Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

Sugestão para fim de férias (para quem as tenha tido e para os demais…) com poemas

Com Ana Patacho e de algum modo como início da nova «temporada», aqui deixo uma sugestão, com chá, amizade e poemas, pelo menos para aqueles de entre vós que se encontrem nas proximidades de Oeiras ou de Carcavelos.

Quinta-feira, dia 29 de Agosto, no Bule, pelas 22h00 iremos fazer Viajar as Palavras. Aceitam a boleia?

Passaremos por José Afonso, Vasco Graça Moura, Luís de Camões, Carlos Drummond de Andrade, António Lobo Antunes, Mário Henrique Leiria, Ary dos Santos, António Gedeão… uma viagem com etapas bem apelativas, como se pode ver.

Ana Rita Pereira – tinha 24 anos e uma vida por viver

Tinha 24 anos e morreu.
Deixou a vida quase toda por viver e, afinal, morreu… também para que eu viva.
Pertencia aos Bombeiros Voluntários de Alcabideche.
Chamava-se Rita Pereira. Tinha 24 anos e a vida quase toda por viver.
Agora já não temos que lhe fazer ao nome. Talvez uma lápide que nos apazigue as consciências.

Tinha 24 anos e morreu a combater um país incendiado. Claro que não foi um acidente!
Ela morreu em Tondela porque quis ir para lá combater um incêndio que alguém ateou. Foi, então, uma morte voluntária em nossa defesa.

Cara Ana Rita, aqui te deixo a minha gratidão sem tamanho por teres dado a tua vida para salvares as nossas. Uma gratidão tão grande como grande é a dimensão da vergonha por deixarmos arder Portugal e assassinar os seus filhos melhores sem emenda, sem punição… sem vergonha!

Sem um estremecimento da consciência nacional que imponha aos mandantes o cumprimento de zelarem pelo país condignamente sob pena de serem, eles também, responsabilizados por cada morte como a tua.

24 anos e uma vida quase toda por viver! Que pena, Ana Rita. E que vergonha!

quando Urbano Tavares Rodrigues morreu…

… Manuel Alegre enviou para o DN o poema que dedicou ao escritor e seu amigo.

Na Morte de Urbano Tavares
Rodrigues

No dia 9 de Agosto de 2013

houve uma vaga de calor. De certo modo

ele morreu dentro de um seu romance-

Não foi notícia de abertura. Os telejornais

mostraram mulheres gordas em Carcavelos

e um sujeito pequenino (parece que ministro)

a falar de “cultura política nova.”

Mais tarde este dia será lembrado

como a data em que morreu

Urbano Tavares Rodrigues.

Manuel Alegre

Lisboa, 9/8/2013

O Amolecimento pela Sociedade de Consumo  

Nos países subdesenvolvidos, a arte (literatura, pintura, escultura) entra quase sempre em conflito com as classes possidentes, com o poder instituído, com as normas de vida estabelecidas. Em revolta aberta, o artista, originário por via de regra da média e da pequena burguesia ou mais raramente das classes proletárias, contesta o statu quo, propõe soluções revolucionárias ou, quando estas não podem sequer divisar-se, limita-se a derruir (ou a tentar fazê-lo pela crítica, violenta ou irónica) o baluarte dos preconceitos, das defesas que os beneficiários do sistema de produção ergueram contra as aspirações da maioria. Nas sociedades industriais mais adiantadas, o artista pode permanecer numa atitude idêntica de inconformismo; porém, os resultados da sua actividade de criação e reflexão tornam-se matéria vendável e, nalguns casos, matéria integrável.

O consumo do objecto artístico, seja ele o livro, o quadro ou o disco, quando feito sob uma tutela de opinião,que os meios de comunicação de massa, em escala larguíssima , exercem, torna-se, senão totalmente inócuo, pelo menos parcialmente esvaziado do seu conteúdo crítico. Despotencializa-se. Amolece. É o que se verifica, por exemplo, em boa parte, nos Estados Unidos. A ideologia repressiva da liberdade no mundo capitalista monopolista torna-se tanto mais perigosa quanto aborve, ou procura absorver, as próprias formas políticas de exercício das liberdades ditas essenciais, quando aceita no seu seio o escritor, acusador iconoclasta por natureza, recuperando-o em banho asséptico, limando-lhe os dentes. Mas, entendamo-nos, nem sempre o artista se dá conta dessa operação, até porque nem sempre, de facto, é ele próprio o paciente da operação que lhe reduz a perigosidade, senão que o é, sim, a sua obra, a qual, pelo poder diminutivo de uma dada comercialização, se rectifica.




