paisagística efémera

Basta ter olhos de ver. Ter olhos de sentir. E a realidade transmuta-se nesse olhar. Ela, que sempre ali esteve, reapresenta-se: eis-me aqui. O que queres de mim? Ora, aprecia-me, vista daqui deste lado…

o repouso episódico entre voos e mergulhos

um olhar austero

à sombra da neblina

e o Bugio aqui tão perto

vestígios rupestres na areia com pegadas aleatórias

a navegação sempre atraiu as atenções

o corre-corre diário pelo sustento

todos os passos vão dar à neblina

quatro mosqueteiros com fortaleza ao fundo

há mais castelos na areia

olhos de água alienígenas

o que fica das águas passadas

malhas que a maré tece

impressão reflexiva

esculturas bidimensionais

uma cascata mais pequena do que eu

um só olho de água  – será outro Ciclope?

escultura arenosa com árvores ao fundo

uma baleia? e porque não?

  • fotografias de Jorge Castro

national geographic de trazer por casa

Das alterações climatéricas cada um se vai dando conta. Dos desvarios urbanos em carência extrema de zonas verdes e de mais ou menos frondosas árvores, também.

Cá por casa, a conjugação destes factores tem efeitos inesperados: por um lado, uma videira de uvas americanas, assim chamadas, que nos conforta com uma esplêndida sombra em tempos de Verão, tem evoluído, ano após ano, para uma sequência de produção de uvas, desfasadas no tempo, que prolonga a existência desses frutos até Fevereiro (!) de cada ano; por outro, dispondo de um pequeno mas muito verde espaço – que dá água pela barba a este cidadão muito urbano mas, principalmente, à minha-senhora-de-mim – conto com a visita diária de uma plêiade de vizinhos alados, que se servem à tripa-forra dos escassos bens que ali dispomos, mas que nos presenteia, ao mesmo tempo, com os seus cantos e encantos.

E os nossos pequenos-almoços ficaram largamente enriquecidos. As migalhas do pão que nos sobram complementam dietas, em tempos de maiores carências da invernia. Assim a modos que um toma-lá-dá-cá.

Para quem duvidar possa, aqui deixo uma pequena amostra, colhida apenas num dia – 02 de Fevereiro de 2018 -, sem grandes preocupações na qualidade da imagem, porque se privilegia  o testemunho, e, sim, uma singela fatia de felicidade inesperada, mas, agora, de repetição sempre ansiada… pelo menos enquanto houver uvas:

Claro que há sempre, em todas as coisas da vida, as abordagens subjectivas. A nossa gata, por exemplo, pratica os mais desvairados desportos radicais para conseguir desfrutar de outros prazeres para além dos que estes nossos vizinhos emplumados nos proporcionam a nós, humanos.

Mas também ela acede, por essa via – invariavelmente tentada e nunca atingida – a outra espécie de felicidade que o remanso da lareira no Inverno não lhe traz. E desespera-se para sair, em cada manhã, para a sua caçada, sempre perseguida e, salvo raríssima situação, nunca alcançada.

Mas, lá está, o caminho faz-se caminhando e a cada um o que a sua natureza lhe conceda.

ele há coisas que a gente nem percebe…

Existia, em Oeiras, fronteiro ao Forte de São Julião da Barra e em terrenos que se tornaram pertença da NATO, um monumento sóbrio, discreto, ainda que digno, que celebrava Gomes Freire de Andrade, herói dos ideais liberais, figura grande de quem, em Portugal, pugna pela Liberdade.

Herói vítima de circunstancialismos históricos, condenado à morte em circunstâncias trágicas, às mãos de um torcionário, ocorrência que, alegadamente, teria tido lugar no local onde estava erigido o monumento/cruzeiro.  

Recomendo, aos interessados, para um mais cabal e ilustrado conhecimento do assunto, a leitura de Felizmente há Luar, de Luís Sttau Monteiro. E, também, Raul Brandão, Vida e Morte de Gomes Freire de Andrade, 4.ª ed., Lisboa, Alfa («Testemunhos Contemporâneos, 14»)  1990 – que podem ler em 

http://www.arqnet.pt/exercito/freire.html.

Também darão o tempo por bem empregue através da consulta à Wikipédia, em 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Gomes_Freire_de_Andrade.

Estão a ver aquele cantinho, no centro da fotografia aérea acima? Pois é, nunca percebi porque carga de água um monumento nacional sobre um herói português pôde, em algum momento, encontrar-se num local restrito e de acesso absolutamente condicionado.  Coisas…

Como se não bastasse, por força das impertinentes lógicas do extraordinário pato-bravismo reinante (apesar de em plena República…), um conjunto de «vontades» (ia dizer de interesses, mas…) decidiu que aquele pequeno espaço era absolutamente fundamental para erigir um mostrengo qualquer. E vai de trasladar o monumento sem que as forças vivas coniventes ou responsáveis prestassem contas a quem quer que fosse por  tal desmando municipal e nacional.

Pouco depois, do outro lado da via, a caminho de uma carruagem-bar, porventura com vergonha pela estultícia dos homens, o pobre monumento reaparece, escondido entre uns arbustos e, mais parecendo mera lápide funerária desviada de cemitério, depois dos tratos de polé infligidos àquele que o monumento homenageia, ficou como se pode ver, sequenciando (e, aparentemento, legitimando) o desmando do acima referido torcionário:

Alguém, avisado e informado, saberá dizer-me das razões profundas para tal despautério? Ou tratar-se-á apenas de um ligeiro período de hibernação até que ares mais saudáveis lhe devolvam a dignidade perdida?

Aqui fica, à consideração da Câmara Municipal de Oeiras, o testemunho de um português perplexo.

Escher

No Museu de Arte Popular, em Lisboa, está a decorrer (até 27 de Maio) uma exposição sobre a obra de Maurits Cornelis Escher (Holanda, 1898-1972), gravador, intelectual e matemático.

Desta exposição lavro testemunho do seu enorme interesse e aprazível disposição.

O executante gráfico do «impossível» deixou-nos um legado que prima pelo desafio ao comum entendimento do mundo que nos rodeia, suscitando uma muito rica e saudável inquietação (melhor dizer inspiração?) a quem olhe atentamente a sua obra.

Somente aqueles que tentam o absurdo conseguem o impossível.

Sou um artista gráfico de coração e alma, ainda que ache o termo «artista» bastante embaraçoso.

 

A ordem é a repetição de unidades. O caos é a multiplicidade sem ritmo.

Agora, com entradas a 11 €, fica-se, na verdade, com a sensação plena de que aquela cena de «estarmos a ir além da troika» é coisa que ainda permanece por aí…

primeira reflexão (e provavelmente a única) de um «condenado» à reforma

Dia 02 de Janeiro de 2018. Despertar pelas 7h30, pequeno almoço nas calmas até às 8h30. Um salto até à praia – seria desperdício tanto areal desprovido de gente… -, caminhada de cerca de cinco quilómetros – sim, sim, alguma queixa das articulações. Várias… – e, pelas 9h45, regresso a casa para um belo banho. 

E, assim, se inicia um novo ciclo… até à fase do triciclo, como provável regresso à infância… 

Deixo, para inveja de alguns e sugestão para outros tantos, a evidência do que fica dito: