Sendo este um espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.
Diário das cautelas num dia de covidamento (ou manual de procedimentos para espíritos cautelosos)
Levantei-me cedo. Hoje é preciso ir ao pão ou à farinha, pois já escasseiam cá por casa. Quando me aprontava para sair, ocorreu-me que o horário matinal está destinado preferencialmente aos velhos… Ora, não estou nada de acordo com estas discriminações sociais, portanto vou esperar pelas onze da manhã para sair.
Entretanto, muni-me de dois pares de luvas, da máscara mais ou menos cirúrgica – à cautela, coloquei outra máscara na minha mala, não vá o Diabo tecê-las – e de uma viseira protectora. Além disso, muni-me de um saco de plástico onde irei guardando o material utilizado.
Escolhi o calçado destinado a ir à rua e deixei atrás da porta umas calças, uma camisola, um par de peúgas e um par de chinelos caseiros para substituir a roupa que usarei no exterior. Também aí coloquei um cesto para onde lançar os produtos que vier a adquirir, além do pão, já que é sempre fundamental aproveitar estas excursões ao exterior e todos os cuidados são poucos, pois sabe-se lá por que mãos já terão passado por todos aqueles produtos e respectivas embalagens.
Quando, finalmente, me dirigi para o meu carro, aspergi-o, primeiro, em vários pontos sensíveis, susceptíveis de terem sido tocados por estranhos – utilizando uma das luvas, para a esfrega necessária. Retirei a luva, segundo os preceitos da OMS para a remoção de luvas, e entrei na viatura.
Estacionei com facilidade, pois, por estes dias, há felizmente muito pouco trânsito junto da praça onde me abasteço regularmente. Pelo caminho passei pela caixa multibanco, para fazer uma consulta de saldo e levantar algum dinheiro… Claro que calcei outra luva e muni-me de uma cotonete para pressionar as teclas, como mandam as boas normas de acautelamento.
Peguei nas notas com a mão sem luva, para não contaminar as notas, retirei a luva com a qual embrulhei a cotonete, sempre respeitando os ditames da OMS e depositei tudo, cuidadosamente no saco de plástico de que me munira para a recolha destes desperdícios.
Entrei com facilidade no mercado. Estavam apenas vinte pessoas à minha frente. Após a fila de contenção ultrapassada, chegada a minha vez, empurrei o fecho da porta com o cotovelo e a porta envidraçada com as costas – já era tempo de terem montado uma porta de abertura automática.
Escusado será referir que, por esta altura já tinha calçado o par de luvas restante, colocado a máscara e a viseira e fechado o casaco exterior até ao pescoço.
Também o senhor da segurança, à porta, me mimoseou com algumas aspersões complementares, que agradeci, prontamente.
Após esperar um pouco pelo desembaciamento da viseira provocada pela diferença de temperaturas, senti alguma dificuldade em fazer-me entender nas diversas bancadas onde me dirigi, pois as máscaras não facilitam o diálogo. Depois de passar pelo peixe, que logo acondicionei no saco das compras – o qual, aliás, tentei nunca colocar no chão, contaminadíssimo, decerto, entalando-o entre as pernas… – aspergi, vigorosamente, as luvas que esfreguei diligentemente e conforme os preceitos, antes de me dirigir ao balcão seguinte, para me abastecer do pão.
Pedi pão, que irei comer fresco entre hoje e amanhã, provavelmente congelando mais algum, mas pouco, que eu não sou de açambarcamentos inúteis.
Acondicionei-o junto ao peixe, repetindo as operações antes descritas… quando me lembrei que os sacos respectivos, para bem, também deveriam ter sido devidamente aspergidos e esfregados… mas esquece sempre qualquer coisa!
Prossegui por mais duas compras, sempre seguindo as normas processuais descritas, e cheguei ao fim deste périplo com a certeza relativa de que, graças a elas, não deveria estar a correr grandes riscos de contaminação.
Saí pela porta envidraçada depois de ter borrifado a maçaneta para a sua abertura, o que fiz, claro, com o cotovelo, empurrando-a com as minhas costas. A manobra revelou-se algo complexa, pois o puxador não foi pensado para este tipo de constrangimentos.
