Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

chi(s)p com todos – reflexões na ponta do pé…

Notícia do dia: estudos recentes, de âmbito mundial, esclarecem que há mais mais ricos no mundo e, ao mesmo tempo, há mais mais pobres.
Se o assunto fosse propenso à graça dir-se-ia que o mundo está propício à gaguez… 

*

Lá está! Se as bolas do Mundial já tivessem instalado o chip do Sócrates, o Cristiano não teria perdido, momentaneamente, a noção da sua localização… Mas, se calhar, também não teria marcado o golo, a seguir.  
Provavelmente, será o que vai acontecer ao Sócrates: instala o chip nas viaturas, fica a saber onde todos estamos… mas nunca mais marca golos. 

fábulas, parábolas e outras rábulas
apontamentos de uma apresentação
– ver, também, o meu mais recente artigo na FreeZone: Pontes e Escolas

NOTA PRÉVIA – Este meu livro terá, pela primeira vez, distribuição nacional. No entanto, se a alguém interessar adquiri-lo directamente ao autor, peço o favor de me dirigir mensagem nesse sentido para o seguinte endereço: jc.orca@gmail.com. O preço de capa (com portes incluídos) é de € 15.

Dia 19 de Junho, sábado, pelas 16 horas. José Saramago concluía a sua última viagem entre Lanzarote e Lisboa. Ali, pelo Campo Grande, em Lisboa, era apresentado o meu mais recente livro, com edição da Temas Originais.

Calcorreando um caminho de escrevinhações que toca no exemplo de Saramago, que mais não seja pelo seu início tardio, pois já dobrara o cabo dos 50 quando a minha primeira obra viu a luz do dia, certo é que já lá vai uma boa mão-cheia de interrogações e proposições à vida…   
Deste colhe-se, entre outras coisas, a graça de conter um texto que foi sugerido pelo estilo de escrita de Saramago e do qual colhi apreciação interessada. Por coincidência de oportunidade infeliz, esse texto integra um livro que é lançado, então, ao jeito de despedida. 
Contrariando o que tem sido, até aqui, uma opção – ou uma postura – no que à difusão dos meus livros respeita, desta vez, as Fábulas, Parábolas e Outras Rábulas terão difusão «institucional» e de âmbito nacional.
Conto, para tanto, com a cumplicidade e os bons ofícios da Temas Originais, aqui representada por Xavier Zarco, que abriu a sessão, introduzindo o assunto e os participantes. 
Carlos Peres Feio fez a apologia da obra, com uma mão-cheia de afectos e com a bonomia e bom humor que o revestem, como se de segunda pele se tratasse.
Apesar dos pesares, das praias, dos futebóis, das inúmeras propostas de programas coincidentes e do aconchego do lar, um bom grupo de amigos fez questão de marcar presença e manifestar apoio, circunstância para a qual já me escasseiam palavras de reconhecimento.  
Estefânia Estevens e Francisco José Lampreia contaram, dizendo e cantando, algumas histórias que deram mais corpo ao nosso encontro. Bem hajam, também, pela amável disponibilidade e empenhamento. 
O autor, mais do que a apologia da obra – que essa aí fica para quem a queira apurar – aproveitou o tempo para falar do estar na Vida, arte cada vez mais espinhosa, quando a alicerça a procura e a cumplicidade do outro.  
Depois, um pouco de exercício em favor da tendinite, que os amigos merecem… 
Ainda houve um pouquinho de tempo para uma amena cavaqueira num recanto que seria mais aprazível se quem dele cuida se tivesse disponibilizado para aplicar mais cinco minutos, servindo uma dúzia de cafezinhos ou, talvez até, uma ou outra torradinha… Mas não, que já estava em cima da sua hora de encerrar e, aparentemente, o negócio não se compadece com relógios.
*
Para ler o meu último artigo, na FreeZone:

