e, agora, uma ponderação arriscada em contexto de esquerdas

Eu sei que muitos dos meus círculos de relações mais próximos estão danados com o Bloco de Esquerda pela sua anunciada votação contra o orçamento de estado. E lá terão as suas razões, porventura detendo mais informação do que aquela que eu tenho.

Chegam alguns ao ponto de equipararem o Bloco ao Chega e demais direitolas nesse voto «contra» o governo. O que me parece excessivo, mas é só a minha opinião, sendo que só me tenho na conta de livre pensador.

De facto, qualquer de nós pode não estar de acordo com o orçamento actual pelas mais diametralmente opostas razões. E umas bem mais ponderosas que outras. Mas, em termos de voto para definir a posição, só existe o voto contra ou a abstenção, sendo que esta tem sempre muito de táctica política. Ou não é assim?

E a «união das esquerdas» é um dos partos mais difíceis que apareceram na sala de Ginecologia da História.

Talvez convenha, entretanto, aqui recordar que, ao contrário do que muitos dizem, foi Catarina Martins a primeira a propor a criação daquilo que viria a chamar-se a geringonça, lá por 2015 e num debate televisivo com António Costa a que assistiu quem quis e pôde.

Agora, também me parece muito visível é que o desidério primeiro de António Costa e do PS é conduzir à arreata os seus «parceiros de coligação», o que, convenhamos, não será o melhor exercício democrático, mas tem tudo a ver com o exercício do poder.

Falar de chantagem por parte do Bloco de Esquerda em relação ao PS faz-me lembrar muito o poema do Brecht: «Do rio que tudo arrasta se diz que é violento; mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem».

E o Bloco de Esquerda decidiu votar contra quando já se tinha apurado que o orçamento passava… Taticismo político? Claro, como o de todos. E, afinal, o orçamento passa, na mesma. 

Aguardemos, serenamente, os próximos episódios, porque o mundo ainda não acaba hoje…

estou para aqui a pensar na
Constituição da República Portuguesa…

Note-se que sou daqueles que alinha com Jorge Torgal quando nos diz que, em Portugal, os resultados no combate à pandemia têm sido bastante positivos, nomeadamente, em comparação com muitos outros países europeus.

Dito isto, não deixo de me sentir perturbado, enquanto cidadão, com algumas – vamos chamar-lhes assim – «emanações» pontuais das diversas autoridades, a começar pelo governo… e por aí abaixo, onde são exorbitadas as competências definidas na lei.

Refiro-me, agora, especificamente ao enclausuramento concelhio obrigatório entre os próximos dias 30 de Outubro e 03 de Novembro, sem invocação de razão nenhuma de especial monta, a não ser a putativa romagem aos cemitérios (?).

Neste contexto, decretar o dia 02 de Novembro como dia de luto nacional para prestar homenagem «a todos os falecidos», em particular às vítimas mortais da covid-19, até soa a hipocrisiazinha de mau gosto.

Não vou atenazar-vos a paciência com matéria já tão submetida aos mais desvairados comentários. Deixo, apenas, para apreciação, um bocadinho da Constituição que nos rege, a mim, a si e aos governantes, também:

Artigo 19.º

Suspensão do exercício de direitos

1. Os órgãos de soberania não podem, conjunta ou separadamente, suspender o exercício dos direitos, liberdades e garantias, salvo em caso de estado de sítio ou de estado de emergência, declarados na forma prevista na Constituição.

Artigo 44.º

Direito de deslocação e de emigração

1. A todos os cidadãos é garantido o direito de se deslocarem e fixarem livremente em qualquer parte do território nacional.

Artigo 137.º

(Competência para a prática de actos próprios)

Compete ao Presidente da República, na prática de actos próprios:

d) Declarar o estado de sítio ou o estado de emergência, observado o disposto nos artigos 19.º e 141.º

Assim, ou o presidente Marcelo volta a promulgar o estado de emergência ou o primeiro-ministro Costa não pode decretar o impedimento de circulação ou não estamos, assumidamente, num estado de direito.

Uma de três e, permanecendo em democracia, temos pena, mas não fica alternativa!

A prática reiterada deste tipo de atropelos, que enveredam pela lógica de que os fins justificam os meios, apenas fragiliza a Liberdade e a Democracia. Haja disso a consciência!

do quotidiano delirante de Miguelanxo Prado ao incomensurável delírio em que vivemos hoje

Uma confidência: gosto muito de banda desenhada. Boa ou má, será meu o critério. Há, entretanto, um autor que aprecio sobremaneira: o galego Miguelanxo Prado.
Tem um trabalho que me caiu especialmente no goto: Quotidiano Delirante. Conhecem? Se não, tentem não perder.

