Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

poema circunstancial

quantas casas vão ruindo neste mundo
quantos males
epidemias
quantos medos
em razias neste imenso mar sem fundo
onde sobra a morte e singra a solidão?

quantas mãos erguendo aos céus as suas preces
a mil deuses escondidos no universo
sem jamais terem sabido deste chão?

quantos versos cada hora buscam vida
escondida nos esconsos solitários
de viver sem saber de algum irmão?

e cada dia flui nesse vaivém
da eterna rotação espiralada
onde atrás de algum dia um outro vem
mesmo sem que algum homem dê por nada

felizmente há o luar
e alguns poemas
primavera e outono
inverno verão
poente de chuva e sol nascente
redimindo em cada verso o imenso tédio
de cuidar não ter remédio
a ilusão.

– poema de Jorge Castro

fotografando o dia (142)

se de meu couve tivesse
uma casa aconchegada
e esta doce humidade
nada mais que alguém me desse
serviria para nada
para espanto da cidade
talvez um pouco de amor
amizade em meu redor
que o corpo quer
e apetece
e o resto
que vem com a idade
– fotografia e poema de Jorge Castro

oração à nossa senhora da luz…

… no quarto apagão em cerca de quinze dias, depois de um Natal às escuras e com a penitência de corrigir os enésimos relógios electrónicos de tudo quanto é electrodoméstico cá em casa, piscando desalmada e irritantemente a cada interrupção de fornecimento…

A ti, senhora, nós te rogamos que, do alto das tuas catedrais hidroeléctricas, térmicas ou eólicas, nos ilumines e aqueças nas venturas como nas desventuras; que nos permitas subir em elevadores e ver os canais nacionais de televisão, com os seus comentadores, comentamales e comentacrises, que alumies as nossas leituras nocturnas quando, cansados de um dia de trabalho e de transportes urbanos, procuramos um mundo melhor, em ensaio ou ficção, ao qual com os teus beatos acólitos – santa factura e santo atraso de pagamento – nos permitas aceder, sem mácula e sem dívidas, pela santíssima via da transferência bancária ou da imaculada pureza das caixas ATM, e que não transformes com irritante frequência o meu pobre lar numa decadente versão de velório pós-moderno, com os inerentes riscos de incêndio para quem já se desabituou das ancestrais práticas rurais, nem nos deixeis cair na tentação de adquirir um gerador, poluidor do ambiente e indutor de inopinados comportamentos terceiromundistas, amén.


(Esta mensagem foi escrita na mais negra escuridão, num dos supostamente mais ricos concelhos do País e a enfermar de um choque tecnológico, no ano da graça de 2010, século XXI, com uma lâmpada de mineiro na cabeça, para iluminar o teclado, embrulhado em cobertores, com dois pares de meias e pantufas calçados, que o friozinho está de rachar.)

vamos cantar as Janeiras

‘inda agora aqui cheguei
mal pus o pé nesta escada
logo meu coração disse
aqui mora gente honrada

nós somos rosas por desfolhar
as boas festas viemos dar

eram assim as Janeiras
que eu cantava em menino
entoadas nas soleiras
de construir o destino

e nem o frio mais duro
nessa terra transmontana
nos ensombrava o futuro
do canto que nos irmana

lado a lado em altas vozes
cada porta respondia
avelãs, castanhas, nozes
do melhor que em casa havia

de ricos farta fazenda
de pobres a demasia
ia crescendo a merenda
aquecendo a noite fria

e quando algum não tivesse
que dar senão alegria
trazia a voz que soubesse
e em vez de dar recebia

se o passado era este
em pobres versos que apuro
que o presente mais agreste
colha esperanças de futuro

então assim como Aleixo
que a vida dava a cantar
senhor estas quadras deixo
em festas boas de dar

e que esta voz que parece
ser de um só no seu soar
seja a de quantos aquece
estarem juntos a cantar.

*
– Fotografia – Grupo coral CRAMOL, Janeiras de 2009, na Igreja de Oeiras
– Quadras de Jorge Castro

NOTA – Dia 8 de Janeiro de 2010, pelas 21 horas, na Igreja de Oeiras – as Janeiras com o CRAMOL – a não perder!

1 do 1

No meu pequeno jardim e num momento em que a época do ano apontaria para a poda de diversas espécies vegetais, nomeadamente as roseiras, o dia de hoje amanheceu com esta dádiva, que um botão promissor há vários dias anunciava. É a primeira do ano. Aqui fica… em jeitos de metáfora.

