Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

por dar que pensar…

Mão amiga fez-me chegar a mensagem abaixo. Dá que pensar…

“Na última semana beatificámos um papa,
casámos um príncipe,
fizemos uma cruzada e matámos um mouro.
Bem-vindos à Idade Média!”

(autor desconhecido)

hoje vou acordar louco

hoje vou acordar louco
não de todo
só um pouco
para alterar a rotina
porei no carro uma vela
de navegar à bolina
pano usado
de flanela
um lençol já muito velho
de liso pano riscado
nas riscas escrevo um fado
escrito sobre o joelho
com bela caligrafia
que me console da azia
de tanta melancolia
que surge de todo o lado

tentarei que o dia corra
de feição diversa e brava
e a ver se a malta cava
deste atoleiro-masmorra
já quando alguém perguntar
se me pode analisar
o juízo ao microscópio
invocarei Rui Farinha
eminente cientista
que mudou o olhar que tinha
de fugaz a cornucópio
e num dia repentista
em vez de uma reles mezinha
inventou o avessoscópio
objecto extravagante
que ao mundo dá outro ar
e vira num breve instante
tudo de pernas p’rò ar

que eu estou farto deste olhar
sempre igual e regular
esboço a regra e esquadro
que é já tempo de outro tempo
de outra luz em contratempo
que assim nem mordo nem ladro

– à proa
à proa gajeiro
larga a vela e a caravela
descobre outra Barca Bela
de singrar pelo mundo inteiro
pois isto não vai lá com beijos
nem palpites
nem desejos
nem palmadinhas nas costas
há que chamar bois aos ditos
e se for preciso aos gritos
picadinhos ou às postas
já que a cena é velha e relha
e se com cornos deparas
se a pega não for de caras
que seja então de cernelha

se tudo muda
e se agita
se tudo corre
e se grita
no universo estrelado
porque haveremos só nós
de ficar pr’aqui sem voz
neste país mal parado?

– poema de Jorge Castro

há quanto tempo não vai a um picnic?

Eis uma boa oportunidade: nos jardins do Centro de Artes das Caldas da Rainha, no próximo dia 8 de Maio, a partir das 13 horas, organização Moscardo… Segue informação a propósito:

O Moscardo tem o prazer de o/a convidar para um piquenique no Jardim do Nunca algures no Centro de Artes no dia 8 de Maio de 2011 pelas 13h00

O Moscardo estava já há algum tempo a preparar um evento para os jardins do Centro de Artes quando de repente o jardim, deixa de o ser, para se tornar o estaleiro de obras do futuro Museu Leopoldo de Almeida.
Parece-nos, no entanto, que a realização do evento é mais pertinente que nunca e queremos que se transforme num momento de participação cívica (que nos parece urgente) para o acompanhamento e decisão do futuro não só do jardim como da «casa Amarela», propriedade municipal há anos destinada a ser um «arquivo morto» e que agora, por impossibilidade técnica, parece ter hipótese de ganhar uma nova vida.

«3 de Maio: o nosso futuro “encaixado” no intervalo de um jogo de futebol»

Recebi hoje esta mensagem, com a simples indicação de autoria de JB. Não sei de todo quem seja. Mas de tal modo, em três pinceladas, denuncia o cerne de muitas das questões que nos afligem, que me senti obrigado a partilhar convosco o seu conteúdo, com uma altíssima chapelada ao autor. Cá vai:
Terça-feira, 3 de Maio de 2011, Portugal:
A RTP1, empresa pública muito zeladora da sua missão de serviço público, transmitiu um jogo de futebol entre dois clubes estrangeiros no horário em que normalmente estaria a transmitir o Telejornal.
O Primeiro-Ministro esperou pelo intervalo de um jogo de futebol entre dois clubes estrangeiros para fazer um comunicado ao País sobre o acordo com o FMI – comunicado em que, afinal, não ouvimos um Primeiro-Ministro mas um candidato a Primeiro-Ministro em campanha eleitoral.
A RTP1 retomou o assunto depois de ter terminado a transmissão do jogo de futebol entre dois clubes estrangeiros.
Dá que pensar…
Dá que pensar sobre o admirável serviço público da “nossa” televisão, sobre o admirável sentido de Estado do nosso Primeiro-Ministro,sobre o Admirável Mundo Velho de um político e de uma televisão ajoelhada. Golpe de marketing, manipulação, controlo das mentes, areia para os olhos dos portugueses, os mesmos de quem o senhor candidato a PM espera os votos da reeleição.
Mas também dá que pensar sobre os nossos valores como Povo. Condicionar o horário de graves assuntos, directamente relacionados com a resolução dos nossos profundos problemas, ao horário de um jogo de futebol entre dois clubes estrangeiros? Triste (ou será, antes, Admirável?) País que precisa de Ronaldo e Mourinho (que até esteve ausente) como analgésicos para as suas dores…
Como escreveu George Shaw, “A democracia é um método que assegura que não seremos governados melhor do que merecemos.” Que tenhamos isso bem presente a 5 de Junho.
JB
NOTA ós-despois – Já me chegou a autoria: João Barbosa, muito curiosamente um animoso «companheiro de armas» no mundo das escrevinhações, o que mais me apraz registar.

rimas fáceis

pisamos este chão sem ter cuidado
como se não fosse bordado a gente e mar
como se fora já longínquo algum olhar
e o nosso corpo nele não espraiado

cruzamos um caminho mal tratado
com passadas onde passos sem parar
nos conduzem a destino sem lugar
e chegamos ao futuro em nenhum lado

e o tempo fica assim em nós perdido
e com ele nós perdidos de viver
ao vivermos uma vida sem sentido

mas ainda assim com medo de morrer
como se uma teimosia além do olvido
transcendesse ainda em nós razão de ser.

