um dia na vida do Corona Vírus – 17º dia de confinamento – reflexões avulsas

São oito horas e dez minutos da manhã. Espreguiço-me na cama. Hoje até era capaz de ir dar um passeio pela praia de Carcavelos mas, como não tenho cão, não sei se posso passear com a minha gata. Mas receio que ela não esteja pelos ajustes, tão dada que é ao livre arbítrio. Além disso, na praia nem se deve passear o cão, mas enfim… Com a minha companheira presumo que não posso. Pelo menos, não está anunciado no Estado de Emergência meiguinho que nos calhou em sorte e, se não está, é melhor não tentar essa sorte.

Levanto-me para as rotinas matinais. Dirijo-me ao espelho da casa de banho e reconheço vagamente o tipo que está ali a olhar para mim, a quem cumprimento, com um esgar um pouco despenteado, confesso.

Abro, em rotina, as portadas da casa toda, confirmando que a minha companheira já se adiantou no pequeno-almoço, como tem vindo a ser hábito ultimamente, pois fico até tarde repartido entre a televisão e o computador, só reparando, então, que o dia está bonito. Ficar acordado até tarde é no que dá: levantar tarde e perder o amanhecer. Assim vai o desequilíbrio do meu mundo… Ainda por cima, fui informado de que dormir pouco fragiliza o sistema imunológico. 

O confinamento, entretanto, tem aspectos curiosos: temos tempo para pensar. Desde as mais sublimes altitudes até à mais comezinha reflexão. Da salvação do mundo até à limpeza do excremento do cão que um vizinho passeante deixou à minha porta, que a clausura tem as suas fugas e dádivas inopinadas.

Tomo o pequeno-almoço visitado, como habitualmente, pela passarada que se habituou a partilhá-lo connosco. Bastaram umas poucas sementes diárias e restos de pão rotinadamente colocados num comedouro improvisado para lhes comprar uma confiança relativa, mas muito aprazível.

Não devemos, no entanto, abusar deste subsídio, pois interessa que a passarada não se desabitue de colher o pão-deles-de-cada-dia, não vá dar-se o caso de lhes faltar, inopinadamente, o fornecedor e eles ficarem sem saber como se amanhar. E este tempo não está para dados adquiridos nem hábitos de calaceirice. E isto vale para o ser humano como para o pardal.

Há coisas a fazer, claro. Cortar a sebe, aparar a relva, retirar ervas daninhas, cortar e armazenar lenha obtida de móveis velhos, fazer pão, sei lá que mais… O que vou cumprindo, calma e apaziguadamente. E, outra vez, essas tarefas propiciam a reflexão constante que antes refiro. 

Dou por mim a matutar que, numa escassa quinzena, já fui informado de que devia usar luvas de protecção e de que não as devia usar; por outro lado, que devia usar máscara e, logo mais, que seria melhor não a usar; que a desinfecção dos pavimentos é crucial mas, as mais das vezes, é um esforço inútil…  

Recentemente, colhi até a informação de que usar barba era contraproducente. Presumo, entretanto, que esta situação se referirá prioritariamente à população masculina. Mas fico desconfortável, como é evidente. É que se, amanhã, vierem contradizer este ditame, vai levar-me uma data de tempo a recompor a pelagem.

Assisti a um frenético açambarcamento do papel higiénico como se todos padecessem de infernal diarreia e ao desaparecimento do pão fresco… que vem depois a aparecer, bolorento, nos caixotes do lixo. Façam açorda, pelo menos, ó alminhas aflitas!

O distanciamento ao meu semelhante (leia-se este semelhante na perspectiva de ser alguém tão atreito como eu a captar o malfadado vírus), tem vindo a aumentar. Começou por um discreto e comedido «distanciamento razoável» para o imperativo de um metro e a última versão já implica um mínimo de dois metros. Hoje, de manhã, a fila/bicha para o supermercado, sempre percursor, que frequento já atinge os cento e cinquenta metros… para uma dúzia mal contada de clientes em espera.

Como o ventinho tem estado fresco, talvez aconteça que aquela espera propicie, até, uns resfriadozitos para dar mais sabor à vida. Nada de preocupante, embora, e sempre ficamos com um entretimento doméstico complementar.

