Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

a parada mudança

neste mundo tudo muda
tudo neste mundo passa
e tudo muda a mudança
da coisa romba à aguda
seja por bem ou desgraça
mas neste canto do mundo
nada se passa e no fundo
quando se fala em mudança
só moscas mudam de dança
na lixeira que nos cansa
faz-se a mudança chalaça
ou temor de fim do mundo
e está em nós essa graça
de passar do vira ao tango
em artes de contradança
e mesmo o vira se admira
pelo tango assim dançado
de tão parado e trocado
dançar tango ao som do vira
e virar ao som de um tango
mas o mais certo-certinho
neste pendor p’rà festança
é dançarmos qualquer dança
sempre ao som de algum fadinho
que nos atarde a bastança
se o vate Luís Vaz diz
que mudam tanto as vontades
como os tempos e a confiança
por mor espanto é feliz
o povinho em tal parança
por fim ao cabo e ao resto
resta em nós sempre o mistério
que o presente corre lesto
mas nós bem devagarinho
nunca o levamos a sério
imperador sem império
não há-de o poema ser
promissor ou bem amado
é tudo o que pode haver
neste mudar-se parado
– poema de Jorge Castro

ó ai ó Deolinda…

Olhai, senhores, como é diferente a bruteza em Portugal. E, também, como tanta bacorada proferida sobre o recente tema dos Deolinda, me deixa uma indizível sensação de vergonha, enquanto representante dos pais que têm toda a responsabilidade em quantas gerações rasca, ou à rasca ou nem-nem vêm produzindo nos últimos quatro decénios…
Desde fazer comparações espúrias com o José Afonso – o que é tão estúpido, anacrónico e insultuoso para o próprio como para os Deolinda, pois, como devia ser sabido, cada roca com seu fuso e cada tempo com seu uso… – até aproveitar para menosprezar ou mesmo denegrir a imagem do grupo musical, numa prática muito própria dos portugas retardados ou diminuídos mentais por razões não fisiológicas, mas bem instalados nas tetas da porca estatal, tudo tem valido para esses mais desvairados gurus da nossa praça lavrarem as sentenças mais disparatadas a propósito… de tal despropósito.
Ouvidos, lidos ou vistos, curiosamente nenhum, poucos, muito poucos tiveram o discernimento ou o golpe de asa de apurar, tão-somente, que o único paralelismo legítimo a considerar nestas considerações é a capacidade mobilizadora que uma canção pode ter, de súbito arvorada em bandeira de um qualquer movimento social de descontentamento que não encontra, à mão de semear, outro modo expedito de se manifestar.
– Nova crónica no blog PersuAcção – podem ver toda a crónica AQUI.

é dia de aniversário

é dia de aniversário
um dia mais
ordinário
um dia menos
urgente
há-de ser
de modo vário
jamais um dia
indiferente
que não seja outro fadário
por se viver
entre gente
por isso
de aniversário
quero ir contra a corrente
e contra o jeito do dia
que se adia perdulário
ao dia
de modo vário
hei-de achá-lo mais
à frente.

 

Ontem e a prolongar-se noite adentro até hoje, com o Oeiras Verde, uma homenagem ao Manuel Freire, no Chapitô, em Lisboa. Belo modo de se começar um dia…
… e ainda que a luz dos dias (como a das noites) não seja de grande fulgor, uma vez mais pudemos ver que, contra ventos e marés, a vida pula e avança, como bola colorida entre as mãos da uma criança. E, também, sim, que é pelo sonho e pela poesia que nós vamos.
E que, se assim não for, não iremos a lado nenhum…

Há tantos anos a jogar ao rapa, chegou a vez do dominó
– novo artigo de opinião no blog Persuacção

O que fará mover aquele mar de gente que perturba a tão aparente quanto frágil quietude dos países do norte de África? O que leva a que tantos homens e mulheres, avós, pais e filhos, desçam à rua com gritos e pedras de revolta que tanto afligem a nossa pantanosa pacatez?
E afligem porquê? Porque não temos o expediente fácil e costumeiro da cegueira do conflito religioso ou, até, da alienada paixão clubística, na origem de tão imensas multidões? Porque a evidência de se estar disposto a dar o corpo às balas pela causa da justiça social está tão afastada assim das penosas consciências europeias ou «ocidentais»?
A verdade é que, talvez ainda algo afastados das realidades quotidianas que originam tais revoltas, nós, portugueses, aqui bem perto, temos vindo a ser conduzidos para esse redil de iniquidades sociais, através de diversos processos de anestesia, quase sem um estremecimento, quase sem um pestanejar.

