Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

quotidiano delirante (3)
– a Madeira sem jardins

Talvez não valha de muito chorar sobre leites derramados. Mas interessa, com certeza, denunciar a mentira e a hipocrisia dos mandantes, a que se alia o carneirismo dos mandados – este sustentado pela ignorância ou pelo «deixa-andar» de inconscientes comodismos, ingredientes do caldo de cultura em que andamos todos atolados. E nem se me dá de laranjas ou de rosas.

Se não for pela memória dos mortos, que seja pela dignificação dos vivos.

Jardim sairá vencedor de mais esta jogada, como sempre, agora ajudado pela complacência criada face ao horror do desastre. Mas interessa saber que o anúncio da desgraça estava feito pelos tais académicos que ele tanto rebaixa, sem aparente contradição, pois que a esta gentinha – fala-se de Jardins e quejandos, claro – o saber sempre incomoda e sempre, também, arranjam artes e manhas de criar convenientes acólitos, especializados em anestesias de opinião.

Como primeiro responsável por aquela região de Portugal, sobre ele recaem as responsabilidades todas de ter sabido e ter ignorado os avisos com aquela sobranceria bacoca e aldrabona que lhe é conhecida e que, agora, após os factos consumados, quer fazer reverter sobre tudo e sobre todos – quem sabe sobre as próprias divindades que regulam as tormentas…

De resto, tudo é óbvio e cristalino. Lá, como cá, não se trata daquilo que está à frente dos olhos, mas apenas de quanto esteja por baixo dos interesses.
Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar. Vejam os vídeos:

epitáfio

adeus Mãe nós cá ficamos
entre a mágoa e o desengano
longe de ti perto estamos
no legado quase insano
de ser em frente que vamos
do teu sangue transmontano

tivemos pressa à chegada
entre as dores de algum gemido
corremos à desfilada
tanta vez sem ter vivido
numa pressa dando em nada
de quanto se houvera querido

e um dia chegada a hora
que se entenda de partida
deixaremos quanto agora
nos parece sem medida
peito aberto estrada fora
percorrida a nossa Vida

vamos então que ao ficar
de nada serve consolo
da vida fique o amar
mesmo o amar como um tolo
mas ter – Mãe – sentido estar
no conforto do teu colo.

– Jorge Castro

A Terra Fria
e o calor humano
– 50 noites com poemas

O autor, David José Silva, tem o primeiro contacto com a obra concluída. Com os seus dezasseis anos, poderemos assumir uma paternidade precoce… … à qual, uma vez mais e sempre, a Apenas Livros não hesitou em apoiar, dando forma à substância.

No espaço Memória dos Exílios, no Estoril, decorreu – de forma integrada com o lançamento deste primeiro livro de um nóvel poeta – a 50ª sessão das nossas Noites com Poemas, consubstanciadas nas tais 125 horas em redor da poesia, sempre anunciadas em cartazes criados, sessão a sessão, por Alexandre Castro.

Helena Xavier, a nossa anfitriã, a par com Ana Margarida Antunes, deram guarida com as costumeiras cordialidade e cortesia, a esta invasão de heterogéneas personagens…

… ao mesmo tempo que se congratulava, também ela, com um percurso onde convergentes vontades têm originado momentos tão especiais como o foi o lançamento desta primeira obra de David José Silva.

Fernanda Frazão, pela editora Apenas Livros,

O autor, com a intranquilidade do momento sujeitada pelo calor dos afectos, deu de si na sua alocução o que dele conhecemos e que não deixa, por isso de nos surpreender: uma esclarecida e lúcida maturidade.

De seguida, um colar de companheiros de jornada deram a conhecer, de viva voz, a obra em presença, começando pela Maria Francília Pinheiro

… passando pelos Jograis do AtlânticoEdite Gil e Francisco Félix Machado -… cujo gosto na selecção feita foi idêntico ao meu, conforme me disse o David, mas tiveram a amabilidade de efectuar nova escolha, em meu benefício.

