Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

fotografando o dia (148)

pare
escute
e olhe
que o desinteresse não colhe
modo melhor de se olhar
seja poeta
profeta
seja lente
seja asceta
e nunca deixe de olhar
melhor que se comprometa
sabendo certa essa meta
que o mar é de ir e voltar
– fotografia e poema de Jorge Castro

Fotografia obtida no interior do Forte de São Julião da Barra, em Oeiras, na visita guiada por Joaquim Boiça e promovida pela Associação Espaço e Memória

apenas alguns poemas de cordel…

Nascido na passada sexta-feira, dia 16 de Julho, o número 72 da colecção Literatralha Nobelizável, sob a égide da editora Apenas Livros, Apenas Alguns Poemas de Cordel é a minha colectânea, concluída em 25 de Abril de 2010, de 52 poemas suscitados por participações em eventos diversos, adaptados às temáticas propostas sessão a sessão.
Como respigo do seu prefácio, poemas ao alcance da mão. Fruto da persistente árvore que resiste a tempos de incalculável secura. Dessa seca atroz que cria desertos, mesmo sob bátegas de chuva intensa e prolongada, pela erosão constante dos afectos. Seca a que nos vamos habituando de mais, em cada dia, sob os argumentos do ter de ser, dos muros erguidos ou tão-só dos horizontes roubados.   
Poemas ditos, que nenhum deles se ficou pelo recôndito das gavetas, antes preferiu o ar e o céu aberto para ajudar a sentir-se a tal arma carregada de futuro do Gabriel Celaya. Poemas, também, de comer à boca cheia, sem modos constrangidos ou medos de vilipêndios.
Eles aí estão, uma outra vez com o meu reconhecimento pela presença e constância de Fernanda Frazão, da Apenas Livros, no apoio sem peias a tais projectos.
e por cá vamos
de sonho em riste e de alma temperada
o teu tempo é o meu
a mesma estrada
felizmente o horizonte!
ninguém dirá que além dele não há mais nada 

NOTA – o preço de capa é € 4,90. Se algum dos cerca de 300 leitores de poesia portugueses estiver interessado, poderá contactar-me através de jc.orca@gmail.com.

noites com poemas
-os poetas da Apenas e alguns amigos (II)

Assumo o risco de me repetir: um espaço como este terá sempre a riqueza que lhe é trazida por quantos nele participam.  
Espaço aberto, lúdico, de empenhamentos vários e diversificados, de que esta sessão foi notável exemplo… 
A Apenas Livros lá estava, presente e interessada, apoiando a iniciativa, cumprindo um papel social que transcenderá o de mera editora e, seguramente, nos antípodas da busca do lucro fácil ou imediato.
João Bernardino, também, a transformar o aparente fardo de um instrumento que se agiganta perante a sua ligeira figura numa nuvem sem peso, a transportar-nos aos mundos a que a Música nos faz aceder.    
A Comunidade de Leitores das Caldas da Rainha, com representantes vários, trouxe-nos o alerta para o desleixo pantanoso em que sencontra a Cultura, no âmbito nacional e na vertente de mola impulsionadora e, a um tempo, reflexo vivo de um povo. 
Na imagem abaixo, Palmira e Carlos Gaspar lembram-nos, a este propósito, José Afonso… 
António Ferreira e Manuela Marques, também da Comunidade de Leitores, exibem-nos, através de exercícios coregrafados de Yôga, outro sentir e viver um poema de Sophia, pela voz de Kátia Guerreiro.

