Sendo este um espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.
dia mundial da poesia é quando a gente quiser
dia 26, na Biblioteca Municipal
das Caldas da Rainha…
…com organização da Comunidade de Leitores e, também, homenagem a Rosa Lobato de Faria, a partir das 15 horas, se estiver por perto, apareça. Só lhe poderemos assegurar uma coisa: a poesia não está em crise.
Para esta sessão, com açúcar e com afecto, cá deixo o meu contributo:
COISAS DO ARCO DA VELHA
cortesia a demasia
um piropo ma non troppo
uma inveja perceveja
um arroto misantropo
cada dia uma agonia
pode ser que não se veja
um lagarto mais que farto
um escorpião sem chão
uma cobra bico-de-obra
um cão-de-guarda ladrão
o trabalho que é de parto
mas que foi falsa manobra
o destino um desatino
o fado um triste fadário
o lente só por lentilhas
haja um só solidário
e o clã clandestino
se virmos bem pôs-se a milhas
o discurso diz que é de urso
o imposto que é reposto
e da taxa o que é que acha?
e do vinho que é só mosto?
e do curso sem recurso?
quando é que isto vai ou racha?
e os dias passam iguais
passa a vida com desgosto
p’los dias que vão passando
sem curar do fogo posto
são as normas anormais
até quando…? até quando…?
elas vêm de Bruxelas
vem aí o FMI
da Alemanha vem só manha
como hei-de sair daqui?
como curar as mazelas
desta maleita tamanha?
e o povo com denodo
remoendo o triste fado
vai andando… vai andando…
sem chegar a nenhum lado
atolado neste lodo
até quando…? até quando…?
neste vira a que me entrego
viras tu e viro eu
sempre no baile mandado…
para chegarmos ao céu
viremos o bico ao prego
virando o vira bailado
felizmente, há Primavera…
Que não seja por mais nada… mas vejam como as flores se expandem nas árvores de fruto!
No dia 19 de Março, no Centro Cultural de Cascais, em antecipação ao Dia Mundial da Poesia, teve lugar um Concerto Poético, sob organização dos Jograis do Atlântico (Edite Gil e Francisco Félix Machado)
Notável participação do grupo de jograis Oeiras Verde, com o seu Divertimento Sério…
… e tão sério ele foi que teve direito a duas diversas composições do grupo, com adaptação aos temas tratados.
Já um pouco menos «verde», coube-me, também, um momento a solo.
Dia 21 de Março, no Museu República e Resistência (Palácio Grandela, Lisboa), celebração do Dia Mundial da Poesia, com organização de Isabel Lousada e David Zink…
… percorremos os poemas repubicanos, desde a monarquia até aos dias de hoje, com especial incidência nos poemas ditos de intervenção ou de combate.
– Antónia Pereira –
– Júlia Lello –
– Estefânia Estevens e Francisco José Lampreia –
… e num inusitado momento, saiu da sua clausura de cerca de trinta anos, uma guitarra e as mãos que a tocavam, para celebrar a Pedra Filosofal, de António Gedeão e Manuel Freire, acompanhando o canto colectivo…
Felizmente, há Primavera!
CONVITE – dia mundial da poesia
POESIA DE COMBATE REPUBLICANO: Da Monarquia ao século XXI
conferência-tertúlia
Dia 21 de Março (2.ª feira), pelas 19h,
na Biblioteca-Museu República e Resistência
– Espaço Grandella (frente ao Jardim do Beau-Séjour, na Estrada de Benfica, 419 – em Lisboa )
Coordenação de David Zink e Isabel Lousada
Leitura de poemas:
Antónia Pereira, Estefânia Estevens, Francisco José Lampreia, Jorge Castro e Júlia Lello
Antónia Pereira, Estefânia Estevens, Francisco José Lampreia, Jorge Castro e Júlia Lello
Participação especial: Rita Soares (“Geração à rasca”)
quando a rotina se transforma em viagem…
com Eduardo Salavisa e João Seixas
nas noites com poemas
Com Eduardo Salavisa e os seus cadernos de viagens, com João Seixas dando corpo às imagens com as palavras – aqui de pleno direito – de circunstância, com os poemas trazidos às mãos cheias por todos nós… apenas me restava dizer que a sessão decorreu magnificamente.