Urbano Tavares
Rodrigues
, in “Ensaios de Escreviver”

Claro que um espírito assim só pode fazer-nos falta. Uma incomensurável falta…

a tradição, tal como muitos políticos, afinal não muda… quando muito, adapta-se…

Numa das minhas habitualmente desorganizadas incursões literárias em tempo de férias, tropecei quase literalmente, num livrinho cuja leitura se conclui em meia-hora, e que fez as minhas delícias em exercícios de memória que descobri, afinal, ainda cheia de recursos que julgava perdidos.
A obra em apreço é tão-só uma edição de 2010, facsimilada, a cargo da Fólio Exemplar, de um original publicado em 1919, pela Companhia Portugueza Editora, da autoria de F. Adolfo Coelho, com o título de Jogos e Rimas Infantis, e integrado na Bibliotheca de Contos para Creanças:
O encanto deste livrinho advém do facto de contemplar uma série de jogos e lenga-lengas infantis pelos quais, pela mão de avós, pais, tios e outros companheiros de folguedos, ainda me recordo de ter passeado e entretido a minha meninice, cultivando-a e crescendo.
Partilho, aqui, convosco uma historieta nele contida (páginas 24 e 25)… em que a preversidade da minha actual idade conseguiu lobrigar laivos de  actualidade e pode constituir um exercício de descontracção e relaxe, a ser realizado por cada um logo após a audição de algum aleatório noticiário:
O Caçador e a Velha
(44) Era uma vez um caçador furunfunfor, triunfunfor, misericuntor; e foi à caça furunfunfaça, triunfunfaça, misericuntaça; – e caçou um coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho; – e levou-o a uma velha furunfunfelha, triunfunfelha, misericuntelha; – e disse-lhe:
– Arranja-me este coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho.
A velha furunfunfelha, triunfunfelha, misericuntelha, comeu o coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho; – e veio o caçador furunfunfor, triunfunfor, misericuntor; – e disse:
– Ó velha furunfunfelha, triunfunfelha, misericuntelha! que é do meu coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho?
– O teu coelho furunfunfelho, triunfunfelho, misericuntelho, comeu-o o gato, furunfunfato, triunfunfato, misericuntato.
As minhas desculpas, se esta reprodução não vos suscitou um sorriso. O meu, para aqui fica, rasgado e algo idiota. Muito mais por culpa do tal noticiário do que pelo (des)trava-línguas acima, é bem verdade…

algumas destas não lembram ao Diabo…

Por deficiências congénitas, passo a vida arvorado em ingénuo militante e, porventura, vagamente estúpido, pelo que nem sempre, à primeira, me ocorre a preversidade de algumas coisas. Esta chegou-me há pouco e nem tive ainda oportunidade de lhe aplicar o filtro científico para apurar veracidades. Mas, como me encontro de férias, vou passá-la, à portuguesa curta, para que quem quiser lhe apure a tal veracidade… que deve ser verdadeira, claro:

Os JUÍZES e a CES

A CES (Contribuição Especial Solidariedade) não se aplica aos juízes !

JUSTIÇA (???) feita…a preceito! Mais um capítulo para a grande história da pulhice humana.

Os JUÍZES do TC e a CES..(contribuição especial de solidariedade)

É inacreditável!!… Esta gente já beneficia (não sei por que razão?) com a indexação das suas pensões aos trabalhadores no activo!!

Regalia dos JUBILADOS?!!!!

E agora, outra benesse: – não pagam CES!!!

Recebem as reformas por inteiro em caso de incapacidade por doença do foro psiquiátrico.

Auferem subsídio de renda de casa, no valor mensal de 750,00, mesmo morando em casa própria.

E depois vêm falar de equidade, justiça social, etc. e tal?