Os Jograis do Canto Sénior, das Caldas da Rainha, mostram-nos a comunhão de um poema, ombro com ombro, a dar outras vozes ao mundo e à vida, aos quais João Bernardino deu sequência com a música que pode ser a antecâmara ou o próprio ninho de um poema…
Na segunda parte da sessão, se assim podemos chamar-lhe, e depois de se ter dado o espaço devido aos convidados, a Apenas Livros avançou com a apresentação de dois novos trabalhos editados propositadamente para esta sessão:
– de João Pereira de Matos, Ciência Vaga ou Tratado da Consabida Evidência, com prefácio e apresentação de Nuno Filipe Ribeiro;
– de Jorge Castro, Apenas Alguns Poemas de Cordel…, com prefácio e apresentação do próprio. 
Ensaiou-se o improviso, unindo música e palavra, num consórcio que se revelou fecundo…
Por fim, mas sempre no início de algo, os «amigos de casa», a darem corpo e forma e modo e lugar, a emprestarem alma a este espaço, feito dia a dia, acaso a acaso, gerando a noção clara de que não vale a pena desistir e mesmo o muito pouco faz sentido, por não sabermos o quão longe levará todos e cada um…  
E cantámos todos. E cantaremos. E o que somos hoje já transporta em si o que conseguimos ontem concretizar. E assim me parece fazer algum sentido juntar a minha à tua voz. 

Se enganos houver, não importa, pois o que interessa é estar aqui e agora e seguir caminho, passada após passada, acrescentando caminho à caminhada.

noites com poemas
-os poetas da Apenas e alguns amigos

16 de Julho (sexta-feira), pelas 21h30,
na Biblioteca Municipal de Cascais,
em São Domindos de Rana (Bairro Massapés, Tires)

55ª sessão, graças a vós e a nós! De programação ambiciosa, desta feita, para além da homenagem à editora Apenas Livros, pois contaremos, também, com a participação de um substantivo grupo de pessoas das Caldas da Rainha que ajudarão a dar corpo ao evento. Cá fica, então, a programação prevista (sendo que a ordem dos factores, não sendo arbitrária, terá diverso alinhamento):

– Apresentação de um livro de poemas, de minha autoria e edição da Apenas Livros: Apenas Alguns Poemas de Cordel, composto por poemas criados para muitas das sessões aqui realizadas;
– Em acordeão de concerto: João Ricardo Ferreira Bernardino;
– Grupo Dança Yôga (coreografia de um poema): António José Fróis Rafael Ferreira e Maria Manuela Marques Soares;
– Jograis do Canto Sénior das Caldas da Rainha: António Eduardo Silva Moreira, António Júlio Santos Pereira, Berta Santos Pinto Moniz Barreto, José Martinho Rodrigues Correia, Maria Manuela Jesus Monteiro, Maria Manuela T. A. Veríssimo Afonso, Maria Natália Leonardo Nunes, Maria Salomé Nascimento Alferes, Mário Alberto Veríssimo Afonso e Mário Bernardo Reis Capinha;

– Comunidade de Leitores das Caldas da Rainha: representada por Palmira da Silva Marques Ferreira Gaspar e Carlos Alberto Ferreira Gaspar;

– Alguns amigos de casa dirão poemas de sua justiça:

Carlos Peres Feio
David José Silva
Estefânia Estevens
 Francisco José Lampreia
João Baptista Coelho
Edite Gil
Francisco Félix Machado
Maria Francília Pinheiro
Haverá, como sempre, tempo ainda para participações várias e desvairadas, matriz costumeira destes encontros, para quantos tragam um poema para partilhar. E cada um é benvindo e a sua presença enriquecerá um espaço que se fez nosso – de todos quantos nele querem participar. 

um País de azulejos portageiros…
– artigo publicado na Freezone

A partir de 1 de Julho de 2010 os nossos excelsos governantes puseram-nos a todos a pagar mais de IVA e a receber menos por força de maior desconto no IRS. Contra tudo, contra todos e contra todos as lógicas que elementar bom senso ditaria.

Os nossos governantes são assim: quando não sabem muito bem o que hão-de fazer perante algum buraco nos cofres do estado, fazem qualquer coisinha expedita para colmatar tais abismos. E essa coisinha, invariavelmente, incide sobre os mesmos, uma espécie de bestas de carga que, neste País, lhes abonam os desmandos e que sói denominar-se, pelos gurus da Economia e outros expertos, como classe média.