– ler o restante artigo AQUI

Arquitectura – a poética do lugar,
com Miguel Brito

Feita a apresentação do nosso convidado, Miguel Brito, através de texto seu publicado no livro (Per)Cursos de Cascais – Um Mar de Escritas, colectânea de trabalhos a várias mãos, com edição da Câmara Municipal de Cascais, originada numa prazenteira Oficina de Escrita Criativa, que ambos frequentámos e onde travámos conhecimento…     

… foi dada a palavra ao convidado.

Com um sábio e notável humor – que lhe conhecemos, mas que urge divulgar -, um discurso fluido, um empenho discreto mas firme, decorreu a sua palestra de saberes, dirigida como seta ao objectivo primeiro destas nossas sessões: a vida, articulada nas suas multiplas manifestações, com a poesia. Se o pretexto é a Arquitectura, pois que seja. 
E em boa hora o foi, no passeio proposto por Miguel Brito, que nos foi levando pela mão através dos conceitos do belo e das justas proporções das coisas, sempre com a margem de fuga para a individualidade de cada abordagem, ainda que tendo presentes as pontes que promovem os pontos de encontro. 
Excelente a empatia e a interacção criadas entre o palestrante e a audiência! – E se me acusarem do exagero de adjectivos… pois, se tivessem assistido, me diriam…   

Depois – e como sempre – poema a poema, opinião a opinião, a noite foi decorrendo sem se dar por ela, com as prestações habituais, que nos dão tanto gozo ainda que sempre causem surpresa, mas também com cada recém-chegado, que logo se integra no espírito do momento, como se sempre tivesse feito parte da «casa», mas enriquecendo-a com novas divisões, outras janelas, portas abertas para novos mundos, onde a diversidade é superior material de construção neste edifício de afectos.   

O arquitecto Miguel Brito, sendo «agraciado» com o certificado de louvor e agradecimento que a senhora Vereadora do  pelouro da Cultura da Câmara de Cascais, Ana Clara Justino, faz questão de fazer chegar a cada um dos nossos convidados, numa manifestação de cumplicidade que fazemos, também nós, questão de sublinhar.  

convite – Arquitectura – a poética do lugar
na próxima sessão das
noites com poemas

«Construir arquitectura é dar corpo aos sonhos, dar significado às ideias, expressar um diálogo entre a sociedade e a envolvente. Descobrir os meandros da arquitectura é explorar a natureza humana na realidade construída. Arquitectura é arte poética construída. Viver os lugares pode ser um acto poético
Isto me disse Miguel Brito, arquitecto e alegre companheiro destas aventuras pelos caminhos das palavras, aquando do encontro em que combinámos esta sessão das Noites com Poemas, na qual ele será o promotor do tema.
Dia 18 d Fevereiro (sexta-feira), pelas 21h30, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, como sempre, contamos com a presença de todos e de cada um, também com um poema de sua lavra ou um poema que, tão simplesmente, lhe tenha caído no goto e que lhe apeteça partilhar.
Poderia, ainda, para mais suscitar a vossa curiosidade, trazer-vos um mimo, que a mim me apetece chamar poema, da nota de apresentação de um livro de Miguel Brito:
O Palácio das Fadas Tristes
É um pequeno conto de fantasia.
Tanta gente passa frente a esta ruína,
E tão poucos pensam nela.
Desconhecida a sua origem,
Esquecidos os seus habitantes,
Fica o sonho mudo feito de pedra,
O espaço por viver de um sonho maior:
Habitar e ser feliz.

E as fadas do tempo
Habitam o espaço
Que os homens esqueceram.

namoro… (porque não…?)

dias há em que volto a ser poeta
que por mim passa a lonjura do futuro
e tão só por reparar nos teus olhos
sempre perto do horizonte a descoberto

dias desses não são raros
mas esparsos
surgem num virar de esquina
num momento
numa rua da cidade que percorro
nesse instante em que vou
de encontro ao vento

é então que até pedras da calçada
redescobrem o desenho de algum mar
onde perco o andar no teu olhar
animado pelos tons das madrugadas.

– poema de Jorge Castro

Oeiras Verde com a APOIAR

Integrando os jograis Oeiras Verde, estivemos ontem a apoiar a APOIAR, com uma sessão de poemas na tomada de posse da sua nova Direcção, a convite de João Sobral.

