Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

fotografando o dia (143)

era um gato preto e branco
na parede branca e azul
que tinha o banco por perto
e morava mais a sul
mas o gato que é esperto
saltou do sul para o banco
ficou mais certo do azul
ficou mais perto do branco
– foto e quadras de Jorge Castro
*

A tempo, amanhã, dia 11, pelas 16 horas, na Igreja Matriz de Oeiras, a não perder: 

WikiLeaks
– lembrei-me, de súbito, da canção «Universal Soldier» do Donovan…

Sem desculpa, nem perdão.
Talvez corra, no nosso património genético, esta sede de sangue relativamente ao nosso irmão. E com tanta virulência que o verniz do suposto avanço civilizacional não apenas não a erradica, como parece, até, requintá-la.
Vem isto a propósito das imagens que têm provocado algum alvoroço nas consciências ocidentais (acidentais…?), que nos chegam do sítio WikiLeaks e que documentam um ataque perpetrado por helicópteros americanos sobre alegados «terroristas» iraquianos.

No fundo, aparentemente apenas um «pequeno» equívoco de soldados – leia-se aqui gente anormalmente perturbada – do qual resultaram doze mortes entre vulgares cidadãos que transportavam, alguns deles, máquinas fotográficas – seriam repórteres da Reuters – as quais foram confundidas com metralhadoras AK-47…

Tudo lamentável, como, logo de seguida, as mortes de outros seres viventes que, numa carrinha, tentaram prestar auxílio aos feridos e que foram, por sua vez, sequencialmente abatidos.
E damos por nós a discutir o sexo dos anjos quanto à «naturalidade» de uma situação destas ocorrer, em cenário de guerra, e, tanto quanto se vai dizendo, poder ser admissível que 2 helicópteros fortemente armados abatam a sangue frio um grupo de PESSOAS que lhes surgiu na mira, numa terra chamada Iraque.
Poder-se-iam inventariar mil argumentos que «justifiquem» uma tal ocorrência.
Poder-se-ia, até, levar à conta do desiquilíbrio psicológico motivado pelo quadro de guerra em que se encontram envolvidos os soldados americanos (e os outros), aqueles comentários imbecis mas chocantes que ouvimos ao longo da filmagem.
Mas – vendo bem – nada, nada pode dar cobertura ao acto de matança a sangue frio que as imagens documentam. Seja qual for a razão que invoquem esses envolvidos e seja qual for o seu quadrante político.
Este despojamento com que se trata a vida humana – que sabemos bem tão precioso – assumido por um qualquer mandante num qualquer conflito mundial; esta bestialidade que nos envergonha a todos e nos retira, afinal, a legitimidade de permanecermos, sequer, à face da Terra, trouxe-me à memória a velha canção do Donovan de que falo, em título…
Não por uma crise serôdia de pacifismo exacerbado, mas pela consciência profunda desta vergonha irracional que nos inunda ao assumirmos a nossa quota-parte de carne para canhão, em troca de miseráveis argumentos defendidos por miseráveis tratantes.

Calçada Portuguesa de Macau

No próximo dia 6 de Abril, pelas 18 horas, o meu amigo Ernesto Matos – grande conhecedor da calçada portuguesa espalhada pelo mundo – irá fazer uma apresentação do seu mais recente trabalho, Calçada Portuguesa de Macau, na Casa de Macau, na Avenida 5 de Outubro, em Lisboa.

Habituado como estou à qualidade da sua obra, não tenho dúvidas em assegurar-vos de que não dareis o tempo por mal empregue.

28 de Março – exposição de pintura
na Sociedade Recreativa Musical de Carcavelos

Carlos Peres Feio é uma personalidade-ilha de outro tipo; está rodeado de amigos por todos os lados.

Ao descobrir que muitos deles andavam por aí a entreter o tempo, preenchendo telas atrás de telas, assim como quem convida amigos para um econtro de afectos, ele lançou-lhes o desafio de lhe trazerem umas quantas delas (das telas, bem entendido…), e foi assim que 20 artistas se encontraram na Sociedade Recreativa Musical de Carcavelos, no passado dia 28 de Março.

Aqui ficam alguma imagens, para memória futura, daquilo que foi (e ainda está a ser) uma excelente alternativa – a todos os níveis – ao cinzentismo dos dias formatados pelo não-ser. Aqui todos se inscreveram (ver José Gil), de alma e sorriso abertos.

Se quiserem, um cordão humano, de gente que sabe ou procura intensamente um sentido para a Vida.
Para além dos particpantes, não faltaram as amizades que compõem esse bouquet de que a Vida é feita.