Isto só numa república das bananas!!

Espalhem pelos vossos contactos. Isto é serviço público!!

INACREDITÁVEL!!! COMO É POSSÍVEL!!! Que gente esta!!!

Eis a explicação para o “NÃO CHUMBO” da CES. Protegem-se a todos os azimutes e armadilham tudo à volta. E o Governo alinha.

Juízes e diplomatas não pagam CES sobre pensões

Escreveu o Jornal de Negócios que nem todos os reformados com pensões elevadas saem a perder com a decisão do Tribunal Constitucional (TC).

Os juízes e os diplomatas jubilados não são afectados pela polémica contribuição extraordinária de solidariedade (CES), viabilizada pelos juízes do TC.

E com a decisão do TC passam também, como qualquer funcionário público, a ter direito a subsídio de férias.

Estes pensionistas estão teoricamente equiparados aos funcionários públicos.

A CES não se aplica às suas pensões devido a uma norma do Orçamento do Estado que abre uma excepção para as “pensões e subvenções automaticamente actualizadas por indexação à remuneração de trabalhadores no activo”.

Claro,como água da fonte.

Se não fosse esta norma oportunissimamente introduzida na Lei do Orçamento, a CES teria sido certamente chumbada.

Chamem-lhes o que quiserem, mas eles estão-se todos borrifando…

E certamente riem-se … (final da mensagem recebida)

os poetas da Apenas e Coruche na 88ª sessão das Noites com Poemas

Estava, então, no passado dia 19 de Julho, a politicagem da nossa praça entretida a brincar às casinhas e a congeminar outras maldades impertinentes com que nos vão estrangulando a vida, quando ocorreu a nossa 88ª sessão das Noites com Poemas, dedicada, como tem vindo a definir-se como tradição de «encerramento de temporada», aos Poetas da Apenas e seus amigos. Desta feita, grande parte desses amigos – e também poetas, em perigosa e sempre suspeita acumulação de afectos – chegaram de Coruche.
 Ei-los, acabadinhos de chegar à Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, com «armas e bagagens», em autocarro disponibilizado para o efeito pela Câmara Municipal de Coruche, rumando a terras de Cascais, desviando-se de seus afazeres e comodidades, para uma partilha de afectos, saberes e sabores.
Na bancada dos livros dos Poetas da Apenas, dois títulos a destacar, desde já: A Minha Rua e O Montado – um lugar poético, que congregam as múltiplas participações do grupo de poetas de Coruche – um poema na vila – , dinamizado por Ana Teixeira Freitas, em duas sessões que tiveram esses respectivos temas como referência. Respigo do prefácio de Ana Freitas ao primeiro volume: 
«Pela importância e papel inquestionáveis que a poesia tem ou pode ter nas nossas vidas – de vidas esta vida é feita – nasceram as sessões de poesia, um poema na vila, no Café da Vila, em Coruche.
Estas reuniões poéticas, iniciadas a 10 de Fevereiro de 2012, ainda que sem um carácter obrigatório, impuseram-se mensalmente apenas e graças à afluência dos participantes (…)». 
E a par e passo vão crescendo e tomando corpo. Do corpo à voz é apenas um ligeiro salto. E o que se iniciou como afoiteza trémula, por vezes insegurança aguda, até, tem vindo a transformar-se no à-vontade de quem se apercebe que, afinal, somos todos feitos da mesma massa e a arte de se dar as mãos, neste especioso caso, não olha a quem.  
Entretanto, o conforto indesmentível que uma sala a romper todas as costuras pode proporcionar a quem se mete nestes atalhos da vida, mormente quando, em momentos como este, eles desembocam em imensas e arejadas avenidas.
Dadas as boas vindas e feitas as apresentações, urgia dar bom cumprimento a um programa tão ambicioso em matizes e personagens que ainda estou para aqui um pouco sem saber como terá ele chegado a bom porto, sem sobressaltos de viagem.
Fernanda Frazão, com a Apenas Livros, a amiga tutelar sempre presente, a quem devemos muito desta coisa «terrífica» de publicar obra que se leia… ou dê  a ler. 
Ambos apresentámos o nosso amigo, vindo expressamente das Astúrias para o nosso convívio, José Luis Campal – que nos tem presenteado com a sua presença assídua, nestas sessões do mês de Julho, contra longes e distâncias.
Cantor militante da sua amada Aurora, para sempre fisicamente ausente, José Luis Campal remoça, a cada dia, um amor sem fim, mas sem desespero, brindando-nos com poemas como este:
Cuando tus manos

se separan de las
mías,

el cataclismo de
nuestros corazones

agrieta el
universo

y huyen los
colores de las palabras
.

