Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

A Senhora de Ofiúsa, de Gabriela Morais
dia 20, pelas 15 horas, nas Caldas da Rainha


CONVITE – Amanhã, dia 20, no Auditório da Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha, respigando do programa:

Para Maria Teresa Meireles, professora e investigadora em Literatura Oral, “A Senhora de Ofiúsa é uma estória da História, uma forma inteligente, imaginativa e encantatória de viajar pelo tempo no espaço português, dando a conhecer o que as mais recentes investigações ensinam sobre as nossas invulgares e curiosas Raízes Culturais”.
A historiadora e investigadora Dra. Gabriela Morais, já em 2009, esteve na Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha, aquando do lançamento do último livro do Poeta Jorge Castro, durante o qual fez uma curta e emocionante exposição sobre os nossos antepassados de há 30.000 anos. Contar-se-á, também, com a presença da Dra. Fernanda Frazão, em representação da editora Apenas Livros.
Na primeira parte do programa, participarão os poetas Jorge Castro e Pedro Laranjeira, já bem conhecidos no Oeste, que desde o início manifestaram a sua vontade de estar presentes.
Participam, ainda, os Jograis do Canto Sénior e João Bernardino, aluno do Conservatório de Caldas da Rainha. Quanto aos Jograis do Canto Sénior, dirigidos pelo Prof. José Correia, têm, actualmente, nove membros e desde 2007, ano da sua criação, têm participado frequentemente, em eventos culturais da Região, sendo esta, a sua 20.ª exibição pública. No que diz respeito ao Conservatório de Caldas da Rainha (CCR), é uma escola de ensino especializado da música, muito prestigiada na Região, cujo mérito e qualidade de trabalho desenvolvido, foram reconhecidos pelo Ministério da Educação, tendo-lhe sido atribuída autonomia pedagógica. Tem actualmente cerca de 50 Professores e 400 alunos. João Bernardino, um jovem acordeonista, natural das Caldas da Rainha, com 17 anos de idade, dotado de fino talento e invulgar musicalidade, vai interpretar peças de música clássica.
Com um programa tão aliciante e entrada livre, a Direcção da Biblioteca Municipal e a Comunidade de Leitores das Caldas da Rainha, têm o maior prazer em convidar todas as pessoas da Região para o dia 20 de Março às 15 horas, no Auditório da Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha.

ao Jorge Serra, amigo só porque sim
e sempre

de um amigo que deu
na vida toda
as razões
de ser a vida vivida
nunca perece
nem morre
o ter connosco existido

não há palavras que valham
quando um amigo nos deixa
só memórias
muito vivas
e sem delas termos queixa
quando as palavras nos falham

e a palavra é tão pobre
quando o amigo é sentido
que algum abraço descobre
no abraço a outro amigo
o quanto dele nos recobre
o quanto dele é abrigo

e ao sabermos que iremos
lá de onde nós viemos
em retorno eterno e vivo
é hoje e aqui que o sabemos
por haver sempre um motivo
de um pouco dele estar contigo
e outro tanto comigo.

noites com poemas
– Ti Miséria e os contos tradicionais

Quem conta um conto acrescenta um ponto… E se for de cruz, tanto melhor. E de truz? Melhor ainda!
Na próxima sessão das Noites Com Poemas, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, no próximo dia 18 de Março, pelas 21h30, com o lançamento do livro desdobrável – Ti Miséria -, com quadras minhas e belos desenhos de Carlos Augusto Ribeiro, com a Ana Paula Guimarães e o seu perene combate pela fusão da tradição com a modernidade, preparando o futuro, com pernas para andar, com a Joaninha, contando e encantando histórias, e Ignacio Vilariño, vindo da Galiza, com os seus bonecos e a graça de viver… além de todos vós, claro!

Por sobre nós pairará o apoio do IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional – tangível, tecendo a urdidura de que somos feitos, não desbaratando as palavras ao acaso, nem por mãos alheias.
Da massa de que somos feitos emerge como que um saber atávico, que nos dá corpo e forma e – quem sabe? – também modo de ser e de estar, através de um conjunto espiralado de contos, lendas, provérbios, cânticos, que se afeiçoam aos tempos feitos de mudança e ganham novos tons, desenhos, expressões, no eterno recomeço em que se desenvolve a Humanidade.

E, como sabeis, quando toca a falar-se de Humanidade, este trecho do mundo, virado ao Atlântico, tem, ancestralmente, muito para dizer e contar!
Lá estaremos? Vens, também…?

soneto de pedras afeiçoado

– aos homens da História e, neles, aos Arqueólogos, na sua perene demanda de, pelas coisas, nos desvendarem os porquês de sermos quem somos

uma pedra é o bastante num caminho
p’ra nos dar breve visão do que já fomos
uma pedra muito mais do que supomos
um saber nela talhado em torvelinho

e sabê-la ara sagrada onde algum vinho
ou o sangue derramado que propomos
a alguma divindade que não somos
nos liberte de algum medo do vizinho

uma pedra coisa pouca mas ingente
uma pedra que rebrilha no escuro
do passado que se faz no olhar presente

uma pedra que tiramos de algum muro
quando ousamos para ele olhar de frente
entrevendo nesse olhar outro futuro.