A APOIAR – Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vítimas do Stress de Guerra, fundada já em 1994 – como tantas outras organizações civis por esse Portugal fora – desenvolve uma tão espinhosa quanto meritória missão, porventura no desconhecimento da grande maioria da população e até daqueles que benefciariam directamente da sua obra.

Nada nos parece de especial transcendência, até ao momento em que, trocando impressões ligeiras com um velho combatente, sem aviso, ele se destrambelha em lágrimas apenas por recordar determinada data, um certo dia em lugar certo, para o qual de súbito incontroladamente se transporta e que arrasta consigo uma imensidão de emoções de que não consegue libertar-se. E vão passados quarenta anos… parecendo-lhe a ele que foi ontem.

João Sobral, que integra a actual Direcção, no seu discurso de apresentação e anúncio de novas acções que divulguem a existência da APOIAR, mormente junto daqueles que com ela possam colher benefício. 

Antecedeu a actuação do nosso grupo a violinista Raquel Cambournac…

… logo seguida, então, pelo Oeiras Verde, que teve o melhor acolhimento… 

… e a quem se juntou o João Sobral, fazendo uma «perninha» e recordando a sua participação no grupo de que também já fez parte. 

Irá a APOIAR desenvolver, ao longo de 2011, uma série de acções e colóquios, especialmente localizadas na região de Lisboa, no sentido de divulgar junto da sociedade civil – Câmaras, Juntas de Freguesia, Centros de Saúde, Bombeiros, Universidades, outras Associações, cidadãos em geral – a sua acção, para que maior número de ex-combatentes, possíveis vítimas deste drama tão escondido, possam vir a beneficiar do seu apoio.
Sabendo nós que os mobilizados para a guerra nas ex-colónias ultrapassou um milhão de indivíduos e quão «politicamente incorrecto» é suscitar estas matérias, encobertas por mantos de vergonha e incompreensão, fácil será avaliar o alcance, ainda hoje, de tal missão.
Nas sessões já previstas e anunciadas no cartaz acima, o Oeiras Verde terá o maior gosto em dar o seu contributo.
Aqui ficam meios de contacto com a APOIAR, para quem esteja interessado ou conheça quem o possa estar:
Morada: Rua C, Lote 10, Loja 1.10, Piso 1 – Bairro da Liberdade, 1070-023 LISBOA
Tel.: 213808000
Tm: 961953963
Fax: 213808009
  

quem nos ouve?

quem nos ouve?

quem experimenta a imensidão do silêncio
em frente a este mar sem fúrias?

fica-nos o dedilhar intenso da guitarra de Paredes
na esperança viva de semear centelhas
sobre as águas

acordar
sim
acordar
deste torpor de cadeias
que nos deixamos impor
como se de nada fôssemos ninguém

correr à frente da vida
tangendo cordas prementes de infinito
que se encontram sempre ao alcance da mão em voo
apesar das neblinas

quem nos ouve senão nós
se estamos sós?

– poema de Jorge Castro

a mão estendida de alguns pobres ricos…

… no blog PersuAcção, poderão ver a crónica completa. Mas poderão ver muito mais, que vão ficando por ali excelentes textos de vários autores que eu recomendo, sem excepção…

Então, na minha mais recente crónica, digo eu que…

Uma das coisas que caracteriza a idealizada «sociedade de informação» em que supostamente vivemos é, exactamente, a proliferação de fontes de desinformação, que criam ao vulgar cidadão uma dispersão aleatória de abordagens sobre cada assunto em análise, geradora, afinal, de uma opacidade para a interpretação, que conduz a que nunca saibamos onde se encontra a verdade… ou, sequer, uma réstia dessa verdade, que nos ilumine o viver.
Vem este arrazoado a propósito do drama terrífico das escolas privadas e/ou cooperativas ou associativas – desde logo é necessário ser um iniciado para se perceber do que se trata – que, à míngua de subsídios estatais, mesmo ao arrepio de anteriores situações contratualizadas, diga-se, poderão ver-se constrangidas a despedir docentes e pessoal auxiliar (se é que, destes, ainda os têm), prescindir de equipamentos e de oferta ou, até, fechar as portas, para descabelamento desesperado dos «ricos» (ou talvez não…) progenitores das pobres crianças… e tal… e tal…
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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