Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

isto é que é qualidade de vida!

Houve um grande incêndio numa estação de tratamento de resíduos sólidos, em Trajouce, concelho de Cascais, no dia 10 de Julho de 2021.

Ver localização em:
https://www.google.com/…/data=!3m1!1e3!4m5!3m4!1s0x0…

O fogo foi considerado extinto por volta das 18 horas do mesmo dia… ainda que pela meia noite, 150 operacionais estivessem a combater as chamas.

A coluna de fumo espesso e escuro espalhou-se intensamente pelos concelhos de Cascais e de Oeiras.

Ouvi apenas uma tímida recomendação para que os habitantes de Oeiras e Cascais não saíssem de suas casas e, dentro delas, usassem máscara. Fora e dentro de casa, o cheiro extremamente desagradável e intenso, hoje, dia 11, pelas 10h45, continua a fazer-se sentir, intenso e incomodativo.

Estações de tratamento de resíduos urbanos em meio urbano, com grande parte dos produtos da recolha a céu aberto, onde os ventos dominantes espalham os eflúvios exactamente sobre as zonas mais densamente povoadas… não será de pensar, sei lá, que talvez esta localização e os respectivos equipamentos sejam de remodelar? Se calhar, até com urgência, digo eu. Creio que já o Mário Soares enquanto presidente da república disse isso mesmo aquando de uma visita às instalações… e já lá vão uns anitos, mais propriamente, em 1992).

Julgo ser oportuno acrescentar que o problema principal do mal de que vamos padecendo incide, especialmente, nas vias respiratórias. Além disso, o sol que se esperava para hoje, desapareceu.

O Serviço Municipal de Protecção Civil já disse alguma coisa?

Algumas imagens elucidativas, respectivamente de Rodrigo Antunes, Paulo Cunha/LUSA e LUSA:

um copo de água não se nega a ninguém.

Estou a pensar que isto de viver num concelho que ganhou a fama de ser o mais chique de Portugal – ainda se lembram do termo? – tem, no entanto e nos entrefolhos dos interesses instalados, muito que se lhe diga e nem tudo é abonatório do estatuto.

Seria longa e fastidiosa a conversa, por isso vou encurtar. Falemos de água ou, mais exactamente, da facturação das Águas de Cascais, S.A., que é uma daquelas empresas privadas vá lá a gente saber porquê.

Nem tecerei grandes comentários. Deixo apenas um extracto da última factura recebida. Consumo real, lido e facturado, correspondendo a 60 dias: 3 metros cúbicos. Valor a pagar 36,11 €.

Estou a pensar muito seriamente em fazer um contrato de abastecimento com uma empresa de água mineral.
A chatice é que, alegadamente, no interesse da saúde pública e pela letra da lei, sou obrigado a ter um contrato com as Águas de Cascais.

Por acaso ou por razões de mau feitio, uma legislação que me obriga a ter um contrato com uma empresa privada, sem concorrência, também é uma história para a qual ainda hei-de pedir a um entendido que me faça um desenho para perceber melhor o conceito, que isto da idade anda a tirar-me muito discernimento…

Deixo-vos, então, o tal extracto que é um tratado de fintas e malabarismos dignos de um Cirque du Soleil.

liberdade (sobre o tema de «A Lista de Schindler»)

Revisitando «A Lista de Schindler»

A oportunidade das coisas que fazemos é, quase sempre, muito própria e, geralmente, intransmissível. Este quase-poema foi escrito sob a influência do tema do filme, da autoria de John Williams, e das imagens sempre aterradoras de uma realidade que nos está próxima e, lamentavelmente, sempre muito presente: o menosprezo pela vida. Aqui vo-lo deixo:

LIBERDADE (SOBRE O TEMA A LISTA DE SCHINDLER)

quanto tempo há-de passar
oh quanto tempo
quanto rios hão-de secar
até cessarem de se inundar com as lágrimas
da miséria humana?
porque percorremos os bosques
do contentamento
os céus puros
e até as melancolias
dos amantes enternecidos
se mergulhamos depois as mãos no sangue
dos nossos irmãos
por uma fé iníqua
ou pela mera angústia de viver
pelo medo sem sentido
de ser?

a liberdade
flui em cada vida que brota
no eterno retorno da mesma vida
essa liberdade
entranhada no ser que somos
razão e matriz de vida e razão de ser
uno e um no meio dos outros
mas partilhado por tudo quanto de nós
se faz com o fluir do tempo
desse tempo por onde todos vamos perpassando
na ininterrupta caminhada
até chegar a hora
de passarmos o nosso testemunho e legado
ao mundo que nos acolheu
e a quem de tudo somos devedores

pelo meio do troar hediondo da guerra
e os gritos desgarrados do horror
a morte do nosso semelhante às nossas mãos
é a derradeira manifestação de aviltamento
e cobardia
é a negação maior da nossa própria existência
da nossa razão de viver
da nossa própria liberdade.