A constância solidária e, também, esclarecida a que o João Baptista Coelho nos habituou, desde os primeiros passos das Noites com Poemas, manifesta pela sua poesia como pela sua atitude, através deste seu abraço ao David… nas tais pontes com que se constrói o futuro.

Até chegar a minha vez, com o apadrinhamento assumido deste autor, David José Silva, e do seu primeiro trabalho. Apadrinhamento que me honra muito mais do que me envaidece. Mas que me traz novos alentos, também.
Puxando a brasa à minha sardinha, tentei estabecer um paralelo por determinações e persistências entre a nossa realidade e a daquele recanto de Portugal onde mergulham as minhas raízes, as terras de Miranda do Douro, reflectidas na preservação de uma língua – o Mirandês – peça cimeira de uma identidade cultural que, diversa embora, contribui decisivamente para o enriquecimento do património nacional.

Não haveria momento mais oportuno para fazer a sua entrada em cena o som da gaita de foles de Miguel Galante, sempre arrebatador, obrigando-nos a esforços de contenção para não saltarmos das cadeiras em celebração…

Clarinda Galante abriu a segunda parte das participações, dando relevo, uma vez mais, à poesia de David…

… seguida por Francisco José Lampreia, com poema de sua autoria, mas com dedicatória ao novo autor e companheiro já de diversas jornadas.

Estefânia Estevens cantou-nos o Sul, como sempre, surpreendendo-nos e encantando, apesar de enormes condicionalismos vocais, ela como o Francisco, frutos da época invernosa que vamos passando. Mas se os houve, não se notaram, tal o empenho…
E, também ela, criou as pontes que uniram o País nesta espécie de abraço.
A sala – e permitam-me o registo em tom maior de orgulho e gratidão – cheia! O David o mereceu e quer os seus colegas de escola, como os seus professores, de mãos dadas com os companheiros dos poemas, responderam presente, contribuindo para que o dia de grande se fizesse maior, sinal que perdurará, decerto, nas boas memórias do jovem autor.

Houve tempo, ainda, e como sempre é nosso apanágio, para dar voz a quem se afoitasse a partilhar a sessão, com o contributo enriquecedor de uma outra visão, de uma outra abordagem, que diversifica, enriquecendo-o, o património genético deste espaço.

Eloisa e Mário Piçarra uniram, uma outra vez, a poesia à música. Mas com o enlevo todo especial de nos terem oferecido inéditos, com que também brindaram o novo autor…

Vindos de um tempo em que a música e as palavras desenvolviam uma cumplicidade criadora, os sons trazidos mostraram que esse tempo é, ainda, hoje.

Depois, num impulso intempestivo, um acto de amizade e muitas emoções, trazido por um colega de escola e da espiral da vida, que trouxe um arrepio à sala tal a dimensão humana do improviso. Só (ou)visto!

E a cúpula, o remate que se quer ponto de partida para novos voos, a sessão de autógrafos. Não teve aí, o autor mãos a medir, que bem lhe avisaram os mais «experientes» que se preparasse para a tendinite…
E aqui eu testemunho, por tantos lançamentos assistidos, que tomara muitos consagrados um tal sucesso de lançamento. Larguíssimas dezenas de autógrafos, a fazerem entrar a sessão pela noite dentro e pelo dia seguinte e promovendo, assim, um intenso convívio entre os circunstantes, definitivo culminar do objectivo a que todos nos propusemos.

A Terra Fria, a que David José Silva soube emprestar calor, envolvendo-nos pelo exemplo.

D’A Terra Fria à Terra-Mãe, como diria Sebastião da Gama, pelo sonho é que vamos!
– fotografias de Lourdes Calmeiro

50ª Sessão das Noites Com Poemas
125 horas de poesia

Cento e vinte e cinco horas em que nos encontrámos na fruição de um poema – nada mais a dizer para justificar uma sessão especial ou especialmente destacada.

