A oportunidade das coisas que fazemos é, quase sempre, muito própria e, geralmente, intransmissível. Este quase-poema foi escrito sob a influência do tema do filme, da autoria de John Williams, e das imagens sempre aterradoras de uma realidade que nos está próxima e, lamentavelmente, sempre muito presente: o menosprezo pela vida. Aqui vo-lo deixo:
LIBERDADE (SOBRE O TEMA A LISTA DE SCHINDLER)
quanto tempo há-de passar oh quanto tempo quanto rios hão-de secar até cessarem de se inundar com as lágrimas da miséria humana? porque percorremos os bosques do contentamento os céus puros e até as melancolias dos amantes enternecidos se mergulhamos depois as mãos no sangue dos nossos irmãos por uma fé iníqua ou pela mera angústia de viver pelo medo sem sentido de ser?
a liberdade flui em cada vida que brota no eterno retorno da mesma vida essa liberdade entranhada no ser que somos razão e matriz de vida e razão de ser uno e um no meio dos outros mas partilhado por tudo quanto de nós se faz com o fluir do tempo desse tempo por onde todos vamos perpassando na ininterrupta caminhada até chegar a hora de passarmos o nosso testemunho e legado ao mundo que nos acolheu e a quem de tudo somos devedores
pelo meio do troar hediondo da guerra e os gritos desgarrados do horror a morte do nosso semelhante às nossas mãos é a derradeira manifestação de aviltamento e cobardia é a negação maior da nossa própria existência da nossa razão de viver da nossa própria liberdade.
venha lá a sardinha as papas e os bolos de enganar os tolos a chuva miudinha uva sem grainha venha lá o medo venham os bretões nos seus aviões dar cor ao enredo em cor de lagosta como a gente gosta mas sem sinapismo venham lá depressa espantar o Eça criar mais turismo venha lá a Covid que ninguém duvide que está p’ra ficar assim como estamos entre desenganos a olhar para o mar venha a valentia de num qualquer dia ao mar nos fazermos mas com a alegria de um submarino que só anda a remos venha lá o vinho o amigo e o vizinho e do mal venha o menos venham caracóis com os futebóis tão bons de rimar tal como a cerveja e a tanta inveja que temos p’ra dar ah meu Portugal plastificado como o via O’Neill como o canta o fado não há outro igual … ou melhor dizendo não há outro Abril…?
Porque é Abril e, nele, o dia 25, aqui vos deixo uma imagem alegórica que o meu filho Alexandre criou a partir de fotografias minhas obtidas nesse dia, em 1974.
Imagem a imagem, é por Abril que vamos.
Foi pela força das armas, não o esqueçamos, que Abril de 1974 aconteceu.
Mas pela força das armas que, a começar pelo Movimento dos Capitães, culminando na incondicional adesão popular, soubemos todos temperá-la com a candura de um cravo.
E, assim, esse momento inspirador e único deu novos mundos ao mundo.
Do meu livro «Abril – Um Modo de Ser», o poema «Abril, sempre!»:
ABRIL, SEMPRE!
na dolência de nos quedarmos tão sós na cadência sincopada de agonias contra quanto de tão vil afoga a voz na premência da urgência de outros dias não te esqueças desse grito com que alarmas o presente e o futuro que querias pois o Abril das quimeras e utopias esse Abril rima bem com povo em armas.
Para quem traz Abril no peito, podem ouvir o meu poema aqui:
Do meu livro Abril – Um Modo de Ser, um excerto do poema Não era nada, quase nada, e era Abril:
(…) e houve um santo e uma senha na alvorada a erguerem-se numa só feitas à estrada as vontades de ser livre e ser inteiro a rasgarem entre o denso nevoeiro o alvor a alegria a liberdade e mostraram ao país outra verdade
Lisboa, 25 de Abril de 1974
Do meu livro Abril – Um Modo de Ser, excertos do poema Era um tempo feito de verde infinito:
era um tempo feito de verde-infinito era um tempo de água parda e neblinas era um tempo de silêncios sem notícias que ondulava sem carícias contra o cais
era um tempo sem flores ou voo de aves era um tempo inventado sem jamais era um tempo sem o azul das maresias e amarras que prendiam desiguais (…) mas no âmago mais fundo que nos resta nesse dia que que nasceu como os demais o verde e o azul do mar estão em festa e amarras nunca mais – oh nunca mais!…
Lisboa, 25 de Abril de 1974
Do meu livro Abril – Um Modo de Ser, excertos do poema A Cor de Abril: (…) uma vontade a crescer no peito que se deslassa crescendo em nós sem se ver mas vermos que nos abraça
pressentindo em modo vário que ao sermos um povo unido nos fica o medo vencido e nós um mar solidário.
NOTA – O livro, de minha autoria, Abril – Um Modo de Ser contou com o apoio da Associação 25 de Abril e da Espaço e Memória – Associação Cultural de Oeiras