E vem isto a propósito de quê? Do quotidiano delirante que colho na leitura de notícias frescas, em que nos apercebemos de desequilíbrios estranhos no mundo em que vivemos e em que ficamos com suspeitas de que há para aí uns tipos a injectar substâncias proibidas. Ora vejam quatro exemplos… que nem vou comentar, por desnecessário:

  • A Diocese de Angra, na Ilha Terceira, Açores, decidiu colocar os funcionários e alguns padres que dependam em exclusivo dos rendimentos das suas paróquias no regime de lay-off devido à crise provocada pela pandemia de covid-19.
  • “Se houver quem ponha aquele espaço a funcionar como uma câmara de gás, eu pago o gás”. Foi com esta “piadola” que um coordenador da Câmara da Trofa terminou um post sobre as comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República. Entre os 17 “gostos” estava o presidente da Câmara, Sérgio Humberto.
  • De Espanha chega uma notícia inesperada. As autoridades de Zahara de los Atunes, em Cadiz, decidiu desinfetar dois quilómetros de praia com doses de lixivia.
    O objectivo seria tornar o areal seguro para os passeios com as crianças que finalmente puderam sair de casa. Porém a desinfeção colocou em risco as dunas e matou muitas espécies marinhas.A decisão já foi considerada uma aberração ambiental e a autarquia já admitiu o erro e apresentou um pedido de desculpas.
  • Patrões propõem entrada do Estado para segurar empresas durante a crise.
    CIP defende criação de um fundo que, à semelhança do capital de risco, ajude as empresas em dificuldade. A ideia é complementar o crédito, que está a esgotar-se.
    O tecido empresarial português nunca gostou muito do capital de risco. Mas “entre a vida e a morte, as opiniões mudam”, atalha António Saraiva, cuja direcção ainda está a trabalhar na proposta que pretende pôr em cima da mesa na próxima semana.

Gostaram? Querem mais? Em qualquer periódico junto de si! Mas tentem proteger-se destes efeitos colaterais maléficos.

o fim do tempo dos amargurados de Abril

Isto é só para quem estiver com MUUUITA paciência para me aturar. Trata-se dos meus comentários a um texto publicado por Helena Matos, no Observador, a propósito de qualquer coisa em volta do 25 de Abril, que reputo de… inqualificável.

Como toda a gente diz o que lhe apetece ou pagam para dizer, resolvi também efectuar uma análise crítica ao texto, por ser direito que me assiste. Assim, para quem tiver a tal paciência, aqui vai o guia de leitura: entre aspas e a negrito estão as palavras publicadas pelo Observador da autoria de Helena Matos. Em contraponto, parágrafo a parágrafo, as minhas considerações vão antecedidas de um travessão.

Texto de Helena Matos, publicado no Observador, em 19 de Abril de 2020, tempo de Covid.

«O fim do tempo que disseram nosso»

«As celebrações do 25 de Abril de 2020 são a cerimónia da brigada do reumático do regime instituído em 1974. Agora, tal como há 46 anos, o país está bloqueado e a situação é a normalidade.»

19 abr 2020, 08:1713

«Aqui estamos em 2020 de volta à casa da partida: o regime nascido em 1974 está a passar à História. O impacto da epidemia acabou a expor quase obscenamente uma classe política de tal forma alienada e anquilosada que já nem vê como é ofensivo ir celebrar a liberdade e a igualdade numa cerimónia em que os participantes fazem tudo aquilo que foi proibido aos demais portugueses.»

– Este é o pressuposto do qual Helena Matos (HM) parte para os parágrafos seguintes. Mas ele é meramente opinativo. Não se baseia em realidade nenhuma a não ser a do «achismo» e maledicência. Ela «acha» que… Primeiro porque, se olharmos aos resultados da epidemia em Portugal, reconhecidos internacionalmente, rapidamente se concluirá que a tal classe política de que a HM fala, afinal, não andará tão alienada assim. Depois, volta a insistir na tecla já sobejamente desmontada de que estarão a fazer na Assembleia o que está vedado «aos demais portugueses». Aqui, direi que não é falácia. É mentira. Há muitas centenas de milhares de portugueses que continuam a trabalhar nos seus locais de trabalho e outros tantos em casa. E, como também tem sido sobejamente dito, a Assembleia da República nunca cessou funções, nem o devia fazer, como órgão da soberania que é.

