senhor Turista

SENHOR TURISTA

  • apelo despudorado deste povo hospitaleiro
    muito alegre e estouvado mas carente de dinheiro

entre
entre
senhor Turista
tome assento
faça vista
pois se o senhor não vier
vamos de mal a pior
nem haverá gente aqui
nem aqui nem acolá
com todos ao deus-dará
sem saber o que fazer
neste país de aluguer
onde o destino de tantos
é buscar pelo mundo afora
alguns cantos e recantos
onde ganhe a vida à hora
já que por cá só a perde
e encontrá-la… demora

se não vier com presteza
cá lhe deixo uma certeza:
o governo ruirá
tribunais – outros que tais
o parlamento um tormento
e presidente outro mais
todos quais baratas tontas
sem saber o que fazer
com as tantas soltas pontas
deste país a encolher
e se o senhor não vier
se faltar a sua ajuda
vai ser um deus-nos-acuda
ou pior
se-deus-quiser

venha lá
senhor Turista
traga o euro e a alpista
que a pardalada tem fome
pois ele há muito olival
fruta avulsa
amendoal
mas ninguém lhes sabe o nome
entre estufas escondidos
como outrora alguns bandidos
se escondiam no arvoredo
desses não há
pois
coitados
por tanto incêndio assolados
estão expostos demais
… ou então esturricados
como os outros animais

venha ao golfe
ao futebol
às praias com pôr do sol
e à noite cheia de estrelas
venha ver as caravelas
que fazemos no chinês
e se não lhe bastar isso
ainda terá na paisagem
o baloiço
o passadiço
a sardinha
o arraial
que dizem por sua vez
muito made in Portugal

venha ao magote
às carradas
à molhada em dasatino
que ele há cerveja às litradas
ou um Porto de honra fino
à espera de tal hoste
para que não se desgoste
e connosco se confunda

venha lá
mas não abuse
pois com tal peso não aposte
que este país não se afunda…

  • Jorge Castro
    23 de Agosto de 2022

um postal para ti, no dia de Camões

e daí onde te sentas
seja no lugar mais próximo do sol poente
ou na alvura tensa de uma alvorada
pressentes ainda a voz de Camões?
pressentes a aventura?
a tempestade?
o perder-se de amores e desamores
que o amor nos traz?
o ser-se maior que o mundo
naquele momento em geral fugaz
para tanto nos sobrando engenho e arte?
e não só ser-se pequeno
e incapaz
com o medo de ser grande em qualquer parte?

ouves
então e ainda esse Camões
que celebramos sem deter um pensamento
no saber porque foi grande
e das razões
que o amarram a Portugal
impenitente?

feliz sejas
então
e venturoso
e que percorras o caminho esperançoso
do teu passado a caminho do futuro.

  • Jorge Castro
    10 de Junho de 2022

contra a guerra de agressão

Todos temos o direito a defendermo-nos. Ninguém tem o direito de agredir.

CONTRA A GUERRA DE AGRESSÃO

não se me dá desta guerra
ou de outra guerra qualquer
nas mãos ficam-me pungentes
os cravos das incertezas
cravados a feros golpes
pelos donos da razão

falas-me de heróis semimortos
alinhados nas paredes
que se vão crivar de balas
dos corpos já trespassados?
falas-me de outras crianças
que brincam com estilhaços
manchados da cor estranha
do sangue das suas mães?
falas-me das mãos decepadas
dos artistas militantes
entre arroubos de Guernica
ou de rosas de Hiroshima?

de que nos valem razões
na sem-razão de uma guerra?
numa baioneta de ódio
que sangra um coração moço?
num míssil cobardemente
lançado à vida que passa?
nos tanques tão couraçados
contra a flor que desponta?
em comboios de degredo
numa terra de ninguém?
nesse sangue derramado
por todos e de ninguém?
que serve aos senhores da guerra
mas não serve a mais ninguém?

não se me dá desta guerra
ou de outra guerra qualquer
que serve aos senhores da guerra
mas não serve a mais ninguém!

  • Jorge Castro
    01 de Março de 2022

Naves in Petris

Sabem do que se trata? Pois bem, trata-se do mais recente trabalho de um infatigável lutador em prol da calçada portuguesa, o bom amigo Ernesto Matos – https://sites.google.com/site/ernestomatosimagens – (design gráfico e fotografia), desta feita, numa parceria com o escritor António Correia.

A participação, em forma de poema, foi aberta a vários autores e também me coube a honra de ser um dos convidados.

Aqui vos deixo uma parte dessa minha participação, em forma de:

QUADRAS SOLTAS NA CALÇADA

ao enquadrarmos a quadra
nos quadrados da calçada
as pedras são a palavra
os versos fazem-se estrada

lanço versos na calçada
como quem suspira amores
e a pedra esbranquiçada
vai-se enchendo de mil flores

pela mão que a pedra dome
pelo sonho feito anseio
dessa dura pedra informe
faz-se um mar nalgum passeio

as calçadas são abraços
vão da minha casa à tua
nelas desenhei os passos
que vão dar à minha rua

veja lá tenha cuidado
ao poisar seu pé no chão
pois que as pedras da calçada
foram bordadas à mão

vejo remos redes barcos
a bordejarem a praça
são na calçada seus marcos
lembrando o mar a quem passa

não sei porque tomam jeito
assim as pedras do chão
pareciam postas a eito
mas formam um coração

português por teus esteios
ao mundo deste grandeza
e nele lavraste os passeios
em calçada à portuguesa

lavrei-te a quadra num cravo
com Santo António pela mão
surgiu em ti um mar bravo
nesta calçada em mar-chão

lanço versos na calçada
como quem suspira amores
e a pedra esbranquiçada
vai-se enchendo de mil flores

  • Jorge Castro

a José Afonso

Uma homenagem:

A JOSÉ AFONSO – POR TER BARCOS POR TER REMOS

não havia qualquer som na neblina
que pairava densamente na cidade
quando amar era névoa clandestina
e balada só rimava com saudade

mas ergueu-se uma voz
doutras seguida
uma voz de cantar
a voz erguida
deste chão só de sombras e degredo
este chão e esta voz que desgarrada
soube ser
e crescer
e ser amada
essa voz que cresceu só contra o medo
essa voz que acordou a madrugada.

  • Jorge Castro
    (Poema integrado no projecto 25 Poemas para o Zeca, em 25 de Abril de 2012, com Ernesto Matos e a Câmara Municipal de Lisboa)

a João Baptista Coelho

O amigo João Baptista Coelho, poeta, que nos deixou há alguns dias, era um eterno enamorado da sua companheira de vida e esposa.
Cascais, na pessoa de uma querida amiga, pediu-me que eu emprestasse a minha voz a um poema daquele amigo poeta, «Poema para a Minha Mulher», a que correspondi com muito gosto, até como mais uma homenagem ao João Baptista Coelho.
E, afinal, até consta que hoje se celebra o dia dos namorados…