Fórmula abrangente, que vai do caixa de supermercado a recibo verde (embora licenciado, pós-graduado e mestrado), auferindo escassos trezentos euros mensais, a título precário e desonesto, até ao quadro topo de gama de grande empresa, cujo vencimento, fora outros aconchegos securitários, atira sempre para as dezenas de milhares (quando não centenas) de euros no mesmo espaço temporal…

Para ler todo o artigo, na FreeZone

dois pintassilgos, apenas…

Estava eu, para ali, muito em-mim-mesmado, colhendo o solzinho de fim-de tarde temperado a brisa, de ombro na ombreira na janela da sacada, eis senão quando um passarito palerma, com mais «canudos» do que plumas, se desmorona da minha pequena árvore das ameixas e vem aterrar-me aos pés.

Interessa apurar que vai para três anos que uma forquilha jeitosa daquela árvore tem servido para edificações de ninhos vários.
Ofegâncias de primeiro voo, sustos do salto da minha gata, que nem reparou que tinha – felizmente – um vidro entre si e o desemplumado e logo ali deu livre curso aos seus primários instintos, com tanta ânsia que desapercebeu o obstáculo transparente.
Dei por ele pintassilguito, que isto de meninices no campo me trouxe destas acutilâncias de saberes.
Uma leve, muito leve folha de jornal serviu, sem agitações desnecessárias e espaventosas, para lhe impedir fugas desordenadas, porventura ou por desventura para sítios de maiores e mais reais perigos.
Agachado, tacteei por baixo das notícias e dos anúncios, até dar com o corpito piador e aflito, a fim de o repor na árvore de onde a ansiedade de voar e alguma rajada de vento o fizeram cair, que ali nem havia ainda matéria-prima para voos. Só vontade.
E, de súbito, o piar aflito, a angústia esvoaçante de duas pequenezas aladas, volteando sobre mim, roçando-me o corpo. Eles, os pais pintassilgos, sempre tão tímidos e discretos, tão ciosos do petiz que, na presunção de malvadez daquele gigantone que eu era, me cercaram com o ataque impossível que lhes salvasse a descendência.
Já tinha ouvido falar. Já assisti, pessoalmente, ao envenenamento dos filhos encarcerados por parte dos pais esvoaçantes e aflitos. Mas nunca chegara a assistir a tais ímpetos de valentia, de peito feito à luta ainda que sem credível esperança de sucesso e tão avessa à sua suposta natureza arisca e fugidia.
Até agora, quedo-me estupefacto e reflexivo…
    
O aprendiz aventureiro:

– A excelente progenitura, em cobertura aérea:

IX festival internacional de papagaios
de Alcochete

A cor espraiada na paisagem. O irreal, o imaginário, a fantasia a criarem espaços na nossa mente, povoando-a de novos seres e novos enlaces que ajudam a dar livre curso à imaginação…     

Há medos que se transmutam; receios de fantasmagorias que se revelam aos nossos olhos com a cor dos sonhos e assumem o espírito do jogo do faz-de-conta …

… e o nosso imaginário voa mais alto, com o céu e o mundo povoados pelo impensável.
O próprio D. Quixote teria confirmado serem reais os seus «gigantes» inventados nos moinhos e outro crédito, porventura, se daria aos devaneios quixotescos. 
São colocadas outras estrelas nos céus e outros seres na terra contra o cinzento dos dias…
… e tudo ali, ao alcance da mão, aproximando adultos e crianças que dão livre curso à vontade de soltar o sorriso e o riso, em busca do espaço que é seu, de direito e por natureza. 
A envolvente da praia fluvial de Alcochete dá o seu precioso contributo à magia do momento…
… e quando a noite cai e a festa avança por ela dentro, já não há medos no ar, mas apenas a vertigem do encantamento e do fantástico, a estimular criatividades e desafios.
Fernando Curado Matos, apaixonado pela fotografia, lançou, também, para ajudar à festa, o seu especial «papagaio»: um livro onde nos retrata a sinfonia de cor, movimento e o renascer da meninice em cada um de nós, Papagaios pelos Ares (edição de autor). 
Lisboa, no horizonte, povoada das cores belíssimas de pôr-do-sol que daquela praia se podem desfrutar, talvez não saiba o que está a perder por desconhecer o que se vai passando mesmo à sua frente. E é pena…
… mas essa pena – por muita pena que tenhamos – ficará com ela. Por nós, demos por bem empregue o nosso tempo, que nos levou ao outro tempo em que sabíamos mais de nós. O tempo de brincar, de rir, de sonhar o possível e de viver o impossível. 
– Fotografias de Jorge Castro