– Além disso, não consta em lado nenhum a não ser no «veneno» de HM, que os participantes na sessão vão fazer «aquilo que foi proibido aos demais portugueses». Vão fazer o quê? Beijar-se e abraçar-se na Assembleia? Cuspir sobre os oponentes? Entrar às cavalitas uns dos outros?   

– Esta atitude falaciosa relembra-me sempre aquele silogismo que aprendíamos nas antigas aulas de Filosofia: como é que provas que uma mesa toca guitarra? É fácil: uma mesa tem pernas; quem tem pernas, tem pés; quem tem pés tem dedos; quem tem dedos tem unhas. Como é sabido que quem tem unhas toca guitarra, uma mesa pode tocar guitarra…

«Eles, os donos do que dizem ser o nosso tempo, nem percebem como reproduzem, passo por passo, os tiques do regime cujo final querem celebrar: depois de anos, décadas, quase meio século a troçarem da cerimónia da brigada a que chamaram do reumático (a 14 de Março de 1974, oficiais-generais dos três ramos das Forças Armadas mostraram o seu apoio a Marcelo Caetano numa cerimónia em que sobressaíram as ausências de Spínola e Costa Gomes) também eles estão transformados numa brigada do reumático e reivindicam a sua cerimónia como se ela fosse um amuleto.»

– Mais conversa venenosa da treta, de diz-que-disse, sem consistência nem rigor de análise. Aquilo que se chama falatar… Vejamos:  a «brigada do reumático» foi um indecoroso acto voluntário (ainda que orquestrado) de vassalagem de altas patentes militares que ocorreu no anterior regime,  um beija-mão indecoroso para que o «patrão» não cuidasse que eles alinhavam com os arruaceiro, com a tropa da ralé.

– Fazer um paralelismo entre este acto e a comemoração de uma efeméride como o 25 de Abril, acto matricial que, entre muitas outras coisas, permite a HM escrever o que escreve em total desrespeito deliberado pelas mais altas instituições do País, é, no mínimo, uma aleivosia.

– Já agora, como é que a «analista» classifica e enquadra, neste contexto, as ausências de Spínola e de Costa Gomes, que refere?

– E se vão estar presentes convidados que já são de idade avançada, também estarão presentes deputados mais jovens. Onde é que está aqui o paralelismo? A evidência escapa-me…

«Sem soluções para o futuro, agarrados à vacuidade das palavras tantas vezes ditas e cansadas pelo confronto com uma realidade que se tornou escarninha, precisam de celebrar a data fundadora do regime já não como uma vitória sobre o passado, ou de exaltação do presente  mas sim como um exorcismo face a um futuro que temem e para o qual não têm propostas. O combate aos fascismos futuros cumpre agora o papel retórico de anos de evocações e recriações dos fascismos passados: iludir o momento em que alguém faça o balanço entre o prometido a 25 de Abril de 1974 e o concretizado nos anos seguintes.»

– Claro, depois trata-se de cavalgar os pressupostos anteriormente «explicitados». A HM dirige estas suas «reflexões» a quem? Ao governo de António Costa – que está em estado de graça perante os seus parceiros europeus, o que nunca aconteceu com Passos Coelho, apesar de ter sido tão «bom aluno»? Ou será a Marcelo Rebelo de Sousa que, sendo o que é e como é, colhe o consenso esmagador da maioria dos portugueses (excepto, talvez, o de HM, mas ela não tem coragem de pôs os nomes aos bois)?

– No contexto do palavrório de HM também não se entende o que ela pretende referir como «realidade escarninha». Se bem se entende e traduzindo: HM refere os tais seres anquilosados «agarrados à vacuidade das palavras… pelo confronto com uma realidade que se tornou escarninha». Ora, se a realidade se tornou escarninha (leia-se, que revela escárnio ou mal-dizer), em contexto de pandemia como aquele que vivemos, há que afirmar que  a realidade deve estar, ela sim, a pobre, imbuída de estupidez agravada.  Bom, a HM, se calhar, não era bem isto que queria dizer, mas terá construído mal a frase.

– Por fim, quando ela refere o «exorcismo face a um futuro que temem e para o qual não têm propostas» estará a falar de António Costa ou de Rui Rio?