ditos e reditos, com Elisa Costa
nas noites com poemas

Porque as tarefas nem sempre nos deixam tempo de sobra para tudo, apenas agora publico as imagens da mais recente sessão das Noites com Poemas, que teve lugar no passado dia 17 de Junho.
Com Elisa Costa como convidada, passeámos pelo seu livro Ditos e Reditos, a que se acrescentaram dizedelas de todos os tempos, como excelente pretexto para se discorrer também sobre a biodiversidade, tema caro a muitos dos presentes.
Aproveito a oportunidade para deixar singela homenagem à mana Li, sempre afadigada na recolha de imagens, ao lado da Lourdes, imagens que sempre têm muita procura, por parte dos convidados como dos diversos participantes em cada sessão.   
Recorreu a Elisa Costa a alguns desses participantes para entremear a sua tese com exemplos vivos dos tais ditos e reditos, que povoam a nossa memória e dão voz a tantos saberes que trazemos entranhados na pele. 
Chegado o momento dos participantes, estes não se fazem esperar e apresentam-se, cada vez mais afoitos e confiantes, de sessão para sessão, o que – como recorrentemente venho dizendo – nos enriquece aquele espaço…
… sem fronteiras de idade ou formação, mas tão só com o intuito de se dar a conhecer e à sua obra, mais sedimentada ou nos seus primeiros mas firmes passos.  
E, de súbito, se descobre que, afinal, uma voz não tem idade, quando trilha os caminhos da descoberta e da partilha…
Uma noite mais e memorável, como tantas outras que vão ocorrendo onde a motivação é a fruição de um poema dito ou ouvido, que suscita uma alegria, um riso, um lamento, um choro. Enfim, uma emoção, que é sempre uma coisa altamente recomendável para quem gosta de se sentir vivo. 

fábulas, parábolas e outras rábulas…

Amizades,
Gostaria de contar com a vossa presença no próximo dia 19 de Junho (sábado), pelas 16 horas, no Auditório do Campo Grande, nº 56, em Lisboa (junto a entre Campos e cerca de 100 metros depois da Livraria Bulhosa), para vos apresentar o meu mais recente livro, desta feita em prosa, editado pela Temas Originais, no qual coleccionei quarenta histórias em que, de um ou de outro modo, muitos de vós estareis provavelmente presentes, por esse fluxo de vida que os afectos sustentam.
Chamei-lhe Fábulas, Parábolas e Outra Rábulas e nele tentei cultivar o exercício da intemporalidade, sem me esquecer, no entanto, de o condimentar com os circunstancialismos que nos envolvem. Afinal, eu sou português, aqui, como diz o José Fanha.
Histórias de vidas. Histórias devidas. A necessidade/obrigação de transmitir testemunhos, retribuindo o que a vida nos traz, que nos dêem forma e que sustentem uma ética.
Conto com a amizade de Carlos Peres Feio, Estefânia Estevens e Francisco José Lampreia, companheiros já de muitas jornadas, para me ajudarem a dar corpo a mais este nascimento.
E gostaria de contar convosco, com a vossa presença, pois sem haver quem nos ouça o exercício da palavra perde muito do seu sentido… tal como a vida.
 
Ainda a tempo: Para além do lugar-comum do amor-ódio a José Saramago, fique-nos, em jeito de homenagem, o reconhecimento pela determinação, o controverso amor à terra-mãe, o ser escritor levantado do chão num País tão dominado por doutores da mula-ruça, o exercício e exorcismo da amargura que pela sua obra perpassa, características de que faço questão de aqui deixar referência, no momento em que cessou a sua existência física – pois que a obra fica connosco.
Tive o ensejo de o contactar pessoalmente para lhe apresentar um dos textos que encorpora este meu livro amanhã lançado – Um Memorial de Nomes do Evangelho em Cerco de Pedra, recordando José Saramago – tendo dele recebido um claro e desassombrado incentivo na assunção do meu caminho literário.
Momento há em que talvez fosse melhor não se verificarem coincidências. Mas elas aí estão. Vivamos com elas, pois, e congratulemo-nos por esta dádiva que é a Vida.   

noites com poemas
com Elisa Costa
– Ditos e Reditos: dizedelas de todos os tempos

No próximo dia 17 de Junho (quinta-feira), pelas 21h30, como sempre, encontrar-nos-emos na Biblioteca Municipal de Cascais – São Domingos de Rana (Bairro Massapés, em Tires) para falarmos e ouvirmos falar de ditos e reditos, provérbios e anexins… Saberes que o tempo subverte mas, ao mesmo tempo, âncoras de referência na vida.
Elisa Costa, autora de livro com o mesmo título e presença não rara nos nossos encontros, será a nossa convidada.
Venham daí, dizendo e redizendo o que por melhor acharem, de vossa justiça. Nós lá estaremos.

passeio pelo nordeste extremo (II)

Manhã cedo, despertar. Quem é cliente habitual tem algumas prerrogativas. E como o meu poiso habitual é na Residencial A Morgadinha, tenho artes de poder disfrutar desta esplêndida vista sobre a albufeira da barragem de Miranda do Douro, da varanda do meu quarto.
Margem direita, Portugal; margem esquerda, Espanha. O céu por cima, ainda que, por fugaz momento, se possa imaginar, também, o céu por baixo…