– soneto de Jorge Castro

«Cadáver esquisito» – desafio superado

Conforme se respiga da Wikipédia: Cadáver esquisito é um jogo colectivo surrealista inventado por volta de 1925 em França.
No início do século XX, o
movimento surrealista francês inaugurou o método “cadavre exquis” (cadáver esquisito) que subvertia o discurso literário convencional. O cadáver esquisito tinha como propósito colocar na mesma frase palavras inusitadas e utiliza-se da seguinte estrutura frásica: artigo, substantivo, adjetivo e verbo. Outra curiosidade a respeito do método é que agrega mais de um autor. Cada um deles intervém da maneira que deseja, porém, dobrando o papel para que os demais colaboradores não tenham conhecimento do que foi escrito.
O título do jogo provém do primeiro dos cadáveres esquisitos conhecidos “O cadáver esquisito beberá / o vinho novo”.
Eis o que resultou do desafio proposto, pela sugestão da imagem:


Meio sepultado nas ondas vivas, como um cadáver esquisito
eu, sobrevivente do naufráugio senti isto:
É uma arca, Noé?
Cadáver esquisito
de traineira derretida
pela vidraça torcida
choroso o fito

As folhas que se atolam na chuva
pescando dragões, a íris mergulha no mar da íbis, e ondina mito
“aqua-mater” ou “as águas de Março”
servem ?
Bote água nisso…
o mito desfaz-se – quanto do teu sal em água doce se esvai

Colaborações ((por ordem de chegada das mensagens):
– Francisco José Lampreia
– São Rosas
– Jaime Latino Ferreira
– Paula Raposo
– A Funda São
– Andréia Carvalho
– Manuel Filipe
– Jorge Castro

desafio – «cadáver esquisito»

A imagem abaixo, de minha autoria, foi obtida em Alcochete, há poucos dias atrás, e acreditem ou não é uma imagem «limpa», isto é, não foi submetida a qualquer efeito «photoshop» ou outro. A chuva no vidro do carro, apenas, serviu para crar o efeito.
Para se gerar aqui alguma interactividade – um dos pilares de sustentação, afinal, dos blogues – deixo-vos uma sugestão:
– remetam-me, para jc.orca@gmail.com, uma pequena frase que a imagem vos suscite – coloquem, por favor, no assunto a expressão «cadáver esquisito»…

Juntá-las-ei todas, tentando criar um todo coerente (ou não…) que, de seguida, aqui mesmo publicarei, com os nomes ou pseudónimos que cada um queira utilizar.
Vamos lá ver o que sairá daqui…

dia intencional da Mulher

viva, Mulher, sê bem-vinda
companheira de folguedos
sem ti eu estaria ainda
a brincar com os penedos

não sei se tal como dizem
vieste ao mundo assim bela
por teres saído – avaliem
da minha excelsa costela

mas se foi – abençoado
osso meu em boa hora
por me dares com tanto agrado
tanto prazer vida fora

– quadras de Jorge Castro

quotidiano delirante (5)

O jornal Público cumpriu 20 anos. Parabéns a ele e a nós, pelo espaço de liberdade e pluralidade que ele representa.
Mas da leitura do seu número comemorativo, de 5 do corrente, para além de me ter entretido e cultivado com a diversidade de opiniões e imagens nele contidas, respigo dois apontamentos que, por razões diferenciadas, me titilaram ao pequeno-almoço:
1. Título de notícia: «Portugueses aceitam trabalhar mais por menos dinheiro» (pág. 8). Não sei que portugueses serão esses. Eu não sou um deles, de certeza. Mas de uma «sondagem» em que, para combater a presuntiva crise, se coloca como alternativas – entre outras de menor interesse – a) trabalhar mais tempo, b) reduzir salários, qualquer portuga, como qualquer cidadão do mundo tenderá a votar, lestamente, em a), sendo que a isso não se pode chamar alternativa.
Menos legítima será a conclusão – e como eu embirro com estas abrangências feitas a martelo – de que «os portugueses» etc., etc. Não! Apenas porque 28,5% dos poucos elementos abrangidos numa sondagem com questões condicionantes terá respondido afirmativamente a um quesito, isso não confere a ninguém a legitimidade de extrapolar uma abrangência que é, em meu entender, um insulto à inteligência de qualquer um.
Isto, para além de servir, objectivamente, para condicionar comportamentos ao leitor incauto, o que não será, seguramente, uma das nobres funções do jornalismo.
Cá fica à consideração de quem interesse.
2. Título de notícia: «Manuela Moura Guedes arrisca processos por difamação» (pág. 17) – Aqui a preocupação é outra. Vejamos: um cidadão é chamado a depor numa Comissão Parlamentar de Ética que se destina a apurar uma qualquer verdade no túnel de iniquidades em que o País está transformado.
Verdadeiras ou falsas, as suas declarações são matéria de análise e decorrente confrontação para a obtenção do tal apuro da verdade, por parte da Comissão Parlamentar.
Mas, entretanto, o ou os visados nas declarações – difundidas à tripa forra pelos meios de comunicação – vêm logo ameaçar com processos por difamação, exercendo, como me parece evidente, uma coacção directa sobre quantos mais venham a pronunciar-se sobre a mesma matéria em tal fórum.
Parecer-me-ia mais lógico, decente e democrático que esses visados exigissem, ao Parlamento, o exercício do contraditório. Mas não. Vai de lançar um pocesso judicial em cima, forma muito portuga de tramar a vida ao semelhante, face aos meandros processuais, despesas e tempo que irão implicar sobre o declarante.
Eu, se tivesse de lá ir falar, ou exigia audições à porta fechada ou uma extensão de imunidade parlamentar, caso contrário ficaria caladinho que nem rato…
Não será por estas e por outras que se fala do descrédito das instituições?