Mas Miguel Brito, também presente, dicidiu dissertar sobre o que o evento lhe suscitou, com o texto-relato, sentido e vivido, que me fez chegar e que vos deixo:
Resumo da sessão – Breves apontamentos
de Miguel Brito
Um caderno é uma boa companhia. Grande ou pequeno, tem a vantagem de fornecer companhia, sobretudo quando se viaja sozinho, o que aumenta a disponibilidade da pessoa, disponível para ver o que se nos oferece, e o dia a dia pode ser uma viagem, que começa no quotidiano.
Cada desenho é o registo de uma memória, faz lembrar um tema, e espaço, e tempo de vida. Desenhar é permitir rever a vida, um registo biográfico de acontecimentos. São recordações intensas, porque quando desenhamos são desenhos no exterior, momentos fugazes que exigem atenção de todos os sentidos, e plasmam o tempo acontecido.
Cadernos que servem para tudo e para nada, às vezes podendo passar a livro. Desenhar em viagem é como viver o lugar, fazer parte da comunidade, participar visualmente nos acontecimentos pelo desenho. Transformar o quotidiano em viagem é pôr a vida numa perspectiva diferente, ganhando uma visão abrangente.
O maior problema do desenho é exigir tempo, e por isso é mais complexo de gerir em viagem de grupo, por eventual divergências de interesses. Um caderno é um laboratório portátil, tem privacidade e é transportável. Permite experimentar técnicas simples. Desenho rapidamente a caneta e pinto em casa. Os desenhos do dia a dia não se fazem, vão-se fazendo.
Escrever também é desenhar, é desenhar as letras e as ideias com palavras. Cada desenho é um deslumbramento de ideias. Temos que olhar para o quotidiano e ver os lugares em nós.
Pensar a cidade como um ser vivo. Precisamos de nos deslumbrar com a envolvente, descobrir na rotina o momento de liberdade. Precisamos de viajar, no sentido de liberdade em meros momentos do quotidiano, em que precisamos de descobrir a nobreza e excepcionalidade no quotidiano e nos simples e pequenos lugares que povoam a nossa vivência diária.
Património visual é e deve ser tudo, o suporte de comunicação entre tudo, em que a cidade activa todas as componentes culturais. Desenhar tudo é essencial para a nossa recomposição do mundo, para determinar a rede de suporte da nossa integridade mental, reinventar e contar a história dos dias, intensificando o viver e o sentir.
Desenhar tudo é essencial para perceber o que vemos e o que vivemos. Estamos num mundo visual fragmentado, e é importante descobrir o caminho da singularidade pessoal, vivência de interpretação de cada um. Conhecer e interrogar a cidade é pensar-se sobre si próprio. Lisboa hoje não é uma cidade, é uma região, uma vasta área de influência, lógica centrífuga e de eterno movimento, desdobramento e reflexos. Desenhar é viver a esperança em relação aos nossos quotidianos. O ser humano é urbano, é tecer conexos entre todos, formar sociedade.
Desenhar é mostrar vivências, de quotidianos assimilados. Ao desenhar aprende-se a ver, e a aprender a ver, aprende-se a estar desperto e estimulado pela curiosidade ao que nos rodeia. Poder passear pela proximidade, com um novo olhar, permite a liberdade de reinventar e ganhar riqueza no valor do quotidiano, valorar os dias, ganhar sentido de vida.
Desenhar é contribuir para dar olhares sobre os lugares, os acontecimentos, os instantes, e em suma, a vida.
Reinventar uma leitura, perceber como o olhar forma uma imagem, e como as imagens marcam a vida e a caracterizam. Desenha ré iluminar a cidade com uma nova luz, com uma cor de vida que nos define o olhar. A prender a desenhar é aprender a viver de outro modo, é aprender novas perspectivas e aprender novas visões.
