Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

indignados!

– Fotografia de Miguel Manso
(http://www.publico.pt/Mundo/dia-dos-indignados-minuto-a-minuto-manifestacoes-em-portugal-arrancam-as-15h-1516656)

Por compromissos assumidos não me foi possível estar fisicamente presente na manifestação que ocorreu ontem, dia 15 de Outubro, em Lisboa.  
E apesar de estar bem ciente de que, neste tipo de atitudes, contam mais os que estão do que aqueles-que-estavam-para-estar-mas-não-estiveram, faço questão de manifestar, ainda assim,  o meu apoio incondicional à iniciativa.
Iniciativa que teve foros de movimento mundial, circunstância que lhe confere o cariz mais subversivo de quantos movimentos reivindicativos vão tendo lugar na História recente do mundo.
Tempos houve (e ainda ocorre) em que as pressões sociais internas insanáveis acabavam por ser muitas vezes diluídas através dos conflitos entre estados, desde a guerra entre vizinhos supostamente desavindos, atingindo-se o limiar da insanidade nos conflitos conhecidos como a I e a II Guerras Mundiais do século XX, onde, aos poucos, praticamente todos os países do mundo foram envolvidos, de forma directa ou indirecta.
Outra coisa bem diversa pode vir a configurar este movimento pandémico. Sem alimentar lirismos exacerbados, mas querendo fortalecer o manancial de esperança que nos sustenta, quero crer que este movimento propiciará a inevitabilidade de criação de novos paradigmas de liberdade, igualdade e fraternidade, agora com outra consistência e outra consciência colectiva, para toda a Humanidade. 

à paulada, minha gente, à paulada!

Não é o passado que nos engrandece, mas sim a capacidade que tenhamos, no presente, para o honrar, construindo um futuro. 
A propósito do mais-do-mesmo das medidas ontem anunciadas pelo senhor primeiro-ministro,

ver a minha mais recente crónica no blog PersuAcção

dizer NÃO à mudança da hora

Vem aí mais uma semestral incomodidade da qual não consigo vislumbrar vantagem de qualquer espécie. É ela a chamada «mudança da hora».
Para além da perturbação, cada ano mais agravada, que esta manobra me provoca no já de si escasso tempo de sono, garanto-vos que não atino com qualquer espécie de benefício que daqui decorra.
Por estas e por outras, juntei-me ao Paulo Moura e a uns quantos mais numa petição para acabar com este malabarismo semestral .
E vocês? O que pensam disto? Espreitem as informações sobre o assunto no blog PersuAcção e, se estiverem de acordo connosco, assinem a petição, para ser remetida à Assembleia da República com maior consistência.    

Consulta e assina a petição

às vezes dão-me uns acessos de misticismo…

Imagem vista, mais do que vista, nem especialmente bem enquadrada… enfim, o clássico efeito fácil do pôr-do-sol romântico à brava, de casalinho na falésia, à espreita de horizontes e – quem sabe? – do raio verde, esse derradeiro estremecer do Sol que garante a felicidade a quem o conseguir lobrigar. 
E, ainda assim, um modo liminarmente eficaz de combater a crise. Experimentem por aí, nalguma falésia perto de cada um. E mesmo que as valsas da sorte não vos tenham colocado companhia nos braços, entreguem-se por momentos à contemplação do universo, naquilo que ele nos oferece sem querer nada em troca.
Remédio infalível para nos darmos conta da nossa infinita pequenez e, a um tempo, da grandeza da vida que temos entre mãos. E é na percepção destas grandezas aparentemente antagónicas, mas tão ao nosso alcance, que o dia acaba por se cumprir gloriosamente. Verão que até se respira melhor…

Insubmissa
– novo livro de Paula Raposo

Talvez uma outra qualidade, além de outras mais divulgadas e motivo de falatório mais ou menos intelectual, deva ser realçada na obra de um autor: a consistente teimosia. Paula Raposo também detém esta, entre outras, numa persistente procura do intangível – que me consta ser preceito elementar de poeta que se preze.
Aqui fica o anúncio deste seu novo livro, com anúncio de lançamento para o próximo dia 15 de Outubro, no Estoril (ver pormenores no convite, abaixo).
Respigo do prefácio deste livro – com edição da Chiado Editora – da autoria da nossa inefável São Rosas: «Sempre vi na poesia da Paula um erotismo melancólico, claramente biográfico…». Apreciação que subscrevo.
Apareçam!
(clique sobre a imagem, para ampliar)
SEXO

Das palmas das mão 
saem as palavras 
mais belas;
falam de amor
e de saudade também;
pronuncio-as
ao longo do teu corpo:
dedilhando 
as cordas de uma guitarra.
Canto o doce mistério do sexo
– a química de nós – 
das palmas das mãos,
solto-te em amor.
– poema de Paula Raposo 

Ocupantes de Wall Steet – vocês sabem que isto está a acontecer?

