Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

o que há para se fazer terá de ser feito hoje

– no dia da morte de Vítor Alves, capitão de Abril

o que há para se fazer terá de ser feito hoje
e se puder feito já e feito já nesta hora
não por pressa nem demora que o tempo nunca nos foge
mas fugimos nós ao tempo julgando que vá embora
algum tempo em contratempo onde a amargura se aloje

ou se anoje a desventura de esperar sempre amanhãs
que não cantam nem sorriem se não dermos corpo ao grito
emudecido e aflito nas dormências tão malsãs
em que se escoam os dias e as esperanças sem fito
que ele há um tempo de searas e outro tempo de romãs

e nas campinas papoilas dão seu brado sem ter medo
de que o seu sangue vermelho marque a diferença no chão
que nem por isso se esconde esse azul do céu enredo
nem ficará pelo meio da Lua uma translação
de criar marés e dias e os ventos no arvoredo

o que há para se fazer terá de ser feito hoje
que o amanhã tem por certo o ser-nos um tempo incerto
e não nos ficar por perto o ontem que já passou

o que há para se fazer terá de ser feito hoje
corpo de uma esperança aflita ou de um sonho que voou.

– Jorge Castro
09 de Janeiro de 2010

a um dos que sabem que o sonho comanda a vida…

A alguém a quem devo, muito simplesmente, o poder dizê-lo, aqui e agora, tão abertamente, mesmo que de coração magoado; a um desses que se vão da lei da morte libertando; a um dos que, num momento dado das suas vidas, se confrontou, em carne viva, com o seu papel na vida e no devir do seu semelhante e ousou dar o passo em frente; a alguém que cultivou a arte de gerar consensos … A esse alguém, a minha sentida homenagem.

Para todos quantos a Liberdade não é uma palavra vã, saibamos manter erguidos testemunho e bandeira.


Até sempre, Vítor Alves!    

madrigal

Hoje trouxe, de um dos meus lugares diários de restauração, quase que uma flor em forma de comentário, quando me foi dito, perante um pedido meu mais intenso, qualquer coisa como «não me peça chorando o que lhe dou sorrindo»… Piegas, lamecha? E daí? Tenho os impostos em dia e não me consta que deva alguma coisa que não pague. E um madrigal cai sempre bem, qual seja a circunstância, mesmo em torno de uma pizza Tropical… 

não peça chorando
o que dou sorrindo
nem de vez em quando
nem se já estou indo

não vá embarcando
pelo lago infindo
mesmo lago brando
pôr de sol fugindo

seja assim andando
seja assim dormindo
jamais perturbando
algum sonho lindo

e nem mesmo quando
não há flor florindo
não peça chorando
o que dou sorrindo

– poema de Jorge Castro

mensagem de ano bem bom – nova crónica no blog Persuacção

Perante o arrazoado mais ou menos infame, mais ou menos balofo, vazio de conteúdo ou, até, mais ou menos idiota das ditas mensagens de natais e anos novos que vamos ouvindo nesta época, do tipo bolo-rei de terceira categoria, seco e pobre em frutos, por parte dos organismos oficiais, porque não a hei-de emitir também eu, cidadão português comum, classe média, europeu, ocidental, nem-Nato-nem-Pacto-de-Varsóvia – como se dizia –, nem anti, nem pró «economias emergentes» e sem convicção especial em salvadores providenciais mais ou menos embrulhados na neblina dos dias?
Ver crónica completa AQUI, com algumas sugestões ideais (digo eu…) para combater a «crise».

ano 2011, dia 1, mês Janeiro – sete anos de Sete Mares
… mais 15 dias em favor da Thita