quotidiano delirante (4)
– a funda viola?
e, se sim, viola o quê?

Sou, muito honradamente, de há para cima de cinco anos, colaborador do blog A Funda São, espaço de liberdade e brejeirice onde, por muito que possa causar estranheza a almas pudicas, invariavelmente deparei com uma belo número de compinchas, de cabeça arejada, que trocam uma boa gargalhada por mil amarguras da vida e cuja abordagem à «coisa sexual» não dá guarida a teias de aranha nem a preconceitos idiotas que, obstinadamente, insistem em permanecer na cabeça de muito boa gente.
Ora, a cada passo, assiste-se à pretensão censória da administração do Blogger, que julgará, com os seus botões e a sua incapacidade para encarar a Vida, que lhe compete vir, em carga de cavalaria – mais parecendo de asnos, embora – defender a moral e os bons costumes, cancelando o acesso a este blog.

Apesar dos cuidados de alerta para os conteúdos que SEMPRE se pré-apresentam a quem quiser nele entrar e apesar, também, de reiterados pedidos de desculpa e reposição da normalidade que invariavelmente nas vezes anteriores ocorreram, uma vez mais aquilo a que Junqueiro chamaria a récua fradesca acordou de algum sono mal dormido e – zás! – vá de lançar o seu pudico manto negro sobre as «desvergonhas» do mundo, consubstanciadas no blog A Funda São…A sanha inquisitorial permanece no século XXI, é a triste conclusão óbvia. Alguém irá, agora, calcorrear Seca e Meca para que a tal normalidade seja reposta, outra vez com pedidos de desculpa.Entretanto, pornograficamente, a guerra e a fome vão matando, impavidamente, em todo o mundo, por acção do Homem, sem que estes tristes censores lhes descubram razões mais interessantes e mais dignas para a sua sanha de salvar a Humanidade, impedindo ou contrariando essas poucas-vergonhas. Perdoai-lhes, meu Deus, por saberem tão mal (?) o que andam a fazer! Se não for coisa enquadrável na teoria da conspiração, então poderá ser só um caso agudo de estupidez incurável, ainda que institucionalizada. Preocupante… Pequenas coisas, dirão alguns com assumido cinismo. Pois sim, daquelas pequenas coisas com que se favorecem grandes desgraças. E a liberdade de expressão, mesmo que da ínfima dimensão do átomo, ainda assim é coisa sem medida.

Myriam Fialho
pintando sem idade

Irá, talvez, já longe 1930. Ou talvez não, consoante o afastamento que quisermos dar às coisas e ao seu tempo.
Certo é que, por essa altura, Myriam Fialho entrou neste mundo com olhos para ver e, como tenho tido oportunidade de confirmar, atenta aos outros sentidos que as coisas podem ter.

Rodeada pelos seus amigos e pela suas obras mais recentes, Myriam recebeu-nos na Livraria Barata, em Lisboa, no passado dia 25 de Fevereiro.
A Minha Alma de Criança – porque a vida é uma história de encantar, tal a sua proposta de breve percurso e encontro de afectos. E nela está contida a alma da exposição.

Tomás Cabral e José Neto abordaram essa intemporalidade dos afectos através de desassombradas perspectivas, também elas predominantes no que a vida ensina, mormente através da partilha de vivências.
Coube, depois, um espaço com poemas, que reflectiram o olhar que sabe ver a paleta infinita da Vida, numa fusão de pintura e poesia que faz sempre todo o sentido, quando queremos dar-nos as mãos.

Francisco José Lampreia, ilustrando com a elegância do capote alentejano a poética popular que recria…

… e a que Estefânia Estevens dá voz (en)cantada, transformaram a exposição num corpo ainda mais vivo, onde as almas de criança encontraram, porventura, outros caminhos de sonho.

Po fim, a boa disposição que as coisas boas da vida nos trazem…

… tão somente porque a vida é uma história de encantar.

A exposição estará patente, na Livraria Barata (Avenida de Roma, em Lisboa) até 16 de Março de 2010.

Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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