fotografando o dia (78)

a rua não existe
a rua é triste
sei eu bem que nem a vejo

e quando olho para a rua
triste
o que eu vejo não existe

porque nem a rua existe
nem eu
quando a não vejo

– foto e poema de Jorge Castro

Questões insidiosas…

Como se ligam os não-factos com que nos promovem o desviver?

Explicando-me:

1 – Há dias (poucos) a electricidade ia subir 15 ou 16% porque sim. O ministro da tutela disse que não podia ser. E, em presuntivo bem da nação, “só” subiria 6%! O povo, agradecido, curvou-se, em reverência… Meia-dúzia de dias (mal) passados e a electricidade vai baixar 3%!!

É milagre? Foi Deus? Nossa Senhora de Fátima protectora dos desvalidos? Ou tudo isto não passa de mais uma ignóbil treta?

2 – A “flexibilização laboral” à portuguesa, num mercado laboral em que tantos não cumprem a legislação existente, promovendo o cancro social do “recibo verde” com TOTAL conivência dos sucessivos governos, será mesmo necessária?

Ou será que o mero desconforto de vegetarem num pântano de ilegalidades faz com que tantos dos nossos “empresários-de-trazer-por-casa” sofram com insónias e dos governantes cúmplices padeçam de perturbações gástricas, ambas a serem dirimidas pela panaceia de uma legislação mais conveniente (ainda)? – Não vá algum incómodo e desalinhado organismo comunitário descobrir toda a tramóia… Ou até por mera desavença de comadres vir a descobrir-se o fundo ao tacho.

3 – Afinal, o legislador sempre proíbe ou não – ou talvez assim-assim – o fumo do tabaco nos locais públicos? Vai para a frente, vai para trás, vai para o lado, vai para cima… e amolece a cada dia que passa. Será apenas esta perturbação provocada pelas receitas arrecadadas nos impostos a funcionar como factor inibitório da decisão?

Na verdade, conforme a política-dos-nossos-políticos, segundo a qual “vale mais um pássaro na mão” do que o dia que lá vem, as receitas arrecadadas hoje são mais, mas muito mais importantes do que os encargos com a saúde a pagar amanhã. Assim c’umàssim, até amanhã privatiza-se a coisa da saúde e talvez até, no fim das contas, nem haja nada a pagar…

4 – Pelo meio desta salada, o nosso insuspeito Primeiro garante, com a mão esquerda, que em Portugal ninguém será perseguido por delito de opinião (falando do professor Charrua), enquanto move, com a mão direita, um processo contra o autor do blog Do Portugal Profundo.
Quantos de vocês imaginariam que o nosso Primeiro é ambidextro?

Enfim, tanto havia a dizer, mas não tenho tempo. Vou até ali a ver se vivo e já volto!

VII Encontra-A-Funda, danados e danações

Digam o que quiserem. Perturbem-se e estrebuchem os que para isso lhes dê. Escarranchem-se no lombo de mula velha, da cooperativa ou outra, se puderem… Mas que uma boa colecção de gargalhadas já ninguém nos tira do bucho, essa é que é essa!

Paisagens do melhor, vinho do melhor, insana loucura do melhor, comida do melhor, companheirismo do melhor… Ora, tenham lá santa paciência, mas metam as beatices e alguns pudores carunchosos na arca da velha avó – coitada, que no tempo dela, sabe-se lá, até parece que nem se faziam meninos e tal… – e roam-se as unhas até ao sabugo, espreitando algumas fotografias que dão apenas uma ténue imagem do que por lá se passou.

Um abraço enorme a todos, mas com muito especial destaque à Tuna Meliches e respectivas bailarinas que levaram à cena, com garbo e atropelo, por entre a maior humidade nocturna, o Auto das Danações, numa versão tão próxima do Inferno que dir-se-ia estarmos todos no Céu!
Também ao Pedro Laranjeira que, uma vez mais, comigo partilhou esses ínvios caminhos da poesia.

Uma palavra de justo reconhecimento à mentora do projecto, a inefável São Rosas, pela impecável organização do evento, sem mácula, nem atritos – coisa tão rara, que é comovedora (ou cu-movedora, como por lá se dirá, com mais propriedade).

Também ao David Caetano, da Arqueobeira, que sustentou com denodo a sua argumentação erudita em defesa do Centum Cellas e do símbolo fálico da vila do Ferro contra ‘algumas vozes’ de maldicência e outras insolências; ao João Carvalho, da Quinta dos Termos, no Carvalhal Formoso, e o seu excelente vinho; ao Pielas Bar, do Pedro Daniel, em Caria, com uma jeropiga só suplantada pela simpatia… e por uma aguardente de figo de fazer chorar os mais empedernidos; ao casal dos Pimpões, na Quinta do Panasco, em Caria, afáveis, amáveis, simpáticos e inexcedíveis anfitriões, a quem tiro o meu chapéu pela paciência e altruísmo; ao Hotel Belsol, em Belmonte, com excelentes alojamentos e uma óptima vista panorâmica; ao Restaurante D. Sancho I, em Sortelha, com belíssima decoração e que nos “arrumou” a todos com um prato de javali e outro de veado, ambos acompanhados com castanhas e regados a vinho da Quinta dos Termos… que nem vos conto!

Por aqui se descobre um sentido para a vida!

Nota – As fotos podem ser, também, consultadas, de futuro, ali na secção da esquerda.

Auto das Danações e
seu lançamento no VII Encontra-A-Funda

Nos próximos dias 23 e 24 de Junho, promovido pelo blog A Funda São, terá lugar, em Caria e arredores, o VII Encontra-A-Funda, saudável desvario iconoclasta, do qual muito me apraz participar.

