by OrCa | Nov 4, 2022 | Poemas |
Apenas como exercício mental ou de divulgação da nossa Literatura, ocorreu-me desenvolver quadras que me fossem suscitadas por títulos de obras de escritores portugueses, sendo que cada título deve rematar cada quadra. Enfim, podia dar-me para bem pior… Assim, para as primeiras impressões, cá ficam:
quando a Lua predomina
num enredo junto ao mar
é a vida que se anima
pois FELIZMENTE HÁ LUAR
era o vento agreste o vento
um tormentoso sinal
nesse mar fero lamento
por MAU TEMPO NO CANAL
nas pessoas de Pessoa
tais e quais de ego a ego
é Soares quem nos entoa
o LIVRO DO DESASSOSSEGO
não será só um cetáceo
mas tenho cá para mim
sentir algo mais coriáceo
no enredo d’O DELFIM
valerá por mais razão
saber porquês saber comos
ao ler de Raul Brandão
a obra maior – o HÚMUS
saber de cus? – bom sinal
já que assim bem mais me ajudas
pois que eu procuro afinal
onde são OS CUS DE JUDAS
das voltas que a vida dá
em volta da vida à solta
volta e meia volto lá
a dar OS PASSOS EM VOLTA
leio muito sem canseira
e se o tino me não erra
era Carlos de Oliveira
o autor de FINISTERRA
na sua escrita indócil
não faz da escrita um jogo
nem é de leitura fácil
leiam-lhe OS SINAIS DE FOGO
há coisas estranhas também
neste mundo em maus lençóis
ser criada por um Mãe
A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS
da vida e do seu alforge
retratando as almas nuas
traz serena a Lídia Jorge
O VENTO ASSOBIANDO NAS GRUAS
se não sabeis sabereis
não que se diga ou se veja
mesmo ao contrário das leis
JESUS CRISTO BEBIA CERVEJA
- Ramalho Ortigão e Eça de Queirós
há um riso desabrido
e ouço um soar de harpas
quando leio embevecido
um episódio d’AS FARPAS
by OrCa | Ago 24, 2022 | Poemas |
SENHOR TURISTA
- apelo despudorado deste povo hospitaleiro
muito alegre e estouvado mas carente de dinheiro
entre
entre
senhor Turista
tome assento
faça vista
pois se o senhor não vier
vamos de mal a pior
nem haverá gente aqui
nem aqui nem acolá
com todos ao deus-dará
sem saber o que fazer
neste país de aluguer
onde o destino de tantos
é buscar pelo mundo afora
alguns cantos e recantos
onde ganhe a vida à hora
já que por cá só a perde
e encontrá-la… demora
se não vier com presteza
cá lhe deixo uma certeza:
o governo ruirá
tribunais – outros que tais
o parlamento um tormento
e presidente outro mais
todos quais baratas tontas
sem saber o que fazer
com as tantas soltas pontas
deste país a encolher
e se o senhor não vier
se faltar a sua ajuda
vai ser um deus-nos-acuda
ou pior
se-deus-quiser
venha lá
senhor Turista
traga o euro e a alpista
que a pardalada tem fome
pois ele há muito olival
fruta avulsa
amendoal
mas ninguém lhes sabe o nome
entre estufas escondidos
como outrora alguns bandidos
se escondiam no arvoredo
desses não há
pois
coitados
por tanto incêndio assolados
estão expostos demais
… ou então esturricados
como os outros animais
venha ao golfe
ao futebol
às praias com pôr do sol
e à noite cheia de estrelas
venha ver as caravelas
que fazemos no chinês
e se não lhe bastar isso
ainda terá na paisagem
o baloiço
o passadiço
a sardinha
o arraial
que dizem por sua vez
muito made in Portugal
venha ao magote
às carradas
à molhada em dasatino
que ele há cerveja às litradas
ou um Porto de honra fino
à espera de tal hoste
para que não se desgoste
e connosco se confunda
venha lá
mas não abuse
pois com tal peso não aposte
que este país não se afunda…
- Jorge Castro
23 de Agosto de 2022
by OrCa | Jun 10, 2022 | Efemérides, Poemas |
e daí onde te sentas
seja no lugar mais próximo do sol poente
ou na alvura tensa de uma alvorada
pressentes ainda a voz de Camões?
pressentes a aventura?
a tempestade?
o perder-se de amores e desamores
que o amor nos traz?
o ser-se maior que o mundo
naquele momento em geral fugaz
para tanto nos sobrando engenho e arte?
e não só ser-se pequeno
e incapaz
com o medo de ser grande em qualquer parte?
ouves
então e ainda esse Camões
que celebramos sem deter um pensamento
no saber porque foi grande
e das razões
que o amarram a Portugal
impenitente?
feliz sejas
então
e venturoso
e que percorras o caminho esperançoso
do teu passado a caminho do futuro.