Dirigi-me ao carro, procedi à desinfecção sumária, absolutamente necessária, de possíveis zonas de contacto, descartei a viseira, a máscara e as luvas (por esta ordem) depois de colocar o saco das compras na mala do carro.
Aqui sobreveio aquela angústia de nunca saber se devo colocar, primeiro, o saco no carro ainda usando as protecções possivelmente infectadas, ou se hei-de manusear o saco, também ele possivelmente infectado, só depois de retirar o equipamento de protecção.
Entretanto, acautelei sempre a possibilidade do saco não tocar no chão, entalando-o entre as pernas.
Entrei na viatura. Dirigi-me directamente para casa. Ao chegar, esperava-me o carteiro com uma pequena encomenda, para a entrega da qual carecia de uma assinatura. E eu que já não tinha mais luvas… Toquei à campainha, esperando que a minha companheira me pudesse providenciar o material de protecção necessário, o que veio a acontecer: luvas e máscara (ainda bem que levara uma sobresselente), claro, pois a viseira talvez não fosse necessária, ainda que…
Depois do senhor carteiro se retirar, deixei a encomenda de quarentena numa arrecadação exterior, levei as compras para a caixa que deixara à entrada, tendo substituído previamente os sacos que continham cada produto, mudei de roupa, descartei este último conjunto de material de protecção, cumprimentei os vizinhos com um sonoro bom-dia. Os vizinhos aparecem sempre quando algum de nós está nesta fase de cuidados preventivos.
Calcei um novo par de luvas e levei a roupa utilizada para a máquina de lavar, e deixei os sapatos ao sol – duvidoso, pois hoje está de chuva… – após o que eu próprio me fui lavar cuidadosamente, com especial cuidado e prioridade para as mãos, claro.
De consciência cívica tranquilizada, apurei o saldo do dia: quatro pares de luvas usadas, duas máscaras, uma viseira, nove sacos de plástico… e almocei às quatro horas e trinta da tarde.
Cuidem-se, hem?
Jorge Castro
- 18 de Abril de 2020
pra não dizer que não falei das flores…
… recordei este título de Geraldo Vandré (https://www.youtube.com/watch?v=1KskJDDW93k) – lembram-se…? – ao fazer de conta que desenhava o canteiro de petúnias que tenho cá por casa. Compraz-me ver a sua diversidade e, todas elas, petúnias.

um poema para o dia de amanhã
Continuo com grandes dúvidas quanto à necessidade de um poema… Mas o que é certo é que lá vou tropeçando em palavras que se juntam sem pedir licença. Desta vez, por diversão feicebuquiana (com a Rosário Freitas) dei por mim agricultor… e surgiu isto:
POEMA PARA O DIA DE AMANHÃ
certo dia plantei uma metáfora
no húmus de vaga ideia
que sem saber me aflorara
adubei-a a réstias de inspiração
e protegia-a de agruras de ventos crus
ou de fera maresia
quando vi que enraizara
enxertei-lhe um soneto lento
de rima cadenciada
a meia altura da base
até um ponto incerto
algures entre o desconhecimento
e coisa nenhuma
só para ver se florescia
cerquei-a de vivências torpes
de mal-queridas verdades
de atropelos e más sortes
mas também de três sorrisos
um de papoila
outro estrela
e outro de ouvir o mar
onde o tempo esmorecia
e quando chegou Abril
já muitos anos depois
de um tempo de clausura
vi a aventura crescer
direita ao céu
perturbante
em cada folha uma pena
em cada fruto um poema
e Abril acontecia.
– Jorge Castro
em tempos de covid19, de 16 de Abril de 2020
alguém me recordou José Gomes Ferreira, o poeta
Porventura pela evocação do sacrifício de (outro) cordeiro pascal, tocou-me a mensagem da minha amiga Júlia Coutinho, que me recordou, hoje, um poema de José Gomes Ferreira, que é sempre oportuno. Aqui fica a mensagem da minha amiga e o poema, para que a memória nos auxilie a criar um mundo melhor.
E hoje, que estou a reler José Gomes Ferreira, envio um poema seu de Set 1979 quando a GNR matou dois trabalhadores no Alentejo.
O poeta chorou… e eu, não sendo poeta, fiquei tão chocada que não consegui reter as lágrimas durante dias. No Portugal de Abril a guarda matava um homem de 40 e um jovem de 17 por quererem trabalhar as terras.