  • Jorge Castro
    20 de Junho de 2021

reflexões avulsas entre uma denúncia à embaixada russa e as expectativas do euro 2020, em 2021

Eu, por acaso, cada vez percebo menos de tudo, aproximando-me, a passadas largas, do estadio do só sei que nada sei.
Mas a cena da divulgação dos dados dos elementos alegadamente russos que organizaram uma manifestação legal, em Portugal, não será, entre muitas outras coisas, uma grosseira violação à legislação da protecção de dados?
Ah, pois, claro… a legislação só obriga os cidadãos. As instituições são superiores a essas minudências.

Dia 10 de Junho, ainda versejando a propósito:
tão grandioso e medonho
um Portugal adiado
que o Sol a meio eclipse
deu lugar e vez ao sonho
e em jeito de apocalipse
foi brilhar para outro lado…

Pedimos desculpa por esta interrupção da capacidade de raciocinar. Portugal segue dentro de momentos.

Atenção aos incautos: aproxima-se aí uma vaga de patrioteirismo futebolístico que pode causar danos cerebrais irreversíveis.
Tente manter o seu cérebro em actividade autónoma… nem que seja só durante os intervalos dos jogos.

Pequeno conto tão ficcionado que até parece verdade, mas não é:
Funcionário de uma câmara municipal em modo queixinhas e com problemas de afirmação:
«- Oh, sotor, aquele menino diz que o sotor anda a bater nos meninos…»
O pai do menino funcionário diz que se trata de uma atitude errada e, para castigo, vai nomeá-lo para um cargo qualquer de direcção de qualquer coisa. E o pimpolho acabou por ser nomeado director de turma.
Assim se reconhecem e punem os erros úteis, a bem desta e de outras «nações».

Litania ao Dia de Portugal 2021

venha lá a sardinha
as papas e os bolos
de enganar os tolos
a chuva miudinha
uva sem grainha
venha lá o medo
venham os bretões
nos seus aviões
dar cor ao enredo
em cor de lagosta
como a gente gosta
mas sem sinapismo
venham lá depressa
espantar o Eça
criar mais turismo
venha lá a Covid
que ninguém duvide
que está p’ra ficar
assim como estamos
entre desenganos
a olhar para o mar
venha a valentia
de num qualquer dia
ao mar nos fazermos
mas com a alegria
de um submarino
que só anda a remos
venha lá o vinho
o amigo e o vizinho
e do mal venha o menos
venham caracóis
com os futebóis
tão bons de rimar
tal como a cerveja
e a tanta inveja
que temos p’ra dar
ah meu Portugal
plastificado
como o via O’Neill
como o canta o fado
não há outro igual

ou melhor dizendo
não há outro Abril…?

  • Jorge Castro
    10 de Junho de 2021

reflexões quadradas sobre actualidade obtusa

não há bolha que me valha
nem marquise que me aflija
nem o fio da navalha
apara só barba rija

pelo ar vão perdigotos
da nossa boca e nariz
uns mais tristes outros rotos
filhos da mesma perdiz

mas se uns tossem baixinho
não querendo incomodar
há quem tussa no vizinho
e há quem tussa pró ar

somos grandes somos lindos
somos país tal e qual
Portugal sonhos infindos
cheios de etc e tal

ah quem me dera quem dera
ao menos o prometido
como quem fica à espera
do ouro de algum bandido

as três sílabas de O’Neill
quanto jeito dão agora
se nos virmos de perfil
só singramos bem lá fora

povo bom e povo inteiro
assim meio a dar pró torto
as mais das vezes carneiro
outras carneiro mal morto

futebóis oh futebóis
somos de causar inveja
num prato de caracóis
bem regadinho a cerveja

amarfanhados de impostos
pelo mau fado de um fado
temos por consolo os gostos
num “face” mal amanhado

quanto ao mais haja saúde
paz e amor em lume brando
tangendo algum alaúde
lá vamos… de vez em quando

ah mas um dia isto vira
ah mas um dia isto muda
surge algum vate de lira
vai ser um deus-nos-acuda!