- Jorge Castro
10 de Junho de 2022
by OrCa | Mar 1, 2022 | Poemas |
Todos temos o direito a defendermo-nos. Ninguém tem o direito de agredir.
CONTRA A GUERRA DE AGRESSÃO
não se me dá desta guerra
ou de outra guerra qualquer
nas mãos ficam-me pungentes
os cravos das incertezas
cravados a feros golpes
pelos donos da razão
falas-me de heróis semimortos
alinhados nas paredes
que se vão crivar de balas
dos corpos já trespassados?
falas-me de outras crianças
que brincam com estilhaços
manchados da cor estranha
do sangue das suas mães?
falas-me das mãos decepadas
dos artistas militantes
entre arroubos de Guernica
ou de rosas de Hiroshima?
de que nos valem razões
na sem-razão de uma guerra?
numa baioneta de ódio
que sangra um coração moço?
num míssil cobardemente
lançado à vida que passa?
nos tanques tão couraçados
contra a flor que desponta?
em comboios de degredo
numa terra de ninguém?
nesse sangue derramado
por todos e de ninguém?
que serve aos senhores da guerra
mas não serve a mais ninguém?
não se me dá desta guerra
ou de outra guerra qualquer
que serve aos senhores da guerra
mas não serve a mais ninguém!
- Jorge Castro
01 de Março de 2022
by OrCa | Fev 23, 2022 | Homenagem, Lançamento de livro, Poemas, Sugestão |
Sabem do que se trata? Pois bem, trata-se do mais recente trabalho de um infatigável lutador em prol da calçada portuguesa, o bom amigo Ernesto Matos – https://sites.google.com/site/ernestomatosimagens – (design gráfico e fotografia), desta feita, numa parceria com o escritor António Correia.
A participação, em forma de poema, foi aberta a vários autores e também me coube a honra de ser um dos convidados.
Aqui vos deixo uma parte dessa minha participação, em forma de:
QUADRAS SOLTAS NA CALÇADA
ao enquadrarmos a quadra
nos quadrados da calçada
as pedras são a palavra
os versos fazem-se estrada
lanço versos na calçada
como quem suspira amores
e a pedra esbranquiçada
vai-se enchendo de mil flores
pela mão que a pedra dome
pelo sonho feito anseio
dessa dura pedra informe
faz-se um mar nalgum passeio
as calçadas são abraços
vão da minha casa à tua
nelas desenhei os passos
que vão dar à minha rua
veja lá tenha cuidado
ao poisar seu pé no chão
pois que as pedras da calçada
foram bordadas à mão
vejo remos redes barcos
a bordejarem a praça
são na calçada seus marcos
lembrando o mar a quem passa
não sei porque tomam jeito
assim as pedras do chão
pareciam postas a eito
mas formam um coração
português por teus esteios
ao mundo deste grandeza
e nele lavraste os passeios
em calçada à portuguesa
lavrei-te a quadra num cravo
com Santo António pela mão
surgiu em ti um mar bravo
nesta calçada em mar-chão
lanço versos na calçada
como quem suspira amores
e a pedra esbranquiçada
vai-se enchendo de mil flores
by OrCa | Fev 23, 2022 | Homenagem, Poemas |
Uma homenagem:
A JOSÉ AFONSO – POR TER BARCOS POR TER REMOS
não havia qualquer som na neblina
que pairava densamente na cidade
quando amar era névoa clandestina
e balada só rimava com saudade
mas ergueu-se uma voz
doutras seguida
uma voz de cantar
a voz erguida
deste chão só de sombras e degredo
este chão e esta voz que desgarrada
soube ser
e crescer
e ser amada
essa voz que cresceu só contra o medo
essa voz que acordou a madrugada.
- Jorge Castro
(Poema integrado no projecto 25 Poemas para o Zeca, em 25 de Abril de 2012, com Ernesto Matos e a Câmara Municipal de Lisboa)