Abraço amigo e… Páscoa Feliz nesta fase de reinvenção dos dias.
julia
Aqui
Nesta planície de sol suado
Dois homens desafiaram a morte, cara a cara,
em defesa do seu gado
de cornos e tetas.
Aqui onde
agora vejo crescer uma seara
de espigas pretas
Quando os dois camponeses desceram às covas,
Ante os punhos cerrados de todos nós,
Chorei!
Sim, chorei,
Sentindo nos olhos a voz
do que há de mais profundo
nas raízes dos homens e das flores
a correrem-me em lágrimas na face.
Chorei pelos mortos e pelos matadores
– almas de frio fundo.
Digam-me lá:
Para que serviria ser poeta
Se não chorasse
Publicamente
Diante do mundo?
José Gomes Ferreira
(Em memória de José Caravela e António Maria Casquinha, mortos em Montemor-o-Novo às mãos da GNR em Set. de 1979 por defenderem a Reforma Agrária)
pão caseiro confinado
Hoje está a dar-me mais para o serviço público. E, assim sendo, publico algo que vimos fazendo cá por casa… pelo menos até que os açambarcadores não limpem a farinha toda dos mercados. Segue imagem do produto final, que aperfeiçoamos a cada dia que passa e que está ao alcance de (quase) todas as bolsas. Apresento, também, a receita, em forma de exercício «enquadrado». Trata-se então do PÃO CASEIRO CONFINADO:

ontem eu fiz um pãozinho
hoje um pãozinho farei
e amanhã devagarinho
faço o pão como eu cá sei
junto à farinha algum sal
junto ao sal algum fermento
e misturo o farinhal
amassando a meu contento
e depois de levedar
ponho o chouriço e o toucinho
embrulho tipo folar
e espero um bocadinho
o bocado já passado
toca de ir para o forno
que não esteja assanhado
p’ra não queimar o contorno
passada uma meia horita
e depois de arrefecer
um tintol que me espevita
… e então é só comer!
– Jorge Castro
06 de Abril de 2020
NOTA DO AUTOR – Pode, até, distribuir-se pela vizinhança, atirando-o de janela a janela. Para tal, deve moldar-se a massa em forma de disco voador, como quem brinca na praia…
covid 19 – 21º dia de reclusão – reflexões avulsas acerca da plantação de couves
Há uma perturbadora e profunda sensação de irrealidade em tudo isto. Algo que se situa ali a meio caminho do filme de ficção, mas demasiado palpável.
Há cerca de quinze dias, na quietude do remanso pequeno-burguês em que tantos de nós se aconchegavam, onde estavam as nossas preocupações?
Talvez no próximo destino de férias. Talvez no modo de inventar dinheiro para manter o filho na universidade. Talvez no preocupante degelo da Antártida. Talvez na escolha da melhor oportunidade para trocar o carro. Talvez em adquirir mais um telemóvel topo de gama ou quase. Talvez na aquisição de uma entrada para ver jogar o seu clube de eleição…
Outros haveria – e diz-se que são bem mais de muitos – no desespero singelo de assegurar o pão-nosso-de-cada-dia, contemplando, de caminho, o pagamento da renda da casa, da água, da luz…
E eis-nos, sem aviso, a vivenciar essa obra de ficção científica, retidos em casa, em profunda clausura, cujo imperativo parte de nós mesmos, sem necessitarmos, praticamente, de qualquer influência exterior.
E sobrevém o ócio. Esse tempo insidioso em que temos tempo. Pra respirar. Para viver. Para a introspecção e, muito mais perigosamente, para reflectir, falando com os nossos botões – algo esquecido entre as virtualidades do velcro e do fecho éclair – exercício que caiu em desuso, como tantas outras pequenas coisas, na vida frenética a que nos entregámos, sem crítica e tantas vezes sem critério.
Olhando para as notícias diárias, parciais, desinformativas, voláteis e volúveis, dou por mim a ouvir, sem espanto, que o país conhecido como sendo o mais rico do mundo, os Estados Unidos da América, se debatem com a falência total de meios de protecção para os seus profissionais da saúde…
Ouço e vejo, logo mais, que a República Popular da China se transformou – e não terá sido da noite para o dia – na fornecedora global daqueles meios de protecção. A França recorre à China. A Itália recorre à China. A Alemanha recorre à China. Portugal recorre à China. Os Estados Unidos recorrem à China. A própria China recorre à China. O mundo, enfim, recorre à China!