Por razões, se quiserem, sentimentais, esta realizar-se-á no espaço Memória dos Exílios, no Estoril (antiga estação dos Correios, junto à estação de comboios), excepcionalmente. No próximo dia 18 de Fevereiro, pelas 21h30.
Nela podereis assistir:
1. Ao lançamento do primeiro livro de poemas de David José Silva, A Terra Fria (edição da Apenas Livros). A ponte que se estabelece com o futuro…

2. Ao som da gaita de foles de Miguel Galante;
3. Pelo meio e à nossa volta, aos poemas e ao canto de Francisco José Lampreia, Estefânia Estevens, João Baptista Coelho, David José Silva, Maria Francília Pinheiro, Mário Piçarra, Carlos Peres Feio, David Zink, Edite Gil e Francisco Félix Machado (os Jograis do Atlântico), eu próprio…
4. E a todos vós, todos quantos tornam possível e justificam o sonho e alicerçam a determinação, pelos quais e para os quais nos faz sentido perseverar. Nem sei se preciso dizer que conto convosco… Os lugares já estão marcados com o vosso nome. Mas há sempre um lugar mais para um amigo, como para um poema.
Localização do espaço Memória dos Exílios:

quotidiano delirante (2)

Muito se especula sobre crises de valores da sociedade actual e algumas fortunas vão sendo criadas à custa de mezinhas milagrosas de combate às angústias existenciais de quem perde o rumo à vida, o que me faz pensar que montar um negócio de venda de bússolas como elementos imprescindíveis dos dias modernos poderá ser um nicho de mercado mal explorado, mas de assegurado sucesso.
Respigando, com a devida vénia, três notícias do jornal de distribuição gratuita DESTAK, de ontem, dia 12 de Fevereiro de 2010, partilho convosco estas curiosidades, em vésperas do dia em que, queiramos ou não, há que namorar, conforme a globalizada cartilha dos interesses:

Namorar é bom. É, mesmo, excelente. Pelo menos pelos padrões por que me tenho regido vai para uma pipa de anos. Como e com quem será, talvez, menos relevante, pois o acto em si, da sedução ao prazer físico, nos basta, se ousarmos desvirtuar o próprio acto – mais interessante a dois – com esta postura egotista.Então, porque não com um substituto animal de estimação? Em vez de um inacessível e algo boçal Cristiano Ronaldo ou um velhíssimo ainda que charmoso Robert Redford, um gorila macho de dorso prateado dos montes da bruma? Ou, noutro registo, em vez de uma Nicole Kidman, alta por demais, ou uma Sophia Loren, cujas rotundidades povoarão ainda muitos imaginários, uma anaconda fêmea do pantanal brasileiro? O drama terrível da dissolução da família tradicional atinge um museu de cera. Quem diria ter a matéria inerte uma tal propensão para assim seguir o mundo real… Pergunto-me quais os efeitos de uma paixão tórrida em tal estabelecimento. Porventura, no dia seguinte, os seguranças do museu deparassem, incrédulos, com uma mistura orgíaca, democrática e amalgamada de cera espalhada pelo chão…

De facto. Mas «mudar» de sexo para quê? Terá passado pela cabeça deste ser humano a eventualidade da autorreprodução, ultrapassando a fasquia dos caracóis que, sendo hermafroditas, ainda assim carecem de um parceiro sexual?

Ou tratar-se-á de um/a original que anseia por dar novos mundos ao mundo pela voz da sua descendência: «- A minha mãe é um homem de barba rija! Só era pena que, ao amamentar-me, a boca me ficasse cheia de pelos…»
Em qualquer caso, foi dada uma outra dimensão à quadra cantada pelo Zeca:
Já fui mar, já fui navio
fui chalupa e escaler
já fui moço, já sou homem
só me falta ser mulher…
Porque não é bastante a estas almas, irmãs nossas, realizarem um seu sonho sem que venham, em correria, dar conta dele ao mundo inteiro, e sem qualquer conotação retrógrada, mas pela ironia que tanta exposição me sugere, propalada aos quatro ventos, articulada com o próprio tempo invernoso, recordei uma exclamação que os nossos avós já diziam: está o mundo roto, chove nele como na rua.
E fazem-nos crer que o mundo vibra ao som cacofónico de dissonâncias, onde o sangue é capa de revista e o que ontem era número de circo, hoje, o nível civilizacional a que nos alcandoramos (?) já confere direitos de privilégio em notícia de tv ou de jornal.
Receio bem, em minha opinião, que apenas se tenha alterado a qualidade da tela do recinto circense.

