores, o grande Torga, permitam-me dizer-vos:

Não tenhas medo, ouve:
É só um voto
Um misto de vontade e sacrifício…
Sem qualquer compromisso,
Cumpre-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás branqueá-lo
Anulá-lo
Por desamar
Para irritar,
Ou por seres demais sensível à tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz…

É já amanhã. Não se atrasem…