Sendo este um espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.
A Senhora de Ofiúsa, de Gabriela Morais
dia 20, pelas 15 horas, nas Caldas da Rainha

CONVITE – Amanhã, dia 20, no Auditório da Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha, respigando do programa:
ao Jorge Serra, amigo só porque sim
e sempre
de um amigo que deu
na vida toda
as razões
de ser a vida vivida
nunca perece
nem morre
o ter connosco existido
não há palavras que valham
quando um amigo nos deixa
só memórias
muito vivas
e sem delas termos queixa
quando as palavras nos falham
e a palavra é tão pobre
quando o amigo é sentido
que algum abraço descobre
no abraço a outro amigo
o quanto dele nos recobre
o quanto dele é abrigo
e ao sabermos que iremos
lá de onde nós viemos
em retorno eterno e vivo
é hoje e aqui que o sabemos
por haver sempre um motivo
de um pouco dele estar contigo
e outro tanto comigo.
noites com poemas
– Ti Miséria e os contos tradicionais
soneto de pedras afeiçoado
– aos homens da História e, neles, aos Arqueólogos, na sua perene demanda de, pelas coisas, nos desvendarem os porquês de sermos quem somos
uma pedra é o bastante num caminho
p’ra nos dar breve visão do que já fomos
uma pedra muito mais do que supomos
um saber nela talhado em torvelinho
e sabê-la ara sagrada onde algum vinho
ou o sangue derramado que propomos
a alguma divindade que não somos
nos liberte de algum medo do vizinho
uma pedra coisa pouca mas ingente
uma pedra que rebrilha no escuro
do passado que se faz no olhar presente
uma pedra que tiramos de algum muro
quando ousamos para ele olhar de frente
entrevendo nesse olhar outro futuro.
– soneto de Jorge Castro
«Cadáver esquisito» – desafio superado
No início do século XX, o movimento surrealista francês inaugurou o método “cadavre exquis” (cadáver esquisito) que subvertia o discurso literário convencional. O cadáver esquisito tinha como propósito colocar na mesma frase palavras inusitadas e utiliza-se da seguinte estrutura frásica: artigo, substantivo, adjetivo e verbo. Outra curiosidade a respeito do método é que agrega mais de um autor. Cada um deles intervém da maneira que deseja, porém, dobrando o papel para que os demais colaboradores não tenham conhecimento do que foi escrito.
O título do jogo provém do primeiro dos cadáveres esquisitos conhecidos “O cadáver esquisito beberá / o vinho novo”.

Meio sepultado nas ondas vivas, como um cadáver esquisito
eu, sobrevivente do naufráugio senti isto:
É uma arca, Noé?
Cadáver esquisito
de traineira derretida
pela vidraça torcida
choroso o fito
As folhas que se atolam na chuva
pescando dragões, a íris mergulha no mar da íbis, e ondina mito
“aqua-mater” ou “as águas de Março”
servem ?
Bote água nisso…
o mito desfaz-se – quanto do teu sal em água doce se esvai
Colaborações ((por ordem de chegada das mensagens):
– Francisco José Lampreia
– São Rosas
– Jaime Latino Ferreira
– Paula Raposo
– A Funda São
– Andréia Carvalho
– Manuel Filipe
– Jorge Castro
desafio – «cadáver esquisito»
dia intencional da Mulher
viva, Mulher, sê bem-vinda
companheira de folguedos
sem ti eu estaria ainda
a brincar com os penedos
não sei se tal como dizem
vieste ao mundo assim bela
por teres saído – avaliem
da minha excelsa costela
mas se foi – abençoado
osso meu em boa hora
por me dares com tanto agrado
tanto prazer vida fora
– quadras de Jorge Castro
quotidiano delirante (5)
quotidiano delirante (4)
– a funda viola?
e, se sim, viola o quê?
Apesar dos cuidados de alerta para os conteúdos que SEMPRE se pré-apresentam a quem quiser nele entrar e apesar, também, de reiterados pedidos de desculpa e reposição da normalidade que invariavelmente nas vezes anteriores ocorreram, uma vez mais aquilo a que Junqueiro chamaria a récua fradesca acordou de algum sono mal dormido e – zás! – vá de lançar o seu pudico manto negro sobre as «desvergonhas» do mundo, consubstanciadas no blog A Funda São…A sanha inquisitorial permanece no século XXI, é a triste conclusão óbvia. Alguém irá, agora, calcorrear Seca e Meca para que a tal normalidade seja reposta, outra vez com pedidos de desculpa.Entretanto, pornograficamente, a guerra e a fome vão matando, impavidamente, em todo o mundo, por acção do Homem, sem que estes tristes censores lhes descubram razões mais interessantes e mais dignas para a sua sanha de salvar a Humanidade, impedindo ou contrariando essas poucas-vergonhas. Perdoai-lhes, meu Deus, por saberem tão mal (?) o que andam a fazer! Se não for coisa enquadrável na teoria da conspiração, então poderá ser só um caso agudo de estupidez incurável, ainda que institucionalizada. Preocupante… Pequenas coisas, dirão alguns com assumido cinismo. Pois sim, daquelas pequenas coisas com que se favorecem grandes desgraças. E a liberdade de expressão, mesmo que da ínfima dimensão do átomo, ainda assim é coisa sem medida.
Myriam Fialho
pintando sem idade
Irá, talvez, já longe 1930. Ou talvez não, consoante o afastamento que quisermos dar às coisas e ao seu tempo.
Rodeada pelos seus amigos e pela suas obras mais recentes, Myriam recebeu-nos na Livraria Barata, em Lisboa, no passado dia 25 de Fevereiro.
Coube, depois, um espaço com poemas, que reflectiram o olhar que sabe ver a paleta infinita da Vida, numa fusão de pintura e poesia que faz sempre todo o sentido, quando queremos dar-nos as mãos.
Francisco José Lampreia, ilustrando com a elegância do capote alentejano a poética popular que recria…
… e a que Estefânia Estevens dá voz (en)cantada, transformaram a exposição num corpo ainda mais vivo, onde as almas de criança encontraram, porventura, outros caminhos de sonho.
Po fim, a boa disposição que as coisas boas da vida nos trazem…