quotidiano delirante (1)

Sou um leitor compulsivo da BD. Como forma de homenagear uma das obras que, neste domínio, mais me agradou em muitos anos que levo deste entusiasmo, ocorreu-me o título acima, peça que denuncia um empenhadíssimo e assaz crítico olhar social do seu autor, Miguelanxo Prado, e que com a devida vénia «usurpo» para inaugurar um capítulo mais nesta aventura comunicante.


Na praia invernosa, suja com o que as marés enjeitam, num recanto entre rochedos e lixo, uma metáfora de um Portugal que se lê nos jornais: um balão de ar, poisado no chão, anunciando que «as ofertas andam no ar»…Talvez andem, na verdade, as valdevinas cabeças-de-vento das anunciadas ofertas. Mas o seu anúncio é rasteirinho e fica-se, impotente, entre a sujidade da areia. Um pouco mais de hélio e seria asa. Assim, não, está quase a juntar-se ao lixo que o rodeia, esse balão de ar anunciante de quimeras…(fotografia de Jorge Castro)

um dia outro…

Não me foi fácil sair da entrada anterior… De algum modo, o objectivo de um blog pode esgotar-se quando se atinge uma etapa como essa. Ou, dito de outro modo, um pretexto tão bom como qualquer outro para encerrar algum livro de deve e haver da Vida, se ainda alguém usasse livros quejandos nessas contabilidades.
Mas tal é coisa caída em desuso e a Vida é animal que se quer tocado para a frente. De elefante, a memória; de mágoa, crocodilo… mas, de rancor, nem alforreca.
Há males destes que são por bem. Devo, seguramente, esta abordagem, que me salta pelos poros independente da minha vontade, aos encaminhamentos onde os meus pais foram guias. Ou não, talvez meros faróis.
Mas o que é certo é estarmos vivos, aqui e hoje, com um mundo pela frente e incontáveis motivações para se prosseguir viagem.
de onde vens eu intrépido pergunto
dando largas bem ousadas ao bestunto
e tu nada me dizes circunspecto
porque vais e não vens como eu projecto

chama-se isto desencontro eu presumo
este vir para um ser ir para o outro o rumo
e assumo pois ser coisa de elegância
desta coisa de ir e vir guardar distância

nunca fomos nem viemos pelos vistos
vamos indo e ficando como Cristos
transportando a nossa cruz a algum calvário
desde cedo – muito cedo – desde o ovário

e o rosário destas penas é por vezes
a penosa penitência dos fregueses
que nós somos cada um no ilusório
de um viver que é de ser ambulatório

cada um no entanto em circo infindo
vai chegando quando o outro vai partindo
e o encontro se é fugaz e reticente
que ele seja então audaz e mais urgente.


– poema de Jorge Castro
A tempo e muito a propósito, o meu reconhecimento, gratidão e apreço por todos quantos me contactaram ou a meus familiares, por meios diversos, a propósito da entrada anterior.
É minha intenção, obviamente, publicar a resposta que me chegue do Ministério da Saúde, se ela algum dia chegar…

Carta aberta à senhora Ministra da Saúde
– Serviço Nacional de Saúde, o estado demencial a que nos conduziu o primado da Economia

À Senhora Doutora Ana Jorge,
Ministra da Saúde
Por volta do dia 15 de Dezembro de 2009 – há cerca de mês e meio, portanto – a minha Mãe, sem que nada o levasse a supor, perdeu subitamente a capacidade de andar.