Também da varanda se tem uma vista privilegiada para a Sé de Miranda, beijada pelo sol matinal, eespreitando o pormenor, o embarcadouro onde tomaremos o barco especial que nos levará, rio acima, até onde a albufeira for navegável, num passeio ecológico que faço sempre que lá vou e do qual nunca me enfastio.
Pequeno-almoço tomado – sempre com aquela magnífica vista sobre a albufeira, e rumámos aos meus lugares de meninice, agora redimensionados ao olhar adulto, mas onde o veludo gritante das papoilas mantém a sua consistência e uma multidão de bichinhos, bichos e bicharocos lá faz pela vida, pois, pelos vistos, para eles não era dia de férias…
Verifico, uma vez mais, com algum espanto e satisfação, que a nossa velha casa de madeira, cedida a meus pais pela Hidro-Eléctrica do Douro, lá pelos idos de 60 – e que era suposto apenas se aguentar uns dez anitos – lá se mantém, aparentemente para lavar e durar, ainda que sem a cercadura de cultivo que lhe conhecia quando a habitámos.
Os socalcos de xisto, que definiam as culturas – aqui alfaces, ali couves, além morangos, ao fundo batatas… – esses lá estão, bandeira de sólida construção, que o tempo parece não querer estragar.
Bem como a árvore, imensa, que sombreava a piscina das aventuras de juventude, e que já me pareceu ter ido desta para melhor, em anterior visita, agora me recebeu revigorada, com o verde a recobrir a galharia antiga e morta.     
O que não se altera na sua decadência é a (ainda) bela edificação que é a estação de caminhos de ferro de Duas Igrejas, com os seus interessantes painéis de azulejos, retratando usos e costumes da região.
A forretice do Estado Novo achou por bem terminar ali a linha de comboio, por ser o local dos silos cerealíferos, ao tempo da campanha do trigo, que abrangeu não só o Alentejo, mas também o planalto nordestino transmontano… e não estendeu a linha até Miranda do Douro, a escassa meia-dúzia de quilómetros!
Hoje, assim como assim, já nem a Duas Igrejas chega. Dir-se-ia que o nível de forretice se agravou, de modo muito substancial.
Aproveitam-na, à estação, as andorinhas, espantadas com aquela não esperada invasão, espreitando de um ninho a metro e meio do pavimento. Que alguém a aproveite, enfim. 
A seguir, uma saltada até à aldeia de Picote, para ver o seu velho e tradicional casario, bem como para nos chegarmos à Peinha de’l Puio, a juzante da barragem do Barrocal do Douro (Picote), onde o rio nos dá conta das voltas que a vida dá e que ele próprio teve de procurar, no seu caminho até ao longínquo Porto, para cumprimento do seu ciclo de vida. 
E, a cada passo, o nosso olhar a desviar-se para as coisas triviais que, em determinados enquadramentos, parecem assumir outra diversa dimensão e sentido.
Lada a lado com a natureza, a mão do homem, em apuros de ancestralidade e que ali estão, ainda operacionais, ajudando ao pão nosso de cada dia… 
Farei aqui um outro intervalo, este ligeiramente mais longo pois estou a caminho de CUCUJÃES (Oliveira de Azeméis), onde me espera mais um regabofe que não dispenso. Eu volto já…

passeio pelo nordeste extremo (I)

Num desses acessos que, a cada passo, me impelem para o planalto nordestino transmontano, lá fui, com família e de armas e bagagens, em busca dos diferentes horizontes que me limpam a alma de permanências citadinas demasiado prolongadas.
Desta feita, com o interesse acrescido de levar comigo o meu filho, cultivando esse incerto desidério de passar testemunho… 
Pelo caminho, a primeira paragem para almoçar: Sortelha, ali próximo do quadrante que alguém chamou País das Pedras, na Beira Alta.

Aldeia de pedras e ancestralidades. Na sua zona histórica, belíssima, e que tem vindo a ser recuperada com a sacrossanta ajuda de dinheiros comunitários, tudo se conjuga para nos tornar viva a sensação de um mergulho no tempo, em que as regras conhecidas se tenham subvertido.
A palavra distância parece ganhar outro significado ao atentarmos nos sucessivos planos que a vista abarca.   
O tempo soalheiro deste Junho e o meio-dia parecem emprestar outro vigor às cores que nos rodeiam. Mas não consigo furtar-me a esta sensação de fantasmagoria, pois as ruas, desertas de gente, parecem, apenas, conter os espíritos que nos espreitam por trás das cortinas das janelas…  
Uma escassa dezena de turistas, duas lojas de artesanato, um restaurante – D. Sancho, onde uma perdiz à moda da casa regada por um excelente vinho tinto da Quinta dos Termos, por si sós justificariam o passeio –  e um bar… e, de habitantes, as duas mãos são excessivas para os contar, pelo menos à vista desarmada.
Não sei o que é preciso fazer para alterar este estado de coisas. Mas parece-me imperioso que algo tenha de ser feito no sentido de prender, de forma sustentada, as pessoas à terra, pois, em caso contrário, o deserto intensifica-se, ainda que recheado de construções belamente reconstruídas. Mas sem o seu sentido, pois casas sem gente, pouco a pouco, vão deixando de ser casas.
O turista usufrui-as, talvez. Mas é preciso que alguém as habite e que cada sítio, cada povoação seja isso mesmo: um povoado… e não o despovoado a que assistimos. 
  
