Pico – Açores – Setembro de 2021 – A saga (fotográfica) – III

Na Reserva Florestal de Recreio da Prainha (São Roque do Pico) pode fazer-se um passeio aprazível por entre vegetação muito variada. Nela se encontra esta casa típica do Pico.
E para que não se cuide que, entre tantas maravilhas, deixei por lá perdido o meu sentido crítico, veja-se este exemplo de um poste tão estrategicamente colocado em frente a um miradouro, situado na Reserva Florestal de Recreio da Prainha.
Nem o horizonte seria a mesma coisa sem ele…
Como se não bastasse a profusão de hortências que propiciam um ambiente tão peculiar a todas as ilhas dos Açores, ainda fui encontrar variedades da planta. No caso e salvo erro, estamos em presença da hortência coroa (ou coroa da rainha).
Visita guiada à Gruta das Torres. Esta gruta é de origem vulcânica e é o maior túnel lávico do arquipélago dos Açores.
Fica a uma altitude de 285 metros e possui cerca de 5 quilómetros de comprimento e uma altura máxima de 15 metros. Possui um túnel principal de grande dimensão e vários túneis menores de estruturas variadas na parte superior e laterais.
Um apontamento: acompanhou-nos um guia excelente, senhor de um humor notável. Escapou-me o nome, mas aqui fica a referência mais do que merecida
No interior da Gruta das Torres, estalactites formadas pelo arrefecimento da lava.
No solo da gruta, outra curiosa formação criada pelo deslizamento da lava.
Nas «paredes» da gruta outra formação curiosa que parece ter sido feita por mão humana.
No chão da gruta, uma «formação» que não deixa, também de ser curiosa: garrafas cheias de vinho do Pico, em maturação, aproveitando as condições muito específicas do interior da gruta.
(Não, lamentavelmente, não está disponível para visitantes…)
Ainda uma formação curiosa no chão de lava da Gruta das Torres. A esta chamam-lhe a «cabeça da baleia», o que parece razoavelmente apropriado.
Gruta das Torres – Já a esta chamarem-lhe «Mona Lisa» requer o seu quê de imaginação criativa.
Gruta das Torres – o ponto final da nossa intrusão na gruta e da visita guiada. Daqui para a frente só especialistas, existindo até vários trechos bastante «constrangidos».
Gruta das Torres – o fim da saga dentro da saga. De regresso à superfície, após uma hora e picos em absoluta escuridão, apenas rompida pela luz das lanternas individuais, não deixa de nos proporcionar um muito discreto suspiro de alívio…
As célebres e, no caso, celebradas cracas. Não foi fácil chegar a elas mas com a boa vontade do restaurante da Ponta da Ilha e encomenda prévia, travei conhecimento com mais um delicioso pitéu!
O Farol da Ponta da Ilha.
Mais um ser autóctone que nos veio cumprimentar.
A ponta da Ponta da Ilha. Ao fundo, São Jorge e muito, muito mar…
E as plantinhas de um verde vibrante a colonizarem, passo a passo, o chão de lava.
Na Casa dos Vulcões, em São Roque do Pico, uma janela sobre a ilha.
No ancoradouro da Madalena, a caminho de um almoço e a fazer horas para o regresso, com o Faial em fundo.
O avião do regresso. Bom serviço da SATA, como apontamento final.
Mas, com tanta magnificência tão portuguesa, porquê, meus senhores, «Azores» por tudo quanto é sítio? Os turistas não usam, lá por casa, o C cedilhado? Temos pena. Deixem-se de parolices, ó senhores mandantes, tende vergonha na cara e vaidade no que é nosso… e que o Pico tão bem representa!
De uma assentada, desvirtua-se o Português e enterra-se o legítimo orgulho. Fica só a subserviência.
O derradeiro aceno do Pico que, bom companheiro, se guardou para nós, com o seu cabelo de nuvens, no final desta «saga».

Um destino magnífico. Visitem-no, se puderem… mas não levem pressa. Estas coisas degustam-se melhor devagar e com os sentidos todos bem despertos.