in Aurora de fulgor (2005-2007)

Mas mais nos reservava. E foi assim que nos foi anunciado e apresentado, através do seu amigo, o professor Carlos Castilho Pais, o seu Caderno da Cidade dos Sonhos, também com edição da Apenas Livros, esse livro de poemas, todo ele curiosa mas logicamente inspirado e dedicado à cidade de Lisboa…
… esclarecimento esse ponteado pela leitura de alguns poemas  que o integram
José Luis Campal, de seguida, leva-nos de passeio à revisita do seu amor, celebrando Aurora através da leitura dos seus poemas do amor ausente mas, pelo que nos foi dado sentir, com tendência para infinito.
  
Também o nosso amigo João Baptista Coelho se abraça ao tema, com um emotivo poema dedicado a sua mulher, recentemente falecida, companheira de mais de meio século de uma vida de paixão serena que não pode deixar de ser realçada como exemplar, por quem tenha acompanhado, mesmo de longe, este belíssimo casal.
E chegou a hora de dar a palavra a Ana Teixeira Freitas, mentora e dinamizadora do grupo um poema na vila, grupo de poetas e amigos de Coruche onde, como tive oportunidade de lá referir, a poesia parece ter pegado de estaca e cresce e floresce por tudo quanto é poro!
Poderemos, por mera vaidade que os afilhados impõem, afirmar que somos – nas Noites com Poemas – um pouco os padrinhos da iniciativa. Mas fica por aí e basta como referência.
Aquele projecto vai ganhando e assumindo identidade própria, como assim deve ser e é matriz circunstancial para que sobreviva.
Após a apresentação feita, Ana Freitas propôs-nos uma visita a algum artesanato da região:  
– trabalhos em cortiça, de Arlindo Pirralho
– trabalhos em barro de José Tanganho

– nos trajes típicos de Coruche, Ercília Moreira, acompanhada pela neta, Luana Ferreira, ambas também em representação do Rancho Folclórico da Fajarda. A destacar uma notável explicação dada pela D. Ercília Moreira quanto aos usos e costumes por detrás daqueles fatos.
  A partir daqui, as palavras perdem significado…
… por…
… razões…
… óbvias!
Refira-se, apesar disso, que a aventura passou por areias, bolo branco, bolo de mel, broas tradicionais, torta de canela, campinas, corujinhas, cachola e febra de azeite e vinagre, enchidos, pão, queijos, vinhos…

Julgo poder divisar alguma perplexidade dos circunstantes perante esta opípara representação, da qual se deve muito justamente referir que nos chegou graciosamente pelas mãos desta comunidade coruchense, sem outros subsídios que não fossem os tais dos afectos… que não sei como deixar de repetir.
Enfim, por lá contribuímos com um vinho de Carcavelos, muito a propósito, para aclarar ainda mais as vozes.
– Entrada em cena do Rancho Folclórico de Vila Nova da Erra
(Sendo que tudo ia sendo cuidadosamente registado por muito discretos repórteres)
… apresentado pela sua presidente Isabel Gonçalves. Ao fundo, o tocador de gaita de beiços, Manuel Teodoro e, no meio, a bailadeira Vera Coelho.