A Professora Odete Morgado, personagem incontornável da História recente de Carcavelos, também enquanto Presidente da colectividade, deu-nos as boas-vindas.
Um grupo de promissoras jovens formadas na Escola de Música da Sociedade Recreativa Musical de Carcavelos, ensaiadas pelo Maestro Nogueira, abriu oficialmente a exposição.

O professor José d’Encarnação interpretou o sentido profundo da iniciativa numa emotiva alocução.

Depois, os poemas que a pintura inspira…

… rematados pelo nosso anfitrião e mentor da iniciativa.

Os artistas expostos:
Alberto Almeida (escultura)
Amílcar Silva
Ana Cassiano
Ana Freitas
A. Loureiro
Bárbara Costa
Carlos Figueira
Carlos Peres Feio
Didi Silva
Edith Lopes
Francisco Rousseau
Helena Monteiro
Joaquina Martins
Jorge Castro
Lourdes Calmeiro
Maria da Fé
Rosa Maria
Virgínia
Vítor Miranda
Vítor Paz
(Ao Vítor Paz, os melhores votos de pronto restabelecimento).

Quino – uma perspectiva crítica sempre actual

Mão amiga fez-me chegar os cartoons abaixo, que partilho convosco. Sempre apreciei Quino por aquilo que eu chamaria a sua crítica social corrosiva soft.
Tive, até, o grato prazer de ter sido apelidado de Mafaldinha quando a minha postura gerava incomodidade junto de posturas acomodadas… Enfim, não virá isso ao caso. Mas quantos pais queixosos dos descaminhos da sua gentil prole não se reverão nos cartoons que se seguem?
Já sabemos que a responsabilidade, bem como o exemplo, vêm de cima. Mas… e o que fazemos nós, os de cá de baixo?

exposição colectiva de pintura
dos amigos de Carlos Peres Feio

Iniciativa com um colar de afectos em redor, na Sociedade Recreativa Musical de Carcavelos, hoje, pelas 17 horas, 20 amigos 20 do Carlos Peres Feio afoitam-se numa exposição colectiva, onde haverá, também, comes e bebes e música e poemas. Lá estarei!
E aqui fica um desvario, a propósito:
eu pinto
e pinto
e pintando
eu lanço na tela o que há de melhor em mim

e a tela
sempre ela
estrebucha
barafusta
e não quer que eu pinte assim

ah
no calor da refrega
em que eu brado
e ela estrafega
e o quadro não é pintado
no desespero de vê-la
tão assim fora de si
como eu estou fora de mim
vou-me a ela desvairado
e não pinto mais assim

… mas pinto assado!

novo artigo na Free Zone

FREE ZONE INFORMAÇÃO ALTERNATIVA – Opinião
Escrito por Jorge Castro – Sexta, 26 Março 2010 01:05
Ó entrevistadores da minha terra
… agora é que eu não percebi! Porque cargas de água e de trabalhos é que, sempre que uma greve qualquer tem lugar, desatais invariável e monotonamente a entrevistar os supostos «lesados» com a greve, questionando-os sobre a dimensão dos seus encargos e transtornos?…

FREE ZONE – http://www.freezone.pt/

quotidiano delirante (6)

– Assim, em forma de versalhada, riso pífio pela lógica que faz desperdiçar uma geração à rasca em trabalhos de vencimentos rascas, que os excelsos governantes – que nós elegemos, sim! – promovem, acarinham e acalentam…

sempre espantou o saber de alguns fecundos senhores
uns que se chamam doutores outros o que Deus quiser
mas que são maiores que o Mundo
outros que a Vida maiores e cultivam tais valores
são donos de tais saberes
que eu de pasmo me inundo
que eu de pasmo arregalo o meu olhar vagabundo
por esse saber maior
por esse saber profundo
que me leva em doce embalo até à Ursa Menor

assim sim vestido de urso já darei de mim melhor
por trazer vestido um curso com fitas de muita cor
curso fino com ciência
e dos pais a paciência p’ra fazer filho doutor

mas o destino aziago ou quiçá a conjuntura
recusou-me doce afago de perseguir tal ventura
e estou p’ràqui desolado de saber feito e candura
a dar troco a quanto pago numa infeliz urdidura
se faz num supermercado.

A Senhora de Ofiúsa
– resumo de uma apresentação animada

Quem é o primordial agente do processo histórico: a individualidade ou a comunidade?

