o «Aníbal» e o confinamento

Mão amiga fez-me chegar este texto, cuja leitura ponderada recomendo:

«O Aníbal está em confinamento em casa.
O Aníbal levanta-se de manhã pelas 08horas e vai passear o cão, porque a lei permite.
As 09horas vai levar os filhos à escola porque a lei permite.
Pelas 09:30horas vai ao pão porque a lei permite. Às 10h vai fazer exercício, porque a lei permite. Às 11horas vai às compras de bens essenciais, porque a lei permite. Ao 12:30 o Aníbal vai buscar o almoço a um take away, porque a lei permite. Pelas 14horas o cão tem de ir novamente à rua, porque a lei permite e lá vai o Aníbal. Às 14:30 vai ao banco, porque a lei permite. Pelas 16horas vai visitar os seus pais idosos que precisam de companhia, porque a lei permite. Pelas 18h vai buscar os filhos à escola, porque a lei permite. Depois do jantar o Aníbal vai fazer uma caminhada de curta duração, porque a lei permite.
No domingo o Aníbal ainda vai á missa porque a lei permite e dia 24 vai votar porque a lei permite.
Antes de se deitar o Aníbal recostado na sua poltrona sente-se feliz por ter cumprido a lei mantendo-se confinado.
Texto original: Nita»

Talvez pareça cínico, mas o que está descrito é possível, viável e claramente necessário para que a vida se mantenha. Venha daí alguém contradizê-lo.

Se se juntar a isto o desconhecimento das linhas de contágio em 87% dos casos Covid, conforme oficialmente anunciado, em que ficamos?

O «Aníbal» está apenas a fazer o que a lei permite e a sua natureza e circunstância impõem. O único óbice é saber se o «Aníbal» lava as mãos, se usa máscara, se mantém a distância física em cada um dos seus actos… Ou seja, interessa apurar se o «Aníbal» é um cidadão responsável ou se é uma besta.

E a quem compete apurar que tipo de «Aníbal» é o nosso vizinho na fila do supermercado? Um polícia para cada cidadão e/ou um cidadão para cada polícia?

Cá fica, para reflexão confinada ou, numa paráfrase que me parece apropriada: confinados de todo o mundo, uni-vos! Mas com distância física, claro…

e um dia há-de vir abaixo…

O quanto agradeceria se alguém conseguisse contar-me quantos cabos irradiam deste poste.
Pobre poste de madeira, escorado à minha casa sem autorização prévia, começou por irradiar telefonemas em tal profusão que as conversas escorriam poste abaixo, até às raízes de um alpercheiro. Então, quando alguém comia um alperce, ficava a conhecer os segredos da vizinhança…
Com menos poesia e estando o pobre ali instalado há cerca de 50 anos, falecidos os velhos cabos telefónicos, foi sendo parasitado por tudo quanto foram e são empresas de telecomunicações que, a cada contrato, instalam um cabo novo… e nunca os retiram quando os contratos cessam, até chegarmos ao despautério que se documenta.
Como a artéria não tem passeio, uma vez por outra, alguma viatura de passagem dá-lhe uma porradinha amigável ainda que involuntária. E lá vai ficando a mossa.
Um dia, a ordem natural das coisas e as tensões a que está sujeito farão com que este poste venha abaixo. O cabo de aço que o escora fá-lo-á cair nos meus braços.
Se eu sobreviver, a quem pedir contas?
(Nota, para o caso improvável de alguém responsável por alguma coisa ler este texto, a imagem foi colhida, não em qualquer local esconso do terceiro mundo, mas em Sassoeiros, Carcavelos, Cascais).

versão alargada da Pensão da Pacheca ou do albergue espanhol ou será alguma outra coisa…?

Nada me move politicamente contra o actual governo mas quando, no espaço de um escasso mês…

– o governo aprova o aumento atribuído a três administradores da TAP, em plena reestruturação desta empresa, com muitas centenas de despedimentos anunciados;

– ou quando se apressa a manifestar anuência à mirabolante habilidade da venda da concessão de exploração de seis barragens hidroeléctricas no rio Douro, por parte da EDP, por 2.200 milhões de euros, sem pagamento de impostos nem a mínima contrapartida para as regiões onde se localizam as barragens que não sejam as que provirão do erário público;

– quando esse mesmo governo considera não haver ligação entre o abate de animais na Torre Bela e a construção de uma central fotovoltaica…

Isto é tudo ingenuidade, falta de jeito, desconhecimento ou ausência de interesse pela coisa pública, meras circunstâncias mal esclarecidas junto da opinião pública… ou é pior?

questão existencial

Como é que eu posso, sem ferir susceptibilidades, mostrar que um cidadão pode, ao mesmo tempo, cumprir os ditames governamentais, por mais absurdos que pareçam, tendo um comportamento cívico absolutamente irrepreensível perante a pandemia, e, ao mesmo tempo, ser profundamente crítico em relação a essas medidas?

E porque é que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas não devem viver uma sem a outra?

Ah, afinal todos vocês o sabiam, mas muitos estavam só a disfarçar… Assim, está bem, já não me zango com ninguém e tenho, por aqui, um escol de amigos inteligentes!

do quotidiano delirante de Miguelanxo Prado ao incomensurável delírio em que vivemos hoje

Uma confidência: gosto muito de banda desenhada. Boa ou má, será meu o critério. Há, entretanto, um autor que aprecio sobremaneira: o galego Miguelanxo Prado.
Tem um trabalho que me caiu especialmente no goto: Quotidiano Delirante. Conhecem? Se não, tentem não perder.

E vem isto a propósito de quê? Do quotidiano delirante que colho na leitura de notícias frescas, em que nos apercebemos de desequilíbrios estranhos no mundo em que vivemos e em que ficamos com suspeitas de que há para aí uns tipos a injectar substâncias proibidas. Ora vejam quatro exemplos… que nem vou comentar, por desnecessário:

  • A Diocese de Angra, na Ilha Terceira, Açores, decidiu colocar os funcionários e alguns padres que dependam em exclusivo dos rendimentos das suas paróquias no regime de lay-off devido à crise provocada pela pandemia de covid-19.
  • “Se houver quem ponha aquele espaço a funcionar como uma câmara de gás, eu pago o gás”. Foi com esta “piadola” que um coordenador da Câmara da Trofa terminou um post sobre as comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República. Entre os 17 “gostos” estava o presidente da Câmara, Sérgio Humberto.
  • De Espanha chega uma notícia inesperada. As autoridades de Zahara de los Atunes, em Cadiz, decidiu desinfetar dois quilómetros de praia com doses de lixivia.
    O objectivo seria tornar o areal seguro para os passeios com as crianças que finalmente puderam sair de casa. Porém a desinfeção colocou em risco as dunas e matou muitas espécies marinhas.A decisão já foi considerada uma aberração ambiental e a autarquia já admitiu o erro e apresentou um pedido de desculpas.
  • Patrões propõem entrada do Estado para segurar empresas durante a crise.
    CIP defende criação de um fundo que, à semelhança do capital de risco, ajude as empresas em dificuldade. A ideia é complementar o crédito, que está a esgotar-se.
    O tecido empresarial português nunca gostou muito do capital de risco. Mas “entre a vida e a morte, as opiniões mudam”, atalha António Saraiva, cuja direcção ainda está a trabalhar na proposta que pretende pôr em cima da mesa na próxima semana.

Gostaram? Querem mais? Em qualquer periódico junto de si! Mas tentem proteger-se destes efeitos colaterais maléficos.