A Mãe tem 83 anos e padece, há cerca de dezoito anos, de doença de foro oncológico, sendo assistida regularmente no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, seja em tratamentos, consultas ou exames de rotina. A situação sempre esteve, aparentemente, diagnosticada e controlada. Tem tido, assim, uma boa qualidade de vida, face à adversidade da sua doença, sem dores ou queixas especiais e levando uma vida normal.

De há cerca de três anos a esta parte notámos nós, os filhos, um decréscimo de medicamentação e, até, de exames. Não sendo nenhum de nós Médico, consideramos tal um bom indício, tanto mais que sempre acompanhámos a Mãe às consultas e nada nem ninguém nos alertou ou explicou sobre eventual evolução da doença.

Perante essa incapacidade súbita de locomoção – e porque em recente consulta de Clínica Geral, no Centro de Saúde que a assiste, perante queixa de dores nas costas e perda de sensibilidade nos dedos da mão direita por parte da Mãe, a Médica sugeriu a aquisição de um colchão e, posteriormente, prescreveu Voltaren «para ver se passava» – recorremos a consulta privada que, de imediato, promoveu um recurso a Neurologia… do qual resultou que, em 24 horas, a Mãe foi encaminhada de urgência para o Hospital de São José, em Lisboa, para ser submetida a uma bateria de exames, tendo o Especialista avisado de que deveríamos contar com intervenção cirúrgica imediata. Isto ocorreu em 20 de Dezembro de 2009.

É impossível descrever a via sacra a que a nossa Mãe foi submetida desde então, sem que ela ou os filhos tivéssemos qualquer voto na matéria. Tentarei sintetizar:

– dia 17 de Dezembro – internamento no Hospital de São José, em Lisboa;
– dia 18 de Dezembro – transferência para o Hospital São Francisco Xavier, onde iniciou uma série de exames;
– dia 20 de Dezembro – transferência para o Hospital Egas Moniz, para ressonância magnética e eventual cirurgia – quer uma, quer outra ocorreram sem que os filhos, presentes diariamente, ou, sequer, a própria, fossem previamente informados sobre o que quer que fosse. O único contacto registado, por parte da instituição, foi para me questionarem (aqui «descobriram» o meu telemóvel) se estava disposto a pagar 195 euros para um colete ortopédico, a utilizar no pós-operatório, colete não comparticipado pelo SNS…
– dia 4 de Janeiro de 2010 – decorrendo Fisioterapia e recuperação pós-operatória (a intervenção cirúrgica teve lugar em 28 de Dezembro de 2009), a metástases extensíssimas na região dorsal, já com grave infiltração óssea, sou informado pelo Hospital de que a Mãe tinha tido alta e estava já a caminho do Hospital de Cascais – suposta área de residência (?) – onde ficaria na Unidade de Oncologia. A pressa desumana com que tudo isto ocorre, leva a que a Mãe fosse despejada pelos próprios serviços do Hospital Egas Moniz, num expediente no mínimo desumano e, no limite, criminoso, no Serviço de Urgência do Hospital de Cascais, sem qualquer referenciação, aí permanecendo cerca de 24 horas, sem alimento ou medicação, perante o seu e nosso desespero. Valeu aqui algum expediente e a habitual movimentação de influências, vulgo cunha… ou poderemos imaginar que a Mãe ainda hoje por lá andaria perdida. Ainda assim, de três dias de espera numa maca nos corredores do Hospital não a salvámos – e, recorde-se, em pleno período pós-operatório. Nem da repetição de um rosário de exames mais ou menos agressivos, para redefinir o quadro clínico!

