Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

um aceno ao homem do Saldanha

– Preenchia o nosso dia com um sorriso e uma saudação nas ruas de Lisboa. Creio que se chamava João. Alto, braço no ar, com o seu sobretudo e o seu cachecol, nem na intempérie dava tréguas à sua missão. Na berma de um passeio qualquer da cidade, amiúde deparava eu com ele, com o seu sorriso e o seu adeus, inusitada ocorrência urbana mas simpática, que nos recordava ser a cidade um agrupamento de seres humanos, coisa de que andamos tão arredios… Conforme notícia dos jornais, parece que faleceu ontem. Mas muitos continuarão à espera de deparar com ele nalgum dos seus poisos habituais, sorrindo a quem passa…

Veja o João Manuel Serra AQUI.

quando os dias vão passando a acenar
a quem passa junto dele
só por passar
no presente que se escoa na cidade
lança ao ar como que um ar da sua graça
que não custa
nada mais por ser de graça
no sorriso que nos lança sem idade

junto à berma do passeio a mão no ar
ele entrega sem receio e sem pensar
o melhor que de si tem para nos dar

e o trânsito atrapalha-se ao aceno
daquele sinaleiro velho e seu ar terno
que sorri para nós por ali estar

pelo ar em voo solta a sua mão
aliado a um sorriso que é eterno
a afastar de si um mar de solidão

hoje foi notícia breve a tua morte
num jornal onde caiu o meu olhar
e a cidade parou
perdeu o norte
e ficou mais outonal
crepuscular

mas em cada esquina viva de Lisboa
onde o dia se atrofia e é mais pequeno
naquele bando de pardais que a sobrevoa
ali está – caro João – o teu aceno.

– poema de Jorge Castro

em cada passo…

(… antecipando já a próxima sessão das Noites Com Poemas, com Rui Ferreira e os poetas portugueses na voz de Amália, talvez alguém faça um fado disto…)

quando canto
eu trago nas palavras o destino
e pelas minhas mãos construo o hino
de levar comigo o dia em cada passo

e esse canto
é que me traz da escuridão a um mar de estrelas
e que me enche o olhar por entendê-las
e me faz sentir maior em cada passo

e se eu canto
é por ter em mim a alma portuguesa
por trazer na minha voz essa certeza
deste povo a erguer-se em cada passo

e eu canto
contra o fado – se calhar contra o quebranto
contra algum desviver e o desencanto
mas eu canto p’ra viver em cada passo.

– poema de Jorge Castro

A minha adesão à greve no dia 24 de Novembro

Conforme publicado na FREEZONE

Porque considero que todos os republicanos e democratas, laicos ou não, devem aderir à greve do dia 24 de Novembro:
Porque esta é uma greve política. E – não devendo recear a força e dimensão das palavras – é política porque é dirigida contra o paradigma governamental que está estabelecido em Portugal, onde cada governo instalado no poder não serve o País, nem a Nação, nem o Povo que supostamente representa na sua acção como mediador dos interesses públicos e privados, mas sim como parte interessada em favor dos interesses privados, em absoluto desprezo do interesse público.

Não se trata, pois, de uma pequena greve contra uma entidade patronal, determinada e circunscrita – bem pelo contrário, se formos ver muita entidade patronal haverá que está solidária com as reivindicações e palavras de ordem dos grevistas – mas sim uma acção de perspectiva bem mais alargada, muito mais abrangente, bem mais objectiva, cujos imperativos não têm sequer circunscrição temporal, antes se projectando no futuro.

Leia o meu artigo completo AQUI.

E, se tiver paciência, ou interesse, ou disponibilidade ou, de preferência, tudo isso conjugado, pode ainda ler mais sobre o assunto AQUI.