Pico – Açores – Setembro de 2021 – A saga (fotográfica) – II

Publico esta imagem não tanto pelos seus atributos fotográficos, mas como tributo a uma realidade da Ilha do Pico que muito me agradou:
Por toda a ilha deparamos com piscinas mais ou menos naturais, verdadeiros aquários onde pululam peixes vários, e cuja qualidade da água, a qualidade das infraestruturas de apoio – todas gratuitas -, como chuveiros, sanitários, cadeiras, sombras, etc., não podia deixar de assinalar.
Ah, a propósito, a da imagem, uma daquelas em que até é mais visível a intervenção humana e que se situa para os lados da Piedade, estava com a água a 23º… e eram já 19 horas locais.
O nascer do sol na Ribeirinha.
Apontamento fotográfico complementar: imagem obtida ainda deitado na cama… (Ah, aqueles malditos cabos que atravessam tudo quanto é paisagem e até perturbam o direito à preguiça…!)
Porto das Lages do Pico – um dos locais de onde partem as embarcações para observação de cetáceos, como é o caso documentado na imagem.
Umas águas-furtadas nas Lages do Pico, recurso arquitectónico em que esta povoação é pródiga, com particularidades muito curiosas.
Sim, também há gatos no Pico e onde vi os melhores exemplares foi nas Lajes do Pico. Este esteve quase a meter conversa, mas acabou por não dar confiança…
A Ermida de São Pedro (1460) é um templo religioso católico localizado na povoação das Lajes do Pico.
Este pequeno templo, com origem na ordem franciscana, é a mais antiga construção religiosa do concelho das Lajes e da ilha do Pico, tendo sido erguido, conforme a tradição oral indica, pelos primeiros povoadores no local onde desembarcaram.
Teve como primeiro pároco, não só da ermida, mas da própria ilha, Frei Pedro Gigante, que é considerado pelos historiadores como tendo sido o introdutor da casta Verdelho no Pico. Bem aventurado, pois, por ter dado atenção, também, às coisas terrenas…
Também nas Lajes do Pico, o Museu dos Baleeiros. Imperdível.
Na sua loja podemos encontrar diversos livros que documentam a faina dos baleeiros, uma verdadeira gesta de sobrevivência para os ilhéus.
Um exemplo, entre muitíssimos, da tradicional e magnífica arte de gravação em ossos ou dentes de cachalote, onde podemos observar imagens de um realismo impressionante.
(Uma pequena nota para os coleccionadores do «politicamente correcto»: a caça aos cetáceos, nos Açores – que, aliás, cessou pelos idos de 80 – , não tem nada a ver com a caça industrial que se fez – e ainda faz – um pouco por todo o mundo. Ali tratava-se, de facto, de economia de sobrevivência e as condições pavorosas em que se efectuava recomendam algum respeitoso comedimento antes de se proferirem apreciações apriorísticas).
No porto das Lajes do Pico, o repouso entre fainas
No Museu dos Baleeiros, cópia de uma foto que documenta os trabalhos da lavoura que complementava a faina da pesca.
Lagoa do Caiado, na freguesia de São Roque. O deslumbramento da paisagem.
Nem só de vacas felizes se poderá falar, passeando pelas altitudes da ilha.
A uma altitude superior a mil metros, ruminando na paisagem, entre neblinas e horizontes impossíveis… Ainda assim, com um interessante toque decorativo na cornamenta.
Lagoa da Rosada, quase-quase a desaparecer por trás da neblina, que chega sem avisar e pode durar tempos infindos. Em meio minuto, vejo-te… e já não te vejo!
Caixa de correio na Ribeirinha – Peculiar reutilização.
No Pico, omnipresença flanqueando as estradas, a beladona (Amaryllis belladonna) assume aqui o pitoresco e carinhoso nome de «meninas que vão à escola» (com algumas variantes, diga-se).
Florescem em Setembro e «caminhando» ao longo dos caminhos são, na verdade, como meninas que se dirigem à sua escola…
Ribeirinha – O labor discreto, portas adentro.
Ribeirinha – A sua igreja, elemento omnipresente em qualquer das povoações, e o canal por onde corre a ribeira, mormente nas grandes chuvadas.
(Nota – para os puristas, lamento, mas não resisti a «varrer» da imagem tudo quanto eram cabos eléctricos, a perturbar a paisagem.)
Ainda na Ribeirinha, o interior da marcenaria onde se formaram muitos dos marceneiros que ainda existem na ilha, conforme nos informou um senhor que, passando por nós, nos facultou uma bela lição de História da povoação… e, no final, apresentando-se como professor de História aposentado, ainda nos pediu desculpa pelo tempo e conhecimentos com que nos brindou.
(A fotografia foi obtida através de uma vidraça muito manchada pelas agruras do tempo…)
Um vitelo curioso com os processos de industrialização.

