Jorge Sampaio

(Lisboa, 18 de setembro de 1939 – Carnaxide, 10 de setembro de 2021)

Quando nos lamentamos por ausência de valores ou de referências nas nossas vidas que possamos transmitir às gerações vindouras, para além de nos auxiliarem a nós próprios a trilhar a dureza dos dias, lembremo-nos de um nome, que é um exemplo maior:

JORGE SAMPAIO

Viva José Afonso!

Em 02 de Agosto de 1929 nasceu José Afonso.

Dele e do seu imenso legado musical e político eu e tantos já dissemos muito e outro tanto haverá a dizer, assim nos sobre engenho e arte.

Deixo aqui uma dessas simples homenagens de minha autoria que lhe dediquei, em projecto de Ernesto Matos – «25 Poemas para o Zeca» – e que viva o José Afonso!

A JOSÉ AFONSO – POR TER BARCOS POR TER REMOS

não havia qualquer som na neblina
que pairava densamente na cidade
quando amar era névoa clandestina
e balada só rimava com saudade

mas ergueu-se uma voz
doutras seguida
uma voz de cantar
a voz erguida
deste chão só de sombras e degredo
este chão e esta voz que desgarrada
soube ser
e crescer
e ser amada
essa voz que cresceu só contra o medo
essa voz que acordou a madrugada.

  • Jorge Castro
    06 de Março de 2012

ainda e sempre Otelo Saraiva de Carvalho

Deixo-vos a mensagem de despedida da Associação 25 de Abril, assinada por Vasco Lourenço, «Abração de Abril a Otelo»:

Caros associados

É com enorme pesar que a Associação 25 de Abril comunica o falecimento de Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho, o Capitão de Abril que, naquele “dia inicial, inteiro e limpo”, o 25 de Abril de 1974, liderou o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, acção fundamental na vitória sobre uma ditadura de 48 anos que conduzira os portugueses ao obscurantismo, à guerra colonial e à pobreza.
Homem de enorme coragem e generosidade, sempre ao serviço dos seus ideais, com um coração onde cabiam, acima de tudo, os mais genuínos sentimentos da Amizade, serviu Portugal sem se servir, deixa um legado que a memória dos portugueses não esquecerá.
Otelo ficará na História de Portugal como um dos principais Capitães de Abril. O País fica mais pobre com a sua partida.
Como mais pobres ficam a sua Associação 25 de Abril e os seus Amigos.
Os nossos profundos e sentidos pêsames aos seus familiares.
Pessoalmente, vejo partir um grande Amigo, a quem envio um enorme abração de Abril!
Até sempre, caro Otelo

Vasco Lourenço

P. S.
Informamos que o corpo do Otelo será velado na Igreja da Academia Militar (Gomes Freire / Paços da Raínha, Lisboa).
O velório está previsto para o dia 27, terça-feira, e o funeral (cremação) para o dia seguinte, 28, quarta-feira.
Assim que obtivermos informações mais concretas, divulgá-las-emos.

Otelo Saraiva de Carvalho
– um Homem do nosso Abril

Otelo Saraiva de Carvalho deixou o nosso convívio, hoje, com a idade de 84 anos, e a democracia que somos e que temos ficou empobrecida.

Figura polémica, controversa, contraditória, até, mas sempre apaixonada, de palavra fácil e coração ao pé da boca, era o que eu rotulo como um ser humano bom.

Talvez haja melhores mas, seguramente, há muitos piores. A ele, à sua entrega e disponibilidade em prol do ser humano, a par da de muitos camaradas de armas, devemos o êxito do derrube da ditadura.

Quem se “entretiver” com exercícios desviantes com invocações a “campos pequenos” e outros devaneios, peço o favor de que vá bater a outra porta. Tive o prazer de o ouvir em diversas situações e, até, de falar com ele. E dessa experiência vos digo que me sinto, hoje, deveras penalizado pelo seu desaparecimento.

Preservemos dele a boa memória.

lembrar os amigos nunca é demais

Associá-los à Cultura, por maioria de razão. Hoje, por circunstâncias fortuitas, tropecei com esta feliz e oportuna entrada de Ana Sofia Paiva, que funde António Gedeão, Mário Piçarra, Águeda de Sena e Olga Roriz.

Com os meus agradecimentos à autora e para quem não conheça a versão musicada que Mário Piçarra criou para o poema de António Gedeão, a Calçada da Carriche – nas palavras de Tito Lívio, a melhor versão musicada deste excelente poema -, aqui fica, em fundo… e para ouvir até ao fim:

ao Carlos do Carmo

ele é o homem na cidade
o homem-voz de um povo inteiro
que pela sua voz era diferente

cantor de um fado em dó maior
por si sentido
por esse povo em sua voz
ser renascido
a reinventar o amor
nas ruas frias da cidade enferma
enferma de liberdade
até à redenção
enferma de saudade
até ao coração que a razão cultiva
o outro fado
do outro lado de toda a vida
que há em Lisboa num beco esconso
mas corre mundo
e corre a vida até ao osso
ou à medula do que mais vale

a nossa voz que ele redimiu
e reforçou
onde a palavra se engrandece
de pedra e rosas
de andorinhas
de uma loucura ao desencanto
e as tabuinhas de uma janela
feita do espanto que acontece
depois do pranto
depois da prece
quando se ergue a voz do povo
onde Lisboa sempre amanhece…

  • Jorge Castro
    01 de Janeiro de 2021