Josezito pós-orçamental

Josezito já te tinha dito
Que não é bonito
O povo enganar
Chora agora Josezito chora
Que é chegada a hora
De te pores a andar
Andam por aí diversas versões desta cantiguinha tradicional infantil. Aqui fica a minha versão, cantável em manifestações de rua… e não só, como se dizia muito em sessões de esclarecimento aqui há uns anitos… 

fotografando o dia (161)

lotarias são enfim
uns em busca dos seus dias
outros mais assim-assim
e se a uns vem algum dia
que traz sol em demasia
outros há cujo outrossim
vai do banco do jardim
ao chão de calçada fria
e não passam desse assim
destino
fatalidade
e as ruas da cidade
fazem da pobreza um hino
e da riqueza vontade
mas sabemos todos bem
que nem tudo é bem assim…

- Fotografia e poema de Jorge Castro
 
– fotografia obtida em Lisboa, na Avenida da República

fotografando o dia (160)

se ao Outono segue o Inverno
havendo este cair eterno
de cada folha  no chão
algumas há que ao voar
sem pressa haver em chegar
ao destino dizem não
não perderão p’la demora
mas ‘inda assim – ‘inda agora
hora a hora longe vão
e de quanto houver a ver
hão-de ver e acontecer
o mundo de outra feição.
– fotografia e poema de Jorge Castro

(Fotografia obtida no Jardim das Caldas da Rainha)

o verbo ser
de Paula Raposo

LIBERDADE
A liberdade não é assim.
Não existem grades
O pensamento flui
As palavras não têm amarras
Nem o futuro
Se confina
Entre paredes.
A liberdade não é isto.
A liberdade é ser uma onda
Uma voz e um canto
Um verso
E um reverso
A liberdade é
Ser EU!
*
Paula Raposo publicou através da Apenas Livros, um seu novo livro de poemas – o verbo ser -, do qual seleccionei a Liberdade, para partilhar convosco.
Tive a honra de ser convidado para prefaciador e tendo aceite sou, à partida, suspeito. Mas como nestas coisas dos poemas, a cada um o seu entendimento, resta-me recomendar-vos a sua leitura por ser meu entendimento que este livro é muito merecedor de leitura e por estar em crer que esse meu agrado poderá ser expandido a muitos de vós.
Para os interessados, aqui ficam os contactos:
Paula Raposomapaularaposo@gmail.com
Apenas Livrosgeral@apenas-livros.com

fotografando o dia (159)

varado num chão de lodo
anseio por ser gaivota
cruzando os ventos na rota
de saber do mundo todo
preso ao chão por meu arrais
ancorado na esperança
das marés espero a dança
de me varar noutros cais
se vogo em mares de procela
painho corvo fragata
são o voar que desata
os sonhos na minha vela
erguida ao céu sua fronte
que tensa impele a que ame
no gemido do cordame
lonjuras do horizonte
repouso na vaza fria
tenho a meu lado tais asas
a poisar em marés vazas
no sustento do seu dia

vão nas marés minhas mágoas
na minha inveja de vê-las
sem as ter sem percebê-las
balanço ao sabor das águas
– fotografia e poema de Jorge Castro

estou farto destes gajos mais dos seus orçamentos da treta!
E a República que nunca mais chega…!

Afirmar-se, hoje e aqui, que Sócrates e o seu elenco, sequenciando uma caterva de governos do bloco central de interesses, têm destruído a esperança de Portugal enquanto nação independente e viável, parece uma evidência que poucos, hoje e aqui, terão coragem de sequer contraditar, perante a evidência avassaladora dos factos.
E desenvolve-se esta estratégia de destruição através de duas componentes, também elas gritantes mas aparentemente incontroláveis, segundo os seus preclaros defensores e teóricos. A saber:
– por um lado, uma submissão cega aos interesses da alta finança internacional, a que se convencionou rotular de «mercados»;
– e, por outro e ao nível interno, a concentração do poder, sem pudor nem barreiras de qualquer espécie, nas mãos de uma minoria não qualificada, de que é parte substantiva o «escol» de que cada primeiro-ministro se faz rodear, pagando por bom preço – com os dinheiros de nós todos, entenda-se! – o apoio de tais apaniguados colhidos na família da respectiva máquina partidária, quando não no seio da própria família de sangue. Chamam-lhe clientela política mas também é chamada «os boys».
Para além de aparentes dissensões de somenos importância, há dois principais clãs que têm (des)governado o País e que, ultrapassando minudências, sempre acabam por se entender, à mesa do orçamento, relativamente às questões de fundo – e a isto vão-lhe chamando a «alternância democrática», no que toca à partilha do poder de Estado. (…)

– Este é meu novo artigo de opinião publicado pela FreeZone. Pode ler o artigo completo AQUI
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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