Pico – Açores – Setembro de 2021 – A saga (fotográfica) – I

Recepção, à chegada do voo da SATA
Vista da janela do meu quarto – possibilidade de sonhar acordado.
(São Jorge em fundo)
Primeiro visitante autóctone, a anunciar a exuberância das flores.
Segundo visitante autóctone, agora em chão de lava.
O bucolismo das paisagens… A calma fresca do ar que se respira… Ah, Açores, prouvera que não permitisses que o turismo que tudo destrói te destrua.
Esta simpática veio averiguar se não estragávamos o que estava.
Na Lagoa do Capitão, a resistência das árvores.
Não há bela sem senão. Nos Açores, a conteira (Hedychium gardnerianum) é uma planta invasora cuja proliferação prejudica grandemente a flora autóctone. Ainda assim, e seguindo a pujança que as flores mostram por aquelas paragens, é de uma beleza apelativa.
Na Lagoa do Capitão, com o Pico ao fundo e à esquerda, encoberto pelas nuvens, uma involuntária guardadora de patos mudos partilhou um pão com o bando… Foi amor à primeira vista!
Sua excelência, o Pico, e o seu inseparável Piquinho são personagens caprichosas. Surgem aos olhos da populaça apenas quando lhes dá na veneta… E bem podemos estar uma hora de cabeça no ar à espera do momento, que é tempo perdido. Aqui, piscou-me um olho e logo desapareceu no seu manto de nuvens.
Creio bem que, quando alguém fala de vacas felizes, deve estar a referir-se a estas criaturas, que são uma constante, deambulando por toda a ilha.
Na vila da Madalena, a homenagem do município e do povo do Pico aos Homens do Canal, na pessoa de Gilberto Mariano da Silva.
(Ver pormenores em https://acores.fandom.com/wiki/Gilberto_Mariano_da_Silva).
Em fundo, a Igreja de Santa Maria Madalena.
Vista geral do interior da Igreja de Santa Maria Madalena, na vila de Madalena.
Os moinhos de vento, de origem flamenga, pontuam a paisagem do Pico. A sua cor vibrante, na paisagem, destaca-os e transporta-nos para vivências não muito longínquas…
Na imagem, o moinho do Saca, no porto da Madalena.
O moinho do Frade, na Canada do Monte (freguesia de Criação Velha), rodeado pelo modo peculiar de cultivo da vinha, na ilha do Pico
Vista parcial do sistema de cultura da vinha na freguesia de Criação Velha, mas existente por toda a ilha.
Bilhete postal do ancoradouro da Madalena, com vista para o Faial.
A quase imprescindível visita ao Cella Bar, na Madalena. Bons petiscos, bons vinhos, magnífica vista… e convém levar uma carteira razoavelmente recheada, principalmente em dias de sol.
Vista parcial do interior do Cella Bar. Original e aprazível.
Bonecos confeccionados com folha de dragoeiro – outra originalidade.
Imperativa a visita ao Museu do Vinho, também na Madalena, para quem pretenda ter uma noção do trabalho ciclópico do cultivo da vinha naquele chão de lava.
No exterior do Museu, uma plataforma que, para além de uma paisagem soberba, permite apreciar, de alguma altura, a construção labiríntica de um «campo de cultivo».
Ainda no exterior do Museu do Vinho, a magnificência insólita dos dragoeiros.
Vá lá… não se trata de nenhum dragão de Komodo… Mas, ainda assim, trata-se de um dragãozinho de-qualquer-modo.

a ti, Porto
(apontamentos de viagem)

Tu sabes que eu te visito pouco. Trago saudades que, depois, levo. Mas sinto a falta, de longe em longe, da neblina que vem do rio e daquele «timbre pardacento», do Carlos Tê, que faz lembrar um portal do tempo a transportar-me para lá da vida.

Então eu cá venho, de longe em longe, pagar tributo de nascimento. A ver o Douro encrespar-se ao mar, espreitar furtivo e malicioso as pernas das pontes todas que o vão cruzando. O casario a vê-lo passar, espreitando-o por mil janelas, ora dourado, a fazer jus ao nome, ora eivado de tons de azul, em diálogo de nuvens, e carreando barcos que levam tantos turistas quantas as pipas que, antes, traziam.

Rabelos sem velas desvendam as tuas margens, mas não mostram os teus segredos. As carqueijeiras a penar íngremes ladeiras. A canalha a mergulhar no rio à cata das cinco coroas lançadas por mão pródiga, quando não do mísero tostão. O vozear das crianças, nas «ilhas», a modos que creches de aflição, ou o menino de pé descalço que cantava, pelas esquinas, acompanhado pelo pai, com uma guitarra velha, e vendendo as letras, para arrecadar os tostões da sobrevivência. As lavadeiras a ensaboar as tuas águas de conversas brejeiras e palavrão de exorcizar pecados velhos, a perna ao léu que tinha sempre mirones a apreciar. As cheias, que subiam pelas casas acima, na zona ribeirinha, e que eram tanto espectáculo como aflição de rotina. A faina do rio, com o Gastão, pelo meio do enredo, a salvar vidas ou a resgatar corpos…

Quero confessar-te que nada tem de nostalgia esta minha conversa. Mas, mal atravesso uma das várias pontes que me fazem chegar a ti, estas memórias saltam-me, recorrentes. E que lhes hei-de eu fazer? Contrariá-las? Nem pensar… E, depois, eu fazia-me de quê?

  • Jorge Castro
    15 de Setembro de 2021

Jorge Sampaio

(Lisboa, 18 de setembro de 1939 – Carnaxide, 10 de setembro de 2021)

Quando nos lamentamos por ausência de valores ou de referências nas nossas vidas que possamos transmitir às gerações vindouras, para além de nos auxiliarem a nós próprios a trilhar a dureza dos dias, lembremo-nos de um nome, que é um exemplo maior:

JORGE SAMPAIO