a Patxi Andión

A cadência de homenagens, nestes meus dias que vão correndo, sendo certo que é aquilo que temos de esperar na vida, não é menos certo que nos deixam um nó na garganta, que nem sei se chore, se grite.

Patxi Andión. Ouvi-o, pela primeira vez, em 1969, no programa Zip-Zip. Passaram-se, então, 50 anos exactos, sempre a receber de alguém canções marcantes, que me acompanharam e ajudaram a viver.

Um dos poemas que eu conheço mais pungente e melancólico magistralmente acompanhado por uma interpretação a condizer e de que nunca me esquecerei…

20º aniversario – Palabras ( https://www.letras.mus.br/patxi-andion/1811001/ )

20 años de estar juntos
Esta tarde se han cumplido
Para ti flores, perfumes
Para mi, algunos libros
No te he dicho grandes cosas
Porque no me habrian salido
Ya sabes cosas de viejos

Requemor de no haber sido
Hace tiempo que intentamos
Abonar nuestro destino
Tu bajabas la persiana
Yo apuraba mi ultimo vino
Hoy en esta noche fría
Casi como ignorando el sabor
De la soledad compartida
Quise hacerte una canción
Para cantar despacito
Como se duerme a los niños

Y ya ves, solo palabras
Sobre notas me han salido
Que al igual que tu y que yo
Ni se importan ni se estorban
Se soportan amistosas
Mas no son una canción
Que helada que esta casa!
Sera, sera que esta cerca el rio
O es que entramos en invierno
Y estan llegando, estan llegando
Los frios

A cantiga é uma arma…

… e ele bem sabia!

E que bem que o transmite. E a saudade que já nos fica…

José Mário Branco (1942-2019), uma companhia e uma referência para a minha vida toda. Uma mente sempre lúcida. Um exemplo inicial, inteiro e limpo, como se diz no poema de Sophia.

Alguém que soube dar voz a um outro Portugal, com persistente coerência.

Salve!

Carlos Carranca

Com a devida vénia, aqui se transcreve a precisa e sentida mensagem do Professor José d’Encarnação, a propósito deste exemplo maior de Ser humano que era Carlos Carranca e com quem tive a honra e privilégio de ombrear em sessões sempre com poemas e música à mistura:

Faleceu Carlos Carranca.

Completaria 62 anos a 9 de Novembro…

A sua enorme força de viver não logrou driblar – para usar um termo que lhe era caro – as curvas da Morte. Que descanse em paz o Lutador, o Cidadão que não hesitava em comprometer-se e em bradar bem alto contra a injustiça, a incúria, a falta de espírito cívico. O Professor que entusiasmava os alunos pela Literatura, pela Poesia, pelo Canto. A voz da canção coimbrã, que muitas vezes elevou, juntamente com tantos vultos grandes da Lusa Atenas, designadamente Luiz Goes. Cascais, Coimbra, Lousã e Figueira da Foz devem-lhe muito! Todos lhe devemos muito! E guardamos serenamente a sua memória! Até sempre, Carlos! Até sempre!

Doutorado em Cultura Portuguesa pela Universidade Autónoma de Lisboa, com uma tese – publicada – sobre o Iberismo em Torga e Unamuno, Carlos Carranca exerceu, até a doença o prender, funções docentes na Escola Profissional de Teatro de Cascais e colaborou, intensamente também, com a Universidade Lusófona de Lisboa. Poeta compulsivo, dir-se-ia, escreveu muitos livros de Poesia (e digo ‘muitos’, porque ultrapassarão decerto as duas dezenas, alguns dos quais eu tive o privilégio de apresentar) e estava sempre pronto a programar mais uma sessão em prol da Cultura, onde nunca faltava, a terminar, o toque coimbrão!

Constituíram os últimos meses, em que se debateu com esse grave problema de saúde, um testemunho exemplar de como se deve encarar a doença, de como o espírito deve ser forte, positivo, de como, mesmo na dor que atormenta, se pode olhar para os outros, confortá-los, dar-lhes o ânimo que, por vezes, corria o risco de lhe faltar. A consulta da sua página no Facebook, onde quase diariamente deixava as suas reflexões é, pois, obrigatória para quantos queiram inteirar-se de como um Grande Homem é Cidadão de corpo inteiro até ao fim!