Tenho, entretanto, uma angústia que me acompanha nestes dias de clausura: por que não ir fazendo testes de detecção da Covid 19 a toda a população? Não há testes que cheguem? Pois constou-me que já soluções preconizadas por cientistas portugueses, vejam lá! E com possibilidade de produção ilimitada.

Mas o que mais me tem marcado é, sem margem para dúvidas, a incidência da maleita na população sénior, na qual me vou incluindo, valha a verdade.

Esta malévola discriminação só pode ter sido congeminada por algum pequeno deus menor e insidioso com tendência para a Economia, tipo Lagarde e outras abencerragens.. Mas o certo é que a avassaladora percentagem de óbitos recai, sem margem para dúvidas, nos escalões etários a partir dos setenta anos.

E isto, então, traz-nos para um campo em que nem a ironia, nem o sarcasmo, nem o bom humor têm lugar: os famigerados lares da terceira idade.

Num mundo que se está objectiva e institucionalmente nas tintas para os anciãos de cada sociedade, a recolha e resguardo dos cidadãos em fim de vida e, mormente, na chamada velhice desvalida, vai competindo aos lares. Instituições privadas, quase todos, sujeitos, portanto, às «regras de mercado», com pessoal de preparação e competências profissionais mais do que duvidosas em tantos e tantos casos que todos conhecemos.

Como poderá alguém manifestar surpresa por serem estes locais os coios onde prolifera a contaminação?

Com um mercado de trabalho canalha – que também (quase) todos conhecemos – chega um momento, na vida de cada família, em que os filhos não têm condições para acolher e tratar dos pais, por mais entes queridos que sejam. E não necessariamente por razões económicas directas, mas por razões de vida que – outra vez – todos conhecemos e os que não conhecem, se procurarem um pouco nas respectivas famílias, logo encontram e com múltiplas facetas. 

E isto traz-nos ao remate desta minha frágil e canhestra crónica:

Que este confinamento a que estamos obrigados, que fez surgir à luz do dia tantas e tão clamorosas carências de âmbito social, em todo o mundo, ainda que em certos países mais do que noutros por consabidas razões, que este confinamento, dizia, nos alerte para a necessidade de encarar o problema da chamada terceira idade com a dignidade que ele merece.

Que interiorizemos e obriguemos os respectivos governos a criar uma rede de cuidados a prestar aos anciãos tão relevante como o nosso Serviço Nacional de Saúde no tratamento das doenças e na manutenção da Saúde dos cidadãos.

Esta não é uma matéria que deva ou possa estar entregue a interesses privados. Malfadada a sociedade em que vivemos que se deixou resvalar para esta insensibilidade institucional, onde nem sequer se apura que se está a falar de cidadãos que, na sua esmagadora maioria, pagaram os seus impostos, taxas e taxinhas, e que, assim, ergueram a sociedade em que nos movemos.

Se, depois, algum afortunado quiser pagar do seu bolso uma estadia de rei, que o faça e que recorra a seguros e a lares principescos e tudo por aí fora. Mas, antes, o cidadão comum, o velho sem amparo, porventura sem família ou com família sem condições, sem amigos e que apenas convive com a sua solidão deverá ter o direito à dignidade que advém da sua própria cidadania.

Estão a ver para o que havia de me dar o confinamento?

Jorge Castro, em 28 de Março de 2020

a despropósito da eutanásia

Pois, da eutanásia eu sei muito pouco. E, quanto a experiência, nenhuma. Nem é de bom tom ironizar com matéria tão densa e tão pungente. Apesar disso, tenho para mim algo que não me suscita dúvidas: se o indivíduo estiver lúcido, a decisão deverá ser apenas dele. E daqui não saio.

Mas há algo que me preocupa, dir-se-ia, a montante da eutanásia. E, isso sim, é algo de que, enquanto mero cidadão, considero ter sobeja experiência por recorrentes situações familiares próximas em que me envolvi: os cuidados paliativos ou tão-só a assistência na solidão da velhice, agravada pela doença.

E aí, sim, dar-me-ia especial gozo apurar uma campanha referendária, tentando apurar os desígnios do bom povo.