E assim se «fandangou», entre homens e mulheres, coisa que muitos dos presentes nunca tinham tido oportunidade de assistir.
(E os repórteres lá andavam…)
Chegou a hora de trazer a poesia de que se tem vindo a fazer referência. E ela chegou pelas vozes de…
Alzira Carrilho
Ana Taxa
– Ana Freitas
– Arlindo Pirralho
– Custódia Prancha

Eduardo Martins
Augusta Santos

Francisco José Lampreia
Ernesto Fonseca
Idália Silva
Jorge Castro
José Cordeiro
Maria Augusta Ambrósio
(E os registadores de imagem porfiando no seu labor…)
– De regresso ao Rancho Folclórico da Fajarda, a sua representante Ercília Moreira que, aliás, tinha já passado a sessão, até ao momento, a dar ao dedo e à linha, acompanhada pela neta, Luana Ferreira, levou-nos a usos e costumes das terras de Coruche através dos trajes que confecciona com esmero e minúcia…  

… chegando ao pormenor de entrar em intimidades. De vestimentas, entenda-se!
A sua neta Luana serviu, também, de modelo durante a explanação.
– Última ronda do Rancho Folclórico de Vila Nova da Erra

– O acordeonista e bailador de fandango Sérgio Balcão
– O  grupo de bailadores, Vera Coelho, Amorim Peseiro, Francisco Santos e Carolina Gonçalves

Caminhando a passos largos para uma memorável sessão das nossas Noites e com o estímulo candente das iguarias que nos esperavam para retempero de forças, introduzi a parte final, como sempre destinada a todos quantos se afoitam a dar um passo em frente e trazer de si próprios o que de melhor tenham na senda da poesia partilhada. 
E contei com:
Emília Azevedo
Carlos Pedro

Luís Perdigão
Ana Patacho
Carmen Filomena

E porque fomos, enquanto país, tão fracos e distantes a recordar o centenário do nascimento desse enormíssimo divulgador da poesia que foi João Villaret, tentámos, nas Noites com Poemas, dar o nosso contributo para suprir essa lamentável lacuna, através de duas palavras evocativas.
Por fim, distrubuindo pela assistência o poema A Procissão de Sarah Afonso, da autoria de António Lopes Ribeiro e celebrizada por João Villaret, propus que ali mesmo se constituísse um coro de elevadas vozes e intenções, entoando…  
 
… a plenos pulmões e contra a tacanhez de quem, institucionalmente, terá obrigações  de preservar memórias…
De pé, como em manifesto, assim se cumpriu…
… ou sentado, mas com sorriso, assim se cantou!

Depois, foi comer-lhe, beber-lhe, trocar impressões, autógrafos, abraços…
E uma outra vez, foi bonita a festa, pá!
– fotografias de Lourdes Calmeiro, Lídia Castro e José Freitas
Quem quiser mais espreitar, pode também passear pelo blog Nas Palavras Voar, aqui:

– a propósito do iminente encerramento da centenária Livraria Sá da Costa, em Lisboa
– seguida de um refrescamento da memória proposto por Daniel Abrunheiro

Uma livraria é uma barriga grávida de saberes. E o acto de nascimento é, nela, um processo contínuo – algo assim como a abelha-mãe numa colmeia, de fecundidade infinita.

Neste tempo em que desaparecem as abelhas, ver fenecer (às nossas mãos…?) assim, tristemente, mais uma colmeia, faz-nos pensar que muito em breve não será possível verificar-se a polinização tão necessária e imperiosa a que as ideias sejam fecundas.

Façamos, então, o que está nas nossas mãos para contrariar este estado de coisas!



—x—
Da crónica O Ribatejo, de 25 de Julho de 2013, de Daniel Abrunheiro, respigo, com a devida vénia, do episódio Malhar no Linho, o seguinte excerto, para o qual recomendo leitura atenta, a bem de uma salutar lubrificação da memória:
(…)A
visão é mais-que-perfeita como um pretérito longe feito perto hoje, não todavia suficiente para me fazer
esquecer, ante todo este espúrio e estupefaciente carnaval de crocodilas
lágrimas antecipadas pró-pré-morte de Nelson Mandela, que em 1987 (há meros 26
anos, portanto), reunida a Assembleia Geral das Nações (alegadamente) Unidas,
ia a moção plenária um apelo à libertação incondicional desse gigante
sul-africano. Votaram a favor 129 países. Três votaram contra: os EUA, então
tragicomicamente rendidos ao Reagan, a Grã-Bretanha, da Thatcher, e um tal
Portugal dum tal… Cavaco
. (o sublinhado é meu)
Nem
quem viola é preso, nem quem é violado esquece. A nossa amnésia
carneirinho-multitudinária persiste em procrastinar (isto é, adiar; isto é,
odiar) o evidente. E o evidente é a quinta de porcos do velho Orwell, que a
tudo e todos, filósofos de Café de bairro incluídos, pretende terr’arrasar.(…)(fim da citação)

