Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

2022, 2023, 2024… venham de lá anos bons!

Começo já o dia a desejar para todos que o dia de amanhã nos encontre vivos e de boa saúde.
E, já agora, que essas condições se prolonguem pela vida fora, independentemente das passagens de ano que, tal como o nome indica, são meras passagens.
Conto convosco para me surpreenderem com a vossa criatividade e a vossa humanidade. Eu tentarei pagar-vos com a mesma moeda.
E que cada dia do novo ano e dos anos vindouros sirva para, com maior ou menor empenho, mas sempre obstinadamente, percorrermos os caminhos desta vida em busca de um sentido para ela e dos momentos de felicidade que a fazem digna de ser vivida.

diário breve de um pró-testante

( = indivíduo que está em vias de se submeter a um teste)

Isto está uma maçada. Depois de estar três dias para tentar fazer um teste à Covid sem conseguir chegar a ser atendido, tal o tamanho das filas de espera nos postos disponíveis na cidade, e de ter tentado, sem êxito, em duas urgências hospitalares, invocando dores de cabeça e, até, de barriga, decidi que hoje é que tinha de ser.

Assim, levantei-me às cinco da manhã e, às seis, já estava na fila do posto de testagem mais próximo de casa. Felizmente, hoje não chove. À minha frente estavam só uma família de cidadãos brasileiros que querem regressar ao Brasil e quatro jovens austríacas que tiveram de passar esta noite na rua, por não serem aceites no «hostel» onde tinham reserva, sem apresentarem teste válido.

Meia-hora depois, já a fila parecia uma autêntica bicha, com cerca de duzentos metros de gente, ansiosamente à espera do mesmo.

Às nove horas, já o movimento da feira, ali ao lado, estava em grande, quando abriu o centro de testagem e cerca de um quarto de hora depois já eu estava despachado, aguardando apenas o resultado, já do lado de fora…

Veio, então, uma senhora muito simpática que me informou de que estava tudo bem, com o teste negativo.

Pronto. Agora já posso ir à feira comprar umas coisitas que ainda me faltam para a passagem de ano. Depois vou ao supermercado para ver se ainda apanho umas gambas e duas garrafas de Raposeira. Não esquecer o bolo-rei e as passas na mercearia da rua, que já estão encomendados. De caminho, compro os jornais e as revistas para este fim de semana prolongado e bebo o cafezinho da praxe no café da esquina, onde sempre se trocam dois dedos de conversa com os «residentes» habituais.

Isto, parecendo que não, mas uma pessoa fazer o teste dá-nos muito mais tranquilidade…

Então, votos de um feliz ano novo para todos e com muita saúdinha, sim?

JOÃO BAPTISTA COELHO (1927-2021)

Tive, hoje, conhecimento de que, no passado dia 20 de Dezembro, faleceu João Baptista Coelho.

Dele direi que conheci um homem bom. Companheiro e mestre, fiel e empenhado, em inúmeras sessões de poesia, esposo amantíssimo e de total entrega, ainda que discreto, amigo fiável como poucos, de fino humor e sempre cavalheiro.

Relembro amiúde o episódio em que, tendo-se esquecido do seu inseparável chapéu dos dias frios, na sala da Biblioteca de São Domingos de Rana, onde desenvolvíamos uma das sessões das Noites com Poemas, ao ausentar-se um pouco mais cedo, para o invariável apoio à sua companheira, regressa, logo mais, constrangido por interromper a sessão, com um impagável «Desculpem, mas esqueci-me da tampa do talento…».

A diferença de idades não impediu nunca as cumplicidades ou a disponibilidade para projectos comuns, onde a sua participação se pautava invariavelmente pelo cultivo do ritmo e da rima, em cada poema, com especial mestria, num certo revivalismo dos nossos clássicos nesta arte, e de onde destacaria o seu à-vontade notável na construção de sonetos.
Isso conduziu-o a alcandorar-se a mais de um milhar de prémios em competições poéticas – caso já de si notável – sendo que mais de 250 foram primeiros lugares.

