fotografando o dia (91)

não
não é uma ficção
nem um ser alienígena
que criou um terminal à porta de algum indígena
fica ali
no meu portão
como louco emaranhado da era da comunicação
mijam-lhe os cães
trepam gatos
assiste a mais desacatos
de quantos a tevê dá
é apoio de paragem
do ónibus da carreira
e apoia a vadiagem que de tal poste se abeira
à espera do deus-dará

tronco de eucalipto velho escuro de tanto engelho
quando a noite fala baixo
olhando p’ra ele eu acho
que por ele sonso desliza
rua fora por vingança
tangido por leve brisa
cada segredo que passa por cada fio que lança
pelos céus da vizinhança…

e se lhe assenta qual luva que ao careca dá inveja
a sua farta cabeleira
até nos cobre da chuva
impede que o sol se veja
parece cruz…

sendo asneira!

– foto e poema de Jorge Castro

(Nota – Este poste encontra-se, de facto, bem à porta de minha casa e, como milhares e centenas de milhares por esse país fora, enche-nos o céu e as casas dessa imensa profusão de cabos. É mais uma dessas obscenas estéticas com que nos habituamos a viver e que emporcalham toda a veleidade atrquitectónica, ao pendurarem-se, tentaculares, nas paredes das casas. Manifestação desconchavada de terceiro-mundismo, pretendem alguns que seja ‘o preço a pagar’ por certa ideia de progresso. Mas não, deixemos-nos de lirismos desajustados! Trata-se apenas de fazer o servicinho pelo mais baixo preço, que a maralha, aparentemente sem revolta, não merece mais!)

ah, grande Lisboa!… (6)

Para que não se diga que não falei em flores…

Porque um olhar desassombrado nos deve levar a ver o que é positivo, tanto como o negativo – sempre passeando o nosso olhar pela imensa riqueza do contraste e da diferença – quero dar notícia de algo com que deparei recentemente e que reputo da mais alta qualidade.

Falo-vos do livro de Ernesto Matos, com o título Assinaturas – um passeio poético pela calçada portuguesa.

Recomendo vivamente, tanto quanto o seu sítio CALÇADA PORTUGUESA (encontrareis aí forma de contactar o autor). Um livro onde a poesia das palavras se funde com a poesia das imagens belíssimas sobre calçada portuguesa, também através das formas distintivas a que cada artífice lançou mão para deixara sua marca na obra feita.

O testemunho de uma forma distintiva da portugalidade no mundo.

Na verdade, um mundo aos nossos pés.

ah, grande Lisboa!… (5)

Não está tudo assim, mas há tanta coisa assim, senhores!…

Mesmo ali, junto ao castelo de São Jorge, no que seria uma zona ex-libris para os lisboetas e uma área nobre da imagem de Lisboa que pretendemos exportar, nas ruinhas repletas de turistas, colhendo fotografias a torto e a direito, fazemos questão – assim parece, pelos vistos – de dar de nós o ar do desmazelo e da parolice.

Uns cêntimos para o reboco, é mentira; a portinha em alumínio reluzente, é verdade. Pelo caminho, aqueles misteriosos cabos que cruzam tudo o que é frontaria de prédio, como se de praga viral se tratasse, a modos que varizes da cidade…

Pobre Travessa do Funil, onde se afunila este desinteresse militante e aculturação aos gritos, que nos deixa pasmos de como é que nos deixamos desvalorizar tanto!

poesia vadia, hoje

A Ler Devagar e a Eterno Retorno, ambas conhecidas e renomadas livrarias do Bairro Alto, conciliaram esforços e, no seguimento de vicissitudes várias, iniciaram um projecto comum no Braço de Prata.

As sessões de Poesia Vadia, com uma existência regular de cinco anos, foram também perturbadas pelas invocadas vicissitudes. Mas irão agora retomar outro alento nestas novas instalações, tendo a primeira sessão lugar já hoje, dia 03 de Outubro, pelas 22 horas.

Ler, então, devagar e num eterno retorno em braço de prata, parece-me bem…
Como sempre, aos interessados, pedem-se poemas e disposição de partilha.

A regra de ouro é apenas uma: não haver regras.

Até mais logo, então.

ah, grande Lisboa!… (4)

– miradouro de Santa Luzia

Lisboa tem rio e mar sempre por perto. Os homens é que se afastaram deles, convencidos de que rio e mar são só caminhos. E porque os dias de hoje os fazem lentos tornam-se, então, dispensáveis.

Mas eles são mais do que caminhos. Vai neles correndo o sangue que em nós palpita, esse sangue onde talvez singre a nossa alma e que tantas vezes consideramos dispensável.

Isso leva-me a pensar que o rio e o mar afinal são feitos de nós e nós somos feitos deles.

Faz lá algum sentido esse olhar tão distanciado…

É como não escutar os gritos de socorro que cruzam a cidade perante a indiferença das consciências adormecidas.

– junto a um painel da Junta de Freguesia do Socorro, os velhos azulejos desmoronam-se, sem serventia e sem atenção, como todos os velhos. – fotos de Jorge Castro

as palavras enleadas com afectos…

… são para servir à mesa com o condimento que cada um achar mais apropriado.
No dia 27 de Setembro, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, lá estivemos, com o Jorge Casimiro e o seu excelente livro murmúrios ventos, dando a voz aos seus poemas. Pedi emprestada a foto ao Dionísio Leitão:

Depois, no sábado, dia 29, muitos dos sessenta e seis autores, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, degustaram o prazer do convívio e da partilha, em torno do lançamento dos dois volumes (III-Poesia e IV-Prosa) do projecto Escrever É Um Lugar Tão Perto.

Como se esperava, nada de transcendente. Apenas os tais “gritos no céu e actos na terra”, do Gabriel Celaya, e esses, meus caros amigos, já ninguém no-los tira!