Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

noites com muitos poemas

Olhando para o quarteto, pode parecer que se conspirava, afinando alguns pormenores para o decurso da primeira parte da 77ª sessão das Noites com Poemas, sob o lema dos Poetas da Apenas, editora que, por sua vez, ali comemorava o seu 15º aniversário.
Tudo sobejas razões, se mais não houvera, para uma boa coordenação de uma noite memorável.  
Nos improvisados escaparates, entretanto, viam já pela primeira vez a luz do dia diversas publicações editadas pela Apenas Livros e com apresentação destinada a esta nossa sessão.

Primeiro destaque para o livro de poemas de Maria Ramil, Vamos Andando, Poesia!, cuja autora, Maria Ramil, muito lamentavelmente e por razões de saúde, não pode estar presente, fazendo no entanto questão de que o evento decorresse com toda a normalidade e alegria, o que nos empenhámos por cumprir.
Mas muitas mais publicações lançadas pela Apenas havia disponíveis, algumas delas o retrato fiel da imensa inquietação, desassossego e traquinice que campeiam no espírito da nossa querida Fernanda Frazão.  

A sala, como sempre, bem composta, ainda que diversas ausências anunciassem o tempo de férias que, apesar dos pesares, alguns ainda vão conseguindo fruir.

– Coube a Fernanda Frazão a iniciativa das palavras de abertura, após os meus cumprimentos da praxe.

De seguida Mário Piçarra falou-nos da autora, sua tia, com carinho e objectividade e documentou o seu discurso com a leitura de vários poemas do livro agora lançado.

Depois, coube a Orlando Luís, biólogo como a autora, agora professor universitário mas seu antigo aluno estagiário, declarar o seu espanto…  

… e alegria por descobrir uma faceta que não lhe fora revelada nas suas vidas pela Biologia mas que, afinal, acaba por lhe fazer todo o sentido enquanto transcendência do material escrito, mas de espartilhos vários e heremitismos, que os textos de investigação científica possam conter. 

Por fim, eu, coligindo um belo naco de poemas do livro em lançamento, onde tentei sublinhar uma faceta de fina ironia e desassombrada esperança que creio ressaltar desta obra. 

Mário Piçarra, apoiado por Heloisa Monteiro em percussão e sonoridades, trouxe-nos três temas cantados: um da autoria de José Afonso, interpretado com mestria e com a voz remoçada, um hino que emocionou a sala, e dois outros que integram um seu projecto para a criação de um cd, que tanto nos tarda… Tive, entretanto, o prazer acrescido de ver um poema meu, em homenagem a Léo Ferré, belamente musicado por este meu amigo e companheiro de tantas aventuras.  

A autora ausente, ainda assim trouxe a amabilidade de oferecer um outro dos seus livros, com edição de 2002 e prefaciado por Urbano Tavares Rodrigues, para quantos adquirissem um exemplar da obra em lançamento.

Numa breve pausa para um contacto mais directo com os livros, o momento foi propício também ao fomento dos encontros… 

E partimos para a continuação da viagem. Agora, Fernanda Frazão fala do nosso companheiro de poemas e outros afectos, o poeta asturiano José Luis Campal, que… 

… para além de vir munido de um interessante e útil trabalho que intitulou Nomenclátor Cronológico de Poetas Portugueses del Siglo XX e que teve o seu lançamento também nesta sessão… 

… passou ao elogio elegante, emocionado, comovedor mas, sobretudo, poético da sua malograda e tão querida companheira, Aurora Sánchez, também autora na Apenas Livros e que também nos brindou com a sua presença em anterior sessão comemorativa dos Poetas da Apenas.  

E chegou o momento da apresentação da autora Ana Maria Haddad Baptista, vinda do Brasil para o lançamento em Portugal do seu livro Cavalos sem Memória

… que nos trouxe essa sensação sempre alegremente renovada de que, afinal, não há assim tanto mar a separar-nos.

