passando uns dias em aprazível destino

Se excluirmos as inversões de marcha em autoestrada, na geringonça, ou a constância exorbitante dos combustíveis, da energia, da água, a vida vai…

Um tempo de deslocação da «zona de conforto» é sempre uma alegria, excepto quando não é. Também pode ser de razoável eficácia nas nossas vidas, excepto quando não é.

Mas o homem lusitano porfia a descoberta, seja em longínqua caravela quinhentista, seja em moderno tuc-tuc, que nos desvende os recônditos mais inacessíveis do espírito dos locais e das gentes.

Breve exemplo do dédalo onde estamos instalados…

Pela manhã, alguns autóctones vieram desfrutar do calor do sol no parapeito da janela, assim a modos de nos darem os bons dias e antes de se fazerem à vida.

E – lá está! – uma bela praia, razoavelmente sossegada, ainda que o malvado anticiclone dos Açores tenha rumado a Norte e nos tenha deixado a água gelada. Mas queixamo-nos de quê?

Enfim, a minha desgraçada consciência cidadã não percebe muito bem porque é que todos os restaurantes deixaram de aceitar qualquer tipo de cartão de pagamento e seja preciso mendigar o sempre esquecido recibo… Isso é que me deixa com algumas suspeitas quanto à «avassaladora vaga de turismo» e os correspondentes benefícios para a nação.

Mas isso sou eu que tenho a mania…

 

azulejos da estação de comboios de
Duas Igrejas (Trás-os-Montes)

No Nordeste Transmontano, com a incúria a que estamos tão (mal) habituados, jaz morta e arrefece a estação de comboios de Duas Igrejas.

Terminal da linha férrea de Trás-os-Montes, quedou-se esta por Duas Igrejas – não chegando a Miranda do Douro por meia dúzia de escassos quilómetros -, por ser ali o local dos silos cerealíferos da conhecida «campanha do trigo» do Estado Novo – sim, que também ocorreu em Trás-os-Montes e não apenas no Alentejo. Enfim, levar pessoas até à capital do concelho não faria falta… Bastava alcançar os cereais.

Por estas e outras razões que a razão vai desconhecendo, antes como agora fazem-se coisas estranhas que se deixam, depois, desfazer estranhamente sem que, entre esses dois tempos, o cidadão se sinta envolvido, participante ou cúmplice.

Chamo a vossa atenção para o curioso do cartaz afixado e para a circunstância de todo o interior do edifício estar a ameaçar ruína. Ou seja, o eventual roubo está acautelado; a mais que provável derrocada, não sabemos… Sem mais comentários, aqui ficam as imagens:

há mar e mar… um que é de trazer areia, o outro de a levar

Por vezes, ele há um mar que não dá a mínima importância ao cuidado dos homens em manter uma praia com ar de ser sempre uma praia igual…

… e, depois, vem outro mar que desfaz o que o anterior fez, mostrando o que ele próprio esconde.

E, de súbito, desvenda a arriba fóssil que existe ali, em Carcavelos, e que muito poucas vezes está visível.

É uma espécie de sandes de conchas, como se em determinado momento longínquo, tudo o que fosse ostra à face da terra (ou quase) tivesse escolhido Carcavelos para residência definitiva.  

Os desígnios da Mãe Natureza são insondáveis e sempre misteriosos. O que terá acontecido ali? Terá ocorrido a existência, no local, de algum pólo universitário para ostras? Ou terão, tão-só, sido votadas ao ostracismo?

paisagística efémera II

Aparentemente infindável a capacidade de a beira-mar se mostrar beira-vida, nessa imensa diversidade…

espaço dunar I

espaço dunar II

espaço dunar III

desfocagem virtual

o efémero incongruente (ou a rampa de lançamento ao chão…)

um português, aqui

o equilíbrio sempre possível a-ver-o-mar

chuveirinho intervencionado

  • fotografias de Jorge Castro

paisagística efémera

Basta ter olhos de ver. Ter olhos de sentir. E a realidade transmuta-se nesse olhar. Ela, que sempre ali esteve, reapresenta-se: eis-me aqui. O que queres de mim? Ora, aprecia-me, vista daqui deste lado…

o repouso episódico entre voos e mergulhos

um olhar austero

à sombra da neblina

e o Bugio aqui tão perto

vestígios rupestres na areia com pegadas aleatórias

a navegação sempre atraiu as atenções

o corre-corre diário pelo sustento

todos os passos vão dar à neblina

quatro mosqueteiros com fortaleza ao fundo

há mais castelos na areia

olhos de água alienígenas

o que fica das águas passadas

malhas que a maré tece

impressão reflexiva

esculturas bidimensionais

uma cascata mais pequena do que eu

um só olho de água  – será outro Ciclope?

escultura arenosa com árvores ao fundo

uma baleia? e porque não?

  • fotografias de Jorge Castro