A sua mentora, a inefável São Rosas, lançou-me, há uns meses atrás, um desafio que consistia em produzir um Auto, à moda de Gil Vicente, mas com a envolvência de personagens da “pós-modernidade”.

Daí nasceu o “Auto das Danações“, a minha obra mais recente, uma vez mais contando com a alegre e interessada edição da Apenas Livros, Lda., que acedeu, até, ao despautério de alinhar numa edição especial para os participantes naquele Encontro. A tanto chegou o espírito de colaboração…

Esta obra, que conta com o apoio, para o lançamento, do próprio Gil Vicente – o que não menos me apraz – irá ser conduzida em braços até à cena, na Quinta do Panasco (!?…), lá por Caria, pela reputada e inconcebível Tuna Meliches, da qual estou em condições de poder assegurar que sempre se pode esperar o pior.

Não posso deixar de aconselhar, pelo menos, uma vista de olhos pela programação do evento, através do link acima, garantindo que esta vida são dois dias (ou três, no máximo…), que convém aproveitar.
Permitam-me, então, que vos anuncie o prefácio da obra:

“Versalhada em um acto, que o tempo não está para desperdícios que não atem nem desatem.

Tendo Gil Vicente como fonte cristalina, fresca e exemplar nessa arte de bem zurzir quem o mereça, apreciando de viés o que o mundo nos mostra e tentando entrever o que ele nos esconde, assim foi concebido este Auto.

Será Auto de notícia que, se a vossa benevolência o permitir, ficará para o porvir como retrato a preto e branco, não revelado, isto é, em negativo, deste nosso tempo.

Não é todo o mundo – ou até tão só todo este nosso aprazível recanto – feito destas graças e desgraças. Mas muito dele é assim feito, por defeito, por acaso ou por conveniências. De qualquer modo, os retratos foram tirados a personagens da nossa praça, envoltos num caldo de cultura que, também esse, tem tonalidades muito nossas e entranhadas.

Há, como se presume, na massa do ilustre sangue lusitano, alguma valentia sorna, contraposta aos brandos costumes – que tanta vez escondem a hipócrita ou cínica violência – que nos moldam e por quem nos deixamos moldar e que, misturados no cadinho da vida, motivam esta tão peculiar forma de estar, sem paralelo mundial – pelo menos, tanto quanto diviso daqui da minha rua…

– Jorge Castro
Abril de 2007″

Nota – Os interessados na aquisição de um exemplar – custo de capa 3,10 € – peço que me dêem conhecimento através do email jc.orca@gmail.com.

noites com poemas – Torga

Na próxima sessão de Noites Com Poemas, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, em 20 de Junho de 2007, pelas 22 horas, a conversa girará em torno de Miguel Torga.

Como programa adicional, será feita uma breve pré-apresentação do meu último livro de cordel, Auto das Danações… isso mesmo, à maneira de Gil Vicente e tal, que terá lançamento oficial a 24 de Junho, por Caria (cá vem o trocadilhozinho manhoso). E Caria, porquê? Ora, a bem da regionalização e por outras razões que a seu tempo anunciarei.
Há que tempos esperamos pela tua visita à Biblioteca! A ver se é desta…

A Miguel Torga

fontes
regatos
estrelas de papel
retratos que pintou a mel e fel
na terra agreste
e os montes pedregosos
junto ao céu
num grito de poeta que se ouviu
de leste a oeste

duras as pedras e o olhar
que o pão não nasce do chão
só por nascer
sem haver as mãos para o semear

um orgulho de crescer para trás dos montes
entre trigais e lameiros e granitos
onde se douram intensos como gritos
ervas do campo e horizontes

e as estevas
as urzes
entre os xistos
segredam-nos segredos que só vistos
por alguém que a si se faz
alto e sereno

um hino
a cada passo
ou então um ninho
em que sabe ouvir a voz de um passarinho
no fragor do temporal num mês de Março

mão amiga e redentora
que assegura
na rudeza cruel da desventura
poder ser melhor o seu destino
mas ter a grandeza
entre o negrume
de gritar numa voz acesa em lume
de ter ele feito o que fez
por ser capaz

e assim
mesmo sem querer
viver na paz
pela luta vivaz que à vida imprime
e assim
mesmo sem querer
ser sublime.
.

– cartaz de Alexandre Castro
– poema de Jorge Castro

Quadras a Santo António neste ano da graça de 2007

Ter em Lisboa Esposende
Na noite de Santo António
É coisa que mal se entende
De demónio… ou de neurónio

Pior quando a marcha abriu
Logo mais com sarabanda
Com um samba do Brasil
Qual Carnaval de outra banda

Também vieram piratas
De trabuco e flauta lisa
Espanholas as gaiatas
A ver Lisboa em camisa

Pelo andar da romaria
No Carnaval de outra banda
Ao Brasil hão-de ir um dia
Os paulitos de Miranda

Santo António é manjerico
E cravo belo e faceiro
Por tanta flor é rico
Só não tem mesmo é dinheiro

Santo António é um magano
Que traz Lisboa ao pescoço
Vem cá uma vez ao ano
Come a carne e deixa o osso

Nestas marchas de Lisboa
Desfile em gato-sapato
Falta-nos ter numa boa
Santo António a candidato

Enquanto não acordasse
O pesadelo era enorme
Se Santo António sonhasse
O quanto Lisboa dorme

Não há fogueira como esta
Ele há coisas do demónio
Lá se vai Lisboa em festa
Saltar de António em António

E no palanque mais alto
Para regalo dos olhos
Candidatos ao assalto
Quais manjericos aos molhos

Entre um José e a Roseta
Um António deu à costa
Um Negrão correu à meta
Tudo a Lisboa se encosta

Haja pão e circo e tudo
Neste desfile na avenida
Que mais parece um Entrudo
Santo António… foi à vida!