Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

o azar do poema

ao costurar dois conceitos
cuidei ter feito um poema
eram meros preconceitos
preceitos para uma cena
de teatro de fantoches
ou até de marionetas
onde por mais que deboches
assim nascem os poetas

dois conceitos saturados
do sal que a vida nos traz
em contraluz ofuscados
com sol batendo por trás
como quem tange a rebate
um sino que não está lá
por electrónica que farte
do tanto que ela nos dá

um poema incontinente
de mil pés ambulacrário
a correr de trás para a frente
e sempre em modo contrário
quem o ouviu poema o disse
quem o sentiu mais choroso
chamou poema-chatice
ao tal poema manhoso.

  • Jorge Castro
    24 de Julho de 2023

Numa passeata para distrair o pensamento – II

– Quem tem amigos não passa mal.

– O rebanho.

– O progenitor do rebanho.

– O curador do rebanho, no caso, também conhecido como pastor.

– Tratado sobre a arte de bem cavalgar toda a sala (é mesmo sala, não foi engano…).

Na encerrada estação de Marvão-Beirã, uma família de cegonhas padece sob a canícula.

– Marvão.

– E, ainda, Marvão e o velho efeito do espelho.

– E, outra vez ainda, Marvão.

Uma nota: uma localidade sem cabos eléctricos a perturbarem a paisagem! A minha chapelada!

– Estação de comboio (abandonada) Marvão-Beirã.

Mais uma prova indesmentível de que somos um país rico e perdulário, onde nunca se atina com possíveis formas de rentabilizar, reutilizando, património edificado… antes que se desmorone.

Valha-nos, então, o foguetório e o festivalório, tão do agrado dos sacristãos do efémero, para irmos coçando todos estes eczemas (se quiserem, podem chamar-lhes dermatites atópicas, que dá um ar mais «apetudeite»).

– De volta a Castelo de Vide. À primeira vista, pareceu-me que a representação de Cristo se preparava para um solo de contrabaixo. Depois, vendo melhor…

Em Marvão, o restaurante-café O Castelo. Um bom sítio para estar.

Apreciei, especialmente, a vertente café. Já o «lounge» tive alguma dificuldade em perceber como desfrutar. O meu velho problema com as línguas estrangeiras…

É verdade que a paisagem é bonita e vê-se até muito «lounge», mas creio que a ideia não era essa…

Numa passeata para distrair o pensamento – I

Numa passeata para distrair o pensamento (1)

– Castelo de Vide

Numa passeata para distrair o pensamento (2)

– Menir de Meada, do alto dos seus 7,15 metros de altura, uma impressiva representação do Neocalcolítico.

Numa passeata para distrair o pensamento (3)

– O Mosteiro da Flor da Rosa – magnífico!

Numa passeata para distrair o pensamento (4)

– Ammaia – uma importante cidade romana, fundada há cerca de dois mil anos, já dentro do território da Lusitânia, cuja investigação está a ser desenvolvida à portuguesa (curta… e morosa). O espaço museológico: excelente!

A fotografia publicada mostra, a negro, o extraordinário traçado da estrada actual para Portalegre que, distraída e/ou inconscientemente, foi construída, em 1920, sobre os relevantes vestígios da povoação.

Deixei um breve comentário no livro de visitas: «Desenterrem-me, porra!».

Ó autarcas da minha terra e demais mandantes, acordai… e agitai-vos um pouco em prol da cultura a sério, nem que seja como prova de vida!

Numa passeata para distrair o pensamento (5)

– Ainda a propósito de Ammaia: imaginem, através desta imagem, a dimensão e o interesse deste espaço. E, logo a seguir, pensem que o acesso aos vestígios desta cidade nem sequer estão perturbados por edificações posteriores…

Numa passeata para distrair o pensamento (6)

– Em Castelo de Vide, uma exposição por Abril, sempre!

Numa passeata para distrair o pensamento (7)

– Em Castelo de Vide – um jardim com rosas.

Numa passeata para distrair o pensamento ( 8 )

– Ermida de Nossa Senhora da Penha – vistas diurna e nocturna.