                                                                  José d’Encarnação

109ª sessão das Noites com Poemas
– Homenagem a Mário Piçarra

De um amigo que parte e que nos deixa aquela mescla de sentimentos ali algures entre a melancolia, a saudade, a sensação de desperdício… e, por vezes até, a necessidade de nos lembrarmos repetidamente de que já não poderemos encontrar-nos com ele, daqui a pouco, para completar conversas eternamente inacabadas, vale sempre a pena falar.
Falo-vos de Mário Piçarra, esse mesmo, um dos mentores do grupo Terra a Terra e de variadíssimos temas musicais que a nossa estultícia, pouca atenção ou desvairados afazeres fizeram esquecer… e, no entanto, existem.
No dia 05 de Julho (sexta-feira), pelas 21h30, ali pelo Templo da Poesia do Parque dos Poetas (Oeiras), alguns amigos evocarão esse homem de quem se poderá dizer que foi, tal como o 25 de Abril de Sophia, inicial, inteiro e limpo. A organização do evento está a cargo de Heloisa Monteiro e deste seu amigo de muitas andanças.  
A sessão decorrerá, como habitualmente, sob a égide da Espaço e Memória – Associação Cultural de Oeiras e com o apoio da Câmara Municipal de Oeiras.
O tema central desta nossa conversa, o seu mais recente cd Claridade, editado há bem pouco tempo.
Venham, venham… e tragam outro amigo, também, que a cantiga é uma arma e ele bem sabia!

ainda com Mário Piçarra, agora acompanhado por João Paulo Oliveira

Se é certo que os amigos são para as ocasiões, quero dar-vos conta do comentário publicado no facebook por João Paulo Oliveira, a propósito do cd Claridade de Mário Piçarra:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10218675879830663&set=a.1242968836856&type=3&theater

Homem da música, creio que a palavra do João Paulo Oliveira é mais abalizada do que a minha. Congratulo-me, pois, por partilharmos a mesmíssima opinião.

Mário Piçarra(1947-2019)

Mário Piçarra, amigo querido de longa data deixou-nos. Concluíra, recentemente, um cd com 12 temas, que dedicara a seu pai, o conhecido tenor Luís Piçarra, e à sua tia, Maria José Ramil Figueiredo, bióloga e poetisa, que teve um papel fundamental para o seu regresso à música e às canções, cd esse com o título genérico de CLARIDADE, documento primordial para apreciarmos e entendermos as suas vertentes de compositor e intérprete.

Claridade era, também, uma obra que Mário Piçarra dedicara à sua filha Clara e às duas netas, Sara e Maria, os encantos dos seus dias.

Tive a honra de escrever um dos preâmbulos deste cd, que aqui vos deixo:

Ao Mário Piçarra 

De frente para o mar, num sol poente onde a linha do horizonte escurecia, de olhos postos na lonjura e na distância, uma vida atrás do olhar se embevecia.

E sorvia de uma brisa um vendaval, em cada onda o fragor de uma utopia, de um sargaço a sugestão de algum abraço e, assim, ao rés do mar, acontecia.

O Mário e o mar, de onde lhe chegam os ecos do mundo todo, sonoridades de guitarra portuguesa em simbiose com dolências crioulas, envolvidas por fragrâncias campesinas e rumores de regato montanhoso, a evocar uma canção de protesto ou um grito de humanidade.

Os amigos amou e, daí, tantas vozes se pressentirem entrecruzando a sua, melodia a melodia, poema a poema, em cadências, entoações, e sempre livre…

Eis o homem, de olhar atento e em cada dia voltando a nascer, teimosa e porfiadamente, com um novo alento de CLARIDADE.

– Jorge Castro

E se um homem é imortal enquanto a sua memória, nalgum lugar, for invocada por alguém, em nós permanecerá, então, esse preito de amizade e reconhecimento.