E vivó Carnaval! Há uns dias fiquei de publicar por aqui, a pedido de várias famílias, uma brincadeira carnavalesca, em forma de poema, que fiz, já há uns anitos, mas que me parece não ter perdido muita actualidade. Cá fica, então, para cumprimento de promessa:
Carnaval à portuguesa
Lucinda veio a terreiro trouxe um corpete ligeiro – saia curta – perna ao léu no treme-treme da dança treme o seio – treme a esperança treme quanto Deus lhe deu e no mar de lantejoulas entrevê o seu Honório exibindo as ceroulas do avô que já morreu – que em acabando a folia hão-de tratar do casório tal qual ele lhe prometeu –
e a turba já se atordoa c’o trio eléctrico à toa num espavento de som que vindo lá dos brasis espanta os nossos civis que aquilo sim é que é bom
Lucinda agita este corso seio à mostra mostra o dorso – dá à pernoca com alma haja calma – haja calma grita o agente aflito agarrando um expedito que corria no asfalto p‘ra tomar Lucinda a salto que pernoca assim mostrada perturba a rapaziada no desvendar do mistério deixem lá que é Carnaval ninguém leva nada a mal nem nada é caso sério
Lucinda toda ela vibra mostrando bem de que fibra é o corpetinho de lã e no cume do collant onde a saia acaba a racha por lá se perde e se acha a rendinha da cueca que desponta em cada passo queimando qual alforreca um olhar sem embaraço
pretinha assim rendilhada no contraforte da meia meia-volta volta e meia deixa a malta entusiasmada quais brasis nem qual Veneza assim sim à portuguesa uma coxa bem mostrada
e as plumas do pavão em frente ao seu coração vibram mais porque afinal em tempos de Carnaval no tempo amargo de crise o que o corpete desvenda é dádiva – não está à venda dá de si o que ela entenda enche um olhar que precise.
2023. Este foi o ano que passámos e no qual imprimimos a nossa marca, efémera, imprecisa, de relevância sempre subjectiva. Mas nossa e única.
A Terra girou sobre si mesma e em redor do Sol como sempre o fez, antes do nosso aparecimento. E assim se manterá depois de, inevitavelmente, abandonarmos esta nossa presente materialidade.
2024, o novo ano, aí vem. No fundo, nada se alterará significativamente no plano universal. Apenas os nossos actos poderão ser diversos e qualitativamente diferentes, assim nos valha o livre arbítrio.
Para quê? Ora, cada um saberá do seu caminho. Mas se o trilhar de mãos dadas com o seu semelhante, estou em crer que essa transcendência fica bem encaminhada.
Então, aqui ficam os meus votos de um bom ano novo para todos os humanos de boa vontade!
Vai este meu arremedo de poema ao vosso encontro, esperando encontrar-vos de boa e duradoura saúde e com a força anímica necessária e suficiente para fazer da vida o que ela tenha de melhor para vos (nos) oferecer.
Nos dias que vão correndo, em que se adensam velhas querelas e se dão grandes passos no sentido de um conflito mundial generalizado pelas sempiternas vontades hegemónicas de uns poucos sobre as vidas de tantos outros, sob o manto pouco diáfano das múltiplas religiões, apeteceu-me relembrar aqui o sonhador John Lennon e o seu tema «Imagine», sempre oportuno, sempre actual.
Esta tradução é de minha responsabilidade, sem especiais preocupações de retroversão poética, porque o importante é a mensagem transmitida, que é para ser entendida muito para além de ser apenas cantarolada.
Imagine não haver paraíso Imagine there’s no heaven É fácil se você tentar It’s easy if you try Nenhum inferno por baixo de nós No hell below us E por cima somente o céu Above us, only sky
Imagine todas as pessoas Imagine all the people Vivendo para o dia de hoje Livin’ for today
Imagine não haver países Imagine there’s no countries Não é difícil fazê-lo It isn’t hard to do Nada por que matar ou morrer Nothing to kill or die for E também nenhuma religião And no religion, too
Imagine todas as pessoas Imagine all the people Vivendo a vida em paz Livin’ life in peace
Você pode dizer que eu sou um sonhador You may say I’m a dreamer Mas eu não sou o único But I’m not the only one Espero que um dia se junte a nós I hope someday you’ll join us E o mundo será um só And the world will be as one
Imagine não haver possessões Imagine no possessions Pergunto-me se será capaz I wonder if you can Não haver necessidade de ganância ou fome No need for greed or hunger Uma irmandade do homem A brotherhood of man
Imagine todas as pessoas Imagine all the people Partilhando todo o mundo Sharing all the world
Você pode dizer que eu sou um sonhador You may say I’m a dreamer Mas eu não sou o único But I’m not the only one Espero que um dia se junte a nós I hope someday you’ll join us E o mundo viverá como um só And the world will live as one