Portugal, nesta matéria, é um exemplo deplorável. Não sei nem me interessa saber o que faz, neste âmbito, o resto do mundo. Não. Refiro-me só ao meu país, onde pagamos impostos (claro, só estou a falar para este sector da população e para os elementos familiares a ele adjacentes…), elegemos presidentes e deputados e autarcas e sindicatos e associações e tal, e somos já uma alegada democracia avançada.

A matéria é de tal modo densa e extensa que nem saberei, em boa verdade, por onde lhe pegar para não tornar este arrazoado numa croniqueta impossível de aturar.

Assim, resumidamente, direi que, tendo passado (e estando a passar) por diversas experiências, cada uma mais traumática do que a anterior, falo de cátedra ao dizer que o sistema de saúde, segurança e apoio sociais instituído em Portugal… só virtualmente existe, no que respeita à tristemente concelebrada terceira idade (e quarta e quinta e etc.).

Espanta-me, pois – ou talvez não – aquilo que com grandes palavras chamarei o cinismo hipócrita que escuto dos diversos agentes no terreno que se afoitam a dissertar sobre a eutanásia e apenas muito, muito raramente, referem ao de leve o descalabro a que está sujeita uma fatia considerável de concidadãos, absolutamente abandonados à sua sorte… ou à falta dela.

Experimentem acompanhar um vosso familiar (ou amigo), com grau limite de incapacidade a um hospital público ou mais-ou-menos. Umas análises, uma prescrição de uns comprimidozecos e uma palmada nas costas «então-vá-lá-para-casa-curtir-as-dores-e-a-maleita», despachado em alta velocidade, não vá ter a veleidade de se deixar morrer por ali, atrapalhando o tráfego, como diria o Chico Buarque.

Dos privados nem falo. Aí reza o dinheiro e, em função dele ou da sua ausência, assim decorre o atendimento.

Para aqueles que me estejam a olhar de lado, desconfiando que o gajo esteja a resvalar para a direita populista, sempre vos relato um facto, isso mesmo, uma coisa que me aconteceu: a minha mãe, após operação extensa à coluna por metástases de doença oncológica, no Hospital Egas Moniz, e depois de a terem despachado, três dias depois (!), «para recuperação» no Hospital de Cascais, apesar de se saber que não havia recuperação possível (e, já agora, nem serviços de oncologia naquela unidade…), onde ficou cerca de dez dias numa cama num corredor, deitada de costas – o que nos tinha sido anunciado como absolutamente contra-indicado -, passou uns breves dias num quarto com mais uma dúzia de moribundos, após o que lhe deram alta.

Note-se que os três filhos sempre estiveram presentes, diariamente e várias vezes ao dia, e daí nem se poder falar de algum caso de abandono familiar.

O que é verdade é que, certo dia, estávamos no inverno, ao chegar ao Hospital de Cascais, pelas 19 horas, deparei com uma maca, na portaria, onde se encontrava a minha mãe, parcamente agasalhada, absolutamente incapacitada de se locomover e padecendo de dores atrozes. Tinha tido alta! Claro, das dores falava ela, pois parece que mais ninguém as sentia do mesmo modo e eu tenho tendência para considerar que ela não estava a enganar-me.

Apesar das nossas visitas diárias, repito, nenhum familiar foi avisado nem da decisão nem da atitude nem, sequer, de qualquer premência por parte da instituição.

Como se poderá imaginar, foi alto o pé-de-vento que me vi obrigado a desencadear no Hospital para fazer regredir aquela estúpida, insensata e desumana «alta» – se calhar até lhe poderia chamar criminosa… – , pelo menos até que os filhos pudessem encontrar um lugar onde, mediante bom pagamento, pudéssemos acolher a nossa mãe com mínimos de dignidade.

Claro, o desfecho é o que imaginam: cerca de quinze dias depois, a minha mãe faleceu. Todo temos de ir, não é? E assim dizemos…

Ou aquela do meu cunhado, com uma hérnia inguinal absolutamente monstruosa e incapacitante que, nos últimos dois meses, se deslocou ao Hospital (por sinal, o mesmo) por seis vezes, queixando-se de dores pavorosas, com problemas graves no trânsito intestinal… e que sempre foi mandado para casa com os tais comprimidozecos. Chegou ao hospital de ambulância por não se poder locomover e regressou de ambulância, pois então. Não há, entretanto, quaisquer notícias de para quando a intervenção cirúrgica, que se diria imperiosa e urgente.