E se, ontem, nos chocava – com lágrimas de crocodilo, tantas vezes – o regime ditatorial da República Popular da China, hoje faríamos uma peregrinação de joelhos a Fátima para agradecer as toneladas de equipamentos fornecidos pela China. Já para nem referir os médicos oriundos de Cuba, apesar dos indecorosos bloqueios com que convivemos, alegremente, anos a fio… O que dirão, hoje, os espíritos liberais e neoliberais perante esta realidade, em face da destruição dos tecidos industriais e comerciais para que tanto contribuíram, no seu apego aos «mercados», mas onde agiram como verdadeiras quintas colunas dos interesses transnacionais, sem pátria nem rosto?
E sempre com o cinismo hipócrita de nos garantirem que assim tem de ser porque assim funcionam os «mercados».
Aqueles que votam nos Boris, nos Trumps e nos Bolsonaros, mas que também votaram (e votarão) Cavaco, a quem devemos, cá pelas nossas paragens, a destruição das pescas, das indústrias pesadas (e das outras), da agricultura, da rede ferroviária, enfim, da nossa necessária autonomia, enquanto nação, o que nos dirão, agora, perante a nossa escassez de quase tudo? Perante a sangria, contada pelas muitas centenas de milhares de jovens (e menos jovens) com formações de topo, a quem aconselhámos o estrangeiro porque, por cá, sem empregos ou com ordenados insultuosos, só tínhamos para lhes oferecer uma mão cheia de nada?
E lá foram para a Holanda, onde os ordenados que auferem podem beneficiar do dinheiro que empresas «portuguesas» lá depositam. Mas foram, também, para o Reino Unido prestar os excelentes serviços que a formação em Portugal lhes proporcionou – e que ao Reino Unido nada custa – apenas porque podem receber, em dobro ou em triplo o que a mesquinhez e a ganância dos nossos empresários, com a cumplicidade dos diversos governos, lhes paga aqui.
E disto, dos nossos estimados parceiros europeus, que contrapartida colhemos nós?
A União Europeia desvanece-se, cada dia mais, perante o imperativo de fechar fronteiras, com cada país a voltar-se para si próprio, sem qualquer estratégia global e solidária, lambendo as suas feridas, sem olhar para os vizinhos, cultural e geograficamente tão próximos, salvo algumas, muito poucas, exemplares excepções.
Faltam máscaras de protecção? Liga aí à China. Faltam luvas? Liga aí à China. Faltam ventiladores? Liga aí à China. E a tal ditadura transforma-se na salvadora das pátrias e do mundo, o que pareceria até paradoxal se não fosse a realidade com que deparamos.
Se, em Portugal, pugnarmos pela «res publica» portuguesa seremos chamados de nacionalistas serôdios ou Velhos do Restelo, porque somos Europa. Mas quando a República Popular da China dá mostras de uma enorme pujança industrial, espantámo-nos, aplaudindo e, até, estranhando tal competência… Pobres e iludidos somos. Como se duas mãos na China valessem mais do que duas mãos em Portugal ou em qualquer outra parte do mundo.
Lembram-se do poema que nos dizia que «algo está podre no reino da Dinamarca»? Pois assim parece.
Equacionaremos estas questões quando, finalmente, sairmos do pesadelo? Ou já não haverá condições, sequer, para equacionarmos o que quer que seja?
Digo, há muitos anos, que quando algum de nós planta uma couve no seu quintal, isso também é economia. Apenas com a diferença de que ninguém o contabiliza como tal. Mas não é por isso que deixa de ter existência real.
Talvez seja esta a nossa oportunidade de passarmos a dar mais valor, então, às couves que cada um plante (se ainda houver quem as saiba plantar).