País de pedras, duras e frias, redondas e quentes, ao gosto e feição que lhes formos dando. Ara sacrificial, posto de atalaia, local de oração e convocação espiritual ou derradeira guarida, para tanto servem as pedras de aparência imorredoira, na paisagem, a um mesmo tempo, agrestes e companheiras…   
As pedras que fazemos nosso prolongamento de vida, entretecendo-as a nosso bel-prazer com a estrutura da terra, para nos darem serventia e assim, cúmplices afectuosas, nos proporcionarem conforto e resguardo.
E elas lá ficam. Ordenadas, rigorosas, sempre prontas a receber-nos, estranhando-nos a ausência e o desperdício. Quase se lhes pode adivinhar um adeus inconformado e fica-nos alguma penosidade ao olhar, uma última vez, para o casario sem vivalma. 
Próximo destino, já a meio da tarde, Torre de Moncorvo. Breve destino, apenas para matar a sede e aproveitar a viagem. Era dia de procissão. As ruas receberam-nos cheias de flores ainda frescas a cobrirem as lages da calçada. 
Aqui, felizmente, viam-se pessoas. Fosse da procissão, do labor ou do descanso diário, não interessa. As pedras e as casas tinham outra vida, o que parece sentir-se mesmo à flor da pele.  
As ambiências mantêm a sua personalidade, apesar de grassar ali como por Portugal inteiro uma avassaladora mania de nos descaracterizarmos, espalhando Reboleiras por tudo quanto é considerado zona habitacional, sem que as forças autárquicas tenham o golpe de asa de impor regras que, incidindo em todo o espaço urbano, assegurem aquilo a que eu chamaria uma «matriz identitária» à globalidade desse espaço. 
Sem concessões de qualquer espécie, ainda que sem descurar as novidades que a civilização vai trazendo, de confortos e comodidades e que nos são tão apelativas. 
Mas uma coisa não impede a outra, se – como em tudo – prevalecerem o bom-senso, aliado ao amor à terra e apoiado na modernidade, gerando lógicas em que estas duas últimas componentes se encontram e frutificam.      
Por fim, o nosso objectivo: Mirando da Douro. Quase seiscentos quilómetros percorridos, desde Lisboa, somos recebidos pelo casal mirandês na Praça D. João III, já noite cerrada, dirigidos àquele que é sempre o meu primeiro poiso, quando lá chego, e após o depósito de armas e bagagens e de um retemperador duche na Residencial Morgadinha… 
… o restaurante da Balbina.
Aí, como em qualquer outro ritual, apurar sempre o gosto único dos vegetais que compõem a salada que antecede a posta mirandesa; depois, enquanto se espera por mais, degustar a esplêndida alheira de Miranda, grelhada e que deixa a de Mirandela a perder de vista, a modos de aperitivo para a suculenta e apaladada posta de carne que, logo mais, vem para a mesa.
Sendo dia da semana, poucos eram os turistas que acorressem ao repasto nocturno. A dona do restaurante, enfastiada com duas turistas estrangeiras que não queriam mais do que uma saladinha, correu a acender a lareira quando surgiu a oportunidade de nos mostrar as coisas boas da terra, à mistura com dois dedos de conversa.
Por fim, um queijo com marmelada, ambos caseiros, ainda conseguiram encontrar um espacinho onde se encaixarem.
Romagem digestiva e elucidatória de toda a família ao monumento em honra de António Maria  Mourinho, esse homem cujo labor elevou o mirandês a língua oficial do nosso País… e a viagem continuará dentro de momentos.    

fotografando o dia (146)

gosto
definitivamente
do efémero lilás
das jacarandás
os prédios
buscam o azul dos céus
e as nuvens
que não são seus
mas eu gosto
definitivamente
do lilás
que Junho traz
– fotografia e poema de Jorge Castro

porque junho chegou…

… e cidade se enche do lilás de jacarandá, em dádivas que as árvores insistem em nos entregar, às mãos cheias, alheias às inconsistências dos homens.

de súbito uma nuvem
uma aragem feita de aromas de rosas
e a acidez intempestiva dos espinhos

de súbito um vagar
uma tremura entre versos entre prosas
na intimidade feita só de desalinhos

de súbito uma fome
dos teus seios de medronhos
e receios de não haver mais caminhos

e trilhar uma a uma as partes todas
do teu corpo
onde moram os meus sonhos

– Jorge Castro

Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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