Houve até, um relatório a que tive acesso, onde um tipo qualquer que exerce Medicina escreveu, textualmente, no relatório para a Assistente Social: «o paciente queixa-se de dores ligeiras». A Assistente logo dispôs de um álibi para não fazer nada, que ele há muito quem precise mais.

(Se alguém duvidar, posso sempre ter o mau gosto de mostrar fotografias, quer da hérnia, quer do relatório)

Poderia contar vários outros casos vividos directamente. Mas vocês também os têm e conhecem outros, pois esta é a vulgar realidade com que todos deparámos em algum momento das nossas vidas.

Rede de cuidados paliativos? Pois, temos muita pena mas não há; está tudo cheio… Apoio social institucional aos idosos incapacitados? Era bom, era, mas ele há muito poucas vagas… Apoio domiciliário? Talvez, com jeitinho e capacidade de persuasão… e pagando, claro!

E como as pensões e reformas são a fartura que todos sabemos, paga o directamente interessado e pagam os filhos e, se for preciso, até pagam os netos, que o mercado não tem culpa de que as reformas andem pela hora da morte – se calhar, na verdadeira acepção da expressão.

E disponibilidade dos familiares para darem assistência? Ah, é difícil, porque a malta que ainda está ao activo tem uma vida muito competitiva e, se começa a não ser tão assídua por uma semana que seja, quando lá voltar já tem o lugar ocupado por algum interessado que estava em fila…

Neste contexto, discutirmos essa coisa tão difícil quanto é a eutanásia e, ainda por cima, discuti-la pela enésima vez? Eh, pá, deixem-se lá de merdas e comecem a dar algum bom uso aos impostos, taxas e taxinhas que pagamos porque somos cidadãos e assim devemos ser tratados, para além de se servirem deles para acudir aos pobrinhos dos banqueiros indigentes!

desperdiçados de todo o mundo, uni-vos!

Pois é… Nas deambulações matinais no esplêndido areal de Carcavelos, hoje, deu-me para a recolha de desperdícios que o mar traz à costa. E são tantos, senhores, que a melhor boa vontade se revela, rapidamente, incapaz de capaz cumprimento!

Mas, enfim, o lixo que eu retire não fica lá, como diria algum avisado senhor de la Palice. E assim foi que recolhi tanto quanto um providencial saquinho – de plástico, também, claro –  me permitiu.

Pazinhas, baldinhos, brinquedinhos – como me ocorre de um pregão que ouvia na infância balnear -, tudo por ali pulula, ponteado profusamente por tampinhas, restinhos de redes e fiozinhos de pesca e miríades de pauzinhos de cotonetezinhas. Um verdadeiro bazar a céu aberto, do qual se diria que apetece basar quanto mais depressa melhor…

Chegado a casa, despejado o espólio da caçada de uma escassa meia-hora passada no areal, falta, ainda, separar os lixos vários, mormente as tampinhas que servirão, talvez e numa lógica assaz inconsistente, mas que lá vou cumprindo, para adquirir cadeirinhas de rodinhas para instituiçõezinhas que estejam mal instituídas, coitadinhas, mas que precisem para os seus eventuais utentes.

Ainda assim e mal por mal, sempre é coisa mais coerente do que o banquinho alimentarzinho da Isabel Jonetezinha, onde, como alguns sabem e outros fazem por não pensar nisso, quem mais ganha são as grandes superficiezinhas.

o verdadeiro Capitão Gancho era português… – mas alguém duvidaria…?

Fui, há dias, em visita à muito interessante exposição Entre a Cruz e o Crescente – o resgate de cativos, patente na Torre do Tombo, em Lisboa, e associada à evocação dos 800 anos da fundação do Convento da Trindade de Lisboa,  que recomendo vivamente, pois dá elaborado testemunho de uma circunstância histórica muito pouco divulgada: o resgate dos captivos, que se revela, muito para além de mero exercício de soberania em conflitos vários entre países, mais como um lucrativo negócio, institucionalizado em diversos momentos da História.

