com votos de um 2023 afeiçoado ao jeito de cada um…

E, já agora, para ser só para vocês

– ainda que melhor seja dizer “só para vós”,

que o Português se quer bem falado a viva voz –

deixo os votos de um dois mil e vinte e três,

fecundo, airoso, jucundo, feliz e nada atroz

nem sequer marrado por uma qualquer má rês

das que sempre vivem no meio de nós…

Novo ano e ano novo em cada laço

em que nos vejamos por aí para um abraço.

– Jorge Castro

natal 2022

Proponho-vos um pequeno passeio por algumas das famílias que temos cá por casa, a maioria produto de trabalho artesanal, acompanhado do poema que destino, este ano e como habitualmente, à época que atravessamos.

O vídeo, naturalmente, ainda é o mais artesanal de todos os trabalhos, mas vai carregadinho das melhores intenções.

Com renovados votos de boas festas, um novo ano pleno de felizes realizações… e saudinha da boa!

https://www.facebook.com/1271511073/videos/556467775983802

enquadramento (mais ou menos) literário

Apenas como exercício mental ou de divulgação da nossa Literatura, ocorreu-me desenvolver quadras que me fossem suscitadas por títulos de obras de escritores portugueses, sendo que cada título deve rematar cada quadra. Enfim, podia dar-me para bem pior… Assim, para as primeiras impressões, cá ficam:

  • Luís de Sttau Monteiro

quando a Lua predomina
num enredo junto ao mar
é a vida que se anima
pois FELIZMENTE HÁ LUAR

  • Vitorino Nemésio

era o vento agreste o vento
um tormentoso sinal
nesse mar fero lamento
por MAU TEMPO NO CANAL

  • Fernando Pessoa

nas pessoas de Pessoa
tais e quais de ego a ego
é Soares quem nos entoa
o LIVRO DO DESASSOSSEGO

  • José Cardoso Pires

não será só um cetáceo
mas tenho cá para mim
sentir algo mais coriáceo
no enredo d’O DELFIM

  • Raul Brandão

valerá por mais razão
saber porquês saber comos
ao ler de Raul Brandão
a obra maior – o HÚMUS

  • António Lobo Antunes

saber de cus? – bom sinal
já que assim bem mais me ajudas
pois que eu procuro afinal
onde são OS CUS DE JUDAS

  • Herberto Hélder

das voltas que a vida dá
em volta da vida à solta
volta e meia volto lá
a dar OS PASSOS EM VOLTA

  • Carlos de Oliveira

leio muito sem canseira
e se o tino me não erra
era Carlos de Oliveira
o autor de FINISTERRA

  • Jorge de Sena

na sua escrita indócil
não faz da escrita um jogo
nem é de leitura fácil
leiam-lhe OS SINAIS DE FOGO

  • Valter Hugo Mãe

há coisas estranhas também
neste mundo em maus lençóis
ser criada por um Mãe
A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS

  • Lídia Jorge

da vida e do seu alforge
retratando as almas nuas
traz serena a Lídia Jorge
O VENTO ASSOBIANDO NAS GRUAS

  • Afonso Cruz

se não sabeis sabereis
não que se diga ou se veja
mesmo ao contrário das leis
JESUS CRISTO BEBIA CERVEJA

  • Ramalho Ortigão e Eça de Queirós

há um riso desabrido
e ouço um soar de harpas
quando leio embevecido
um episódio d’AS FARPAS

senhor Turista

SENHOR TURISTA

  • apelo despudorado deste povo hospitaleiro
    muito alegre e estouvado mas carente de dinheiro

entre
entre
senhor Turista
tome assento
faça vista
pois se o senhor não vier
vamos de mal a pior
nem haverá gente aqui
nem aqui nem acolá
com todos ao deus-dará
sem saber o que fazer
neste país de aluguer
onde o destino de tantos
é buscar pelo mundo afora
alguns cantos e recantos
onde ganhe a vida à hora
já que por cá só a perde
e encontrá-la… demora

se não vier com presteza
cá lhe deixo uma certeza:
o governo ruirá
tribunais – outros que tais
o parlamento um tormento
e presidente outro mais
todos quais baratas tontas
sem saber o que fazer
com as tantas soltas pontas
deste país a encolher
e se o senhor não vier
se faltar a sua ajuda
vai ser um deus-nos-acuda
ou pior
se-deus-quiser

venha lá
senhor Turista
traga o euro e a alpista
que a pardalada tem fome
pois ele há muito olival
fruta avulsa
amendoal
mas ninguém lhes sabe o nome
entre estufas escondidos
como outrora alguns bandidos
se escondiam no arvoredo
desses não há
pois
coitados
por tanto incêndio assolados
estão expostos demais
… ou então esturricados
como os outros animais

venha ao golfe
ao futebol
às praias com pôr do sol
e à noite cheia de estrelas
venha ver as caravelas
que fazemos no chinês
e se não lhe bastar isso
ainda terá na paisagem
o baloiço
o passadiço
a sardinha
o arraial
que dizem por sua vez
muito made in Portugal

venha ao magote
às carradas
à molhada em dasatino
que ele há cerveja às litradas
ou um Porto de honra fino
à espera de tal hoste
para que não se desgoste
e connosco se confunda

venha lá
mas não abuse
pois com tal peso não aposte
que este país não se afunda…

  • Jorge Castro
    23 de Agosto de 2022

um postal para ti, no dia de Camões

e daí onde te sentas
seja no lugar mais próximo do sol poente
ou na alvura tensa de uma alvorada
pressentes ainda a voz de Camões?
pressentes a aventura?
a tempestade?
o perder-se de amores e desamores
que o amor nos traz?
o ser-se maior que o mundo
naquele momento em geral fugaz
para tanto nos sobrando engenho e arte?
e não só ser-se pequeno
e incapaz
com o medo de ser grande em qualquer parte?

ouves
então e ainda esse Camões
que celebramos sem deter um pensamento
no saber porque foi grande
e das razões
que o amarram a Portugal
impenitente?

feliz sejas
então
e venturoso
e que percorras o caminho esperançoso
do teu passado a caminho do futuro.

  • Jorge Castro
    10 de Junho de 2022

contra a guerra de agressão

Todos temos o direito a defendermo-nos. Ninguém tem o direito de agredir.

CONTRA A GUERRA DE AGRESSÃO

não se me dá desta guerra
ou de outra guerra qualquer
nas mãos ficam-me pungentes
os cravos das incertezas
cravados a feros golpes
pelos donos da razão

falas-me de heróis semimortos
alinhados nas paredes
que se vão crivar de balas
dos corpos já trespassados?
falas-me de outras crianças
que brincam com estilhaços
manchados da cor estranha
do sangue das suas mães?
falas-me das mãos decepadas
dos artistas militantes
entre arroubos de Guernica
ou de rosas de Hiroshima?

de que nos valem razões
na sem-razão de uma guerra?
numa baioneta de ódio
que sangra um coração moço?
num míssil cobardemente
lançado à vida que passa?
nos tanques tão couraçados
contra a flor que desponta?
em comboios de degredo
numa terra de ninguém?
nesse sangue derramado
por todos e de ninguém?
que serve aos senhores da guerra
mas não serve a mais ninguém?

não se me dá desta guerra
ou de outra guerra qualquer
que serve aos senhores da guerra
mas não serve a mais ninguém!

  • Jorge Castro
    01 de Março de 2022