– Falar do combate a fascismos futuros como mera retórica é, em meu entender, indecoroso, se considerarmos a evolução de movimentos ultra-direitistas um pouco por toda a Europa. Também não a entendo quando ela refere as «evocações e recriações de fascismos passados». De que «recriações» é que a senhora fala? Se alguém, nesta matéria, anda a «recriar» alguma coisa são aqueles que pretendem negar a existência de Auschwitz…

– Também não lhe fica bem falar do balanço entre o prometido a 25 de Abril de 1974 e o concretizado, pois lá teríamos de lhe lembrar (uma vez mais e sempre) a taxa de escolaridade, a Segurança Social, a diminuição da taxa de mortalidade de recém-nascidos, o Serviço Nacional de Saúde, a possibilidade de ela escrever as maledicências que lhe terão encomendado sem sofrer consequências, etc., etc., etc. Quanto ao que falta, ainda, concretizar, receio bem que não se possa contar com HM para o efeito.

«(A propósito das declarações de Ferro Rodrigues sobre a celebração do 25 de Abril na AR– A Assembleia da República não saiu do terreno da vida política democrática com a pandemia, o estado de emergência ou a pressão de saudosistas, anti-parlamentares ou seguidores de fake news“ – alguém consegue na muito longa carreira do actual presidente da Assembleia da República descobrir um pensamento, uma frase ou uma ideia que se elevem um pouco acima do constrangedor?)»

– Por acaso, eu – que nem sou nem fui do PS – até sou capaz de me lembrar de inúmeras frases ou ideias emitidas por Ferro Rodrigues. Como destacado mancebo da crise de Mafra, como fundador do MES, como tribuno na Assembleia da República, como  como Ministro da Solidariedade e Segurança Social e, depois, Ministro do Trabalho e Solidariedade do provável melhor elenco governamental que o PS alguma vez constituiu e que viu a sua carreira política destroçada por uma palhaçada indecorosa como foi (e continua a ser) o «caso dos pedófilos», onde alguns dos principais libelos «acusatórios» saíram exactamente das fileiras do PS – lembremo-nos de quem ascendeu, depois à ribalta do poder.

– Mas a HM, comentadora vivendo à sombra da res política, alega que não lhe conhece um pensamento, uma frase ou uma ideia… A HM tem andado, da política, distraída. E, curiosamente, estou eu com dificuldade em reconhecer-lhe a ela, um pensamento válido, uma frase coerente, uma ideia original. Lembro-me, a este propósito, de uma anedota que circulava nos corredores da Faculdade de Direito, quando, num exame oral, certo professor, político conhecido, se dirigiu ao examinando e lhe disse: «- As suas ideias são boas e originais. Só que as originais não são boas e as boas não são originais».

«Mas o Covid expôs mais. Expôs na DGS uma administração pública cada vez mais servil perante o poder político e menos apta para servir o povo. Expôs uma comunicação social mais interessada em provar as suas teses sobre o mundo do que em informar: assim os mesmos jornais portugueses que detalham com afinco o falhanço da administração norte-americana no combate ao Covid-19 não conseguem produzir uma notícia que seja sobre um país aqui bem próximo onde uma catástrofe está a acontecer perante a indiferença geral: a Bélgica. A Bélgica tem uma população semelhante à portuguesa, fez muitos menos testes, tem duas vezes mais casos e o número de mortos é quase sete vezes superior ao português. Como é isto possível? E como é possível que não seja destacado?»

– Aqui, reconheço a minha incapacidade em seguir o raciocínio da cronista. O que é que HM pretende? A DGS não tem estado a servir o povo e é servil em relação ao poder político? Mas, espera aí, a DGS não é um organismo estatal? HM pretende que a DGS solte o Grito do Ipiranga e declare as Berlengas como zona libertada?

– Ah, não, espera aí… HM queixa-se é de que a «comunicação social» está toda voltada para o «falhanço da administração norte-americana» e não se fala da desgraça que está a ocorrer na Bélgica. Realmente! Entendo a angústia de HM em tentar proteger, ainda que canhestramente, o seu farol-guia: a excelsa democracia e liberdade dos EUA, mesmo que sob o penteado «trumpeiro». O peso da Bélgica no concerto das nações, lamentavelmente, não lhe dá muito tempo de antena, pelo menos até que a CMTV descubra alguns cadáveres em putrefacção no meio de alguma rua belga. Essa é uma triste realidade. Mas é a imprensa que acolhe a HM – dirija a sua reclamação à direcção do Observador. E, pelo caminho, refira, também, o problema da pandemia em África. Pode começar por Angola e Moçambique, por exemplo. 

