Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

fotografando o dia (158)

o que é
nem sempre parece que o é
até um cacho de rolhas
quanto mais para ele olhas
cada vez mais é
o que não é
Cacho de Rolhas – ocupação sobre painel de cortiça, de Jorge Castro

Regina Guimarães pela mão e pela voz de Elisabete Piecho
nas Noites com Poemas

Mais uma sessão supimpa decorreu, reiniciando, pelo sexto ano consecutivo, as Noites com Poemas e cumprindo a sua 56ª sessão. 
Uma outra vez, também, uma sala plena de pessoas que consideram que vale a pena manter e cultivar essa arte do encontro com os seus concidadãos, numa demanda descontraída de convergências em torno de interesses que se adivinham comuns.

Descontraída, ainda que não desinteressada. E não é fácil, nem denominador comum, na sociedade presente, ainda para mais quando a motivação é essa coisa etérea a que chamamos poesia e a paga a não menos etéria cultura dos afectos.        
Certo é que Elisabete Piecho «desmembrou» a poesia de Regina Guimarães – que lhe autorizara devidamente tal «afronta» -, recortando em múltiplos pedacinhos de papel as suas palavras com sentido, extraídos de dois livros da autora, e propondo aos circunstantes que reconstruíssem cada poema a seu bel-prazer, em pequenos grupos de circunstância, ali criados, em novos e diversos enlaces que o trabalho de cada grupo sugerisse.  
Foi esta, então, uma sessão de muito fácil seguimento, permitindo até pausas descontraídas, enquanto na sala o ruído produtivo das mentes, desenvolvendo a nova arquitectura de cada poema se fazia sentir… 
Depois, tratou-se tão só de dar corpo e voz a cada «novo» poema…
… logo mais confrontado pelo poema original pela mão e voz de Elisabete Piecho, invariavelmente com a surpresa de que os tais novos enlaces criam lógicas próximas mas nunca coincidentes e as palavras originais parecem desdobrar-se em multiplicidades de sentidos que, afinal, já nelas residiam semi-escondidos. 
Como sempre, o segundo tempo de cada sessão promove a ronda por todos quantos tragam algo para nos dizer…
E é claramente com o maior agrado que todos nos apercebemos de que o tempo, além de correr depressa, nos parece cada vez mais curto e outro tanto, além do dito, nos ficou por dizer
A autarquia e a Direcção da Biblioteca Municipal de Cascais certifica, pelo punho da senhora vereadora da Cultura, Dra. Ana Clara Justino, o reconhecimento pela acção meritória de cada convidado, o que será simples gesto mas prova bastante da solidariedade que se procura, entre munícipes e município, nos caminhos que as boas vontades, de parte a parte, não apenas constroem, mas transformam também em percurso facilitado.   

noites com poemas
a poesia de Regina Guimarães, com Elisabete Piecho

Teremos, como convidada, Elisabete Piecho, actriz de teatro e amiga, que nos trará a poesia de Regina Guimarães, de quem os interessados que ainda não a conheçam poderão colher informação em http://web.letras.up.pt/primeiraprova/regina.htm.

Elisabete Piecho propõe-nos uma abordagem curiosa – e participativa – à poesia desta autora… E mais não digo, que uma pitada de curiosidade também condimenta os afectos.

INFORMAÇÃO ADICIONAL
sobre as Noites com Poemas
na Biblioteca Municipal de Cascais – São Domingos de Rana
(sempre na terceira 6ª feira de cada mês, com início às 21h30)

O núcleo central das pessoas que integram esta nossa actividade – que vai entrar no seu sexto ano e na sua 56ª sessão, sem paranças – alargou-se, num processo lógico e natural destas nossas passadas pela vida, onde os poemas também se revelam e servem para criar e/ou reforçar laços de afectos e amizades ou, no mínimo, promovendo essa arte do encontro, que anda algo maltratada nos caminhos que trilhamos:

Carlos Peres Feio
David José Silva
Estefânia Estevens
Francisco José Lampreia
João Baptista Coelho
Lídia Castro
Lourdes Calmeiro
Maria Francília Pinheiro
São estes os nomes dos companheiros que constituem, pela sua constância participativa, o eixo desta «associação sem estatutos» onde, tentando contrariar velhos dados pretensamente adquiridos, temos sabido fazer funcionar a máquina a dois tempos, onde, pelo primeiro, passa a oportunidade de apresentar obra feita e, pelo segundo, a fruição da obra alheia, em forma de poema. E certo é que a maquineta tem funcionado, sem sobressaltos de maior, e sempre em frente.     
  