– Jorge Castro
02 de Abril de 2020 – no 44º aniversário da Constituição da República Portuguesa
era um dia sem ninguém
era um dia sem ninguém
e a terra ardia
no silêncio que em todo o mundo se ouvia
um silêncio mais tremendo
mais profundo
bem maior que o tamanho deste mundo
só brilhavam no céu
umas estrelas
que ainda ontem por lá não as havia
e brilhavam tanto mais
por cintilarem
no mais negro universo e mais profundo
no entanto
o seu brilho anunciava
que outro dia a nascer acontecia
– Jorge Castro – em 30 de Março de 2020
a propósito do distanciamento social
Porque em situações adversas a criatividade pode ser salutar, aqui fica uma sugestão e um apelo à indústria nacional: que tal criar e produzir massivamente uma protecção para o imperioso distanciamento social como aquele que se apresenta na imagem anexa? Já viram o impacto que teria nos transportes públicos, nas idas aos mercados… eu sei lá! E, passado o vírus, poderia ser utilizado como casota para o cão, galinheiro, casinha de brincar para os filhotes, etc., etc.,,,
Houve, até, quem me sugerisse que poderia ser electrificada!

um dia na vida do Corona Vírus – 17º dia de confinamento – reflexões avulsas
São oito horas e dez minutos da manhã. Espreguiço-me na cama. Hoje até era capaz de ir dar um passeio pela praia de Carcavelos mas, como não tenho cão, não sei se posso passear com a minha gata. Mas receio que ela não esteja pelos ajustes, tão dada que é ao livre arbítrio. Além disso, na praia nem se deve passear o cão, mas enfim… Com a minha companheira presumo que não posso. Pelo menos, não está anunciado no Estado de Emergência meiguinho que nos calhou em sorte e, se não está, é melhor não tentar essa sorte.
Levanto-me para as rotinas matinais. Dirijo-me ao espelho da casa de banho e reconheço vagamente o tipo que está ali a olhar para mim, a quem cumprimento, com um esgar um pouco despenteado, confesso.
Abro, em rotina, as portadas da casa toda, confirmando que a minha companheira já se adiantou no pequeno-almoço, como tem vindo a ser hábito ultimamente, pois fico até tarde repartido entre a televisão e o computador, só reparando, então, que o dia está bonito. Ficar acordado até tarde é no que dá: levantar tarde e perder o amanhecer. Assim vai o desequilíbrio do meu mundo… Ainda por cima, fui informado de que dormir pouco fragiliza o sistema imunológico.
O confinamento, entretanto, tem aspectos curiosos: temos tempo para pensar. Desde as mais sublimes altitudes até à mais comezinha reflexão. Da salvação do mundo até à limpeza do excremento do cão que um vizinho passeante deixou à minha porta, que a clausura tem as suas fugas e dádivas inopinadas.
Tomo o pequeno-almoço visitado, como habitualmente, pela passarada que se habituou a partilhá-lo connosco. Bastaram umas poucas sementes diárias e restos de pão rotinadamente colocados num comedouro improvisado para lhes comprar uma confiança relativa, mas muito aprazível.
Não devemos, no entanto, abusar deste subsídio, pois interessa que a passarada não se desabitue de colher o pão-deles-de-cada-dia, não vá dar-se o caso de lhes faltar, inopinadamente, o fornecedor e eles ficarem sem saber como se amanhar. E este tempo não está para dados adquiridos nem hábitos de calaceirice. E isto vale para o ser humano como para o pardal.
Há coisas a fazer, claro. Cortar a sebe, aparar a relva, retirar ervas daninhas, cortar e armazenar lenha obtida de móveis velhos, fazer pão, sei lá que mais… O que vou cumprindo, calma e apaziguadamente. E, outra vez, essas tarefas propiciam a reflexão constante que antes refiro.
Dou por mim a matutar que, numa escassa quinzena, já fui informado de que devia usar luvas de protecção e de que não as devia usar; por outro lado, que devia usar máscara e, logo mais, que seria melhor não a usar; que a desinfecção dos pavimentos é crucial mas, as mais das vezes, é um esforço inútil…
Recentemente, colhi até a informação de que usar barba era contraproducente. Presumo, entretanto, que esta situação se referirá prioritariamente à população masculina. Mas fico desconfortável, como é evidente. É que se, amanhã, vierem contradizer este ditame, vai levar-me uma data de tempo a recompor a pelagem.
Assisti a um frenético açambarcamento do papel higiénico como se todos padecessem de infernal diarreia e ao desaparecimento do pão fresco… que vem depois a aparecer, bolorento, nos caixotes do lixo. Façam açorda, pelo menos, ó alminhas aflitas!