Ali, muito provavelmente no ponto onde o arco-íris toca a terra, se encontre o tesouro que gostaria de poder entregar a cada um dos meus afectos… Para além de casas ou outras construções humanas necessárias à nossa afirmação e existência, que prevaleça a nossa comunhão com a terra, com os afectos, com tudo aquilo que, afinal, faz de nós o que nós somos – e queremos ser, no concerto do Universo!
Ao Pedro Mota e ao Rui Farinha, que me souberam provar porque somos pó de estrelas; à Thita, que me ofereceu este blog, espaço de liberdade; a todos vós que me honrais com a vossa companhia e cumplicidades – e sois tantos! – os meus desejos de um ano de 2011 pleno de felizes realizações e votos de que a malfadada e inventada «crise» – seja lá isso o que for… – recaia, em todo o seu esplendor, apenas sobre quantos a alimentaram e alimentam e dela vivem, contra os superiores interesses da Humanidade.
Ao Alexandre e à Inês que meteram pés ao caminho para me surpreenderem fazendo-me chegar, mão na mão, um dos filmes da minha vida que há longos anos porfiava encontrar – The Magic Christian, com Peter Sellers e Ringo Starr, que, a propósito, recomendo muito vivamente e que mantém a sua actualidade há distância de quase quarenta anos…
Porque a Vida continua e a nossa luta pela sobrevivência é soberana e o direito de cada um ao sonho nos deve conduzir à descoberta e à companhia do outro… para que 2011 seja, na verdade, um bom ano, de especiais colheitas.   

que 2011…

tenho o meu caminho aceso
entre margens de incerteza
entre ventos de passagem
entre véus de montes pardos

do norte não trago pressas
nem do sul o mar reclamo
de leste me prendem cravos
no sol poente enredados

seja de mãos o futuro
seja de sangue este grito
que do pouco se faz tudo
do nada que a vida leva

resta-me um canto de terra
debruçado sobre o mar
é neste chão que me atardo
é nele que vou semear

– Jorge Castro

festas e festinhas das boas, para quantos por aqui passem,
são os votos do OrCa

NATAL 2010 – SE EU FIZESSE DO NATAL…

se eu fizesse do Natal o que apetece fazer
teria de viajar ao mais longe que souber
comeria a aletria com desenhos de canela
rapava com alegria o fundo de uma panela
onde sobrara a doçura dos doces da consoada
e correria a provar a primeira rabanada
a saber a leite doce e àquele vinho do Porto
que enchia a casa toda de calor e de conforto

se eu fizesse do Natal o que apetece saber
chamaria alguns amigos aos lugares a preencher
de quantos lugares vazios em redor da nossa mesa
pudesse eu encher de afectos para guardar a certeza
de que ausência nenhuma se revelasse maior
mas brilhasse na memória e nos trouxesse o melhor
que a vida toda nos trouxe do amor ou da amizade
se eu fizesse do Natal um Natal com mais verdade

se eu fizesse do Natal um Natal com estas mãos
em redor daquela mesa seriam todos irmãos
presépio onde os saberes de mãos dadas com sabores
fariam saber ao mundo de que há mundos bem melhores…

– Jorge Castro
Dezembro de 2010

noites com poemas
a poesia na ESQM
a ponte construída para o presente!

Jovens da Escola Secundária Quinta do Marquês tiveram a cargo a condução da última sessão das Noites com Poemas. Boas vindas e apresentação sumária em forma de poema e, prontamente, se passou a batuta…  
… para quem estava lá com incumbências de direcção dos acontecimentos. David José Silva apresentou-nos os seus colegas e amigos, informando-nos ao que vinham, e propôs-nos uma abordagem à poesia através de mescla de sentires, de personalidades, que se enformam em díspares manifestações poéticas, tanto quanto à forma como ao conteúdo. Coube-lhe dar início prático a essa proposta… 

Carlota Pignatelli, Tomás Neves e Castro, Marina Durante (da esquerda para a direita), mostram uma maturidade, mesmo quando construída sobre as inquietações – ou também por isso mesmo -, que nos trazem vestidas sob a forma de poemas e que desvendam – para todos aqueles que dúvidas tivessem – quão próximos, afinal, todos estamos…     
…  esbatendo-se de forma clara divergências costumeiras do «fosso de gerações», porventura alimentadas preversamente por «elementos de aceleração» da sociedade consumista que nos cerca.
Pessoalmente, senti-me transportado para recônditos lugares da minha juventude onde, apesar da distância temporal e do aparente avanço desaustinado do «progresso», me encontrei perfeitamente identificado com as palavras dos nossos convidados. 