“Lisboa é uma cidade em tom de fado” (João Baptista Coelho)
Pode representar-se o real? Apenas suposições, apenas visões. Apenas tudo, apenas nada, apenas vida.
Como podem observar, enquanto decorreu a sessão, Eduardo Salavisa foi registando os seus apontamentos gráficos, enquanto João Seixas ia, também, preenchendo uma folha de papel de intensos apontamentos. Espero poder contar com uns e outros para os divulgar cá pelo Sete Mares, um destes dias.
No final, os nossos convidados recebem o certificado emitido pela Vereação da Cultura de Cascais – de que sou mero portador – assinado pela senhora vereadora Dra. Ana Clara Justino, com o agradecimento e o justo destaque por mais uma belíssima sessão de que foram primeiros protagonistas.
– fotografias de Lourdes Calmeiro –
CONCERTO POÉTICO
Centro Cultural de Cascais
19 de Março – 21h30m
Organização e apresentação
JOGRAIS DO ATLÂNTICO
(Edite Gil e Francisco Félix Machado)
O Dia Mundial da Poesia que se celebra em Março, foi criado na XXX Conferência Geral da UNESCO em Novembro de 1999. O objectivo é promover a leitura, a escrita, a publicação e o ensino da poesia através do mundo.
A propósito do Dia Mundial da Poesia os Jograis do Atlântico organizam e apresentam autores portugueses.
Participam o grupo Oeiras Verde, Ana Paula Afonso, Jorge Castro e os Jograis da Academia (Academia de Cultura e Cooperação de Lisboa).
Entrada livre
Contamos consigo
noites com poemas
quando a rotina se transforma em viagem
– cartaz de Alexandre Castro –
Respigo de Lisboa, Livro de Bordo, de José Cardoso Pires: «É que isto aqui não é só luz e rio, sabes bem. Não é só geografia, revelações ou memórias e o restante diz-que-diz».
Este é, também, o mote escolhido no Diário de Viagem em Lisboa – Sete Colinas, Sete Desenhadores (edição da Quimera), para dar entrada a um livro que nos leva a olhar para Lisboa através dos sete olhares dos seus sete autores, que deambulam pelas suas sete colinas, a mostrarem-nos outras tantas Lisboas.
João Seixas, o geógrafo autor do ensaio que nos introduz esta obra, e Eduardo Salavisa, um dos seus desenhadores, estarão connosco, no próximo dia 18 de Março, pelas 21h30, como sempre na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, dispostos a partilhar com todos os seus saberes, afectos e olhares sobre Lisboa e outras andanças.
Lá estaremos. Lá vos esperaremos. Como já sabem, haverá sempre espaço para um poema e inventar-se-á sempre mais um lugar para um amigo.
gerações à rasca?
desenrasquemo-nos!
desenvencilhemo-nos!
organizemo-nos!
Portugal está do melhor
Claro que, no próximo dia 12 irei estar na rua, em Lisboa…
Portugal está do melhor
e o pior sempre a chegar
chega ministro da treta
de lambreta se calhar
mas sairá de mercedes
que é peixe fino e as redes
deixam-no sempre passar
logo atrás lá vem o crude
bem pior se é refinado
de benção cartelizado
que não há quem isto mude
já que ao governo dá jeito
com impostos a preceito
trazer o Zé esganado
e Portugal está precário
sem peso conta ou medida
não há emprego prà vida
só há emprego ordinário
fica a vida mal empregue
sem pão haver que a sossegue
de fadinho só fadário
primeiro ministro há um
que veio de lá das berças
já cheira melhor às terças
que às segundas… era um bedum…!