«A pandemia expôs também uma fractura que não tem parado de crescer na sociedade portuguesa: as desigualdades crescentes entre o país do partido-Estado, de que falava Medina Carreira, (esse país não só se adaptou muito bem às medidas de confinamento como não lhe parece inviável vivermos em quarentena enquanto existir um caso de Covid-19) e o outro país, o do sector privado, muito particularmente esse sector privado que o estatismo-socialista detesta: os micro e pequenos empresários que ficaram privados de rendimento e agora ficam também fora dos planos de apoio anunciados pelo Governo.»

– Então, aqui, expõe-se um chorrilho de aldrabices, embrulhado numa pretensa dicotomia que não existe. HM pretende contrapor o país do «partido-Estado» – a que só lhe falta rotulá-lo de estalinista, para o discurso direitista patego e serôdio ficar completo – ao país dos micro e pequenos empresários (a quem o «estatismo-socialista» repudia). A HM terá alguma noção sobre o que é o tecido social português? Sobre quem é a massa eleitoral do PS? Ela não saberá, a pobre, que quando um dono de um restaurante se vê obrigado a encerrá-lo é todo o estado português que estremece?

– HM não se recorda da maravilha fiscal perpetrada por Passos Coelho e Vítor Gaspar, por exemplo, ao atirarem o IVA da restauração para os 23%?  Ou ela também inclui estas personagens na lógica do «estatismo-socialista»?

– E o que é que a faz correr ao dizer que os micro e pequenos empresários «ficam também fora dos planos de apoio anunciados pelo Governo», quando todos sabemos que isso não é verdade?

«E sobretudo os tempos da pandemia mostraram-nos o que já sabíamos: não é necessário que existam censura ou polícia política para que na sociedade portuguesa se crie um pensamento único, basta que o poder seja de esquerda. Quarenta e seis anos depois do 25 de Abril aqui estamos presos naquela patética armadilha em que discordar do governo ou criticá-lo não é discordar do governo ou criticar o governo mas sim criticar o país e estar contra Portugal. Noutros tempos chamou-se a isto a situação. E agora será cidadania?»

– Cidadania que HM, no final de quarenta e seis anos, ainda não aprendeu a exercer. Ela escreve o que lhe apetece. Utiliza, em meu modesto entender e que tentei desmontar ao longo de todo este arrazoado: falsidades, falácias, malevolências e verdadeiras aldrabices, publica-as e, logo a seguir, queixa-se da existência de uma putativa censura regimental… (lá dizia a formiga ao elefante: «- Já viste a poeirada que estamos a levantar…?»).

– Quanto ao chorrilho de barbaridades que meio mundo anda a proferir, impunemente, em Portugal, em relação à comemoração do 25 de Abril na Assembleia da República, HM desconhece-o, embora afine pelo mesmo diapasão. Será caso para consolar a senhora e dizer-lhe que não está só, lamentavelmente, nessa espécie de circo opinativo que está montado?

– É que uma coisa é o direito à opinião, que todos temos… e o feicebuque é pródigo nisso. Tenho, aliás, vários amigos (a sério) que têm opinião diversa da minha, que não posso senão respeitar, se fundamentadas. Outra, muito diversa, é influenciar a opinião dos outros com aldrabices rasteiras.

– Em qualquer caso, HM está (q.e.d) contra a Presidência da República do Estado Português eleito democraticamente. Está, também, contra a Assembleia da República do Estado Português, eleita democraticamente. Está, ainda, contra o Governo do Estado Português constituído democraticamente após eleições democráticas. Restam à HM poucas alternativas:

– ou organiza uma revolução, coisa sempre plausível, ainda que não necessariamente saudável num regime democrático;

– ou emigra, eventualmente para os EUA, aliás seguindo directivas de Passos Coelho no que toca à abertura de novas janelas de oportunidades;

– ou continua a destilar, impune e alegremente, os seus pareceres ou achismos, com que  intoxica os cidadão incautos e pouco críticos, até umas próximas eleições «redentoras» que lhe dêem acesso a um lugar ao sol.      

Sabem o que vos digo? Já perdi tempo demais na minha vida de cidadão a comentar o textículo desta senhora.

NOTA – Tentei centrar a minha crítica muito mais numa perspectiva de análise de coerência intrínseca do texto do que numa sempre possível carga ideológica… ainda que tudo seja ideologia, como sabemos. Mas, se fosse por aí, a carga crítica seria, porventura, muitíssimo mais acintosa.

covid 19 – 21º dia de reclusão – reflexões avulsas acerca da plantação de couves

Há uma perturbadora e profunda sensação de irrealidade em tudo isto. Algo que se situa ali a meio caminho do filme de ficção, mas demasiado palpável.