Pela manhã, fui-me ao tradicional passeio pela praia onde um grupo de maduros insiste em manter um hábito patusco que já é de difícil manutenção, a não ser que prevaleça a vontade de quem o mantém. E só essa, afinal, será bastante…

Na verdade, nada como um banho invernoso para nos vacinar contra alguns baldes de água fria com que o ano poderá presentear-nos.

em 1 de Janeiro de 2004…

… iniciei a minha viagem neste mar, com esta embarcação. Amanhã, pois, estarão cumpridos seis anos ininterruptos de convívivo por estas paragens.
O País e o mundo não estão melhores e receio, modestamente, que tal não ocorra por minha culpa ou responsabilidade, assim como não será por culpa ou responsabilidade de muito boa gente que tenho vindo a conhecer desde que utilizo esta janela para a vida.
Ou nos faltou fulgor e ímpeto ou as «negras forças adversas» tiveram artes e saberes para se nos sobreporem…
Sim, porque este labor diário é disso que se trata, para além de possível «feira de vaidades» que é a blogosfera: dar cada qual o seu tributo para a construção de um novo e melhor mundo. Ou não será? E renegarei liminarmente todos quantos tentam esbater esse contributo com radicalismos balofos. Se o caminho se faz caminhando, ele será caminho independentemente da dimensão da passada.
Se outras razões não houvesse, razões de saúde, graves, de um familiar muito próximo têm-me tornado, nos últimos dias, demasiado presentes e sentidas na pele as graves deficiências estruturais – dificílimas de contextualizar, mas reais como punhos – em que se encontra mergulhado este recanto dos sumptuosos estádios de futebol e dos fantasmáticos e megalómanos tegevês do nosso descontentamento…
Com votos, então, de um feliz ano de 2010, recheado de óptimas realizações, para quantos me visitam no Sete Mares, aqui lavro a minha vontade (necessidade) de perseverar, remando contra as correntes que percepciono adversas, inevitavelmente contando convosco para somarmos as debilidades que nos fortalecem.

fotografando o dia (141)

de plástico o saquinho
que tanto polui funesto
é lixo de mau vizinho
inunda o mundo de resto
traga lá o cesto à praça
ou alcofa em vez do cesto
e verá que acha graça
à graça desse seu gesto
– fotografia e poemículo de Jorge Castro

solidário com a iniciativa da Inês e do Alexandre, pelas Caldas da Rainha,
Traga Um Cesto à Praça

24 de Dezembro de 2009

Festas felizes, boas festas, um Natal em que saibamos preencher os lugares vazios às nossas mesas com a temperatura amena dos afectos e da memória, que prevalecem.

dar a passada que falta e a outra que nos sobra
dos saberes que nos percorrem
dessa estrada perseguida pedra a pedra erguida a obra
das memórias que não morrem

e ser forte que conforte sabendo em nós ter a sorte
de singrar o azul profundo
e dar mais vida que a morte tendo por meta algum norte
de mais mundos dar ao mundo

as duas mãos estendidas para um horizonte de luz
duas vontades unidas
para que ao alto do monte não se nos depare a cruz
das verdades redimidas

– Jorge Castro
24 de Dezembro de 2009
*

E divirtam-se imensamente por aqui:

alguns Natais de óptima vizinhança…

De Ernesto Matos, com a sua imorredoira paixão pela calçada portuguesa. De que estão à espera para lhe conhecer a obra?

*De Tmara (Conceição), recomendo:Acrósticos e quadras de Natal

Não é quando
Alguém quiser
Tão pouco todos os dias.
Alguns, poucos, em que
Leves as almas se descobrem.
*
De José António Barreiros, uma excelente e melancólica reflexão:E de repente um homem nota que é Natal. E um homem sente que há histórias para contar sobre o espírito de Natal. Porque há Natal e o espírito de Natal. E o dia de Natal. E a véspera de Natal.
Há um dia em que um homem pensa como vai sobreviver a esses dias sem entristecer demais… (ver Conto de Natal completo AQUI).
*Da Fernanda Frazão e da Apenas Livros:

*Do Herético, homem de sabedorias, a deixar-nos Torga, lá no seu Natal do Relógio de Pêndulo. A não perder…*Do Raim, traçando-nos outros olhares para o Natal (como este Natal visto por dentro…) e para o mundo no seu Raim’s Blog: *(talvez continue…)

quem vê caras
também pode procurar corações…

No fundo, se quisermos ver com olhos de ver, o que percepcionamos da vida compõe-se daquilo que vemos e daquilo que queremos ver. Os nossos sentidos estão aí, para o que der e vier. Mas o nosso entendimento do mundo tem os filtros das nossas vivências ou, se quisermos, da nossa cultura. O milho que a senhora lança, alimenta os pombos, mas faculta o voo…

Podemos, pois, em cada momento da vida, abrir uma janela nova nas paredes desse edifício e permitir a renovação do ar e a entrada da luz.
É tão só disso que se trata quando ouço a Fernanda Frazão e a Gabriela Morais dissertando sobre a Teoria da Continuidade Paleolítica, tal como ocorreu nesta sessão dedicada ao livro A Senhora de Ofiúsa.

A terra de Ofiúsa parece-nos, então, tão óbvia, tão entranhada, que damos por nós surpreendidos por terem sido possíveis tantos anos do nosso alheamento.

E, logo depois, parece-nos fácil voar. Afinal, as asas existiam. Talvez nos faltasse, apenas, o sustento.

NOTA de rodapé: para quem considere algo exotérica esta mensagem, desengane-se. Se as ideias surgem um pouco «encriptadas», as pistas, no entanto, estão no pequeno texto e a curiosidade pode ser saciada através de um contacto junto da editora Apenas Livros. Está lá tudo…

Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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