Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

quotidiano delirante (7)… olh’ó mamarracho

Tive ontem o ensejo de acompanhar uma interessantíssima visita guiada à Oeiras histórica, promovida pela Associação Espaço e Memória, e interessantíssima porque contou com os saberes de dois excelentes guias, o professor Jorge Miranda e o professor José Meco, historiadores ambos e envolvidíssimos no estudo aprofundado de todo o património (edificado ou documental) de Oeiras. 

No entanto, em pequeno-grande apontamento que não posso deixar de referir, no momento em que ouvíamos a apresentação do que seria o passeio guiado por parte dos nossos dois professores, em frente da actual Câmara Municipal de Oeiras, dei por mim a ser agredido por mais um aborto de betão (perfeitamente destacado na imagem acima), que fere gravosa e irremediavelmente toda a paisagem urbana daquele centro histórico.
Aliás, como veio a ser observado no decorrer do passeio que fizémos, a monstruosidade é vsível de toda a envolvente do núcleo urbano que, apesar de várias perturbações e outras barbaridades edificadas, mantém, ainda assim, uma certa coerência eventualmente aproveitável para se lhe atribuir uma unidade de sentido – com funcionalidades a discutir, porventura, pela comunidade oeirense.
Agora, o mamarracho pujantíssimo que atordoa os ares e os seres com aquela manifestação de pato-bravismo de que todos somos vítimas – e vamos estando anestesiados, por habituação -, esse é que lá vai crescendo. De pedra e cal, como sói dizer-se, manifesto da estupidez temperada a golpes de ganância do homem actual, sem princípios nem cultura, que até ao Marquês de Pombal havia de repugnar, ainda para mais pelas loas ao «progresso» que as alimárias responsáveis não se cansam de invocar…    
A falta gritante de elementar senso comum nestas matérias não deixa de me surpreender! E Isaltino Morais, obviamente, não pode sair incólume pela autorização de tal barbarismo. E tudo para quê? Para que meia-dúzia de nababos possa vender a outra meia-dúzia de nababos como eles mais uma excelente vista para o mar?
Esta «técnica» de dar uma no cravo e outra na ferradura, muito a par da ladaínha do venha a nós o vosso reino, produz aberrações destas. E, assim, lá vamos deixando um futuro de vergonha às gerações vindouras. 
Mas, afinal, não se pode mesmo demoli-lo?

fotografando o dia (154)

confidências
reticências
que correm de ela para ela
e no gosto do café
imagina-se o que é
que se passa na janela
– fotografia e poema de Jorge Castro

era uma vez eu menino…

Homenageando um avô  António a quem o neto inspira excelente poesia, dei por mim a fazer eco das suas sugestivas imagens e a lançar-me em devaneios e, montando o cavalinho de pau, partir a dar-lhe  a esse amigo o abraço que este meio proporciona…
a idade dos moinhos que se queremos são gigantes

onde todos os combates que temos valem a pena
e o dia não se esgota na noite escura e pequena
por ânsias do novo dia que sabemos já lá vem
onde cavalgamos nuvens sem receio de cair
porque as nuvens dão as asas a quem as quiser ouvir
e onde a vida sempre sobra
e vai sempre mais além
e as frutas são lambuzos com que pintamos o vento
e as árvores castelos
e as campinas são de ouro
e o mar esse tesouro onde se perde o sonhar

a idade dos caminhos sem destino e sempre em frente
a descobrir algum ninho onde a vida é mais urgente
e correr nalgum trigal de espigas sempre-vivas
como à noite o madrigal de esperadas despedidas
renovadas
repetidas
boas sempre de esperar
montar cavalo de pau
e ter sempre alguma nau a jeitos de navegar

era uma vez eu menino
e tinha em mim a matriz de não crer nalgum destino
sem ser aquele que eu fizesse

ah voltar a ter moinhos
e destinos
e caminhos
todos quantos eu quisesse…

– poema de Jorge Castro, com um forte abraço ao Manel… António.