Há cerca de quinze dias, na quietude do remanso pequeno-burguês em que tantos de nós se aconchegavam, onde estavam as nossas preocupações?

Talvez no próximo destino de férias. Talvez no modo de inventar dinheiro para manter o filho na universidade. Talvez no preocupante degelo da Antártida. Talvez na escolha da melhor oportunidade para trocar o carro. Talvez em adquirir mais um telemóvel topo de gama ou quase. Talvez na aquisição de uma entrada para ver jogar o seu clube de eleição…

Outros haveria – e diz-se que são bem mais de muitos – no desespero singelo de assegurar o pão-nosso-de-cada-dia, contemplando, de caminho, o pagamento da renda da casa, da água, da luz…

E eis-nos, sem aviso, a vivenciar essa obra de ficção científica, retidos em casa, em profunda clausura, cujo imperativo parte de nós mesmos, sem necessitarmos, praticamente, de qualquer influência exterior.

E sobrevém o ócio. Esse tempo insidioso em que temos tempo. Pra respirar. Para viver. Para a introspecção e, muito mais perigosamente, para reflectir, falando com os nossos botões – algo esquecido entre as virtualidades do velcro e do fecho éclair – exercício que caiu em desuso, como tantas outras pequenas coisas, na vida frenética a que nos entregámos, sem crítica e tantas vezes sem critério.

Olhando para as notícias diárias, parciais, desinformativas, voláteis e volúveis, dou por mim a ouvir, sem espanto, que o país conhecido como sendo o mais rico do mundo, os Estados Unidos da América, se debatem com a falência total de meios de protecção para os seus profissionais da saúde…

Ouço e vejo, logo mais, que a República Popular da China se transformou – e não terá sido da noite para o dia – na fornecedora global daqueles meios de protecção. A França recorre à China. A Itália recorre à China. A Alemanha recorre à China. Portugal recorre à China. Os Estados Unidos recorrem à China. A própria China recorre à China. O mundo, enfim, recorre à China!

E se, ontem, nos chocava – com lágrimas de crocodilo, tantas vezes – o regime ditatorial da República Popular da China, hoje faríamos uma peregrinação de joelhos a Fátima para agradecer as toneladas de equipamentos fornecidos pela China. Já para nem referir os médicos oriundos de Cuba, apesar dos indecorosos bloqueios com que convivemos, alegremente, anos a fio… O que dirão, hoje, os espíritos liberais e neoliberais perante esta realidade, em face da destruição dos tecidos industriais e comerciais para que tanto contribuíram, no seu apego aos «mercados», mas onde agiram como verdadeiras quintas colunas dos interesses transnacionais, sem pátria nem rosto?

E sempre com o cinismo hipócrita de nos garantirem que assim tem de ser porque assim funcionam os «mercados».

Aqueles que votam nos Boris, nos Trumps e nos Bolsonaros, mas que também votaram (e votarão) Cavaco, a quem devemos, cá pelas nossas paragens, a destruição das pescas, das indústrias pesadas (e das outras), da agricultura, da rede ferroviária, enfim, da nossa necessária autonomia, enquanto nação, o que nos dirão, agora, perante a nossa escassez de quase tudo? Perante a sangria, contada pelas muitas centenas de milhares de jovens (e menos jovens) com formações de topo, a quem aconselhámos o estrangeiro porque, por cá, sem empregos ou com ordenados insultuosos, só tínhamos para lhes oferecer uma mão cheia de nada?  

E lá foram para a Holanda, onde os ordenados que auferem podem beneficiar do dinheiro que empresas «portuguesas» lá depositam. Mas foram, também, para o Reino Unido prestar os excelentes serviços que a formação em Portugal lhes proporcionou – e que ao Reino Unido nada custa – apenas porque podem receber, em dobro ou em triplo o que a mesquinhez e a ganância dos nossos empresários, com a cumplicidade dos diversos governos, lhes paga aqui.

E disto, dos nossos estimados parceiros europeus, que contrapartida colhemos nós?

A União Europeia desvanece-se, cada dia mais, perante o imperativo de fechar fronteiras, com cada país a voltar-se para si próprio, sem qualquer estratégia global e solidária, lambendo as suas feridas, sem olhar para os vizinhos, cultural e geograficamente tão próximos, salvo algumas, muito poucas, exemplares excepções.

