Dele e do seu imenso legado musical e político eu e tantos já dissemos muito e outro tanto haverá a dizer, assim nos sobre engenho e arte.
Deixo aqui uma dessas simples homenagens de minha autoria que lhe dediquei, em projecto de Ernesto Matos – «25 Poemas para o Zeca» – e que viva o José Afonso!
A JOSÉ AFONSO – POR TER BARCOS POR TER REMOS
não havia qualquer som na neblina que pairava densamente na cidade quando amar era névoa clandestina e balada só rimava com saudade
mas ergueu-se uma voz doutras seguida uma voz de cantar a voz erguida deste chão só de sombras e degredo este chão e esta voz que desgarrada soube ser e crescer e ser amada essa voz que cresceu só contra o medo essa voz que acordou a madrugada.
venha lá a sardinha as papas e os bolos de enganar os tolos a chuva miudinha uva sem grainha venha lá o medo venham os bretões nos seus aviões dar cor ao enredo em cor de lagosta como a gente gosta mas sem sinapismo venham lá depressa espantar o Eça criar mais turismo venha lá a Covid que ninguém duvide que está p’ra ficar assim como estamos entre desenganos a olhar para o mar venha a valentia de num qualquer dia ao mar nos fazermos mas com a alegria de um submarino que só anda a remos venha lá o vinho o amigo e o vizinho e do mal venha o menos venham caracóis com os futebóis tão bons de rimar tal como a cerveja e a tanta inveja que temos p’ra dar ah meu Portugal plastificado como o via O’Neill como o canta o fado não há outro igual … ou melhor dizendo não há outro Abril…?
Porque é Abril e, nele, o dia 25, aqui vos deixo uma imagem alegórica que o meu filho Alexandre criou a partir de fotografias minhas obtidas nesse dia, em 1974.
Imagem a imagem, é por Abril que vamos.
Foi pela força das armas, não o esqueçamos, que Abril de 1974 aconteceu.
Mas pela força das armas que, a começar pelo Movimento dos Capitães, culminando na incondicional adesão popular, soubemos todos temperá-la com a candura de um cravo.
E, assim, esse momento inspirador e único deu novos mundos ao mundo.
Do meu livro «Abril – Um Modo de Ser», o poema «Abril, sempre!»:
ABRIL, SEMPRE!
na dolência de nos quedarmos tão sós na cadência sincopada de agonias contra quanto de tão vil afoga a voz na premência da urgência de outros dias não te esqueças desse grito com que alarmas o presente e o futuro que querias pois o Abril das quimeras e utopias esse Abril rima bem com povo em armas.
Para quem traz Abril no peito, podem ouvir o meu poema aqui:
Tenhamos sempre bem presente que o 25 de Abril de 1974, redentor e fonte infinita de inspiração, não se esgota nas nossas memórias.
Para que Abril (nos) sobreviva, a passagem de testemunho às novas gerações é imprescindível.
Não o «nosso» 25 de Abril – que por ele ansiámos, que o vivemos e que hoje celebramos -, mas o Abril de cada dia e de cada ser vivente que se alimenta de liberdade, respira democracia e anseia por condições dignas de trabalho e de vida.
O pão, a paz, habitação, saúde e educação não foram, como não são, apenas estribilho de canção do Sérgio que nos sabe bem entoar mas, antes, realidades tão concretas e definidas como outra coisa qualquer, parafraseando Gedeão.
E «as portas que Abril abriu» estão, ainda, muito longe de terem permitido a passagem de toda a gente. A reivindicação pelo pão, a paz, a habitação, a saúde e a educação estão aí, na ordem do dia.
Não é a «nossa» realidade de há 47 anos que pode ser invocada para alterar o actual estado de coisas. Isso não faz qualquer sentido. A mesma água não volta nunca a passar por baixo da mesma ponte. Lembremo-nos, a propósito, de um chavão que muito usávamos: a análise concreta da situação concreta.
Podem e devem as novas gerações reinventar Abril e fazê-lo seu. E a elas só compete essa missão. Podemos e temos absoluta obrigação, nós, os mais antigos, de acompanhar, solidariamente, esse processo, não fechados no nosso mundo, mas atentos e expectantes ao que lá vem, braço com braço com os nossos filhos e os nossos netos.
Exactamente porque não há «donos de Abril». Nem velhos nem novos.
Do meu livro Abril – Um Modo de Ser, um excerto do poema Não era nada, quase nada, e era Abril:
(…) e houve um santo e uma senha na alvorada a erguerem-se numa só feitas à estrada as vontades de ser livre e ser inteiro a rasgarem entre o denso nevoeiro o alvor a alegria a liberdade e mostraram ao país outra verdade
Lisboa, 25 de Abril de 1974
Do meu livro Abril – Um Modo de Ser, excertos do poema Era um tempo feito de verde infinito:
era um tempo feito de verde-infinito era um tempo de água parda e neblinas era um tempo de silêncios sem notícias que ondulava sem carícias contra o cais
era um tempo sem flores ou voo de aves era um tempo inventado sem jamais era um tempo sem o azul das maresias e amarras que prendiam desiguais (…) mas no âmago mais fundo que nos resta nesse dia que que nasceu como os demais o verde e o azul do mar estão em festa e amarras nunca mais – oh nunca mais!…
Lisboa, 25 de Abril de 1974
Do meu livro Abril – Um Modo de Ser, excertos do poema A Cor de Abril: (…) uma vontade a crescer no peito que se deslassa crescendo em nós sem se ver mas vermos que nos abraça
pressentindo em modo vário que ao sermos um povo unido nos fica o medo vencido e nós um mar solidário.
NOTA – O livro, de minha autoria, Abril – Um Modo de Ser contou com o apoio da Associação 25 de Abril e da Espaço e Memória – Associação Cultural de Oeiras