– soneto de Jorge Castro

o tapete persa

escrevo este poema desabridamente
sem lhe saber de contornos
ou até sequer dos cornos de agarrar o destino

escrevo-o assim
simplesmente
sem lhe querer humores de hino
que esse virá mais à frente

não!
ele hoje é só o menino do Torga
com seu cordel
que lanço aqui ao papel
e deita a língua de fora
à vida
e ao romper da aurora
quando nada há ainda urgente
e corre pelas ameias
do castelo das ideias – guardião do pensamento

nem corre
voa
em mil sinas
por montes
vales e campinas
tangido pela voz do vento

e lá vou com ele voando
através das neblinas
sem querer saber até quando
sem lhe ouvir sequer lamento
apenas pela alegria
que esta sim é viagem
pela infinita utopia
pelo longe da miragem
sobre o meu tapete persa

o resto?
ora adeus
são histórias
serão lérias
são mentiras
que me dás e que me tiras

tudo o mais é só conversa!

– poema de Jorge Castro

mais Abril!

Mais Abril, sim, de referências. Abril desse orgulho de se tomar em nossas mãos o destino, hasteando bandeiras de Liberdade – essa mesma, a que se escreve com maiúscula, no tempo e no modo!

– … Era a manhã imatura de neblinas de 25 de Abril de 1974. Nas mãos trementes, uma máquina fotográfica Voightlander, com filme de 36 fotografias, a preto e branco; mas no coração ganhava alento uma aventura de mil arco íris. Com 25 de Abril, sempre!     
quando Abril chega mais perto
cansa o viver de joelhos
neste tempo sempre incerto
de secar cravos vermelhos
no presente enclausurado
sem golpe de asa que o fira
vive um povo amortalhado
nos pântanos da mentira
na tristeza triste infinda
do país onde me perco
quantos se lembram ainda
da flor nascida no esterco?
a nossa raiz de esperança
que em tempos de solidão
na noite mais triste lança
a sua voz que diz NÃO!
não ao inglório viver
não ao pasmo não à fome
não a um futuro sem ser
não a um povo sem nome
triste foi Pedro soldado
sem barcos e já sem guerra
desfeito o nome bordado
mas dando o seu nome à terra
terra de uma flor ridente
das portas que Abril abriu
soldado poeta gente
flor de mãos que aí floriu
erguida por mãos libertas
noutro sonho noutro dia
tantas novas descobertas
de outra cor de outra harmonia
e lá vem sempre outro Abril
um combate outra vontade
outra cor no céu de anil
que anuncia a liberdade
por Abril por mim por ti
Abril maior mundo afora
e ser português aqui
por ser português agora!
– Fotografia e poema de Jorge Castro

fotografando o dia (164)

nota de viagem
não esquecer quem me diz
que há sempre dois arco-íris
no céu pardo da lonjura
e há-de voar quem o quis
por se afoitar – ser feliz
entre as cores de uma aventura
– fotografia e poema de Jorge Castro

no jardim do nunca

(Deixo uma história, em forma de poema, em versão adaptada por mim a novas realidades e a outros tempos…)

no Jardim do Nunca
todos os capitães fazem ganchos
todas as Sininhos tocam a rebate
todos os crocodilos soltam lágrimas pelas horas mal passadas
e pelos estômagos a dar horas

no Jardim do Nunca
Peter Pan é uma imitação de mineiro
que esgravata galerias pelas entranhas da Terra
buscando-lhe o centro
e pretende desesperadamente encontrá-lo
para nele se sentar a descansar para o resto da vida

no Jardim do Nunca
tudo é o que não parece
e sempre é uma palavra proibida
pelo medo liminar de que aconteça

no Jardim do Nunca
todas as crianças nascem cheias de idade
de rugas
e de preconceitos
e vestem-se de cinzento
nos dias mais enevoados
para se confundirem com as sombras esbatidas
dos acinzentados edifícios
onde há sempre Meninos Perdidos
porque as forças da ordem nunca os irão encontrar

no Jardim do Nunca
as únicas sombras são as imaginadas nas neblinas
criadas pelos incêndios das florestas
que pairam sobre os lagos obscuros de mistérios
onde se diluem impérios nebulosos e equívocos desejados

no Jardim do Nunca
umas poucas sereias e outros tantos piratas
pairam em algumas esquinas de má-fama
onde se fala de fado e de saudade
e vontades de seguir fabulosos Peter Pan
que consta que voam mas nunca ninguém o pôde confirmar
porque o único de que se tem conhecimento
vive soterrado esgravatando em busca do centro da Terra

no Jardim do Nunca
os índios vagueiam perdidos
cavalgando os seus cavalos de pau e caruncho
em busca da tribo a que já não pertencem
e dos territórios das grandes caçadas ancestrais que já não existem

no Jardim do Nunca
tudo está parado
e ninguém pode fazer nada sem ordens precisas do Peter Pan
que anda demasiadamente ocupado
em imitações de mineiro buscando o centro da Terra
para nele se sentar a descansar para o resto da vida

no Jardim do Nunca
aguarda-se sempre
a nova dimensão da esperança
e a carapaça do medo persiste
de casca toda estalada
à espera de um novo alento de vida que a destrua…

– poema de Jorge Castro

Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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