Quantos de nós sabemos que está em curso, há cerca já de três semanas (!!!), um imenso protesto em Wall Street, Nova Iorque, contra o que poderíamos denominar o «domínio dos mercados»?
A nossa pífia «informação», manietada ou cúmplice com os interesses instalados que não conhecem fronteiras – como fica, para quem não o saiba, bem patente através de exemplos como este – ilude ou sonega, liminarmente, a divulgação deste imenso protesto.
Os gritos dos manifestantes perante a repressão da polícia: «- Shame on you!», podem muito bem ser extensivos aos nossos meios de comunicação «social».

Informem-se e divulguem:

https://twitter.com/#!/search?q=%23OccupyWallStreet

– isto são mensagens mais ou menos em tempo real dos eventos :

https://twitter.com/#!/search?q=%23OccupyWallStreet

– videos ao vivo:

http://www.livestream.com/globalrevolution

http://www.youtube.com/watch?v=wmGxa87yNQo&feature=youtu.be

Occupy Wall Street Protesters Take Brooklyn Bridge – 700+ Arrested HD

http://www.youtube.com/watch?v=a1tCYAEDl6g

http://www.youtube.com/watch?v=j6HbOcRDoMo&feature=related

não sei porquê, fez-me lembrar José Niza…

Iniciava cedo o seu labor da pedincha. Ainda a manhã se estremunhava, com os olhares sonolentos dos passantes que madrugavam a caminho do cafezinho que antecede o labor diário e já ela se apressava a tomar o seu posto, ali ao Campo Pequeno, vinda de longínquas Bulgárias ou Ucrânias ou o que fosse o seu ponto de partida que ali desembocava, rodeada das latas e copos de plástico vazios e sujos da cerveja da véspera.
Com a ponta do xaile, ponteado a branco e preto em arremedos de pied-de-poule para pobres, sentou-se sobre um minúsculo rectângulo de cartão que trazia escondido na roupa, limpou o copo de plástico mais próximo, atirou lá para dentro duas ou três moedas escuras, com que fabricou uma espécie de chocalho a rebate da pobreza.
E a manhã passou a contar com mais aquela melopeia monocórdica, monótona, impessoal e pungente, de uma voz anasalada com o chamamento à atenção de cada passante reforçado pelo chocalhar da miséria.
Não sei que artes teve este quadro para me evocar o E Depois do Adeus, do José Niza. Talvez aquele céu matinal, de pouco azul e sol nascente a furar nuvens inconsistentes e tíbias tivesse ajudado um pouco à melancolia e o poema de Abril, expurgado de quanto um amor entre dois seres revela, apenas me deixasse alguns versos de angústia e nostalgia:
Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
(…)
Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
(…)
E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Coisas da «crise», decerto, que eu não me dou nem com angústias nem com nostalgias. Mas ainda estou a trautear a canção e já vai alta a manhã.

Dionísio Leitão – um abraço sem tempo

Captador de imagens de primeira água, como o são todos aqueles – e apenas esses – que olham o mundo com olhos de ver e sabem descortinar o outro lado das coisas, das pessoas, da Vida, o Dionísio Leitão, através do seu blog Catedral, primeiro, e depois em várias outras circunstâncias de vida, foi um companheiro cujo convívio se me revelou sempre um estímulo para momentos de poesia – e de cidadania – de que fazíamos mútuo eco.
Recebi, há momentos, uma mensagem de amiga comum, informando-me do seu falecimento… Não encontro melhor homenagem a prestar a este amigo do que deixar aqui duas imagens com que ele nos brindou e a que eu tive o privilégio de poder juntar a minha poesia. 
Dois poemas, também, que tive a honra de ver publicados no seu blog, numa simbiose de sentimentos e sensibilidades a que, amigo Dionísio, ainda haveremos de brindar uma vez mais e outra e outra nalgum recanto do universo.  

