de novo em passeio pela Terra de Miranda do Douro – I

Alguns terão adivinhado. Fui até à Terra de Miranda do Douro, lá por onde me criei, ainda que não seja o local de nascimento, mas onde pude encontrar berço de afectos.

Com alguma regularidade, os antigos alunos do Externato de São José (Miranda do Douro) promovem um encontro/convívio em que participo sempre que posso, esbatendo saudades e tentando colocar em dia a premência dos tais afectos.

Irei, pois, em homenagem à terra e suas gentes, colocando por aqui alguns «bonecos» que obtive nesta recente deslocação.

Também porque a Terra de Miranda permanece desconhecida de boa parte dos portugueses, sempre com a invocação de que «fica lá tão longe…» mas, seguramente, bem mais perto do que Barcelona ou Veneza, etc., etc.

E, afinal, há tantas razões que justificam a viagem…

Miranda do Douro (1) – Praça D. João III

Miranda do Douro (2) – Vista parcial da albufeira da barragem da central hidro-eléctrica.

Se valesse a ironia, dir-se-ia que, à esquerda, Espanha; à direita, Portugal; e, no centro, a França. Uma prova de quão néscios (ou pior…) podem ser os homens quando os interesses económicos falam mais alto do que tudo.

Miranda do Douro (3) – As arribas do Douro vistas da cidade de Miranda.

Já fizesteis o passeio fluvial entre barragens? Aceitai uma sugestão: não vos deixeis morrer sem o fazer.

(É verdade, a segunda pessoa do plural ainda é, por lá, muito utilizada, mesmo «an pertués»)

Miranda do Douro (4)

A fachada principal da concatedral – sabem o porquê desta designação? O senhor google dará uma ajuda.

Miranda do Douro (5)

O Menino Jesus da Cartolinha, verdadeiro ex-libris da cidade, a quem um bom amigo que também por lá andou, João Pequito, encontrou grandíssimas parecenças faciais com Mário Viegas, na sua juventude.

Mário Viegas que, nos idos de 60 e com os seus catorze anos, ia por lá, passar férias e, já então, a desinquietar-nos com o bichinho do teatro, escreveu uma peça e a levou à cena, tendo a meninada como elenco. E nunca se terão visto tantos príncipes e reis e rainhas por terras de Miranda…

o azar do poema

ao costurar dois conceitos
cuidei ter feito um poema
eram meros preconceitos
preceitos para uma cena
de teatro de fantoches
ou até de marionetas
onde por mais que deboches
assim nascem os poetas

dois conceitos saturados
do sal que a vida nos traz
em contraluz ofuscados
com sol batendo por trás
como quem tange a rebate
um sino que não está lá
por electrónica que farte
do tanto que ela nos dá

um poema incontinente
de mil pés ambulacrário
a correr de trás para a frente
e sempre em modo contrário
quem o ouviu poema o disse
quem o sentiu mais choroso
chamou poema-chatice
ao tal poema manhoso.

  • Jorge Castro
    24 de Julho de 2023

Numa passeata para distrair o pensamento – II

– Quem tem amigos não passa mal.

– O rebanho.

– O progenitor do rebanho.

– O curador do rebanho, no caso, também conhecido como pastor.

– Tratado sobre a arte de bem cavalgar toda a sala (é mesmo sala, não foi engano…).

Na encerrada estação de Marvão-Beirã, uma família de cegonhas padece sob a canícula.

– Marvão.

– E, ainda, Marvão e o velho efeito do espelho.

– E, outra vez ainda, Marvão.

Uma nota: uma localidade sem cabos eléctricos a perturbarem a paisagem! A minha chapelada!

– Estação de comboio (abandonada) Marvão-Beirã.

Mais uma prova indesmentível de que somos um país rico e perdulário, onde nunca se atina com possíveis formas de rentabilizar, reutilizando, património edificado… antes que se desmorone.

Valha-nos, então, o foguetório e o festivalório, tão do agrado dos sacristãos do efémero, para irmos coçando todos estes eczemas (se quiserem, podem chamar-lhes dermatites atópicas, que dá um ar mais «apetudeite»).

