Deste modo nomeei uma série de iniciativas em que me encontro envolvido e que homenageiam e glorificam o «dia inicial, inteiro e limpo», onde nasceu a nossa Liberdade.
E nasceu um livro. Pelas 8h30 da manhã do dia 25 de Abril de 1974, estava junto ao Terreiro do Paço, com a minha máquina fotográfica Voightländer Vito CD… e fui registando o que passava defronte dos meus olhos assombrados, até ao 1º de Maio desse mesmo ano.
São 168 páginas (formato 24×16) com cerca de 300 imagens, que transportam em si incontáveis histórias. No livro «A Vida Saiu À Rua Num Dia Assim» excertos de poemas de minha autoria e que integram um outro livro meu – «Abril, Um Modo De Ser» – acompanham o relato do evoluir dos acontecimentos.
Da sua ficha técnica realço a edição da Espaço e Memória – Associação Cultural de Oeiras, com projecto gráfico, capa e paginação de Marta Filipe e execução gráfica da Sersilito-Empresa Gráfica (Maia).
A apresentação oficial desta obra está aprazada para o dia 27 de Abril, algures em Cascais, e disso darei, oportunamente, informações.
Entretanto, quem esteja interessado em adquirir o livro, poderá enviar-me uma mensagem nesse sentido para jc.orca@gmail.com, indicando nome e morada. O custo do livro, com portes incluídos, é de 22 euros. Na resposta à mensagem enviada indicarei forma de pagamento.
Dia 05 de Abril, pelas 18h30, na Biblioteca Municipal de São Domingos de Rana
E, de súbito, era Abril. Um apelo circunstancial e oportuno colocou-me próximo do Terreiro do Paço, no dia 25 de Abril de 1974… e com uma máquina fotográfica na mão.
Desse dia até ao primeiro de Maio do mesmo ano, passeei pelas ruas da cidade, agora carregadas de futuro, tal como o poema de Celaya.
Essas memórias fotográficas, registadas por um fotógrafo amador que nunca deixou de o ser, vão estar finalmente expostas, em boa parte, a partir do dia 05 de Abril, pelas 18h30 e até Maio, na Biblioteca Municipal de São Domingos de Rana e muito gostaria de contar com a presença de quem queira e possa.
Esta exposição integra-se num conjunto de iniciativas que levam o título de A Vida Saiu À Rua Num Dia Assim – em homenagem a José Afonso e a essa efeméride maior das nossas vidas – de que fará parte, também, a publicação de um livro com o mesmo título (que reúne cerca de trezentas imagens).
Estas iniciativas – que irei por aqui anunciando – contam com o apoio da Espaço e Memória – Associação Cultural de Oeiras, a que pertenço, da Câmara Municipal de Cascais e da Câmara Municipal de Oeiras.
Para que não se apague a memória nem se reescreva a História por ínvios caminhos e, enfim, por Abril, sempre, conto convosco!
Há cerca de vinte anos escrevi um poema longo, não propriamente dedicado à Mulher mas, antes de mais, à condição feminina. Para os corajosos ou muito pacientes, aqui fica:
O QUE EU SEI SOBRE A MULHER
tentei aprender nos livros no diz-que-diz dos amigos o que seria a mulher isso mesmo: a mulher!
ouvi falar de beleza sensualidade ternura li muito sobre a tristeza o sofrimento a amargura nos poetas eu colhi flores feitas madrigais onde a mulher é uma nuvem ou é mar ou nunca mais
soube também da notícia do lume que o ciúme ateou nuns olhos doces e que assim – quem diria? feriram como punhais mas segundo me constou nesse entrecruzar de vidas não houve sangue nem gritos nem sequer amores aflitos talvez só amor demais
pedi também à floresta ao mar às altas montanhas que me ensinassem depressa – estão cá há tanto tempo – de que se faz o sorriso fugaz doce ou impreciso que diviso fugidio no rosto de uma mulher
cheguei a pedir às nuvens que perguntassem por mim ao céu e ao firmamento a cada sol cada lua o que seria a mulher pouco mais vim a saber…
de uma tal nebulosa de que falar nem ouvira chegou-me mais incerteza de que a mulher como ela seria uma nebulosa feita de aromas de rosas e salgada água do mar algum sorriso que houvera não passara do que era fora sorriso de amar talvez até desamor era tudo e nada mais
passei pelo fogo pela água pela terra e pela mágoa tentei que alguém me dissesse desse ser que anoitece e que gera madrugadas ouvi apenas silêncios temperados de mistérios ouvi sonhos muito leves ouvi olhares e mais nada
por fim estando assim perplexo foi a mim que perguntei não desta daquela ou d’outra mas de uma qualquer mulher seria alguma magia? obra de arte uma pintura? uma entrançada urdidura de rara tapeçaria? seria o riso das flores? seria a fúria dos mares? ou a dor desses lamentos que eu tanta vez pressentia ao ouvir a voz dos ventos?