A exposição desenvolve-se em torno dos seguintes temas:

  • A Ordem da Santíssima Trindade – a presença em Portugal
  • Um negócio piedoso – a apreensão de captivos
  • Uma obra mui nobre e pia – o resgate de captivos
  • O Convento da Santíssima Trindade de Lisboa – 800 anos de História

E assim foi que, nesta exposição, descobri a existência de um captivo – nascido lá pelos idos de 1656, no lugar da Ribeira dos Flamengos, ilha do Faial, nos Açores – de sua graça José Cardoso, em prestação de serviço como tripulante em nau portuguesa, que fora aprisionado  por navio pirata de Argel, com a idade de 18 anos.

Aos 42 anos, após uma vida repleta de aventuras mais ou menos desgraçadas – foi de escravo a capitão de embarcação pirata, e tendo, entretanto, adoptado o nome de Mustafá Gancho, esse mesmo! -, acaba nas mãos da nossa Santa Inquisição, após captura da embarcação que, na altura, capitaneava, acusado de ter aderido à fé muçulmana…

O nome estranho seria proveniente do senhor turco a quem fora vendido como escravo (Mustafá) e o Gancho estaria associado a uma deformação na mão direita, resultante de ferida em combate, pelo qual passou a ser conhecido.

Mas há lá alguma costura do mundo onde não tenha estado um português a meter o nariz? Até o Capitão Gancho!!!

E quantas aventuras cinematograficamente desperdiçadas! À consideração do Presidente Marcelo, a eventualidade do resgate da sua imagem aventureira…

Se subsistirem dúvidas nos vossos espíritos, podem sempre consultar as fontes:

http://arlindo-correia.com/100513.hotmail

http://wwlw.rtp.pt/acores/graciosa-online/o-pirata-dos-flamengos_51019

NOTA FINAL – Eu sei que o folheto da exposição refere «o resgate dos cativos». Mas não consigo habituar-me à ideia de que esses tais «cativos» possam tê-lo sido através de alguma «catura»… Assim, pois, CAPTIVOS, vítimas, sim, de uma eposódica CAPTURA.

 

national geographic de trazer por casa

Das alterações climatéricas cada um se vai dando conta. Dos desvarios urbanos em carência extrema de zonas verdes e de mais ou menos frondosas árvores, também.

Cá por casa, a conjugação destes factores tem efeitos inesperados: por um lado, uma videira de uvas americanas, assim chamadas, que nos conforta com uma esplêndida sombra em tempos de Verão, tem evoluído, ano após ano, para uma sequência de produção de uvas, desfasadas no tempo, que prolonga a existência desses frutos até Fevereiro (!) de cada ano; por outro, dispondo de um pequeno mas muito verde espaço – que dá água pela barba a este cidadão muito urbano mas, principalmente, à minha-senhora-de-mim – conto com a visita diária de uma plêiade de vizinhos alados, que se servem à tripa-forra dos escassos bens que ali dispomos, mas que nos presenteia, ao mesmo tempo, com os seus cantos e encantos.

E os nossos pequenos-almoços ficaram largamente enriquecidos. As migalhas do pão que nos sobram complementam dietas, em tempos de maiores carências da invernia. Assim a modos que um toma-lá-dá-cá.

Para quem duvidar possa, aqui deixo uma pequena amostra, colhida apenas num dia – 02 de Fevereiro de 2018 -, sem grandes preocupações na qualidade da imagem, porque se privilegia  o testemunho, e, sim, uma singela fatia de felicidade inesperada, mas, agora, de repetição sempre ansiada… pelo menos enquanto houver uvas:

Claro que há sempre, em todas as coisas da vida, as abordagens subjectivas. A nossa gata, por exemplo, pratica os mais desvairados desportos radicais para conseguir desfrutar de outros prazeres para além dos que estes nossos vizinhos emplumados nos proporcionam a nós, humanos.

Mas também ela acede, por essa via – invariavelmente tentada e nunca atingida – a outra espécie de felicidade que o remanso da lareira no Inverno não lhe traz. E desespera-se para sair, em cada manhã, para a sua caçada, sempre perseguida e, salvo raríssima situação, nunca alcançada.

Mas, lá está, o caminho faz-se caminhando e a cada um o que a sua natureza lhe conceda.

eu fui a Miranda ver as pauliteiras…
e algumas coisas mais

Nos passados dias 17 e 18 de Agosto,
voltei a Miranda do Douro para o convívio anual dos Alunos do Externato de São José. Uma vez mais e sempre, lá me ficou a ideia, de novo remoçada, de que Miranda yê la mie tiêrra e, contra isso, nada feito.
A Sé que nos aguarda…

 

… a cidade que nos acolhe…

 

… a brejeirice que nos acena…

 

… as tradições que se nos impõem.