Ideia reforçada e revitalizada pelo… 

… responsável por um projecto editorial no Brasil, consubstanciado na editora de que é responsável, a Arte-Livros, assim a modos que uma irmã muito próxima da nossa Apenas Livros.
Respigo, do seu sítio (http://www.artelivroseditora.com.br/) o seguinte: 
A EDITORA
Anos atrás, tomando um café, em Lisboa, com a
historiadora portuguesa Fernanda Frazão, editora da Apenas livros, surgiu a
ideia de fazermos, no Brasil, algo semelhante ao que vinha, e vem sendo feito,
há mais de uma década, com sucesso, em Portugal: produzir livros aliados a um
projeto editorial simples, cujo custo final se apresentasse convidativo ao
consumidor, aliado a uma indiscutível qualidade acadêmica. De imediato
recebemos apoio, por parte da Fernanda, e começamos a materializar o projeto.
Assim, em 2008, surgiu a Arte-Livros Editora.
O PROJETO
O projeto resume-se na produção de livros, no formato
livreto, de maneira quase artesanal, com acabamento em cordão de fibra natural,
no dorso.
A PARCERIA
No ano seguinte, após termos identificado a possibilidade
de divulgarmos autores brasileiros em Portugal, assim como autores portugueses
no Brasil, surgiu a parceria entre as editoras. Do lado português, a Apenas
livros
. Do lado brasileiro, a Arte-Livros Editora. Essa
parceria vem favorecendo a divulgação de autores e saberes produzidos nos dois
lados do Atlântico. Hoje, autores das duas editoras já se beneficiam dessa
parceria.
Por fim, deu-se início ao tempo sempre destinado às intervenções dos companheiros destas aventuras, que sempre nos presenteiam com as respectivas presenças e empenhadas participações.

Carlos Gaspar, da Comunidade de Leitores das Caldas da Rainha

Rosário Freitas, que acompanha Ana Freitas num projecto idêntico ao das Noites com Poemas, em Coruche e que se tem revelado de grande interesse e participação

João Baptista Coelho o nosso premiadíssimo e incansável poeta

Carlos Pedro, sempre irreverente, contundente e resistente!

Eduardo Martins, revelando-se um amigo sempre presente e muito atento.

Emília Azevedo, também com obra feita

… e, depois, autógrafos…

… e, depois, convívio…

… e, por muito ambiciosa que tivesse sido esta noite, ela cumpriu-se e o certo é que a coisa, para alguns, não terminou por ali. E o tempo cresceu-nos!  
– Fotografias de Lídia Castro e de Lourdes Calmeiro

convite
próxima sessão das noites com poemas
– os poetas da Apenas

– Cartaz de Alexandre Castro –

Como vem sendo hábito, a nossa sessão de Julho das Noites com Poemas é dedicada aos Poetas da Apenas, manancial fecundo que conta já com umas muito largas dezenas de autores onde o cultivo da diversidade está muito para além da mera expressão de circunstância.
Desta vez, temos um programa ambicioso na sua extensão, mas que iremos cumprir com o melhor espírito:
1. Em primeiro lugar, teremos o lançamento do livro Vamos Andando, Poesia!, de Maria Ramil – mais conhecida no seu círculo de amigos como Maria José Figueiredo – lançamento este que contará com a presença, para além da autora e da editora, ainda com Mário Piçarra, Orlando Luís e eu próprio, discorrendo sobre Maria Ramil ou sobre os seus poemas. No final desta apresentação, Mário Piçarra trará três temas cantados, que integram um seu projecto musical, que vai caminhando a bom ritmo e do qual, pelo que já me foi dado ouvir, é de conclusão urgente.   
2. José Luis Campal, poeta asturiano, contará, de seguida, com a nossa companhia em sentida homenagem  à sua querida e malograda Aurora, musa e companheira, também ela autora na Apenas Livros. De José Luis Campal são estas palavras: El 14 de junio, a las cinco y cuarto de la tarde, falleció entre mis brazos, en el Hospital General de Asturias, mi adorada e insustituible esposa, Aurora Sánchez Fernández (1964-2012), un ángel de dulzura y convicciones profundas que alegró hasta el paroxismo mis días y me hizo mucho mejor persona de lo que jamás fui ni posiblemente seré. 
3. Apresentação da editora brasileira Arte-Livros, com o lançamento da obra Cavalos sem Memória, da autoria de Ana Maria Haddad Baptista.  
Por fim, tentaremos inventar ainda as réstias de tempo necessárias e suficientes para a participação de quantos sempre pontuam este nosso espaço com a sua criação poética, dando o seu passo em frente em forma de poema.
A sessão terá lugar no próximo dia 20 de Julho, com início pelas 21h30, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana. Mas, para quem queira ou possa estar mais cedo, informo de que contaremos com o agradável bar da Biblioteca aberto, local onde os interessados poderão conviver e ir tendo contacto com as obras a apresentar. Por mim, lá estarei a partir das 20 horas.
Contando sempre convosco, cá fica um forte abraço!

