apelo despudorado deste povo hospitaleiro muito alegre e estouvado mas carente de dinheiro
entre entre senhor Turista tome assento faça vista pois se o senhor não vier vamos de mal a pior nem haverá gente aqui nem aqui nem acolá com todos ao deus-dará sem saber o que fazer neste país de aluguer onde o destino de tantos é buscar pelo mundo afora alguns cantos e recantos onde ganhe a vida à hora já que por cá só a perde e encontrá-la… demora
se não vier com presteza cá lhe deixo uma certeza: o governo ruirá tribunais – outros que tais o parlamento um tormento e presidente outro mais todos quais baratas tontas sem saber o que fazer com as tantas soltas pontas deste país a encolher e se o senhor não vier se faltar a sua ajuda vai ser um deus-nos-acuda ou pior se-deus-quiser
venha lá senhor Turista traga o euro e a alpista que a pardalada tem fome pois ele há muito olival fruta avulsa amendoal mas ninguém lhes sabe o nome entre estufas escondidos como outrora alguns bandidos se escondiam no arvoredo desses não há pois coitados por tanto incêndio assolados estão expostos demais … ou então esturricados como os outros animais
venha ao golfe ao futebol às praias com pôr do sol e à noite cheia de estrelas venha ver as caravelas que fazemos no chinês e se não lhe bastar isso ainda terá na paisagem o baloiço o passadiço a sardinha o arraial que dizem por sua vez muito made in Portugal
venha ao magote às carradas à molhada em dasatino que ele há cerveja às litradas ou um Porto de honra fino à espera de tal hoste para que não se desgoste e connosco se confunda
venha lá mas não abuse pois com tal peso não aposte que este país não se afunda…
e daí onde te sentas seja no lugar mais próximo do sol poente ou na alvura tensa de uma alvorada pressentes ainda a voz de Camões? pressentes a aventura? a tempestade? o perder-se de amores e desamores que o amor nos traz? o ser-se maior que o mundo naquele momento em geral fugaz para tanto nos sobrando engenho e arte? e não só ser-se pequeno e incapaz com o medo de ser grande em qualquer parte?
ouves então e ainda esse Camões que celebramos sem deter um pensamento no saber porque foi grande e das razões que o amarram a Portugal impenitente?
feliz sejas então e venturoso e que percorras o caminho esperançoso do teu passado a caminho do futuro.
Todos temos o direito a defendermo-nos. Ninguém tem o direito de agredir.
CONTRA A GUERRA DE AGRESSÃO
não se me dá desta guerra ou de outra guerra qualquer nas mãos ficam-me pungentes os cravos das incertezas cravados a feros golpes pelos donos da razão
falas-me de heróis semimortos alinhados nas paredes que se vão crivar de balas dos corpos já trespassados? falas-me de outras crianças que brincam com estilhaços manchados da cor estranha do sangue das suas mães? falas-me das mãos decepadas dos artistas militantes entre arroubos de Guernica ou de rosas de Hiroshima?
de que nos valem razões na sem-razão de uma guerra? numa baioneta de ódio que sangra um coração moço? num míssil cobardemente lançado à vida que passa? nos tanques tão couraçados contra a flor que desponta? em comboios de degredo numa terra de ninguém? nesse sangue derramado por todos e de ninguém? que serve aos senhores da guerra mas não serve a mais ninguém?
não se me dá desta guerra ou de outra guerra qualquer que serve aos senhores da guerra mas não serve a mais ninguém!
Sabem do que se trata? Pois bem, trata-se do mais recente trabalho de um infatigável lutador em prol da calçada portuguesa, o bom amigo Ernesto Matos – https://sites.google.com/site/ernestomatosimagens – (design gráfico e fotografia), desta feita, numa parceria com o escritor António Correia.
A participação, em forma de poema, foi aberta a vários autores e também me coube a honra de ser um dos convidados.
Aqui vos deixo uma parte dessa minha participação, em forma de:
QUADRAS SOLTAS NA CALÇADA
ao enquadrarmos a quadra nos quadrados da calçada as pedras são a palavra os versos fazem-se estrada
lanço versos na calçada como quem suspira amores e a pedra esbranquiçada vai-se enchendo de mil flores
pela mão que a pedra dome pelo sonho feito anseio dessa dura pedra informe faz-se um mar nalgum passeio
as calçadas são abraços vão da minha casa à tua nelas desenhei os passos que vão dar à minha rua
veja lá tenha cuidado ao poisar seu pé no chão pois que as pedras da calçada foram bordadas à mão
vejo remos redes barcos a bordejarem a praça são na calçada seus marcos lembrando o mar a quem passa
não sei porque tomam jeito assim as pedras do chão pareciam postas a eito mas formam um coração
português por teus esteios ao mundo deste grandeza e nele lavraste os passeios em calçada à portuguesa
lavrei-te a quadra num cravo com Santo António pela mão surgiu em ti um mar bravo nesta calçada em mar-chão
lanço versos na calçada como quem suspira amores e a pedra esbranquiçada vai-se enchendo de mil flores
não havia qualquer som na neblina que pairava densamente na cidade quando amar era névoa clandestina e balada só rimava com saudade
mas ergueu-se uma voz doutras seguida uma voz de cantar a voz erguida deste chão só de sombras e degredo este chão e esta voz que desgarrada soube ser e crescer e ser amada essa voz que cresceu só contra o medo essa voz que acordou a madrugada.
Jorge Castro (Poema integrado no projecto 25 Poemas para o Zeca, em 25 de Abril de 2012, com Ernesto Matos e a Câmara Municipal de Lisboa)
O amigo João Baptista Coelho, poeta, que nos deixou há alguns dias, era um eterno enamorado da sua companheira de vida e esposa. Cascais, na pessoa de uma querida amiga, pediu-me que eu emprestasse a minha voz a um poema daquele amigo poeta, «Poema para a Minha Mulher», a que correspondi com muito gosto, até como mais uma homenagem ao João Baptista Coelho. E, afinal, até consta que hoje se celebra o dia dos namorados…