 

O passeio nocturno revela segredos…

 

… que na longínqua meninice apenas se poderiam imaginar.

 

Depois, numa arruada integrada nas comemorações locais a Santa Bárbara – de quem nos lembramos quer troveje quer não -, um grupo inusitado de pauliteiras.

 

Confesso-vos que a quebra da tradição tende a perturbar-me um pouco…

 

… mas a elegância assertiva da coreografia…

 

… aliada à inegável beleza das participantes e seus trajares…

 

… me deixaram rendido e convencido.

 

Ângelo Arribas, de Freixiosa, antigo conhecimento, sempre activo e devotado artista…

 

… figura carismática das terras mirandesas que tem artes de se rodear de gente boa e de todas as idades, com o condão de nos recriar ambientes de antanho, por mais que a actualidade se nos imponha.

 

E a barraije lá permanece, ocupando o «canhão» mirandês, mentora de mudanças a que o Douro teve de se afeiçoar… porque sim ou, se quisermos e como nos diria o poeta, Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. E o rio, queira ou não, tem de se acostumar à ideia e ser assim domado.
O fotógrafo lá estava, também posando…

 

… que, entre o volume da água e a dimensão das arribas, não há quem resista à imponência da paisagem.

 

Na Biblioteca Municipal, relembrando referências da minha vida, percorri os percursos de António Maria Mourinho, meu antigo professor e o grande cultor do Mirandês, que teve artes de guindar a língua oficial.

 

Visita às referências patrimoniais.

 

E, como habitualmente, a recepção oficial da comitiva de antigos alunos no salão nobre da Câmara Municipal…

 

 … presidida pelo actual Presidente, Artur Nunes, muito bem acompanhado por
 La Comisson Ourganizadora de l Ancontro de ls Antigos Alunos de l Sternato de S. Jesé, constituída, para que conste e em homenagem ao bom trabalho feito, por Adelaide Monteiro, Maria Joaquina Aguiar, Eduardo Domingues e José Manuel Alves.

 

Algumas amigas presentes, onde a amizade não tem idade.

 

A belíssima surpresa de termos contado com a presença da Sra. D. Odete – ai, se ela me ouve… – a nossa professora de Inglês e de Francês, por quem a idade parece não passar

 

– Artur Nunes

 

De seguida, com a presença do incontornável Ângelo Arribas,
visita às instalações do novo grupo produtivo da
Central Hidroeléctrica do Barrocal do Douro (Picote), recentemente construído pela EDP…

 

… com a correspondente visita guiada.

 

Três graças que por lá vi, diria eu…

 

José Franco explanando a evocação que arquitectou…

 

… recorrendo a memórias diversas que condensou em filme que nos exibiu

 

E quando mestre Arribas toca, logo a malta dança, claro!

 

O espelho do Barrocal…

 

… sobrevoado pelos grifos, estranhando porventura a inusitada agitação na coroa da barragem.

 

 

Aqui se separa, convencionalmente, Portugal de Espanha.

 

 

A Junta de Freguesia de Picote, em colaboração com a Comissão Organizadora, organizou um lanche encostadinho a Espanha que, como se pode observar, foi muito participado…

 

… e, em boa hora, na pouca sombra exterior disponível, que o sol era de molde a grelhar-nos a todos e sem ser em lume brando

 

À noite, o jantar, animado – adivinhem lá por quem… –

 

Todos satisfeitos com o repasto, tempo de colocar conversas em dia, trocar ou revitalizar contactos…

 

… e de se promover a passagem de testemunho para eventos vindouros.
Não vos falei da muito interessante e bem participada exposição de Pintura da autoria de muitos dos presentes. Mas aqui deixo apenas esse apontamento escrito, para vos suscitar o interesse em, para a próxima, irem lá vê-la com os próprios olhos, pois estas coisas têm sempre mais graça com gente dentro!
Também não vos falei da gastronomia, das conversas, das festas que por lá houve… Mas nunca é bom falar de tudo. Talvez nalgum futuro romance…