Jorge Castro

homenagem

As homenagens feitas aos sobrevivos
são sempre trabalhosas,
delicadas, mais elaboradas e cheias de atropelos,
do que se o sujeito for passado mais do que perfeito,
e tudo por andarmos todos nós pelos cabelos.

Quem homenageia quem
sem saber o dia que lá vem?

E se todos escolhermos o mesmo poema?
E se cuidarmos, até, que não há tema
ou quem dirá sequer que vale a pena
homenagem-por-dá-cá-alguma-aragem…

E o outro somos nós naquele espelho
para onde olhamos e dizemos:
«- Caramba, este gajo está mesmo a ficar velho…»
e, logo mais, sorrimos e dizemos
que uma ruga após outra vale a pena
e que, se assim não for, o teorema
nos diria que um mais um
não dá em nada.

Ficará depois de nós a gargalhada
– quem sabe? -,
o gume de uma espada,
algum precalço,
o salto,
o abraço
ou mesmo um beco,
e nós todos a olharmos para o boneco,
na metáfora de uma vida em auto-estrada
onde somos pouco mais do que um poema.

Só por tal,
cá por mim,
a homenagem
vem de quando um homem e outro interagem,
sendo que esse homem pode ser também uma mulher
– o que em nós há-de sempre acontecer…

– Jorge Castro

pequena reflexão peripatética

Com tanto imposto na canga, com tanto desemprego à ilharga, com tanta aldrabice no lombo e sempre tão pachorrentos, estaremos a viver algum ciclo de bois e/ou burros de carga?

momentos em movimento
com Isabel Anselmo e Margarida Costa

– Como ficou claro na «apresentação em forma de poema» a que me propus para esta exposição conjunta de Isabel Anselmo e de Margarida Costa, na Livraria-Galeria Municipal Verney, em Oeiras, se é certo que a obra sempre transcende o seu autor e passa, de algum modo, a fazer parte do outro, o espectador, mais ou menos atento, que a encorpora e assim lhe transmite nova dimensão, não é menos certo que todos somos aquilo que fazemos. 
E, assim sendo, a obra existe materializada por um sedimento ou lastro de referências que cada um assume, de modo mais ou menos consciente, e que sói chamar-se a «experiência da vida».

Assim me apraz, pois, olhar para a obra artística, numa relação directa entre ela (a obra) e eu, mas a que não consigo iludir o peso específico que o autor lhe confere.

Isabel Anselmo (Pintura)

À Isabel Anselmo 
olho e pinto a criação 
que em meu redor me incentiva 
fico no centro do mundo 
abarcando a perspectiva 
e em meu redor a flor 
o mar azul sem ter fundo 
alguma réstia de dor 
insistem para que eu viva 
e de tão intenso o grito 
transmutado em minha tela 
a cor sai de mim vermelha 
azul verde e amarela 
espalhada pelas mãos 
em tons que brotam do peito 
qual pretexto colorido 
de algum protesto a meu jeito. 

– Jorge Castro

                                          

Margarida Costa (Cerâmica)

À Margarida Costa 
a mão que enforma o barro 
sábia do sarro da vida 
de quanto se maravilha 
traça um traço 
fino 
fino 
tão fino como uma linha 
molda a cara 
o peito 
as mãos 
um olhar que quase brilha 
e grita ao barro enformado 
«- levanta-te e caminha!» 

– Jorge Castro


Os três pisos da Verney estiveram, desde o  primeiro minuto, bem preenchidos de uma assistência interessada e opinativa.

– O grupo que teve a cargo a apresentação da exposição, anunciado pelo Professor Manuel Machado

 – A senhora vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Oeiras, Elisabete Oliveira, iniciou a apresentação do evento.

Por mim, coube-me tentar moldar o barro e enchê-lo das cores que as palavras nos possam trazer, ensaiando uma possível abordagem às autoras em forma de poema, onde tintas e argilas se foram misturando, dando alento e justificativo à subjectividade do apresentador… 

A exposição mantém-se até 28 de Julho. Para quem esteja por perto, sugiro a sua visita. Não darão o tempo por mal empregue.