A partir daqui pensar-se-ia que a situação se estabilizaria. Mas ainda não! Para além da consulta de Oncologia a que já fora submetida no Egas Moniz, teve consulta desta Especialidade também no Hospital de Cascais, depois no Instituto Português de Oncologia e, por fim, no Hospital dos Quadrantes, em Carnaxide, onde foi prescrita uma bateria de 10 sessões de Radioterapia… em ambulatório! Para tal a Mãe teve alta do Hospital de Cascais no próprio dia do primeiro tratamento!!! Quatro consultas de Oncologia no espaço de 10 dias, agravadas pela necessidade de deslocação do doente ainda em recuperação da intervenção e sem capacidade de locomoção, para quê…?! Duvidarão os Médicos ou as Instituições uns dos outros ou trata-se de algum perverso ou maquiavélico esquema montado para incrementar proventos à custa de sofrimentos alheios?

Também aqui não tivemos voto na matéria, sempre nos sendo apresentado cada passo como dado adquirido.

Éticas, deontologias ou mera arte de viver em comunidade são, assim, trucidadas pela paranóia dos custos ou da rentabilização cega e, afinal, anacrónica assumindo, através do cumprimento cego de diktats de que ninguém sabe localizar exacta proveniência, foros do recurso à «esperteza saloia» para o descarte de mais um fardo em que está constituído cada paciente… porque já lá está uma imensidão deles à espera de vez, cabendo a cada um o «direito» à sua dose de mau trato e desconforto.
E a Mãe esteve sempre no Serviço de Medicina. Nem conseguimos apurar se a Unidade de Oncologia de Cascais tem, afinal, camas próprias que justificassem o encaminhamento feito pelo Hospital de Egas Moniz.

Importa acrescentar que, face ao lamentável insuficiente número de ambulâncias existente na Grande Lisboa, em cada deslocação o doente é deixado para tratamento e fica a aguardar, em maca, que a ambulância regresse… o que chegou a levar seis horas (!) de espera. Os bombeiros têm ordens estritas para acorrer a outros casos, deixando o doente no tratamento – que, no caso, demora escassos 15 minutos – o que também representa um conceito distorcido de bom serviço prestado e de rentabilização mais do que duvidosa face ao trânsito caótico de Lisboa! Importa, também, sublinhar que neste longuíssimo mês de horrores, contam-se já por cerca de duas dezenas as deslocações de ambulância, entre instituições e desvarios diversos.

Com todas estas andanças e maus tratos, a Mãe desenvolveu um quadro de escaras de grande gravidade, desidratação e assustadora infecção urinária com óbvia necessidade de tratamento urgente – em pleno internamento hospitalar! E assim teve alta!

Conseguimos, por força dessa alta, um lugar num lar que nos oferece as melhores condições de assistência total face a este pavoroso desenvolvimento. Enfrentamos e assumimos os encargos sem hesitações. Felizmente para nós, paciente e filhos, nunca foi esse o problema. Mas nunca nos colocaram, sequer, uma perspectiva de alternativa. Existe uma «lógica» hipócrita – que será até de defesa pessoal – a impelir cada profissional da saúde a fingir ignorar o que se passa a jusante do seu próprio acto. A «bola» é passada e, a partir daí, lavam-se as mãos…

Pelo caminho ficam as sucessivas ausências de aflição nos nossos locais de trabalho, para acorrer… nunca se sabe bem a quê, mas com as decorrentes mazelas profissionais que são conhecidas e que, de momento, nem contabilizámos… e lá vamos contando com a boa vontade de colegas. Fica, ainda, por referir uma imensidão de pormenores mais ou menos lúgubres, presenciados ou por nós vividos no dia-a-dia destas instituições cujo relato daria a esta missiva uma extensão que lhe retiraria utilidade.

Resta, talvez, referir que ao nível do contacto pessoal e de humanidade não há quase nada a dizer das larguíssimas dezenas de profissionais da saúde – médicos, enfermeiros ou pessoal auxiliar – com quem contactámos ao longo deste mês. Mas verifica-se, do mesmo modo, uma total impotência e falência institucionais para dar uma resposta civilizada, racional ou consequente face a um quadro como o descrito.