Numa passeata para distrair o pensamento (9)

– Núcleo museológico de Ammaia: pequeno e, no entanto, cheio de graça.

Numa passeata para distrair o pensamento (10)

– No claustro do Mosteiro da Flor da Rosa – uma Andorinha-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris)

memória descritiva

Nostálgico. É isso… Relembrando um daqueles momentos em que estive um pouco em companhia de mim mesmo.

MEMÓRIA DESCRITIVA

a noite descera serena e silente
sobre o empedrado húmido da chuva
aqui e ali uma azeda gritava
numa teimosia a cor que brandia
numa comissura breve do lajedo
crescia em recanto a rubra papoila
tão desvanecida pela noite descida
talvez a aguardar a nova alvorada

era primavera em cada ruela
onde a luz da lanterna tanto esmorecia
e o casario fundia em fraguedos os seus alicerces
contra a intrépida agrura de tanto abandono

não se via vivalma nem se pressentia
só estes meus passos desassossegavam
a quietude pasma do lugar perdido
se houvera risos e ecos de passos passados
do labor agreste
do gado de volta ao sítio de abrigo
do regato ao fundo bordejado a freixos
marginado a plátanos que o vento tangia
restou só a fala da água e da brisa
nesta noite fresca sem ninguém à vista

há o coaxar teimoso das rãs
há o pio surdo e nocturno de um mocho
um grilo
a cigarra
a brisa nas ervas
e algum bater breve de porta entreaberta
saudosa de mãos a dar-lhe um destino

e naquele lameiro há anos sem uso
avistado ao longe numa lua cheia
as pedras dos muros que ainda o ladeiam
estão de sentinela em missão cumprida.

  • Jorge Castro
    23 de Maio de 2023

ainda um poema de amor?

quando olho para ti
esses teus olhos
lembram sempre aquele mar cheio de estrelas
onde cedo aprendi a navegar
nem era meus os caminhos
eram delas
reflectidas nessa ondulação do mar

sempre em vão me esforcei por entendê-las
por trazê-las junto a mim
ao meu lugar
mas talvez por serem tão somente estrelas
tão prementes
tão belas
tão distantes
só as tive na carícia de um olhar.

  • Jorge Castro
    09 de Maio de 2023

viva o 25 de Abril!

A VIDA SAIU À RUA NUM DIA ASSIM

porque o tempo é sempre feito de mudança
as quimeras e utopias são reais
muda o tempo muito mais que a vista alcança
mas o sonho esse então nunca é demais

há-de ser sempre Abril este meu hino
de lutar contra o pavor de ter amarras
há-de ser de Abril decerto esse destino
de fazer de negras noites manhãs claras

esse tempo
tempo este
o que virá
onde tu e eu e nós gritamos sim
contra muros a erguer penas e espadas
e ao sair a vida à rua em dia assim
vai trazer-nos boas novas e alvoradas

esse tempo
tempo este
o que virá
feito urgente em cores da fraternidade
a trazer ao peito o grito conhecido
sempre urgente a relembrar toda a cidade
que o povo unido nunca mais será vencido

esse tempo
tempo este
o que virá
cravo-Abril sendo flor e temporã
de acender este querer ser que em peito arde
por mais que tarde já lá vem o amanhã
porque Maio vai florir e nunca é tarde.

  • Jorge Castro
    Abril de 2023

o beijo

Dizem-me que houve, há dias, o dia do beijo. Ora, para o bem de nós, é melhor que nos beijemos sempre que apetecer.

E, por falar nisso, preparando uma sessão em que estarei, hoje, envolvido, tropecei com este meu poema, que vos deixo, e que já conta com uns anitos de ver a luz do dia. Espero que ele vos estimule o dia…

beijo

vês?
chegámos de novo a Abril
e os teus olhos abrem-me sempre novas madrugadas
os teus seios de oferendas
mil ensejos
mil moradas

o teu ventre abre-se em flor
e cruzas o tempo
na promessa de um prazer que é quase dor
ou quase sede
de que abusas

e a tua pele quando me acolhe
de veludo a maciez
mas quase ardência
nessa urgência em que eu pare
e p’ra ti olhe
e ao de leve te pressinta
uma premência
de ti um fremir quase ventura
que estremece
porque tanto me apetece
dos teus lábios a suave comissura

a minha língua toca-a levemente
e os teus lábios recebem-me
e desenham-se em sorriso
e afogam-me
e bebem-me
sem aviso
e o tempo voa assim
sem dor
nem hora
porque é feito de Abril
o que em nós mora.

