dia do poeta

hoje é dia do poeta
como se ontem não fosse
ou amanhã não será

ser poeta é um momento
do tamanho do universo
que nasce ao correr do tempo
sem ter ontem e amanhã

mas desfalece ou perece
quando ao tempo lhe parece
um poema coisa vã

mas não é
nunca será
porque um poema é o tempo
que trazemos lá de trás
e que se faz da esperança
no dia que lá virá.

e poeta então será
quem quer que atravesse o tempo
ontem
hoje
ou amanhã.

  • Jorge Castro
    20 de Outubro de 2020

uma provocaçãozinha, em modo poético…


… após leitura de poemas de «autores consagrados» que li aqui e ali – alguns de vós entendereis melhor o alcance da proovocaçãozinha, mas nem todas as cumplicidades podem ser do mesmo tamanho.


Se, em tempos, escrevi um «pastiche» de José Saramago que mereceu um comentário elogioso do próprio – e acreditem porque sou eu a dizê-lo! – porque não enveredar por caminhos poéticos algo diversos dos que me são habituais? Ora, lede e vede:


A modos que um poema pós-moderno
vejo-me daqui ali sem sair de onde estou
as cadeiras em meu redor despertam o silêncio
dançando um tema de Gardel
numa esgrima de pernas tentacular
em amontoados de mobília sem sentido
o som dolente do tango
funde-se numa valsa estranhamente austríaca
onde os violinos são como gôndolas venezianas
mergulhadas em glaucos abismos
de estridências vibrantes
e eu e tu sozinhos sob uma aurora boreal
pressentimos o desejo do solstício


ah se uma gaivota portuguesmente voasse nos céus de Phuket
outro galo nos cantaria
na urbanidade de Auckland
onde pai e mãe me afagam na derradeira carícia
antes da tempestade

somos tão poucos a voar que parecemos todos
pequenos
vistos da lonjura
de estarmos aqui e ali sem sairmos de onde estamos…

  • Jorge Castro
    10 de Outubro de 2020

atitudes a evitar

Ontem, sábado, e para variar, dei-me à contemplação televisiva de um contra-relógio da Volta à França em bicicleta.

Estou em crer que, dessa minha visualização, não terá vindo grande mal ao mundo.

Mas achei notável a existência de um considerável número de primatas que, ladeando a estrada, ululavam, gesticulavam descontroladamente e agitavam objectos diversos em cima dos ciclistas que iam passando, deixando-lhes apenas uma estreita nesga para essa passagem.

E ocorreu-me uma daquelas querelas a que assistimos, a cada passo, em certos canais televisivos, quando um grupo de chimpanzés, nalgum Congo recôndito, assume aqueles mesmos comportamentos.

A única diferença que me ocorre é a de que os chimpanzés terão um motivo vital para tal alarido. Dos outros primatas não consigo vislumbrar o motivo de tanta agitação…

(Ah, sim, e claro, quanto às cautelas pró-Covid estamos conversados. Mas, também, ele haverá primatas imunes… E, se não forem, será a selecção natural a funcionar. Resguardemo-nos deles, pois.)

Boa Esperança

Como vos disse, colectei os vidrinhos lançados à praia pelo mar. Mais ou menos boleados, mais ou menos agrestes… E fazer o quê a este lixo recolhido? Talvez fazê-los, de novo, navegar…

(Réplica da caravela Boa Esperança – materiais do alto relevo: vidro sobre fundo de pinho – 50×65 cm)