– De volta a Castelo de Vide. À primeira vista, pareceu-me que a representação de Cristo se preparava para um solo de contrabaixo. Depois, vendo melhor…

Em Marvão, o restaurante-café O Castelo. Um bom sítio para estar.

Apreciei, especialmente, a vertente café. Já o «lounge» tive alguma dificuldade em perceber como desfrutar. O meu velho problema com as línguas estrangeiras…

É verdade que a paisagem é bonita e vê-se até muito «lounge», mas creio que a ideia não era essa…

Numa passeata para distrair o pensamento – I

Numa passeata para distrair o pensamento (1)

– Castelo de Vide

Numa passeata para distrair o pensamento (2)

– Menir de Meada, do alto dos seus 7,15 metros de altura, uma impressiva representação do Neocalcolítico.

Numa passeata para distrair o pensamento (3)

– O Mosteiro da Flor da Rosa – magnífico!

Numa passeata para distrair o pensamento (4)

– Ammaia – uma importante cidade romana, fundada há cerca de dois mil anos, já dentro do território da Lusitânia, cuja investigação está a ser desenvolvida à portuguesa (curta… e morosa). O espaço museológico: excelente!

A fotografia publicada mostra, a negro, o extraordinário traçado da estrada actual para Portalegre que, distraída e/ou inconscientemente, foi construída, em 1920, sobre os relevantes vestígios da povoação.

Deixei um breve comentário no livro de visitas: «Desenterrem-me, porra!».

Ó autarcas da minha terra e demais mandantes, acordai… e agitai-vos um pouco em prol da cultura a sério, nem que seja como prova de vida!

Numa passeata para distrair o pensamento (5)

– Ainda a propósito de Ammaia: imaginem, através desta imagem, a dimensão e o interesse deste espaço. E, logo a seguir, pensem que o acesso aos vestígios desta cidade nem sequer estão perturbados por edificações posteriores…

Numa passeata para distrair o pensamento (6)

– Em Castelo de Vide, uma exposição por Abril, sempre!

Numa passeata para distrair o pensamento (7)

– Em Castelo de Vide – um jardim com rosas.

Numa passeata para distrair o pensamento ( 8 )

– Ermida de Nossa Senhora da Penha – vistas diurna e nocturna.

Numa passeata para distrair o pensamento (9)

– Núcleo museológico de Ammaia: pequeno e, no entanto, cheio de graça.

Numa passeata para distrair o pensamento (10)

– No claustro do Mosteiro da Flor da Rosa – uma Andorinha-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris)

memória descritiva

Nostálgico. É isso… Relembrando um daqueles momentos em que estive um pouco em companhia de mim mesmo.

MEMÓRIA DESCRITIVA

a noite descera serena e silente
sobre o empedrado húmido da chuva
aqui e ali uma azeda gritava
numa teimosia a cor que brandia
numa comissura breve do lajedo
crescia em recanto a rubra papoila
tão desvanecida pela noite descida
talvez a aguardar a nova alvorada

era primavera em cada ruela
onde a luz da lanterna tanto esmorecia
e o casario fundia em fraguedos os seus alicerces
contra a intrépida agrura de tanto abandono

não se via vivalma nem se pressentia
só estes meus passos desassossegavam
a quietude pasma do lugar perdido
se houvera risos e ecos de passos passados
do labor agreste
do gado de volta ao sítio de abrigo
do regato ao fundo bordejado a freixos
marginado a plátanos que o vento tangia
restou só a fala da água e da brisa
nesta noite fresca sem ninguém à vista

há o coaxar teimoso das rãs
há o pio surdo e nocturno de um mocho
um grilo
a cigarra
a brisa nas ervas
e algum bater breve de porta entreaberta
saudosa de mãos a dar-lhe um destino

e naquele lameiro há anos sem uso
avistado ao longe numa lua cheia
as pedras dos muros que ainda o ladeiam
estão de sentinela em missão cumprida.

  • Jorge Castro
    23 de Maio de 2023