com jeitos de sucateiro
fez-se ao domingo engenheiro
e assim pôs fim ao jejum
outro mais que a gente vota
meteu-se um dia à viagem
só p’ra fazer a rodagem
do seu carrinho janota
mas enfim pegou de estaca
e se é avesso à sucata
aos bancos dá melhor nota
e nós cá vamos cantando
e rindo como uns perdidos
por impostos exauridos
de coxos vamos andando
num país em marcha lenta
co’a juventude sedenta
para a estranja zarpando
sobe tudo como seta
sobe o pão e sobe a sopa
e nós nem prego nem estopa
nesta conversa da treta
baixando o nível do ensino
e a saúde é destino
que escorre numa valeta
de tanto nos agacharmos
ficamos num palco estranho
de vivermos sem amanho
e por de gatas andarmos
um destes dias ainda
veremos a coisa linda
de nem irmos nem ficarmos
mas irmão concidadão
abre os olhos criatura
grita esperneia e apura
que há ventos de outra feição
que o Sol nos dá luz a rodos
e quando nasce é de todos
e a terra a todos dá pão
se calhar está na tua mão
no caminho que escolheres
mas faças o que fizeres
cuida bem da tua razão
que a razão pode ser tua
e quando ela sai à rua
os cravos nascem do chão.
«a luta é uma alegria»
O autor deste blog aqui declara solenemente que está de corpo e alma com os Homens da Luta nesta sua aventura pela Eurovisão.
Contra os fariseus da «opinião pública», arvorados em mentores do pensamento de um povo, dos defensores mais ou menos assumidos do politicamente correcto, e muito a favor da paródia de ir à casa da senhora Merckel gritar, ao som de bombos, que «A Luta É Uma Alegria», estou com o Jel, o Falâncio e os amigos.
Pasmo de ler opiniões de melindrados e de malandrins de vários quadrantes invocando que, assim, se dá uma má imagem da «grande qualidade da música portuguesa». A hipocrisia aliada à estupidez, assanhada pela demagogia, atinge, na verdade, píncaros inexcedíveis! É, então, aquele o fórum preferencial para a música ligeira de qualidade? Muito me espanta…
E, pior, faz-me lembrar comentários que ouvi quando o Fernando Tordo levou a Tourada, do Ary dos Santos, ao mesmíssimo festival da Eurovisão. Sem fazer comparações espúrias, faço, no entanto, aquelas que me parecem óbvias.
E, hoje, a Tourada é um ícone. E não tanto pela qualidade literária do poema ou do brilhantismo da melodia, mas muito mais pela ousadia de, ali e então, se ter tido a coragem de chamar os bois pelos nomes, com a agilidade bastante para tourear a Censura, mesmo num espectaculozinho para a burguesia acomodada como é essa coisa do Festival da Eurovisão – comercialão então, como agora.
Mais: face à piroseira generalizada das musiquinhas que, com ligeiríssimas excepções, ontem por ali passaram, só há mesmo uma atitude a tomar: viva os Homens da Luta!
(Sim, sim, arvorado em burguês acomodado, eu assisti, este ano, ao festival na versão doméstica… Portanto, sempre falo do que ouvi.)
Estaremos, também e agora, a criar a «geração na merda»?
Na Escola Secundária (pública) de Linda-a-Velha, às portas de Lisboa – escola com mais de mil alunos, portanto não estando ainda para fechar nos próximos dois ou três meses, consoante as práticas ministeriais socretinas -, por ausência absoluta de pessoal dito auxiliar ou de apoio ou de qualquer outra coisa, compete aos professores e aos alunos (!!!…???) a limpeza das casas de banho, vulgo sanitários, bem como das salas de aula.
Ver entrevista a alunos e notícia em: http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/escola-linda-a-velha-professores-limpezas/1236922-4201.html.
Fica, assim, dado um importante passo no sentido, que se adivinha desidério superior desta maralha mandante, de transformar o ensino público, em Portugal, numa actividade de merda – e, aqui, perdoem-me, mas se não utilizo o vernáculo, ainda me dá uma coisinha má…!
Nova crónica no PersuAcção. Ver texto completo AQUI.