O paciente (leia-se, também, contribuinte) é, institucionalmente, tratado como um vulgar saco de batatas, descartável no mais curto espaço de tempo, sem escrúpulo nem redenção, mesmo que tenha os seus impostos em dia… afinal, aquilo que faz o sistema funcionar, quando não são desbaratados os recursos por parte dos responsáveis pelo poder político. Sim, porque o desperdício deste andar em bolandas tem, também ele, custos insondáveis, irracionais e em puro desperdício, para além da notória barbaridade perpetrada sobre o estado de saúde do paciente.

Todos temos a nossa hora. A nossa Mãe também terá a sua. Exige-se, apenas, a dignidade devida a um ser humano, num regime de direito e democrático. Preceito da Constituição que nos regula, bem como da Declaração Universal dos Direitos do Homem que nos deve nortear. Não é o que se está a passar no nosso Serviço Nacional de Saúde. E não estamos, sequer, em qualquer estado de guerra.

E eu sinto uma profunda vergonha pelo País que estou a legar ao meu filho!

Aqui eu deixo, à superior consideração de V. Excelência, não apenas como espúrio desabafo, mas como testemunho presencial e denúncia, a entender como acto de cidadania, que permitirá V. Exa. que eu divulgue, no interesse da comunidade. Nem será, neste contexto, relevante o anúncio do nome da paciente, como não será curial factualizar, ainda mais, as ocorrências descritas, por não haver aqui intuitos de algum modo persecutórios. Tão só isto: o testemunho que possa revelar-se útil para uma inversão de valores que é urgente.

Jorge Castro

as histórias possíveis e as impossíveis
dos animais inventados

Local: Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana

Que me perdoem os convidados especiais, mas inicio a reportagem com um destaque aos fiéis companheiros destas jornadas, sem os quais, verdadeiramente, se esfumaria o interesse maior destes encontros. E ei-los, assegurando para espanto de incrédulos, uma sala cheia de poesia, em sexta-feira de outros eventuais apelos mundanos.

E, agora, os convidados, sim: David Machado, escritor de histórias encantatórias que a sua imaginação fez reais, estimulado por uma apresentação de João Paulo Sacadura, homem habituado nestas lides, mas de onde transparece uma imensa ternura pela Vida e que teve artes de nos envolver num passeio por reinos de encanto, assumindo o papel de locomotiva…

Da obra, já significativa, do jovem autor, demos conta. Corram, depressa, à procura dos seus livros! De quanto dele já li ficou-me uma impressão tão forte que mil argumentos me foram suscitados para outras tantas aventuras da escrita.

E se me torcerem o nariz porque de suposta «literatura infantil» se trata, terão de me explicar muito bem quais as fronteiras (etárias ou outras) do reino da imaginação e da criatividade… E, mesmo que a presuntiva explicação tenha fundamento, duvido que ela enevoe, sequer, o lúdico e desafiante percurso dos ambientes do David Machado.

De imediato, os alunos do 6º H da Escola Conde de Oeiras, ajudaram à festa, dando-lhe mais sentido e criando, pressurosos, essa ponte do presente de que o futuro é feito, para gáudio de todos e para quem, de súbito, a idade deixou de contar.

E uma vez e outra deu-se o passo, inventando ousadias, daquelas que também ajudam à descoberta.

De tal forma que, às duas por três, momentos há em que parece que alguns terão, na verdade, percepcionado um caminho novo, uma nova aventura, com sentido.

E, numa «aula» temporalmente tão comprida, nem surgiu perturbação ou desinteresse. Não houve, ainda, necessidade de fazer algum «zapping», buscando diversidades de oferta, pois elas estavam ali, ao alcance da mão e demais sentidos, manifestando-se em forma de partilha de seres e de saberes, nessa riqueza diversa que nos enforma.

Deste excelente naipe de vozes – e daqueles mais que, por uma razão ou outra, desta vez não puderam estar presentes – que conste ser a sua participação, porventura, a vitória maior de um tal espaço, bem como o incentivo mais forte para que se porfie sem desânimos.

