ah, grande Lisboa!… (3)

Andava há uns tempos com uma vontade enorme de rever o velho Jardim Zoológico de Lisboa, numa visita à família, como o anedotário caseiro e muito batido chamava àquela deambulação obrigatória. E neste fim de semana a oportunidade surgiu…

Critique-se muito ou pouco o conceito, afine-se ou não pelo diapasão mais agreste dos conservacionistas, aceite-se mais ou menos que aquele é sempre um lugar de cativeiro de animais para mero desfrute dos humanos, certo é que as lógicas dos homens assim os estabeleceram, ainda que o evoluir dos tempos vá aconchegando os conceitos e, logo depois e mais lentamente, as práticas.

Fui, então, em busca da aplicação dos novos conceitos na matéria – mais do que dos velhos – no nosso vetusto Zoo lisbonense. E devo dizer que, no que toca aos novos espaços para tigres, gorilas e chimpazés, assisti a aparentes progressos, dignos de algum registo.

A aparente beleza bucólica, ao longe…Entretanto, não deixei de apurar, uma vez mais, o estado de abandono e desleixo que, também ali, não deixam de grassar em jardins de notável beleza, completamente ao abandono, quando podiam constituir espaços de imensa fruição e qualidade para quem lá vai e aprecia o sossego, na companhia, ainda que enclausurada, da tal “família”.

… disfarça o vandalismo, o abandono, a ruina e o mau cheiro, ao perto.(Para localizar o recanto e atentar nos detalhes, basta seguir o rasto dos pelicanos)
E, como complemento a propósito, não posso deixar de vos referir a incontrolável urticária que me avassalou com os fundos “musicais” que atroam o ar nos “espectáculos” com morsas, golfinhos e répteis vários.

Qual será a central de controlo de mentes que nos quer convencer a todos – e que parece estar a ser bem sucedida – que, em todo e qualquer espaço público, quando queremos mostrar que estamos divertidos à brava, há que fazê-lo através da alta berraria da expressão musical que dá pelo nome de “bate-estaca”?

É verdade que a Feira Popular encerrou e a sua ressurreição não tem data anunciada. Mas a transformação paulatina do Zoo em Feira Popular não me parece que nos traga virtualidades pedagógicas, como parece ser a preocupação primeira da actual direcção daquele espaço.

Ou então a lógica é uma batata, onde a música é de bate-estaca e nem se divisa razão para que o garrafão de 5 litros não volte a acompanhar a alegre família pequeno-burguesa de visita aos “primos”, em piquenique selvagem, lançando restos aos crocodilos e imitando o pobre elefante a dar ao badalo a troco de uns cêntimos.
Por mais goriláceo que se seja, não há macaco que aguente!…

– fotos de Jorge Castro

fotografando o dia (88)

postal ilustrado

sabe bem olhar o mar
e dele colher maresia
olhar assim por olhar
em cada vaga a poesia

e na ternura da onda
nesse mar doce de azeite
como que a vida se alonga
dá-nos dela outro deleite

é um mar sem caravelas
sem dores, conquistas ou ais
sem vento de enfunar velas
é só um mar – sem jamais…

– poema e foto de Jorge Castro
obtida na enseada da Casa de Santa Maria (de Raul Lino) e do farol de Santa Marta, em Cascais

ah, grande Lisboa!… (2)

– foto de Jorge CastroCity sightseeing, forma airosa que já se disse para-inglês-ver… O amarelo da carris avermelhou-se, sem conotações (abrenúncio e salvo seja!…) para que o turismo usufrua a cidade que os seus habitantes não desfrutam.

O estacionamento caótico dos carros, o mau estado dos pavimentos, o contentor das obras sempre entulhado, à espera da semana seguinte, os cabos eléctricos que, marroquinamente, desfeiam a cidade, as fachadas mal tratadas, com a magnífica azulejaria escalavrada, vítima de tratos de polé …

Nos meus périplos por Lisboa, reconheço-lhe a grandeza que nos assombra em tantas cidades da Europa. Só que se esconde por um denso manto de maus tratos que a todos nos maltratam.

É uma capital não da decadência, mas do desmazelo e do desinteresse, ataviados com uma mão-cheia de mezinhas, das tais para-inglês-ver, que pouco cuidam do português que nela respira.

A culpa, como sempre, é de todos e de cada um, não sendo pois de ninguém. É assim e pronto!

Passear hoje por Lisboa antiga, com olhos de ver, é uma pungente e revoltante caminhada. A capital do império afundou-se com ele?

Não quero crer. Porque haverá outros impérios. Outros imperativos. Porque é ainda uma emoção visitar cada recanto desta cidade. Algo, pois, estará ainda vivo nestas pedras!

fotografando o dia (87)

enquanto o peixe não pica
enquanto o mar não me engana
apuro em jornal notícia
muito àquem da Taprobana

‘inda há-de haver quem se queixe
de tal pesca leviana
nem o jornal traz o peixe
nem traz notícias a cana

– poema e foto de Jorge Castro

ah, grande Lisboa!… (1)

Vagueando por velhos lugares de Lisboa, num aproveitamento de tempo de férias misto de trabalho e de prazer, dando tempo ao meu tempo, tive oportunidade de deparar com recantos de surpresa e de encantamento, que a vida de outros dias não me deixaria ver.