talvez nada talvez tudo
e de repente nasci do ventre da minha mãe e de repente senti todo esse amor imenso que nos faz doer o peito num enlevo de paixão e que faz erguer do chão a solidão pressentida
da mulher que se faz mãe e da mulher que é amante o seio me deu a vida e quase no mesmo instante foi ele que me deu guarida de repente percebi a falta que me fazias a sem-graça que seria se no mundo não houvesse nada que se assemelhasse ou sequer se aproximasse ao teu sorriso, mulher..
muito bem estou convencido nesta pele em que eu habito nasci homem – é um facto mas por tanto que me falta de bom grado eu admito que se me dera escolher não sei se logo ao nascer e sabendo o que hoje sei não seria mais sensato porventura mais bonito preferir nascer mulher.
– Jorge Castro 04 de Março de 2003 (in Contra a Corrente, ed. Apenas Livros, 2005)
E vivó Carnaval! Há uns dias fiquei de publicar por aqui, a pedido de várias famílias, uma brincadeira carnavalesca, em forma de poema, que fiz, já há uns anitos, mas que me parece não ter perdido muita actualidade. Cá fica, então, para cumprimento de promessa:
Carnaval à portuguesa
Lucinda veio a terreiro trouxe um corpete ligeiro – saia curta – perna ao léu no treme-treme da dança treme o seio – treme a esperança treme quanto Deus lhe deu e no mar de lantejoulas entrevê o seu Honório exibindo as ceroulas do avô que já morreu – que em acabando a folia hão-de tratar do casório tal qual ele lhe prometeu –
e a turba já se atordoa c’o trio eléctrico à toa num espavento de som que vindo lá dos brasis espanta os nossos civis que aquilo sim é que é bom
Lucinda agita este corso seio à mostra mostra o dorso – dá à pernoca com alma haja calma – haja calma grita o agente aflito agarrando um expedito que corria no asfalto p‘ra tomar Lucinda a salto que pernoca assim mostrada perturba a rapaziada no desvendar do mistério deixem lá que é Carnaval ninguém leva nada a mal nem nada é caso sério
Lucinda toda ela vibra mostrando bem de que fibra é o corpetinho de lã e no cume do collant onde a saia acaba a racha por lá se perde e se acha a rendinha da cueca que desponta em cada passo queimando qual alforreca um olhar sem embaraço
pretinha assim rendilhada no contraforte da meia meia-volta volta e meia deixa a malta entusiasmada quais brasis nem qual Veneza assim sim à portuguesa uma coxa bem mostrada
e as plumas do pavão em frente ao seu coração vibram mais porque afinal em tempos de Carnaval no tempo amargo de crise o que o corpete desvenda é dádiva – não está à venda dá de si o que ela entenda enche um olhar que precise.
2023. Este foi o ano que passámos e no qual imprimimos a nossa marca, efémera, imprecisa, de relevância sempre subjectiva. Mas nossa e única.
A Terra girou sobre si mesma e em redor do Sol como sempre o fez, antes do nosso aparecimento. E assim se manterá depois de, inevitavelmente, abandonarmos esta nossa presente materialidade.
2024, o novo ano, aí vem. No fundo, nada se alterará significativamente no plano universal. Apenas os nossos actos poderão ser diversos e qualitativamente diferentes, assim nos valha o livre arbítrio.
Para quê? Ora, cada um saberá do seu caminho. Mas se o trilhar de mãos dadas com o seu semelhante, estou em crer que essa transcendência fica bem encaminhada.
Então, aqui ficam os meus votos de um bom ano novo para todos os humanos de boa vontade!