Há algum tempo tinha desaparecido dos nossos convívios, após a morte da esposa, e, apesar de sempre lembrado no nosso núcleo de «poetas itinerantes e intermitentes», certo é que respeitámos a sua ausência, um pouco como se se tratasse de não perturbar o repouso merecido de um guerreiro.

Legou todo o seu impressionante (e, porventura, único) espólio de troféus à Junta de Freguesia de São Domingos de Rana, que se preparava para organizar uma exposição com os mesmos, em homenagem a este seu munícipe, entretanto já agraciado com a Medalha de Mérito Cultural desta Freguesia, em 2014.

Remeto-vos, com a devida vénia, para o sítio http://www.truca.pt/raposa…/lugar_88_joao_b_coelho.html
onde poderão encontrar mais informação sobre este tão discreto quão prolífico poeta, como tantos outros ignorado das ribaltas literárias de ocasião. E para os amantes de poesia, não deixem de apreciar, cuidadosamente, os poemas ali contidos, onde poderão sentir o pulsar de uma vida… que, tardiamente mas sempre a tempo, soube encontrar na poesia a voz que, de outro modo, o mundo não ouviria.

Se se diz, com um exagero benévolo, que um poeta não morre, quero crer que isso será verdadeiro enquanto perdurar em nós, sobrevivos, a memória do homem e da sua obra. Até sempre, pois, caro Baptista Coelho.

De João Baptista Coelho – Poema Universal

Disseram-me que a Vida era um poema;
que a Terra era um jardim, sempre florido;
que o Homem era a obra mais suprema
dum Deus que, ao universo, deu sentido.

Disseram -me que a paz é nossa Lei;
que, aos homens, a Verdade era o seu pão;
e eu, menino ingénuo, acreditei,
vivendo oitenta anos na ilusão.

Agora, já distante o meu Outono,
e olhando o meu caminho vagabundo,
a noite vem pintar-me no meu sono
o quanto há de Mentira neste mundo.

Falaram-me do Homem, todo amor,
e raro lhe encontrei o verso e a rima;
Falaram-me da Terra, como flor,
e eu lembro aquela, imensa, … a de Hiroshima.

Falaram -me do pão que é a Verdade
nas nunca o vi crescer perante a Vida;
Falaram -me de paz na sociedade
e sempre a vi, na Terra, adormecida.

Falaram-me em sementes e fartura;
em sonhos que, amanhã, serão reais;
e vi-os definhar sem ter frescura,
sem chão onde encontrassem o seu cais …

Falaram-me, também, em Liberdade
que o mundo considera uma riqueza;
que muitos trocariam, de vontade,
por uma sopa quente em sua mesa.

Escutei-lhes as promessas de abastança
e o voto de mais Luz e mais comida;
e vejo, a cada passo, uma criança,
faminta, … mendigando, … a mão estendida.

Ouvi-lhes exaltar o pão-trabalho
a par da segurança no emprego;
mas vi um povo triste, já grisalho,
em busca de salário e de sossego.

E nesta caminhada ao mais-além,
ao ver o erro imenso em que vivi,
abalo e deixo ao mundo o meu desdém
por quanta falsidade guarda, em si.

Mas parto com um grito de protesto,
na busca de outro rumo do destino:
“Num mundo-presunção, tão desonesto,
não voltam a mentir ao eu-menino!”

ainda e sempre o Natal,
bem-me-quer, mal-me-quer…

eis o Natal que de súbito acontece
num surto de pandemia
e as malhas que o império tece
em sonhos feitos à pressa e excessos de azevia

um Natal igual a tantos
e sempre sempre diferente
num mundo cheio de encantos
mas onde para outros tantos tem sempre a fome presente

venho lembrar-vos então o José Gomes Ferreira
que depois de ler Descartes mas muito à sua maneira
veio em certa ocasião dizer-nos algo como isto
«penso nos outros – logo existo»

um bom e feliz Natal de lembrar entes queridos
de partir para o novo ano com esperança renovada
é tudo quanto faz falta como prenda aos meus amigos
já agora saúde boa… nem é preciso mais nada!