Nova crónica (balnear) na FreeZone e outros abraços…

Sobre as aventuras e desventuras de um banhista nas salsas e excelsas ondas algarvias e do destempero comportamental de alguns confrades fica relato na minha nova crónica publicada na FreeZone e que podem ler, na íntegra, AQUI.
*
Ainda e sempre a tempo: no passado dia 30 de Julho, por amável convite da direcção da Biblioteca Municipal de Cascais, na pessoa da Dra. Paula Saraiva, o grupo das Noites com Poemas – que já assim se pode denominar… – fez uma acção de rua em homenagem a Matilde Rosa Araújo, aproveitando a Feira do Livro de Cascais, desta vez em frente da sua emblemática baía, ao cair da tarde.  
Francisco José Lampreia e Estefânia Estevens
Jorge Castro
David José Silva
Maria Francília Pinheiro
João Baptista Coelho
Paula Saraiva (Biblioteca Municipal de Cascais)
Registámos a ausência, pelos piores motivos, de Carlos Peres Feio, pelo falecimento do seu irmão, António Feio, ausência cuja justificação nos deu ensejo, entretanto, de tornar publicamente extensiva a homenagem que iria ter lugar também a este actor e, como diz o seu irmão (e eu subscrevo), um homem bom.   

fotografando o dia (153)

por convulsões terreais
bordam-se gritos na pedra 
sem destino
ou algo mais
e a vida toda que encerra
cada grito
que aí medra
esculpe sons espectrais
– Fotografia e poema de Jorge Castro

Castelejo, 2010 

fotografando o dia (152)

no meu sacro promontório
vejo o mar por um canudo
o bote a vaga fustiga
ao homem o mar castiga
por ter querido um empório
e por abrir mão de tudo
deu tantos mundos ao mundo
tantos jeitos de viver
tantos trejeitos no fundo
que são a arte de ser
e anda um barco perdido
sem leme
vela
ou sentido
sem saber que apetecer
e um canhão verte a ferrugem
dos que não tugem nem mugem
e vivem só por viver
– Fotografia e poema de Jorge Castro

Promontório de Sagres – 2010

fotografando o dia (151)

sopro a sopro
o vento molda
o que o mar moldara
e a rocha dura
se lhe durasse o tempo
decerto voara
– fotografia e poema de Jorge Castro
Burgau – 2010

a António Feio

«Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros. Apreciem cada momento. Agradeçam
e não deixem nada por dizer,
nada por fazer.»
António Feio, na apresentação do filme Contraluz, de Fernando Fragata.

Um sorriso, sempre. Desassombrado, talvez. Sarcástico quanto baste, que as circunstâncias do País assim o justificam e dele carecem. Esperançoso, que ela, a esperança, é imorredoira e transmissível. Haja sempre, então, alguém que a empunhe.
Um exemplo de coragem? Prefiro ver nele um hino à Vida, daquela respirada em grandes haustos, de peito aberto às alvoradas.
Em sublinhado meu de uma vida inteira plena de realizações, quero destacar a magnífica parceria com o seu amigo José Pedro Gomes. Têmo-los muito junto a nós, redundantemente mais fortes do que a fraqueza, mas incomensuravelmente mais sublimes porque o seu voo é rasante ao chão da Vida, misturando-se e confundindo-se com ela, redescobrindo, em cada segundo, a dimensão do riso e da alegria de viver… Por aquilo que nos deram, não haverá modo airoso de lhes pagar o quanto fizeram por nós.
Tínhamos, também, com o António Feio, projecto pendente. Há uma sessão de Poesia da Treta,  que não pudemos realizar, ainda que já assente… A melhor homenagem que lhe poderemos, então, fazer será concretizá-la.
E nela o António Feio estará, obviamente, uma vez mais e sempre presente.
Em 10 de Julho de 2010, uma das suas incontáveis manifestações em favor da Vida sugeriu-me este poema, que lhe entrego:
que venha um Sol
muito ao rés da madrugada
que traga o vigor à flor
e um brilho ao gume do nada
que somos nós
tudo sendo
estrela
vento
e estrada…

  Até sempre, Toni!

fotografando o dia (150)

estamos todos juntinhos
pendurados no estendal
as cores várias são caminhos
de se estar nem bem nem mal
a parede é velha e gasta
antiga como a janela
à frente um prédio lhe basta
para o céu não dar com ela
e bastava um gesto breve
um olhar de outra atenção
mexer-lhe muito ao de leve
dar-lhe outra inclinação…
– fotografia e quadras de Jorge Castro

fotografando o dia (149)

gosto de ver trabalhar
– olha, aquele
para ali a dar a dar…!
se nos vir ele há-de ter
vontade
de se sentar
 a ver também trabalhar…
– fotografia e poema de Jorge Castro

Fotografia obtida na exposição «POVO», no Museu da Electricidade – EDP 
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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