  • Jorge Castro
    22 de Abril de 2010

desenhando no parque

Porque hoje é sábado, como diria o velho Vinícius, fui passear até ao parque para tentar corresponder ao desafio que o Carlos Peres Feio fez para o próximo dia 15 de Abril.

DESENHANDO NO PARQUE

– em contemplação bucólica (também faz falta…) num jardim que me acolheu

vou ao parque e faço um traço
no espaço que deslaço
onde a vida se entretém
risco a risco lá me arrisco
enquanto o sol permanece
enquanto a noite não vem

sinto o verde que apetece
e as flores que mal despontam
sob os pés de mil passantes
e na sombra do arvoredo
estão dois jovens amantes
que despertam nostalgia
num beijo que é dado a medo
à pressa e sem demasia

no espelho da lagoa
as aves criam enredos
perturbando a quietude
que os peixes cruzam à toa
e os meus traços são vontades
que afloram o papel
recriando realidades
como ave quando voa

nesta paleta de cores
não me cabem os odores
nem os gritos de criança
é o que vejo e pressinto
neste parque onde me sento
p’ra além do que a vista alcança

nem há guerra nem há paz
só tanto o que à vida vem
quanto à vida satisfaz

lá estou eu sem lá estar bem
pois por mim nem sequer dou
em tanto que o parque tem.

  • Jorge Castro
    08 de Abril de 2023

a propósito da opinião sobre quem opina

Leio, com frequência, a crítica nas redes sociais de que há, por aqui, gente que não se enxerga e opina sobre tudo como se de tudo fosse entendido.

Creio que esta crítica merece alguma ponderação. Opinar sobre tudo não trará mal ao mundo enquanto não pretendermos, ao emitir uma opinião, obrigar os outros a segui-la.

Se, por outro lado, emitirmos uma opinião errada ou errónea que seja contraditada por alguém que saiba mais e melhor sobre esse assunto, ou por melhor acesso a informação ou por maior domínio de conhecimento, o contributo desse alguém será precioso para um melhor esclarecimento do primeiro emissor.

Pessoalmente, já fui inúmeras vezes corrigido por bons amigos que muito prezo e tanto mais pela sua frontalidade. Isso não me impede de, em cada passo da jornada, estar atento ao mundo que me rodeia, muito pelo contrário.
De Paulo Marques, professor, com a devida vénia, respigo a resposta de Ramalho Ortigão aos seus críticos que o acusavam de falar de tudo sem, verdadeiramente, aprofundar nada:

“O meu grande mal é não me interessar especialmente por uma coisa só, qualquer que ela seja, porque me interesso completamente e absolutamente por tudo. A indigente multiplicidade dos meus pontos de vista inabilita-me para o especialismo.»

Também o romano Públio Terêncio Afro terá proferido a frase, adoptada por Marx como lema, segundo a qual “sou homem e nada do que é humano me é estranho”.

Por outro lado, muitas vezes a crítica a uma opinião alegadamente superficial é, na verdade, sustentada por uma arrogância intelectual de quem, pretensamente, muito sabe, mas guarda esse saber no bolso interior do casaco, para que não lho roubem… Ainda que haja, por aí, muitos carteiristas do saber e do conhecimento.

com votos de um 2023 afeiçoado ao jeito de cada um…

E, já agora, para ser só para vocês

– ainda que melhor seja dizer “só para vós”,

que o Português se quer bem falado a viva voz –

deixo os votos de um dois mil e vinte e três,

fecundo, airoso, jucundo, feliz e nada atroz

nem sequer marrado por uma qualquer má rês

das que sempre vivem no meio de nós…

Novo ano e ano novo em cada laço

em que nos vejamos por aí para um abraço.

– Jorge Castro

Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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