quinta do pisão de cima – landArt – Cascais

Cada um saberá de si, claro, mas eu tenho, para mim, como dispositivo de criação ou recriação de equilíbrios, o devaneio de passear pelos campos, sentir o calor da terra-mãe e tentar partilhar os seus mistérios.

Foi o caso, há dias, para retempero da agitação, intranquilidade e insatisfação de alguns dias urbanos. 

Apreciar contornos e desvendar os incontáveis planos em que a vida se desdobra, contumaz, sempre habilitada a descobrir saídas mesmo na noite mais triste
Procurar na Natureza a mão do homem, não como símbolo de hegemonia e destruição, mas como parte integrante dela, criativa e afectuosa, grata pela óbvia dádiva da Vida de que ela é berço.  
E o conflito, quando surge, é apenas desafio de outros e novos voos, em busca de sensações inexperimentadas, que têm o condão de nos tornar mais atentos, mais sensíveis… Mais seres humanos.
Aqui a graça dos mundos entrecruzados, onde o horizonte pode ser a casa de cada um na busca diária do pão e do sustento…  
Os nossos horizontes alargam-se e mesmo que pareçam circunscritos à sequência das barreiras visuais que a terra nos apresenta, devemos apenas neles aperceber o desafio de cada nova descoberta…
Chegados, por fim, a algum jardim das delícias, só temos de nos deixar ir, maravilhados pela cornucópia que nos é oferecida, de mão-beijada…   
… assistir à laboriosa aventura do dia-a-dia das criaturas que asseguram a nossa permanência na Terra, por muito que isso possa custar aos nossos devaneios megalómanos e hegemónicos…
… sem nunca esquecermos que, atrás de uma janela, outra vem…
Assegurarmo-nos, também, de que a mão do homem pode mexer na Natureza com outras incidências, para além do reiterado disparate, nomeadamente para assegurar o seu conforto e o seu sustento, mas com a parcimónia e delicadeza que o meio ambiente espera de nós.
Afinal, tudo se resume a isso: cultivar a Vida, crescendo…
… e reproduzindo-nos.
 – Algumas das fotografias acima foram obtidas com a utilização  do trabalho «Em Azul», de Meireles de Pinho – LandArt – Festival de Arte na Paisagem – Quinta do Pisão de Cima – Cascais

os ais do futebol…

Pronto! Agora que acabou, uma vez mais, a nossa sublimação de vontades e anseios de Quinto Império ao pontapé e que é fácil dizer-se mal das opções de Carlos Queirós, vou aproveitar para dizer mal das opções de Carlos Queirós:
– Cristiano Ronaldo, pouco menos do que um verbo de encher em campo, não foi substituído apenas por ser a bandeira de um certo Portugal em forma de gente? Terá algum «lobby» de sustentação? Ali pela Madeira passam-se coisas tão estranhas, que eu nem estranharia…
– E substituir quem quer que seja no momento único em que a selecção portuguesa estava com claro ascendente sobre a selecção espanhola e na iminência de marcar um golo … Ainda para mais, substituir o melhor e mais pujante atacante, no mesmo momento, foi de mestre! 
Isto será síndrome suicidária ou sou eu que não percebo nada de futebol?  
Em qualquer caso, lá estamos nós mais aproximados da crise, de corpo e alma, sem devaneios megalómanos, talvez com discernimento ainda para ver, com outros olhos, o que carece ser visto.  

fotografando o dia (147)

que fugaz noção de ter a liberdade
que me traz aquela mão ao libertar-me
e eu que estava para aqui preso à vontade
estou livre nesta mão a asfixiar-me

– fotografia sobre imagem publicitária e quadra de Jorge Castro
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

Arquivo

Categorias