Fotografias de Lourdes Calmeiro

Isabel Anselmo e Margarida Costa, através da sua exposição a duas mãos Momentos em Movimento, no próximo dia 06 de Julho (sexta-feira), pelas 18h30, na Livraria Galeria Municipal Verney, em Oeiras, mostram e partilham as suas artes (respectivamente em Pintura e Cerâmica) a quantos de vós se afoitem a dar, assim, início a um ensolarado fim de semana.
Por mim, lá estando, cumprir-me-á levar as palavras de passeio às outras artes. Mas prometo que serei breve, ligeiro e simples. Ali as palavras serão apenas o foco de luz que aponte à obra feita, que tanto me apraz conhecer e apurar. Assim como, por exemplo:

o mundo todo é uma tela ou uma mesa de oleiro

na exposição de Margarida Costa (cerâmica) e Isabel Anselmo (pintura)
na Livraria-Galeria Verney – Oeiras

o mundo todo é uma tela ou uma mesa de oleiro
onde fabricamos sonhos ou enformamos a cor
com os olhos
com as mãos
com o coração ligeiro
com a argila que somos ou por um grito de dor
mas por sermos como somos
e assim ser o mundo inteiro

numa carícia subtil
num gesto rasgando a vida
na mágoa mais crua e vil
na lágrima mal contida
assim o barro se molda
assim de cor é tingida
a paleta onde se tolda
a vida que foi vivida

e o gesto nasce como quem leva o barco contra a corrente
em busca de uma aventura que vá contra a lei do tempo
na maciez do veludo
a obra de arte
a utopia
a peça
o quadro
a harmonia de sermos feitos de tudo

e a mão que molda o barro e que por ele é moldada
é a mão que cobre a tela com as cores por que é pintada

olhos
coração e mãos quanto da vida se estime
e buscarmo-nos irmãos na palavra que redime

– poema de Jorge Castro
Julho de 2012

Abraços e até lá.

quotidiano delirante (14)- ai se ele cai…

Passeando por Monchique, depara-se-nos esta placa, junto a uma passadeira para peões… Ora, aí fica uma interpretação possível: 
sítio de Monchique onde se deve passar rasteiras a deficientes… 
Como, ainda para mais, a rua não tem passeio, podemos imaginar que se trata de mais um modo inovador e oficial de abater despesas supérfluas. Tudo, claro sob o olhar tutelar da Igreja, da História e, presuma-se, com observatório para os interessados assistirem ao espectáculo.  

na Comuna, com o Oeiras Verde

Sábado à tarde, ainda que num período do dia pouco auspicioso para grandes devaneios poéticos em particular, ou mesmo artísticos em geral, rumámos ainda assim à Comuna… e se o calor, por fim, se tornou avassalador na rua, não faltou o calor humano que se procurava, no interior.
– a nossa «fotógrafa de serviço», Lourdes Calmeiro, e a maestrina do Oeiras Verde, Ana Patacho

– o grupo, em plena actuação passando por grandes nomes da poesia lusófona.
Oeiras Verde foram, nesta sessão e da esquerda para a direita: Filomena Vale, Luzia Pinto da Costa, Jorge Castro, Ana Patacho, Magnólia Filipe e Lurdes Pereira

 …e, aos poucos, os amigos lá foram aparecendo. E a verdade é que esta nossa pequena voz até terá chegado ao Instituto Camões, na Escócia. As tais malhas que a poesia também tece…

– O meu momento a solo, ensaiando os grandes temas, contribuindo para que se possa manter a chama de ser a poesia uma arma carregada de futuro

João Sobral, com a sua claríssima voz, aventurando-se a meio da tarde no fado, com letras dos grandes poetas

Isabel Hayden, cantando música popular portuguesa acompanhada por Pedro Faro e Luís Faro.
E, assim, aconteceu!

convite
poemas na Comuna (em Lisboa), com Oeiras Verde

Já amanhã, dia 23 (sábado), pelas 17h30, ali na Comuna – Teatro de Pesquisa (Praça de Espanha – Lisboa) irei, com o Oeiras Verde, aos poemas. Braçados deles, ditos a vozes várias, colorações diversas em busca do que importa mais na vida.

Será uma verdadeira equipa e jogaremos, seguramente, sem árbitros que empecilhem a jornada.

Como sempre, a vossa presença é imprescindível. E têm sempre lugar reservado.

Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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