Esta noite poderia escrever-te os versos mais tristes
como Pablo Neruda
ou dizer-te da minha recorrente vontade de ir a Samarcanda
como Bernardo Soares
diversa apenas a vontade de ir a Samarcanda
porque a tua presença me seria imprescindível
eu que nem mesmo sei que língua falam hoje em Samarcanda
ou o que por lá estará hoje acontecendo
Porque a tua ausência te cala em mim
poderia mesmo escrever-te uma carta de amar
que gritasse dentro de mim a tua ausência
e que no voo tangente das palavras
todos achariam ridícula
só eu não
– e daí quem sabe? –
Poderia imaginar-te silhueta
por entre silhuetas de pinheiros
feita de bilros e devaneios da Lua Cheia
derramando-se de luz ao longo de todo o mar
até tropeçar com o areal
e a terra toda
até envolver todos os amantes
que à beira-mar se consumam
como se o tempo se lhes acabasse ali como a terra
ou apenas se desesperam no amor
como se amassem apenas porque se procuram
quando o areal barra a luz fluida vertida pela Lua
poderia dançar contigo um tango argentino
conduzir-te na volúpia dessa dança
que
conforme dizem
ao homem compete conduzir
apenas para
e por uma vez só
te conduzir
eu de negro
Gardel
Terrível e alucinado
e tu
o teu vestido vermelho
rasgado com uma faca de seda
ambos efémeros, diáfanos e amantes
… se eu soubesse dançar
Ah, se eu soubesse dançar!
Poderia até tentar dizer-te um poema
que me impressionasse
apenas por te impressionar
um poema que falasse de Neruda
de Bernardo Soares
e de silhuetas diluídas nos pinheiros
mas que tivesse um lugar íntimo
para as estrelas de outros céus imaginados
luas
amores
e areais de vento
um lugar que nos enleasse no ritmo das marés
e seríamos românticos e dramáticos personagens de Pratt
solitários navegantes numa paixão de quimeras
Maltese com um brinco a preto e branco
vendo o Sol poente enfunando as nossas velas
com cores de luz que o Sol traz do mundo todo
E é por isso
que aqui estou
perto de ti
tenho as mãos quase cheias de nada para te dar
mas tenho um mar que não é meu
e um poema
sinto a Lua que nos foge entre os pinheiros
sinto ânsias de enleio em doce tango argentino
e hei-de sentir-te junto a mim em Samarcanda

-Jorge Castro –

Amizades inocentes. Verdadeiras.

Entretanto o OrCa resolveu legendar a fotografia e, portanto, aqui vai ela:

Beija-lhes a água os pés
Numa carícia de mãos
Será só água talvez
Mas para os dois é um chão
De crescer
E de verdade
Ao longe adivinho amor
De perto sei amizade…

– Jorge Castro –

convite para a próxima sexta-feira, dia 23, pelas 18 horas…

Uma viagem panorâmica pelos últimos 200 anos da história política e cultural de Portugal à luz da poesia militante da causa republicana, que desde cedo entendeu fazer dela uma das principais armas do seu combate ideológico.

Dia 23 de Setembro (6.ª feira), pelas 18h, no Espaço Memória dos Exílios (polo cultural da Câmara Municipal de Cascais), sito na Av.ª Marginal, 7152-A – Estoril (antigo edifício da Estação dos Correios, frente à Estação de comboios)

Coordenação de David Zink e Isabel Lousada

Leitura de poemas: Antónia Pereira, Estefânia Estevens, Francisco José Lampreia, Jorge Castro, Júlia Lello e Rita Soares

Entrada livre (condicionada à lotação do espaço).

telef. 21 481 59 30  –   21 481 59 09

(conforme informação recolhida AQUI)

67ª sessão das Noites com Poemas, com Manuel Freire
e os versos com reversos

eram p’ra cima de oitenta os marcianos

que o dia dezasseis viu à procura  

de – quem sabe? – um grito, um riso ou desenganos

da subtil ironia da mistura 

mistura de tais gentes, tais saberes 

preclaros num acorde desvalido

nas palavras que brotaram sem haveres

mas de teres que conhecemos de ouvido

e o sonho despontou ‘inda era noite

a parecer um renascer feito de esperança

onde a Lua aconselha a que se afoite

todo aquele qu’inda sabe ser criança

solta a voz entre o luar da palavra

solta a vida na promessa de um poema

cada um no amanho da sua lavra

dá o fruto inspirado que fez tema

e o futuro chega a todos sem que algum

se lastime de agruras do passado

num presente em que todos são só um

abraçados em cadência, lado a lado

e por fim resta apenas a certeza

do incerto que é viver pelo contrário

num eterno combate, na grandeza, 

de ser uno, integral  mas solidário.
– Fotografias de Lídia Castro e de Lourdes Calmeiro –  
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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