Este foi o centro das alocuções que a apresentação do livro de Gabriela Morais, A Senhora de Ofiúsa, suscitou.
Antiga disputa entre estudiosos e homens da ciência, mas também por assunção de postura filosófica e política, aos participantes nesta apresentação coube optar claramente pela comunidade como elemento criador desse processo, contra a orientação estreita e errónea, na opinião destes mesmos participantes, que aponta para a individualidade – mais ou menos inspirada e/ou salvadora – como eixo sobre o qual vai girando toda a Humanidade.
E muito longe nos leva esta urgente mudança radical de paradigma, pelo engrandecimento e notoriedade que essa nova abordagem confere o cidadão comum, integrado na sua comunidade – ou na sua circunstância, como motor e fautor da História do Homem ou do seu processo histórico.
A tanto nos conduz, também, A Senhora de Ofiúsa, percorrendo cerca de 30.000 anos da nossa História, estabelecendo um nexo lógico através daquilo que já se denomina por merecido reconhecimento, na comunidade científica internacional, o Paradigma da Continuidade Paleolítica, abordagem inovadora e desafiante sobre os caminhos da História da Europa… que, como é infeliz hábito, parece que apenas em Portugal não colhe eco.

Valham-nos as (pouquíssimas, ainda que ingentes) Gabrielas Morais e Fernandas Frazões que empunham este estandarte, contra ventos de acomodações e marés de ignorância.

A Comunidade de Leitores das Caldas da Rainha – com realce para Palmira Gaspar e Carlos Gaspar -, bem como a Biblioteca Municipal, na pessoa da Dra. Aida Reis, acolheram, em boa hora e com alargada visão de futuro, no passado dia 20 de Março, a apresentação e divulgação desta obra polémica, ainda que encantatória, e que tive, com o Pedro Laranjeira, a maior honra em secundar.

Destaque ainda para as participações do jovem acordeonista João Bernardino, do Conservatório das Caldas da Rainha, e dos Jograis do Canto Sénior, cujas participações, pela música e pela poesia, trouxeram mais riqueza, ainda, a uma sessão bem animada.

Gabriela Morais
Jorge Castro

Fernanda Frazão

Pedro Laranjeira


João Bernardino

Jograis do Canto Sénior


– Fotografias de Lídia Castro

as Noites e a Ti Miséria

Um evento miseravelmente rico foi o que tivemos na mais recente sessão das Noites com Poemas…

… com a sala bem preenchida, sem lugares sentados disponíveis… … e com o conforto de mutas amizades pesentes… Da alocução e apresentação iniciais, a cargo de quem tem a função de dinamizar…

… passou-se a palavra para Carlos Augusto Ribeiro, ilustrador do projecto e que nos contou como decorreu a sua génese… De seguida, Joaninha Duarte mostrou, bem ao vivo e a cores, como sói dizer-se, como se conta um conto, acrescentando-lhe um ponto e coreografias várias…

Ignacio Vilariño, o «parteiro» do projecto, não deixando créditos por mãos alheias na arte de fazer reviver um conto…

A audiênca participativa, colaborante, interessada e bem humorada.

… não lhe faltando motivos para que tal fosse estimulado…

Depois, as vozes que já são da casa, mas que trazem sempre outro maior conforto…

… e alegria, de cada vez que marcam presença.

E se o enlevo é o esperado, para quem vem de novo, a surpresa é sempre grande.

Depois, também como matriz destes encontros, o apelo às participações de quantos se afoitam a trazer-nos as palavras que enchem a alma e podem dar outro sentido à vida…

… o que, obviamente, a todos gratifica.

Contámos com participações várias…

… de gente nova, que ali está por vontade própria, no ensaio, ousado ou tímido, de novas artes da vida…

… o que não pode deixar de ser sublinhado e nos proporciona, a par de responsabilidades acrescidas, um gozo enorme…

… pela consciência de estarmos a contribuir para as tais pontes com que o futuro se constrói…

… no tempo presente, também pelos caminhos da poesia – com recursos tecnológicos que nem são avessos à modernidade, pois cada um deve escolher os seus caminhos.

E chega ao ponto de um professor assumir o mérito de também acolher lições dos seus alunos, numa partilha que é criativa e inspiradora.

No círculo do eterno retorno, assistentes e convidados vão-se revezando na partilha de palavras e experiências, «segredo» desvendado da afluência a estes nossos encontros…

… onde a diversidade campeia e se assume não como factor de divergência…

… mas de mútuo enriquecimento.

Sem idade, pois que cada um traz de si o que a vida, mais ou menos extensa, mais ou menos intensa a sua vivência, o impele a partilhar, integrando e integrando-se na comunidade…

… e sedimentando outras lógicas relacionais que nos andam arredias, mas que é cada vez mais urgente restabelecer.

E, assim, a resultante necessária, o corolário evidente: talvez não a felicidade, mas a oportunidade imperdível de se criar um momento feliz.

A Ti Miséria, com quadras minhas e ilustrações do Carlos Augusto Ribeiro, o livro-folheto, desdobrável, comunhão de vontades e de saberes, exemplo palpável do que ficou dito e que o IELT – Instituto e Estudos de Literatura Tradicional apadrinhou, desapareceu num ápice…

– Fotografias de Lídia Castro e Lourdes Cameiro.

Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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