contra a guerra de agressão

Todos temos o direito a defendermo-nos. Ninguém tem o direito de agredir.

CONTRA A GUERRA DE AGRESSÃO

não se me dá desta guerra
ou de outra guerra qualquer
nas mãos ficam-me pungentes
os cravos das incertezas
cravados a feros golpes
pelos donos da razão

falas-me de heróis semimortos
alinhados nas paredes
que se vão crivar de balas
dos corpos já trespassados?
falas-me de outras crianças
que brincam com estilhaços
manchados da cor estranha
do sangue das suas mães?
falas-me das mãos decepadas
dos artistas militantes
entre arroubos de Guernica
ou de rosas de Hiroshima?

de que nos valem razões
na sem-razão de uma guerra?
numa baioneta de ódio
que sangra um coração moço?
num míssil cobardemente
lançado à vida que passa?
nos tanques tão couraçados
contra a flor que desponta?
em comboios de degredo
numa terra de ninguém?
nesse sangue derramado
por todos e de ninguém?
que serve aos senhores da guerra
mas não serve a mais ninguém?

não se me dá desta guerra
ou de outra guerra qualquer
que serve aos senhores da guerra
mas não serve a mais ninguém!

  • Jorge Castro
    01 de Março de 2022

Naves in Petris

Sabem do que se trata? Pois bem, trata-se do mais recente trabalho de um infatigável lutador em prol da calçada portuguesa, o bom amigo Ernesto Matos – https://sites.google.com/site/ernestomatosimagens – (design gráfico e fotografia), desta feita, numa parceria com o escritor António Correia.

A participação, em forma de poema, foi aberta a vários autores e também me coube a honra de ser um dos convidados.

Aqui vos deixo uma parte dessa minha participação, em forma de:

QUADRAS SOLTAS NA CALÇADA

ao enquadrarmos a quadra
nos quadrados da calçada
as pedras são a palavra
os versos fazem-se estrada

lanço versos na calçada
como quem suspira amores
e a pedra esbranquiçada
vai-se enchendo de mil flores

pela mão que a pedra dome
pelo sonho feito anseio
dessa dura pedra informe
faz-se um mar nalgum passeio

as calçadas são abraços
vão da minha casa à tua
nelas desenhei os passos
que vão dar à minha rua

veja lá tenha cuidado
ao poisar seu pé no chão
pois que as pedras da calçada
foram bordadas à mão

vejo remos redes barcos
a bordejarem a praça
são na calçada seus marcos
lembrando o mar a quem passa

não sei porque tomam jeito
assim as pedras do chão
pareciam postas a eito
mas formam um coração

português por teus esteios
ao mundo deste grandeza
e nele lavraste os passeios
em calçada à portuguesa

lavrei-te a quadra num cravo
com Santo António pela mão
surgiu em ti um mar bravo
nesta calçada em mar-chão

lanço versos na calçada
como quem suspira amores
e a pedra esbranquiçada
vai-se enchendo de mil flores

  • Jorge Castro

a José Afonso

Uma homenagem:

A JOSÉ AFONSO – POR TER BARCOS POR TER REMOS

não havia qualquer som na neblina
que pairava densamente na cidade
quando amar era névoa clandestina
e balada só rimava com saudade

mas ergueu-se uma voz
doutras seguida
uma voz de cantar
a voz erguida
deste chão só de sombras e degredo
este chão e esta voz que desgarrada
soube ser
e crescer
e ser amada
essa voz que cresceu só contra o medo
essa voz que acordou a madrugada.

  • Jorge Castro
    (Poema integrado no projecto 25 Poemas para o Zeca, em 25 de Abril de 2012, com Ernesto Matos e a Câmara Municipal de Lisboa)

a João Baptista Coelho

O amigo João Baptista Coelho, poeta, que nos deixou há alguns dias, era um eterno enamorado da sua companheira de vida e esposa.
Cascais, na pessoa de uma querida amiga, pediu-me que eu emprestasse a minha voz a um poema daquele amigo poeta, «Poema para a Minha Mulher», a que correspondi com muito gosto, até como mais uma homenagem ao João Baptista Coelho.
E, afinal, até consta que hoje se celebra o dia dos namorados…

ainda e sempre o Natal,
bem-me-quer, mal-me-quer…

eis o Natal que de súbito acontece
num surto de pandemia
e as malhas que o império tece
em sonhos feitos à pressa e excessos de azevia

um Natal igual a tantos
e sempre sempre diferente
num mundo cheio de encantos
mas onde para outros tantos tem sempre a fome presente

venho lembrar-vos então o José Gomes Ferreira
que depois de ler Descartes mas muito à sua maneira
veio em certa ocasião dizer-nos algo como isto
«penso nos outros – logo existo»

um bom e feliz Natal de lembrar entes queridos
de partir para o novo ano com esperança renovada
é tudo quanto faz falta como prenda aos meus amigos
já agora saúde boa… nem é preciso mais nada!

  • Jorge Castro
    24 de Dezembro de 2021

vou fazer um poema

vou fazer um poema
que seja de ausência
de alguma plangência mais delicodoce
tentar construí-lo de fero granito
de urzes
de estevas
de manhãs geladas
um poema para variar de ser só amor
naquele dó maior de amante ou de amado

um poema com uivos
com brados e agravos
de espantar silêncios
de afiar machados
de rasgar os ventos até os mais bravos
de cravar as unhas em terra lavrada
tal fosse um arado
tal fosse uma espada
um poema que mate
um poema que morra
que também já cansa toda esta modorra
de tudo parado sem que ate ou desate
de fria masmorra

vou fazer um poema
que fale de gente
de gente nascida que parte para a vida
de cara lavada
um poema com lama
que salte da cama e grite na rua
o que lhe vai na alma
e que lhe sobre a calma de sentir no rosto
um raio de sol
um calor de Agosto

um poema pecado que traga no olhar
as vagas que o mar rebenta em arribas
a desfazer fragas com as brutas águas
diversas daquelas paradas
mortiças
a que tu me obrigas
quando me castigas com doces romances
meladas cantigas

e quando o poema por fim for nascido
levá-lo comigo
e mostrar ao mundo
que bem lá no fundo
o poema é então um poema de amor
desse amor maior e tão mais fecundo
que é ao mesmo tempo amante e amado
cruel e traído
temente e ousado
tão agreste quanto doce malmequer

afinal um poema como outro qualquer…

  • Jorge Castro
    09 de Dezembro de 2021