João Mateus (canto) e o Maestro Pedro Miguel (piano) foram pontuando os poemas com interpretações de temas diversos… ainda que o sintetizador, gentilmente cedido por um bom amigo,  nos deixasse a todos com uma  oitava a menos relativamente ao esperado piano – único elemento que a propagandeada «crise» impediu de estar presente, como seria de desejar. Mas João Mateus soube, desembaraçadamente, caçar com o gato, à falta do cão.  

E assim foi que a todos nos agradou sermos espectadores por longos e bons momentos, ouvindo falar de cátedra a quem se afoitou ao desafio. Uma timidez aqui ou uma insegurança além – que não é impunemente que se desvenda a nossa alma em forma de poesia… – não fizeram mais do que contribuir para o ambiente descontraído que se gerou. E que é apanágio destas nossas sessões.

A primeira voz que se fez ouvir do «outro lado» da sala exaltou o desempenho dos nossos jovens convidados, parabenizando também, comovidamente, os pais que tal testemunho souberam transmitir, nesta corrente contínua de que é feita a Humanidade.

 João Baptista Coelho

Oeiras Verde (Estefânia, Helena, Irene, Jorge, Ana, Magnólia)

Eduardo Mendes, que em boa hora se lembrou de se fazer acompanhar por um excelente texto do Carlos Pedro

Francisco José Lampreia

Pedro Tavares

Maria Francília Pinheiro

Tina, em desempenhos de Mãe Natal

Limão

Feliz Soares

Jorge Castro

…e os amigos constantes, com os nossos convidados e quantos arrostaram a noite de intempérie para se nos juntarem, criámos não o Natal possível, mas o Natal urgente e necessário, solidário e presente, provando à saciedade que essa coisa da «crise» talvez tenha muito a ver com economias (da treta) e economistas (da treta, também), mas nada tem a ver com os seres humanos e os seus afectos.    
– Fotografias de Lídia Castro e de Lourdes Calmeiro

convite
noites com poemas
A Poesia na ESQM – Escola Secundária Quinta do Marquês (Oeiras)

Excepcionalmente no sábado, dia 18 de Dezembro de 2010, mas como sempre na Biblioteca Municipal de Cascais – Sâo Domingos de Rana (Bairro Massapés – Tires) e também com início às 21h30, teremos a próxima sessão das Noites com Poemas, desta vez contando, como convidados especiais, com a presença de vários estudantes da Escola Secundária Quinta do Marquês (Oeiras).
Haverá música e canto, acompanhando os poemas que sempre preenchem aquele espaço. Eis as personalidades que nos darão a honra e o gosto de o enriquecer:
– David José Silva
– Tomás Neves e Castro
– Marina Durante
– Carlota Pignatelli
– João Mateus
– Maestro Pedro Miguel
Constou-me que, entre outras coisas, haverá referências à Belle Époque… e é quanto me apraz desvendar, que mais não sei e dizem-me que é surpresa.
Haverá, também como sempre, lugar à participação de quantos muito bem entendam trazer-nos um, ou dois, ou três poemas… E apesar de sabermos que o Natal é sempre que um homem quiser, a partilha que ali ocorre durante todo o ano tenderá certamente a acentuar-se.
A entrada é livre, tal como a participação. A verificar-se qualquer prisão, ela será necessáriamente pessoal, virtual e voluntária e passará sempre pelos afectos – modo e condição de nos descobrirmos mais livres.
Um grande abraço e… votos de Festas Felizes, que é tempo delas, como das castanhas – tanto mais que elas vão escasseando (tanto as reais como as metafóricas…).
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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