  • Jorge Castro
    em Maio chegando ao fim, pim!

SINTRA – Cascatas e Lapiás
(Parte III)

Rumámos, depois, ao terceiro destino programado para este passeio: a cascata de Anços (ou cascata do Mourão).

Um cabo dos trabalhos para localizar placas indicativas, como é norma. Quando, finalmente e após muitas manobras em vias estreitíssimas, julgámos ter chegado a bom porto, estou convencido de que descobrimos, afinal, o caminho mais árduo e penoso para atingir o nosso destino.

Uma pequena chamada de atenção para os serviços das autarquias: já consideraram o potencial turístico – e refiro-me ao turismo interno – que estes pequenos recantos poderiam representar para o comércio local? E, de seguida, já pensaram que os cidadãos mais «antigos», aqueles que ainda tenham algum poder de compra, têm, por outro lado, aquelas maldades que a idade nos traz: articulações cansadas, capacidade pulmonar e cardíaca que já conheceram melhores dias, etc., etc.?

Se já pensaram nisso, porque é que oferecem estas pavorosas vias de acesso aos vossos lugares de encanto? Ainda por cima, sem uma ambulância do INEM ali à mão para as mais que prováveis ocorrências… Por acaso, o nosso grupo sentiu-lhe a falta, à força de um incidente ocorrido mas, como desenrascados que sempre somos, lá nos safámos.

Enfim, a cascata. Outro lugar magnífico. Ao contrário da água da cascata de Fervença, esta corria límpida. As cabeleiras de limos, saudáveis e viçosos, albergavam os habitantes do costume, rãs, sapos, e bicharada miúda que íamos divisando no correr da água.


Aqui e ali, ainda um saco de plástico que algum parvo-maior por lá deixou ficar, como depósito de lixo mas, ainda assim, sem grande impacto na paisagem.

Também deparámos com um cidadão, com um canzarrão monumental, que considerou que o melhor do seu esplendor cívico era entreter-se a atirar ramos de árvore para a lagoa que a cascata forma, a fim de que o animalzinho de estimação os fosse buscar. E foi, sim senhor, muito bem mandado e com grande estardalhaço e reboliço da tal água límpida que, assim, deixou momentaneamente de o ser.

Mas isso, como é bom de ver, não foi culpa da paisagem… Nem as rãs ou os sapos são seres muito dados a reivindicações de qualidade de vida e outras minudências.

(nota de rodapé – é extraordinária a quantidade de vezes que, nos dias que vão correndo e em espaços de utilização pública, tropeçamos com um qualquer cidadão agindo como se tivesse a presunção de que o mundo foi feito só para ele…)

Sintra – Cascatas e Lapiás (Parte 2)

Lapiás é um nome estranho. Habituei-me a espreitá-los de fugida na estrada que leva a Negrais, sempre que me assaltava uma vontade forte de degustar um belo leitão, naquela região de Sintra.

Sinalização única na estrada

Como se pode ver no «doutor Google» e, nele, na «doutora Wikipédia», (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lapi%C3%A1s) , lapiás ou lapiaz (palavra derivada de lapiaz, do dialeto da região do Jura) é uma formação típica de relevos cársticos, produzida pela dissolução superficial de rochas calcárias ou dolomíticas. Também pode ser causada pelos ciclos de congelamento e degelo em regiões de clima frio. Esclarecidos? Ora, ainda bem.

Em termos estéticos, acrescento que os lapiás de Sintra me transmitem uma sensação de irrealidade, de estar num outro mundo, que conheço apenas de efeitos cinematográficos… mas que ali não existem. É mesmo assim.

Desta vez, decidi então ir observar esta curiosidade natural mais de perto. Estacionei mal, pois não há local nenhum, nas imediações, que sirva para tal fim. Presumo que seja, também aqui, para preservar o ambiente…

As formações rochosas que a natureza moldou

O manto vegetal – riquíssimo e de grande beleza e diversidade – que cobre, actualmente, todo aquele espaço impede a visão de conjunto do aglomerado rochoso. Mas proporciona, por outro lado, uma sensação de aventura e descoberta, pois temos de nos embrenhar no mato para desvendar as formações rochosas. Não se perde interesse no passeio, por esse facto, pois dá-nos azo a ir descobrindo, a cada passo, o que a natureza tem para nos oferecer: flores variadíssimas, insectos, espécies arbustivas, trepadeiras, árvores diversas, de que destacaria o carvalho cerquinho.