Faltam máscaras de protecção? Liga aí à China. Faltam luvas? Liga aí à China. Faltam ventiladores? Liga aí à China. E a tal ditadura transforma-se na salvadora das pátrias e do mundo, o que pareceria até paradoxal se não fosse a realidade com que deparamos.

Se, em Portugal, pugnarmos pela «res publica» portuguesa seremos chamados de nacionalistas serôdios ou Velhos do Restelo, porque somos Europa. Mas quando a República Popular da China dá mostras de uma enorme pujança industrial, espantámo-nos, aplaudindo e, até, estranhando tal competência… Pobres e iludidos somos. Como se duas mãos na China valessem mais do que duas mãos em Portugal ou em qualquer outra parte do mundo.

Lembram-se do poema que nos dizia que «algo está podre no reino da Dinamarca»? Pois assim parece.

Equacionaremos estas questões quando, finalmente, sairmos do pesadelo? Ou já não haverá condições, sequer, para equacionarmos o que quer que seja?

Digo, há muitos anos, que quando algum de nós planta uma couve no seu quintal, isso também é economia. Apenas com a diferença de que ninguém o contabiliza como tal. Mas não é por isso que deixa de ter existência real.

Talvez seja esta a nossa oportunidade de passarmos a dar mais valor, então, às couves que cada um plante (se ainda houver quem as saiba plantar).

Jorge Castro

02 de Abril de 2020 – no 44º aniversário da Constituição da República Portuguesa

um dia na vida do Corona Vírus – 17º dia de confinamento – reflexões avulsas

São oito horas e dez minutos da manhã. Espreguiço-me na cama. Hoje até era capaz de ir dar um passeio pela praia de Carcavelos mas, como não tenho cão, não sei se posso passear com a minha gata. Mas receio que ela não esteja pelos ajustes, tão dada que é ao livre arbítrio. Além disso, na praia nem se deve passear o cão, mas enfim… Com a minha companheira presumo que não posso. Pelo menos, não está anunciado no Estado de Emergência meiguinho que nos calhou em sorte e, se não está, é melhor não tentar essa sorte.

Levanto-me para as rotinas matinais. Dirijo-me ao espelho da casa de banho e reconheço vagamente o tipo que está ali a olhar para mim, a quem cumprimento, com um esgar um pouco despenteado, confesso.

Abro, em rotina, as portadas da casa toda, confirmando que a minha companheira já se adiantou no pequeno-almoço, como tem vindo a ser hábito ultimamente, pois fico até tarde repartido entre a televisão e o computador, só reparando, então, que o dia está bonito. Ficar acordado até tarde é no que dá: levantar tarde e perder o amanhecer. Assim vai o desequilíbrio do meu mundo… Ainda por cima, fui informado de que dormir pouco fragiliza o sistema imunológico. 

O confinamento, entretanto, tem aspectos curiosos: temos tempo para pensar. Desde as mais sublimes altitudes até à mais comezinha reflexão. Da salvação do mundo até à limpeza do excremento do cão que um vizinho passeante deixou à minha porta, que a clausura tem as suas fugas e dádivas inopinadas.

Tomo o pequeno-almoço visitado, como habitualmente, pela passarada que se habituou a partilhá-lo connosco. Bastaram umas poucas sementes diárias e restos de pão rotinadamente colocados num comedouro improvisado para lhes comprar uma confiança relativa, mas muito aprazível.

Não devemos, no entanto, abusar deste subsídio, pois interessa que a passarada não se desabitue de colher o pão-deles-de-cada-dia, não vá dar-se o caso de lhes faltar, inopinadamente, o fornecedor e eles ficarem sem saber como se amanhar. E este tempo não está para dados adquiridos nem hábitos de calaceirice. E isto vale para o ser humano como para o pardal.

Há coisas a fazer, claro. Cortar a sebe, aparar a relva, retirar ervas daninhas, cortar e armazenar lenha obtida de móveis velhos, fazer pão, sei lá que mais… O que vou cumprindo, calma e apaziguadamente. E, outra vez, essas tarefas propiciam a reflexão constante que antes refiro. 

Dou por mim a matutar que, numa escassa quinzena, já fui informado de que devia usar luvas de protecção e de que não as devia usar; por outro lado, que devia usar máscara e, logo mais, que seria melhor não a usar; que a desinfecção dos pavimentos é crucial mas, as mais das vezes, é um esforço inútil…  

Recentemente, colhi até a informação de que usar barba era contraproducente. Presumo, entretanto, que esta situação se referirá prioritariamente à população masculina. Mas fico desconfortável, como é evidente. É que se, amanhã, vierem contradizer este ditame, vai levar-me uma data de tempo a recompor a pelagem.