  • Jorge Castro
    24 de Dezembro de 2021

ora, brinquemos, pois… (na quadra natalícia)

Diz-me o feicebuque: “Jorge, encontra alguém que goste de ti por aquilo que és. Junta-te às 5.000 pessoas solteiras que estão a marcar encontros em Cascais”.
Isto só pode ser uma partida daquela personagem que nós sabemos que não existe, o tal de Pai Natal.
Mas, agora, fiquei com um problema: será que conheço muita gente que gosta de mim por aquilo que eu não sou? E, com os constrangimentos anunciados por António Costa, como é que vou juntar-me a 5.000 almas solteiras, em Cascais, estando eu casado?
O feicebuque anda com o algoritmo marafado, é o que é…

Acabado de ouvir num centro comercial perto de si:

  • O cavalheiro importa-se de não invadir os meus 5 metros quadrados?
  • Minha senhora, com o devido respeito, quem invadiu os meus foi a senhora…
  • Desculpe, mas eu já estava junto a esta prateleira, só que o artigo está muito alto e desequilibrei-me.
  • Pois… não sei. Mas agora como é que vamos resolver isto? Sempre é a saúde pública que está em risco… O melhor é chamar o segurança.

Isto da conversa politicamente correcta tem os seus quês.
Por exemplo, o défice cognitivo, querendo significar algum padecimento mental…
Eu tinha sempre défice cognitivo quando recebia uma negativa numa qualquer prova escolar.
Isto não está fácil…

Acabadinho de ouvir no noticiário da SIC, de um repórter de serviço: “… e se dúvidas houvessem…”.
Não, carais! É HOUVESSE, gente.
Chiça, que se errar é humano, errar demais é desumano!

Até que enfim, tropecei numa notícia positiva.
Andava eu acabrunhado com o desaparecimento dos bidés das actuais casas de banho, sem saber como providenciar, nessa ausência, necessidades higiénicas elementares, e eis que descubro as “smart toilets”, equipadas com uns “multiclean advance square”, que fornecem jacto de água quente, limpeza a seco das partes pudendas…. e sei lá que mais!
Parece que os homens precisam apenas de ter cuidado para não carregar no botãozinho, com legendas em inglês, que se destina à remoção de pensos higiénicos.
A tecnologia é linda…!

vou fazer um poema

vou fazer um poema
que seja de ausência
de alguma plangência mais delicodoce
tentar construí-lo de fero granito
de urzes
de estevas
de manhãs geladas
um poema para variar de ser só amor
naquele dó maior de amante ou de amado

um poema com uivos
com brados e agravos
de espantar silêncios
de afiar machados
de rasgar os ventos até os mais bravos
de cravar as unhas em terra lavrada
tal fosse um arado
tal fosse uma espada
um poema que mate
um poema que morra
que também já cansa toda esta modorra
de tudo parado sem que ate ou desate
de fria masmorra

vou fazer um poema
que fale de gente
de gente nascida que parte para a vida
de cara lavada
um poema com lama
que salte da cama e grite na rua
o que lhe vai na alma
e que lhe sobre a calma de sentir no rosto
um raio de sol
um calor de Agosto

um poema pecado que traga no olhar
as vagas que o mar rebenta em arribas
a desfazer fragas com as brutas águas
diversas daquelas paradas
mortiças
a que tu me obrigas
quando me castigas com doces romances
meladas cantigas

e quando o poema por fim for nascido
levá-lo comigo
e mostrar ao mundo
que bem lá no fundo
o poema é então um poema de amor
desse amor maior e tão mais fecundo
que é ao mesmo tempo amante e amado
cruel e traído
temente e ousado
tão agreste quanto doce malmequer

afinal um poema como outro qualquer…

  • Jorge Castro
    09 de Dezembro de 2021

um pedido de Natal português

eu não quero
ó menino
que tragas no sapatinho
nem porcos de bicicleta
nem as vacas voadoras
cabritas das correrias
ou quilovátios de ricos
nem águas dos abastados
arreda-me os passadiços
estrafega os «halloweens»
pistas de gelo nem vê-los
ou aquaparques mui «ins»
de que já estou pelos cabelos
nem me tragas mais estufas
ou intensivo plantio
que nos chegam de pantufas
deixando o campo doentio