De cada um de vós, poetas, curiosos, amigos, se espera que venha, se puder e quiser, e até que nos traga um poema… e outro amigo, também. Temos sempre espaço para quem vier por bem.

fotografando o dia (157)

o fantasma-gosma
gruda-se à grade da gruta
pasma
e a casa devoluta
cisma
com a noite que se afoite
 poise
e o céu?
caiu ou não caiu
ou que demo é que lhe deu?
– fotografia e poema de Jorge Castro
Fotografia obtida em Picoas – Lisboa

como eu gostava que o dia…

Não há razões de contentamento neste recanto do mundo que poderia ser tão aprazível… Por vezes, parece que os nossos esforços se congregam para a criação do infortúnio. Mas amanhã é sempre outro dia! Por vezes e por isso mesmo, apetece-me um poema ingénuo.

como eu gostava que o dia
não me trouxesse a azia
do descaso
e desconsolo
que não fosse por acaso
que eu pisasse com orgulho
as agruras deste solo
que não vingasse o engulho
nem me mordesse as canelas
o fétido desviver
que por lúgubres vielas
nos impede de crescer

como eu gostava que um dia
nascesse em nós a alegria
de sermos
nós a valer
e se enchessem montes ermos
e planícies devastadas
da arte de renascer
e sermos nós as estradas
alimentadas por rios
e bordejadas por mar
onde os homens fossem fios
abraçados num tear

– será um dia
há-de ser
há então que porfiar
e até lá ‘inda é dia
para o que der e vier
e o verbo é sempre lutar.

– poema de Jorge Castro

o mistério dos mistérios ou o descaso dos casos…

A minha nova crónica na FreeZone.

Sobrevoámos em voo muito baixo, ao longo da última semana, mais dois extraordinários e misteriosos casos em que a sociedade portuguesa se tornou fecunda. Mais dois casos de aparência estrepitosa de onde ressalta depois, em grande primeiro plano que afinal tudo esconde, a sua impenetrável opacidade.
Refiro, como é óbvio, os casos Casa Pia e Carlos Queirós. Casos que me permito «meter no mesmo saco» porque deles, eu cidadão, que me tenho na conta de algo atento e sempre interessado, apuro um denominador comum: não consigo concluir coisíssima nenhuma…
Como nos casos de Camarate, ou dos hemofílicos infectados com SIDA, ou de Maddie, ou de Valle e Azevedo, ou do Freeport, ou do BPN, ou da Caixa, ou dos apitos, ou de…, ou de…, ou de… enfim, qualquer cidadão terá, em carteira do conhecimento, casos deste tipo de sobra, de maior ou menor impacto na sociedade, mas todos eles com essa peculiaridade que os irmana: a impossibilidade de se detectar cristalinamente onde foi parar a culpa e os culpados de cada uma das situações supostamente averiguadas e, uma vez por outra, até chegadas por fim a julgamento.
Aliás, irei mais longe: não apenas não se vislumbra claro responsável em cada caso, como a responsabilidade surge, em geral, ela própria repartida por protagonistas aparentemente antagónicos e, desconcertantemente, até de aparentes interesses opostos.

Leia artigo completo AQUI.

fotografando o dia (156)

é mistério da Justiça
onde vivemos à peça
que nalguns a vida atiça
o que a outros sai depressa
mendiga algum dignidade
da vida lhe basta um pouco
o outro come à vontade
e faz ouvidos de mouco

seres todos nós seremos
uns de teres outros de não
e uns aos outros fazemos
o que não se faz a um cão
– quadras e fotografia de Jorge Castro

nova crónica na FreeZone…

Demagogia pura e dura, com alguma publicidade e ponderação reflexiva à mistura…
Se um político de topo, no legítimo exercício das suas nobres funções, tem – mas tem mesmo, não apenas por alegada «dignidade das funções» – necessidade imperiosa de uma viatura para o cabal desempenho da sua nobre função, viatura essa que o dinheiro do Estado, isto é, o dinheiro do contribuinte vai ter de adquirir para o legítimo e nobre efeito, uma de duas:
– ou adquire um Audi, um Mercedes, um BMW ou um Jaguar – que são as marcas geralmente seleccionadas – cujos preços, para as gamas intermédias-altas que são geralmente as seleccionadas, oscilam (e, repito, não se falando nos topos das gamas) entre os € 100.000 e os € 170.000 por unidade;
– ou adquire um Renault, um Nissan, um Ford ou um Fiat, também com ar condicionado, airbags, volante, quatro rodas, além da sobresselente, suspensão, retrovisores, rádio, com os leitores todos e gps e assentos e tudo e que até chegam aos 200 Km/hora, a que eles nem podem circular, aí por preços que oscilam entre os € 20.000 e os € 40.000, pela mesma unidade.
Se adicionarmos a isto as respectivas e proporcionais manutenções, revisões, consumos, lavagens, reparações, etc., o fosso da disparidade… dispara, mesmo.