Da Escola Conde de Oeiras, para além de Pais e de Professores – provando que nada está perdido – contámos com os Alunos Catarina Torres, João Sacadura, Francisco Sacadura, Diogo Patacão, Pilar Saramago, Madalena Morão, Sofia Araújo, Madalena Carvalho, Francisco Limão, Francisca Faria, Ana Alice Miranda, Maria Ana Teixeira e Mafalda Pereira e Margarida Vitorino (que fugiram da fotografia…).
Vêem? É que não está mesmo nada perdido, quando procuramos encontrar-nos.
*
O João Baptista Coelho, por falta de oportunidade, não nos levou à sessão o seu «trabalho de casa». Mas não descansou enquanto não o partilhou connosco:
ESBOÇO DE RETRATO
Sou animal inventado
sujeito a metamorfoses.
Primeiro, bicho danado
que traz consigo o pecado
e que o serve em altas doses.
Fiz-me, aos poucos, passarinho
que, ao sonhar com a distância,
ousou sair do seu ninho
e percorre, hoje, o caminho
da ambição e da ganância.
Asas longas de condor
mas com olhos de falcão,
pisei a palavra amor
e criei a própria dor
numa vida sem razão.
Sinto-me às vezes serpente
a rastejar pela terra,
tentando enterrar o dente
na fortuna de outra gente
e na íris que ela encerra.
Fui lobo mau, bem matreiro.
Neguei pão aos que o não comem.
E ao mirar-me por inteiro
mal olhei o meu dinheiro…
quis ser Deus… e nem fui Homem.
Fui carapau de corrida
nos anos da juventude.
Naquele tempo em que a vida
– quer fosse ganha ou perdida –
era usada em plenitude.
Já fui macaco sagui
e, o que é mais interessante,
um mimoso colibri
com patas de javali
e orelhas de elefante.
Ultimamente, gaivota
com penas de sabiá,
ao ir aí, ninguém nota
que ainda procuro rota
noite e dia ao deus-dará.
Pouco a pouco, devagar,
vou voltando ao meu covil.
Minhas asas de sonhar
queimou-as a luz solar
no tempo em que eu era Abril.
Hoje, velho e alquebrado,
vou ao sabor da corrente.
Que o tempo, quase esgotado,
matou o sonho dourado
do bicho que não foi gente.
Amanhã, talvez eu seja,
na paz que ainda me toca,
– esteja eu aonde esteja –
e em paga da minha inveja…
nada mais que uma minhoca.
Minhoca que lavra o chão
lentamente e sem clamor,
até que, sem ilusão,
e do silêncio de um grão,
da terra abrolhe uma flor!

– poema de João Baptista Coelho

noites com poemas
as histórias possíveis dos animais inventados

Uma vez mais, espero poder contar convosco neste círculo de afectos em que, de algum modo, se vem transformando cada sessão das nossas Noites Com Poemas, deixando aqui, também, o meu habitual apelo à vossa participação inspirada e criativa.
Antes de mais, um aviso: atenção que, a título excepcional, a próxima sessão do dia 22 de Janeiro calha a uma sexta-feira, para permitir que os alunos convidados da Escola Conde de Oeiras a ela se desloquem com menor constrangimento de tempo.
Como convidados teremos, ainda, o jornalista João Paulo Sacadura (TVI – Livraria Ideal – entrevistas a autores e livreiros; apresentador de Cartaz das Artes; autor), e David Machado, autor vencedor do prémio Branquinho da Fonseca (2005) – aconselho-vos uma espreitadela aqui: http://www.portaldaliteratura.com/livros.php?livro=3747,
Partindo da sugestão de títulos publicados deste autor teremos, então, as Histórias Possíveis dos Animais Inventados, para o que quero contar com a vossa criatividade e participação, libertando uma vez mais o bichinho poético que vos percorre.
No sítio do costume: Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana (Bairro Massapés – Tires). Ali vos esperamos, pelas 21h30.
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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