  

Para cúmulo da nossa miséria, ainda nos sobra esta cáfila que, através de um alinhamento cobarde e deliberadamente acrítico, nos envergonha no concerto do mundo! Nem eu já me lembrava desta…!

na aula magna (Lisboa), no passado dia 20

Vieram mais cinco e outros cinco e outros cinco, ainda, ao anfiteatro da aula magna até ser muito difícil de contar todos. Mas isso nem era muito importante.
José Afonso era o homenageado e a evocação decorreu sob a égide dos 50 anos da criação d’Os Vampiros.

António de Sampaio da Nóvoa abriu a sessão com chave de ouro. José Fanha, Rui Pato, Francisco Fanhais, Manuel Freire, João Afonso, Ensemble VOCT, Luís Pastor, Lourdes Guerra, Pedro Fragoso… 

… preencheram-nos a alma de conforto. Ao lado de Fanha, na foto acima, a guitarra com que Rui Pato compôs Os Vampiros, há 50 anos, e com a qual voltou, hoje, à liça.  

É sempre um manancial de saúde que jorra nestes concertos de encher corações. E mais não digo, para além da consabida frase em que se diz ser preciso, imperioso e urgente mais flores. Mas que elas sejam cravos vermelhos. Só assim será poema, só assim terá razão, só assim te vale a pena, passá-lo de mão em mão…

CONVITE

Amizades, 
Concluir-se-á mais uma «temporada» das nossas sessões, no próximo dia 19 de Julho de 2013 (sexta-feira), pelas 21h30, na Biblioteca Municipal de Cascais – em São Domingos de Rana, com mais uma ronda pelos Poetas da Apenas Livros, editora que tem, contra ventos e marés, sustentado a irreprimível vontade de partilha que a tantos move, em modo e forma de poesia. Por lá estaremos e estamos, também, a contar convosco. 
Eis um esboço, não exaustivo, do programa previsto:
– Por certo tenho eu que nos visitará, de novo, o poeta asturiano José Luis Campal, a trazer-nos um amor para além da vida, Los Poemas de la Aurora, e que abrirá a sessão.
– Contaremos, também, com a companhia de valente representação de elementos que alimentam a tertúlia Um Poema na Vila, em Coruche, pela mão de Ana Freitas, sua dinamizadora, grupo este em que a pujança criativa não cessa de nos surpreender. Essa surpresa consubstancia-se já na produção de dois livros: A Minha Rua e O Montado – Um Lugar Poético, que estarão disponíveis nesta sessão. 
Surpresas várias nos reserva, ainda, esta «delegação» de Coruche… Talvez não me fique mal desvendar que, entre poemas, gastronomia, danças e outros desvarios, a noite decorrerá cheia de vida. Presumir-se-á, também, que o salão da Biblioteca não seja demais para abarcar tão prazenteira confraternização… 
Façam, então, o favor de entrar. Esta casa é nossa.

as contas que contam – prosaico poema

Então,
vamos lá a contas. Contas de nós tão mal prontas que nos sufocam a voz…
Mas
tu, aí, que me contas? Eu que venho desse tempo em que se pagava em contos as
contas que alguém fazia. E não era nada bom mas o que de mau havia tinha rosto,
cara à vela, e nem usava à lapela bandeiras de fantasia… ou de lata que, também,
se bem virmos, vendo bem, há gente desta que avonde e vem nem se sabe de onde,
a caminho de Belém.     
Hoje,
paga-se em histórias, dá-se de troco umas lérias quando há demais demasia. Será
isto Literatura de braço dado à Matemática, alto voo de cultura? Ou laparoto na
lura, cheio de manha e de astúcia, contrariando a urdidura? 