vem se queres de bicicleta
mas de andar em ciclovia
ou até de trotineta
sem atropelar asceta
coitado porque é velhinho
vem conforme a tua veneta
mas trilhando esse caminho
onde um bosque tem arbustos
e a floresta arvoredo
numa campina a papoila
é um grito no dourado
e um rosto de moçoila
fica melhor se corado
pelo sol e a brisa fresca
e num regato ir à pesca
do tempo desperdiçado

traz-me a hora vespertina
quiçá ao som de um nocturno
num pôr do sol ou ocaso
a que assisto por acaso
no verdor de uma colina
que já foi duna de areia
onde enraíza o passado
e no fulgor de uma ideia
brota ardente a flor presente
e o futuro ansiado
logo ali à minha frente

traz-me o que eu sou e o que é meu
não me tragas de ninguém
o que seja muito seu
como o colo da sua mãe
ou o cesto de um vintém
onde guarda a sua vida
e aguarda o que lá vem…

… que posso ser eu até
que podes ser tu também
já que a vida tem mais graça
quando se abraça outro alguém.

  • Jorge Castro
    07 de Dezembro de 2021

aquele homem, sim, era um poeta

aquele homem
sim
era um poeta

não se lhe sabe obra escrita
palavra dita ou ditada
mas decerto era um poeta
sofria espantos de luz num ocaso evanescente
e de tormentos de cor ao voo de mariposas
tinha frémitos de amor em primaveril campina
e o céu de tanto azul inundava-o de ternura
tal como um nascer do sol lhe dava melancolia
via universos nas nuvens que ninguém apercebia
e trajou luto cerrado ao pisar uma papoila

por fim foi crucificado
num pelourinho de injúrias
e à sua face serena lançaram pedras de escárnio
insultos só de arrogância

mas por entre a turbamulta que o ódio enegrecia
ele divisou um olhar de criança
que sorria
e morreu serenamente
como raro acontecia mesmo nos dias mais calmos
de tormentos pressentidos

aquele homem
sim
era um poeta
algo que ninguém sabia.

  • Jorge Castro
    29 de Novembro de 2021

das saudades…

Este poema tem como inspiração algo que li na página de Cristina Carvalho. Das saudades…


hoje eu senti saudades
coisa estranha de sentir
coisa que a razão contesta
mas que dizer dessa festa
de sentir e de sorrir
só por sentirmos saudades?

saudades
por reviver
algo que já foi vivido
nem é crime nem castigo
é tão-só um regresso
quem sabe
aquele recomeço
de algum momento incumprido
ou então por ter cumprido
um momento mais sentido

passo a vida a ter saudades
da hora em que fui nascido.

  • Jorge Castro
    26 de Novembro de 2021

o direito de ser

Por vezes pergunta-se porque nasce um poema… Tenho para mim que essa é uma questão quase irrespondível, tantas as respostas.
Hoje, entretanto, ouvindo notícias e assistindo a esse flagelo dos refugiados pelo mundo, deu-me para o soneto, não por catarse, mas por reflexão – porventura canhestra – sobre o ser humano.


O DIREITO DE SER
tentamos as palavras impossíveis
nesse tempo de miséria e de mágoa
e queremos ser aquela gota de água
vogando pelos mares imperecíveis

quantos ventos adversos infindáveis
e correntes tormentosas contra a proa
dessa nau de melindres sempre à toa
sendo as velas e o leme tão mutáveis

na certeza bem maior da vida incerta
mesmo contra a rigidez de cada muro
seja nossa a palavra assaz desperta

hausto grande de ar mais limpo e bem mais puro
porque a vida é sempre um grito de alerta
nós seguimos numa esperança de futuro.

  • Jorge Castro
    18 de Novembro de 2021
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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