Assisti a um frenético açambarcamento do papel higiénico como se todos padecessem de infernal diarreia e ao desaparecimento do pão fresco… que vem depois a aparecer, bolorento, nos caixotes do lixo. Façam açorda, pelo menos, ó alminhas aflitas!

O distanciamento ao meu semelhante (leia-se este semelhante na perspectiva de ser alguém tão atreito como eu a captar o malfadado vírus), tem vindo a aumentar. Começou por um discreto e comedido «distanciamento razoável» para o imperativo de um metro e a última versão já implica um mínimo de dois metros. Hoje, de manhã, a fila/bicha para o supermercado, sempre percursor, que frequento já atinge os cento e cinquenta metros… para uma dúzia mal contada de clientes em espera.

Como o ventinho tem estado fresco, talvez aconteça que aquela espera propicie, até, uns resfriadozitos para dar mais sabor à vida. Nada de preocupante, embora, e sempre ficamos com um entretimento doméstico complementar.

Tenho, entretanto, uma angústia que me acompanha nestes dias de clausura: por que não ir fazendo testes de detecção da Covid 19 a toda a população? Não há testes que cheguem? Pois constou-me que já soluções preconizadas por cientistas portugueses, vejam lá! E com possibilidade de produção ilimitada.

Mas o que mais me tem marcado é, sem margem para dúvidas, a incidência da maleita na população sénior, na qual me vou incluindo, valha a verdade.

Esta malévola discriminação só pode ter sido congeminada por algum pequeno deus menor e insidioso com tendência para a Economia, tipo Lagarde e outras abencerragens.. Mas o certo é que a avassaladora percentagem de óbitos recai, sem margem para dúvidas, nos escalões etários a partir dos setenta anos.

E isto, então, traz-nos para um campo em que nem a ironia, nem o sarcasmo, nem o bom humor têm lugar: os famigerados lares da terceira idade.

Num mundo que se está objectiva e institucionalmente nas tintas para os anciãos de cada sociedade, a recolha e resguardo dos cidadãos em fim de vida e, mormente, na chamada velhice desvalida, vai competindo aos lares. Instituições privadas, quase todos, sujeitos, portanto, às «regras de mercado», com pessoal de preparação e competências profissionais mais do que duvidosas em tantos e tantos casos que todos conhecemos.

Como poderá alguém manifestar surpresa por serem estes locais os coios onde prolifera a contaminação?

Com um mercado de trabalho canalha – que também (quase) todos conhecemos – chega um momento, na vida de cada família, em que os filhos não têm condições para acolher e tratar dos pais, por mais entes queridos que sejam. E não necessariamente por razões económicas directas, mas por razões de vida que – outra vez – todos conhecemos e os que não conhecem, se procurarem um pouco nas respectivas famílias, logo encontram e com múltiplas facetas. 

E isto traz-nos ao remate desta minha frágil e canhestra crónica:

Que este confinamento a que estamos obrigados, que fez surgir à luz do dia tantas e tão clamorosas carências de âmbito social, em todo o mundo, ainda que em certos países mais do que noutros por consabidas razões, que este confinamento, dizia, nos alerte para a necessidade de encarar o problema da chamada terceira idade com a dignidade que ele merece.

Que interiorizemos e obriguemos os respectivos governos a criar uma rede de cuidados a prestar aos anciãos tão relevante como o nosso Serviço Nacional de Saúde no tratamento das doenças e na manutenção da Saúde dos cidadãos.

Esta não é uma matéria que deva ou possa estar entregue a interesses privados. Malfadada a sociedade em que vivemos que se deixou resvalar para esta insensibilidade institucional, onde nem sequer se apura que se está a falar de cidadãos que, na sua esmagadora maioria, pagaram os seus impostos, taxas e taxinhas, e que, assim, ergueram a sociedade em que nos movemos.

Se, depois, algum afortunado quiser pagar do seu bolso uma estadia de rei, que o faça e que recorra a seguros e a lares principescos e tudo por aí fora. Mas, antes, o cidadão comum, o velho sem amparo, porventura sem família ou com família sem condições, sem amigos e que apenas convive com a sua solidão deverá ter o direito à dignidade que advém da sua própria cidadania.

Estão a ver para o que havia de me dar o confinamento?

Jorge Castro, em 28 de Março de 2020