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fotografando o dia (155)

antes do torna-viagem
há que cuidar da plumagem
como em palco de vaidades
– faz de conta que nem olho –
ataviam-se as beldades
catando bem o piolho
e quando der em partir
irão todas a seguir
cruzando as ventanias
uma e outra e mais de mil
esperando novos dias
que hão-de voltar lá p’ra Abril 
– fotografia e poema de Jorge Castro

quotidiano delirante (8)… com Educação à ilharga

Mil oportunidades há e outras tantas, ainda e acrescidas, para discorrer sobre os mais desvairados temas que nos perturbam os neurónios e – nem que seja por presunção autoral – aflijam o País.
Daí que, contrariando o bichinho opinativo que me desassossega, me inibo frequentemente de lavrar por escrito os comentários que me são suscitados pelo quotidiano jornalístico, eivado de questões «sem-importância» mas que se revelam, tanta vez, de muito maior pujança do que pareceriam, à primeira vista.
Desta feita, ocorre-me especiosa questão:
– porque é que, invariavelmente, governo após governo, de há dezenas de anos a esta parte, todo e qualquer elenco do Ministério da Educação – e já foram tantos, os abençoados…! – escolhe SEMPRE o mês de Agosto, altura em que, recordemos, as escolas se encontram praticamente encerradas e todo o pessoal docente em gozo de férias, para dele emanar medidas ponderosas que alteram o modus operandi e o modus vivendi de todos e cada um dos estabelecimentos de ensino público, de quem lá trabalha e de quem lá aprende?   
No corrente ano, coube a Isabel Alçada o fardo deste tipo de desatino: primeiro, o anúncio de retirar as retenções de ano do processo avaliativo, leia-se acabar com os chumbos – devaneio sobre o qual emendou atabalhoadamente a mão, face à reacção generalizada da «sociedade civil»; depois, a escassas três semanas do início do ano lectivo é que é feito o anúncio de quais as 700 escolas que encerram, com manifesta perturbação para todos os envolvidos: pais, alunos, professores e as próprias entidades organizativas escolares; e ainda, também em Agosto, o anúncio, através de despacho assinado pela ministra Isabel Alçada, datado do dia 3, pelo qual se determinam novas condições no acesso ao apoio financeiro a conceder em 2010/2011 às escolas de ensino integrado (cooperativo), nomeadamente as escolas de música, o que coarcta esse acesso a inúmeras escolas… o que envolve, por sua vez, milhares de alunos nelas já inscritos, cujos pais estão, agora, em palpos de aranha para saber o que fazer.

E todas estas coisas neste período onde o remanso balnear ou campestre do bom povo português o desaconselharia, convenhamos.

Fica-me evidentemente a dúvida repartida, em partes iguais ou acumulada: será deliberada má-fé e/ou mera (conveniente mas pouco convincente) desorganização do ministério o que estas tomadas de decisões em tempo de férias denunciam?
Pois com este sentido de «oportunidade» evita-se maior e mais imediata contestação da parte de lesados; cria-se um clima generalizado de maior ansiedade e intranquilidade sobre docentes, alunos e respectivos encarregados de educação, coisa aparentemente tão cara a quem governa (ou manda e desmanda…) neste País.
Serão estes os intuitos? Pobres e lamentáveis deles. Mas é com estas espertezas, como sói chamar-se, que se estruma o caldo de cultura através do qual todos nos vamos transformando (uns com mais sucesso do que outros) em espertalhões oportunistas, como condição de lamentável sobrevivência, e perdemos totalmente o norte à solidariedade – também institucional – que nos devia enformar, enquanto povo, enquanto nação.
Como sempre, os exemplos vêm de cima. Depois queixam-se, com lágrimas de crocodilo, pela «ausência de valores»…
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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