O distanciamento ao meu semelhante (leia-se este semelhante na perspectiva de ser alguém tão atreito como eu a captar o malfadado vírus), tem vindo a aumentar. Começou por um discreto e comedido «distanciamento razoável» para o imperativo de um metro e a última versão já implica um mínimo de dois metros. Hoje, de manhã, a fila/bicha para o supermercado, sempre percursor, que frequento já atinge os cento e cinquenta metros… para uma dúzia mal contada de clientes em espera.
Como o ventinho tem estado fresco, talvez aconteça que aquela espera propicie, até, uns resfriadozitos para dar mais sabor à vida. Nada de preocupante, embora, e sempre ficamos com um entretimento doméstico complementar.
Tenho, entretanto, uma angústia que me acompanha nestes dias de clausura: por que não ir fazendo testes de detecção da Covid 19 a toda a população? Não há testes que cheguem? Pois constou-me que já soluções preconizadas por cientistas portugueses, vejam lá! E com possibilidade de produção ilimitada.
Mas o que mais me tem marcado é, sem margem para dúvidas, a incidência da maleita na população sénior, na qual me vou incluindo, valha a verdade.
Esta malévola discriminação só pode ter sido congeminada por algum pequeno deus menor e insidioso com tendência para a Economia, tipo Lagarde e outras abencerragens.. Mas o certo é que a avassaladora percentagem de óbitos recai, sem margem para dúvidas, nos escalões etários a partir dos setenta anos.
E isto, então, traz-nos para um campo em que nem a ironia, nem o sarcasmo, nem o bom humor têm lugar: os famigerados lares da terceira idade.
Num mundo que se está objectiva e institucionalmente nas tintas para os anciãos de cada sociedade, a recolha e resguardo dos cidadãos em fim de vida e, mormente, na chamada velhice desvalida, vai competindo aos lares. Instituições privadas, quase todos, sujeitos, portanto, às «regras de mercado», com pessoal de preparação e competências profissionais mais do que duvidosas em tantos e tantos casos que todos conhecemos.
Como poderá alguém manifestar surpresa por serem estes locais os coios onde prolifera a contaminação?
Com um mercado de trabalho canalha – que também (quase) todos conhecemos – chega um momento, na vida de cada família, em que os filhos não têm condições para acolher e tratar dos pais, por mais entes queridos que sejam. E não necessariamente por razões económicas directas, mas por razões de vida que – outra vez – todos conhecemos e os que não conhecem, se procurarem um pouco nas respectivas famílias, logo encontram e com múltiplas facetas.
E isto traz-nos ao remate desta minha frágil e canhestra crónica:
Que este confinamento a que estamos obrigados, que fez surgir à luz do dia tantas e tão clamorosas carências de âmbito social, em todo o mundo, ainda que em certos países mais do que noutros por consabidas razões, que este confinamento, dizia, nos alerte para a necessidade de encarar o problema da chamada terceira idade com a dignidade que ele merece.
Que interiorizemos e obriguemos os respectivos governos a criar uma rede de cuidados a prestar aos anciãos tão relevante como o nosso Serviço Nacional de Saúde no tratamento das doenças e na manutenção da Saúde dos cidadãos.
Esta não é uma matéria que deva ou possa estar entregue a interesses privados. Malfadada a sociedade em que vivemos que se deixou resvalar para esta insensibilidade institucional, onde nem sequer se apura que se está a falar de cidadãos que, na sua esmagadora maioria, pagaram os seus impostos, taxas e taxinhas, e que, assim, ergueram a sociedade em que nos movemos.
Se, depois, algum afortunado quiser pagar do seu bolso uma estadia de rei, que o faça e que recorra a seguros e a lares principescos e tudo por aí fora. Mas, antes, o cidadão comum, o velho sem amparo, porventura sem família ou com família sem condições, sem amigos e que apenas convive com a sua solidão deverá ter o direito à dignidade que advém da sua própria cidadania.
Estão a ver para o que havia de me dar o confinamento?
Jorge Castro, em 28 de Março de 2020
dia mundial da Poesia e da Árvore e tudo
Poderia lançar aqui um poema circunspecto, quiçá conceptual, um tudo ou nada selecto… Mas é dia de poesia em que vivo constrangido… e por tal constrangimento falo de um dia vivido:
Um dia de Corona