vão dando ao BPN, ao BCP, ao BANIF, a um patife que lhes dê a palha e o bom
sustento. Dão às PPP, ao vento, dão tanto que nem aguento contar contas de
rosário quando tanto salafrário vive à custa de salário com o qual mal me
governo pois vai todo para o governo, sem haver qualquer retorno nesta vida
feita inferno.
O
mandante a tempo inteiro, papagaio garganeiro, vai de ministro a banqueiro e de
banqueiro a ministro, sempre num jogo sinistro, sempre em dourado poleiro e,
perdoem-me se insisto, à custa do meu provento – que digo eu? – do nosso, que
estou pr’àqui que nem posso, de bolsos cheios de vento.  

viste? Fizeste as contas? Soma lá esses milhões e, sem mais ideias tontas,
apura o quanto a ganância desses tais senhores do mundo te afasta, aos
tropeções, p’ra tão longe da abundância, a este abismo sem fundo.
Conto-vos
contos de encanto, em cantochão, desencanto de ouvirmos tanto poltrão em
matraqueio de socos. E debaixo do colchão voltei a guardar uns trocos, poucochinhos,
só uns poucos, uns centavos taralhoucos, para dias de aflição, pois eu, com tais
saltimbancos, já nem confio nos bancos, em perpétuos solavancos, sem saber para
onde vão.
Em
redor lá cresce a fome, adição vil e sem nome, que subtrai o viver. E a divisão
que fazem multiplica esta maleita da vida feita a morrer.
Ocorre-me
aqui a outra, a caridosa esmoler, a dar quanto se quiser ao pedinte e à
desgraça. Mas, antes, a encher bem a carteira desse alguém que é o dono da
praça… E quem precisa lá come o pão que o Diabo amassa, pois tem a fome dos
filhos numa urgência que não passa.
E
só nos faltará ouvir que tanta gente a pedir por uma côdea de pão assim é
porque Deus quer mas, que o diga quem souber, sempre a bem da nação. 
Aos
dias somam imposto, taxa, coima sem ter rosto, espécie de fogo posto sem nos
dar margem de fuga, sequer de respiração. E o portuga lá vai, cordeiro, manso,
tal cão a dar ao rabo ao serão, sem um ai e sem tostão; um ai de nós ou de
peito, de tanto estarmos a jeito deste fado violento:
Ai,
meu Deus, que não me aguento!
Ai,
patrão, e o meu sustento?
Ai,
ó mãe, quem nos acode?
Talvez
voltar a ser cão mas aquele que bem sacode, que coça, morde e escorraça a pulga
como a carraça, à dentada e à unhada, a ver se a coceira passa.   
O
avô ao filho dá e o filho dá ao neto e, se hoje há, amanhã já vivem todos sem
tecto. E tantas necessidades, vos digo em pobre rima,  porque uns quantos se amanham, quanto mais
alto se apanham, muito além e muito acima das nossas possibilidades.  
Então,
vamos lá a contas…?
Diz-me
lá tu que remontas a passados de eleição, dos Lusíadas de antanho, com quantos
cantos faremos, hoje em dia, o nosso amanho?   
Ou
será que já só contas, que só és de corpo inteiro, quando, fugindo de afrontas,
das maleitas destas seitas, és português no estrangeiro?
Enfim,
eu cá te conto, por fim, não ser dado a equações que não passem de travões à
vida que é tão nossa. Assim sendo, aqui declaro que não é nosso este fado nem a
letra é confiável. Porque ele há um mar arável e uma terra ondulada onde o
porvir é fecundo e neles – vê lá bem, por todo o lado – há uma rede, um arado,
que deram mundos ao mundo.
Do
desgoverno aos vilões, tal como nos diz Junqueiro, em preceito que se aplica à
cáfila de aldrabões que assola o mundo inteiro, à «truculenta manada obesa de hipopótamos, ó
Humanidade, enxota-mos
!».
Está
em ti, em mim, em nós darmos a volta outra vez criando outro mundo novo, onde a
História de alguns é coisa de pouca monta e bem vista pouco conta.
Mas
vale a História do povo.   
E
nela, somados todos, abriremos a janela para entrar o Sol a rodos!
E
conclui-se a equação mesmo que a solução contra esta praga daninha,  muito mais do que a galinha, para criar homem
novo esteja ainda no ovo…
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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