Carvalho cerquinho que me proporcionou o ensejo de esclarecer alguns dos meus acompanhantes sobre a origem dos bugalhos, que víamos pendurados da galharia, a par das bolotas, essas sim o fruto daquela espécie arbórea. Já agora, aqui fica um esclarecimento:

Maria João Horta Parreira, da associação Plantar uma Árvore, explica o que são os bugalhos, para que servem e como distingui-los das bolotas.

Os bugalhos são galhas, isto é, multiplicações celulares que se formam nos órgãos das plantas como resposta à picada de insectos ou ao ataque de fungos, bactérias ou nemátodos. Assim, os bugalhos não são frutos, mas estruturas que as plantas produzem em resposta a agressões externas. https://www.wilder.pt/naturalistas/cinco-factos-curiosos-sobre-os-bugalhos/

Como informação complementar sobre este passeio, sempre vos digo que existe um percurso para caminheiros, devidamente assinalado, que é útil para não nos perdermos naquele «enredo vegetal», com trilhos perfeitamente visíveis e sem dificuldade.

Na despedida, a natureza mostrou-se fazendo pela vida.

Sintra – Cascatas e Lapiás
(Parte 1)

Se a água do paraíso fosse acastanhada, turva e cheirasse a esgoto, se nela não existisse prova de vida que se visse, se o seu chão estivesse pejado de retraços ou desperdícios de mármore, se o seu acesso fosse – como porventura o imaginamos, ainda que por outros motivos – quase impraticável e de altíssimo risco, aquilo com que, ainda ontem, deparei na Cascata de Fervença (ou da Bajouca), em Sintra, seria um recanto do paraíso.

A estultícia do homem leva-o a dizer que esse recanto integra o «Parque Natural Sintra-Cascais», o que deixa esse mesmo homem e a sua acção muito mal colocados… ou até o próprio «Parque Natural», que se chamará assim para inglês ouvir, mas nunca para português usufruir.

O acesso… quase «natural»

Leio em https://visitsintra.travel/pt/visitar/miradouros-e-cascatas/cascata-da-fervenca, qualquer coisa de espectacular e promocional: «Esta cascata possui uma beleza deslumbrante, encontrando-se num recanto de acesso um pouco difícil e talvez por isso, seja tão encantadora, uma vez que se mantem no seu estado natural.»

Este «estado natural», com que a boa vontade de quem escreveu o texto nos surpreende, é composto por entulho, poluição e absoluta falta de manutenção de qualquer espécie no leito do ribeiro, com uma aparente exploração de pedreira, sobranceira à zona da cascata, a ajudar ao enredo.

A beleza ainda possível

O acesso viário, como tantas vezes acontece nestes recantos do Portugal infinito, destina-se, apenas, a iniciados. Placas sinalizadoras são inexistentes. Enquanto não se encontra um autóctone (que muitas vezes nem é português…) que indique a localização precisa do local, roça o impossível chegarmos a bom porto.

A ausência do canto das aves ou do coaxar das rãs contraria, entretanto, qualquer ideia de «estado natural»…

Cansa tanta maledicência mas, perante a beleza ainda restante do local, fica uma irreprimível sensação de desperdício e descaminho da «res publica». O município de Sintra não terá esta percepção?

O caminho de regresso, com consabidas «maravilhas arquitectónicas» e outros primores urbanísticos

viva o 1º de Maio
Dia do Trabalhador

De uma imagem por mim obtida no primeiro de Maio livre, em 1974, para o Soneto do Trabalho, de José Carlos Ary dos Santos:

SONETO DO TRABALHO

Das prensas dos martelos das bigornas
das foices dos arados das charruas
das alfaias dos cascos das dornas
é que nasce a canção que anda nas ruas.

Um povo não é livre em águas mornas
não se abre a liberdade com gazuas
à força do teu braço é que transformas
as fábricas e as terras que são tuas

Abre os olhos e vê. Sê vigilante
a reacção não passará diante
do teu punho fechado contra o medo.

Levanta-te meu povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.

Poema datado? Pois é. Nesta data comemora-se o Dia do Trabalhador! Porque é que não havia de ser um poema datado?

Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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