É uma viagem que se recomenda. Em Lisboa ou em qualquer outro lugar: andar, sem horas, nem destino, parando sempre e quando nos salta ao caminho um improviso da jornada, a quem damos tempo, olhos e ouvidos, tantas vezes nos abismando com a nossa incomensurável ignorância.

Algumas vacinas se recomendam para a aventura: contra o lixo, o desmazelo, a bestialidade, o esquecimento e a ruína, contra a profanação ditada pelos interesses de alguns… Enfim, mente afeiçoada e corpo predisposto, é avançar no desconhecido.

Na Mouraria encontrei uma Fonte do Poeta. Pois não, não conhecia! Com palavras de António Botto gravadas na pedra para que o tempo seja mais clemente e não apresse inevitáveis esquecimentos:

Nesta fonte que fala na surdina
De qualquer coisa que eu não sei ouvir
Matei agora mesmo a minha sede
E sentei-me ao pé dela a descansar

Não havia no ar mais do que a luz
Finíssima da tarde num adeus…
Uma luz moribunda e solitária
A despedir-se frágil pelos céus.

E à medida que a luz se diluía
Nas sombras que nasciam lentamente
A fonte no silêncio mais se ouvia
Mais límpida, mais pura e mais presente…

Anoiteceu. Ninguém. Só a voz dela
Só essa voz ao longe num desmaio
O timbre vivo e pálido de um grito
Levantei-me. Deixei-a. Tristemente
Acendeu-se uma estrela no infinito.

– foto de Jorge Castro

Ao lado, a fonte. Seca. Recheada com latas de cerveja vazias. Incoerentes e imbecis grafitis por moldura. Salvei-a, por momentos, das latas. Suprimi da foto a violência gratuita e imbecil dos grafitis.

António Botto por certo que sorria. Para quê o esforço? Amanhã é outro dia…

o temível des(a)tino das férias…

Realmente, eu não devia, por imperativos de consciência que sustentam filosofia de vida, passar o tempo a denegrir o que neste cantinho do mundo se faz…

Por outro lado, para dizer bem sem as mais das vezes se saber porquê bem nos bastam os elencos governamentais com que é brindado o bom povo português.
Enfim, assumo então este pendor para a maledicência, como forma de equilíbrio ou para que o mundo, como diz um bom amigo meu, não tombe para um só lado.

Desta vez, falo-vos de Tróia. Não a do cavalo, mas a da nossa burrice. Lá para essas bandas onde os camelos fazem longas travessias no deserto.Tróia foi, desde a minha juventude, um dos meus destinos privilegiados para férias. Do acampamento “selvagem” e aventuroso, de saco-cama e fogueira no areal, dos tempos de estudante “teso”, até ao usufruto de um apartamento, em povoação próxima, já com mais aconchego na carteira. De comum, aquele areal de paraíso na terra, aquele mar que a serra da Arrábida borda, aquela inclemência de sol, aquele recolhimento das distâncias, aquelas intermináveis caminhadas, a coleccionar conchas e poesia… Foi, pois, sempre de olhar enviezado que vim assistindo às hordas de bárbaros da construção e outros vândalos, à mistura de alguns bandalhos e outros melhor instalados na vida, que foram edificando torres e mais torres, casas e mais casas, sem nexo e pouco préstimo, numa zona a que alguém – quiçá por piada – resolveu chamar de “reserva natural”.Felizmente que, com o governo actual, tudo mudou! As torres da Torralta, mortas de paradas durante anos a fio, foram demolidas, com pompa e circuntância circenses.Agora, vejam a imagem acima, obtida hoje, dia 22 do ano da graça de 2007: já com andar-modelo disponível para visita e infraestruturas para uma marina, em plena rota da escassa vintena de roazes-corvineiros que teimam em por ali passar, sobreviventes, vai-se erguendo, magestática, uma belmírica urbe, sem peso, nem medida, nem contenção!E há-de lá ir parar uma berarda exposição ou quejanda, estou certo. Mais acordo, menos facada, que entre gente de negociatas sempre sabem atingir consensos.Pelo caminho, a “reserva natural” deve ter o seu conceito subvertido, pois de reservado terá o acesso aos possidentes e de natural, porventura, o direito divino que a tal dará cobertura.Os roazes terão ido à vida. Mas isso que importa? Importam-se outros, metem-se num aquário e a malta, assim, até os vê e toca e tudo! Pior será se se concretizarem as expectativas dos cientistas do ambiente, segundo as quais a península de Tróia, dentro de cerca de 100 anos, estará a cerca de 20 metros de profundidade. É muita água!Talvez, então, surja uma nova espécie: a dos belmiros-corvineiros. É que a Natureza tem essa extraordinária capacidade regenerativa, muito para além daquilo que possamos imaginar…