ah, grande Lisboa!… (7)…

… ou o drama suburbano da classe média (cada vez mais) baixa…

Oeiras. Sete horas da manhã. Um dia de sol se anuncia. Será que a vida nos vai sorrir? Como é que estará o trânsito, hoje? E é sempre a mesma rotina: a cem metros da portagem, mesmo (ou sobretudo) na Via Verde começa a bicha-fila ou a fila-bicha, a toldar-nos a esperança, porque, numa rara manifestação de inteligência, após as portagens, quatro filas de trânsito se transformam numa…

Os espertos, os atrevidos e os artistas de circo das estradas começam a saltitar qual pulgas em pêlo de cachorro molhado.

Meia-hora bem batida para chegar à A5… que já está, também, completamente entupida até ao nó de Linda-a-Velha e ao Estádio Nacional, como se anuncia na Antena 1 e está mesmo ali aos olhos de todos.

E lá está ele! Diariamente empedernido! Estúpido! Burlesco! Idiota! A gozar com a cara do pagante que acabou de largar 30 cêntimos na portagem para entrar na bicha-fila! Em todo o seu esplendor, o anúncio da Brisa: TRÂNSITO LENTO – SEJA PRUDENTE.


Mas como e para quê, se o trânsito está, invariavelmente parado? Lá tenho mais de uma hora para chegar a Lisboa, percorrendo 17 miseráveis quilómetros!

Ao menos, mudem-no… Sei lá, qualquer coisa do tipo: TRÂNSITO LENTO – TENHA LÁ PACIÊNCIA, AMANHÃ HÁ-DE SER PIOR… ou VÁ DE COMBOIO, SEU PALERMA, CARROS HÁ MUITOS!

Agora, ‘seja prudente’ com o trânsito parado, só mesmo contra risco de adormecimento. E, nesse caso, melhor seria instalarem sirenes. E ainda assim eles batem que se fartam!… Um comentário político: dir-se-á que este caos diário é uma delícia para o poder que, em cada aceleradela, vê entrar mais uns cobres em impostos sobre a gasolina para o Estado. Uma sugestão (masoquista): e que tal multar estes gajos todos por circularem numa auto-estrada abaixo do limite mínimo de velocidade? Ainda não pensaram nisso… Andam distraídos! É só montar umas camarazinhas… e zás-zás!…

fotografando o dia (93)

asas
barcos
e água

um voo branco
sobre as cores que povoam a lagoa
bordada de verde escuro

há formas

quase humanas
numa ânsia de voar
brancas
sobre a água
e sobre as cores que povoam a lagoa
– foto e poema de Jorge Castro

– Parque D. Carlos, Caldas da Rainha
*
Positivamente falando…

… deixem-me anunciar-vos a aventura em que um jovem casal de professores portugueses decidiu embrenhar-se:
– numa diáspora algo subvertida, pois o intuito não surge como o procurar o paraíso na terra, mas sim voltar a casa com o enriquecimento da descoberta dos paraísos possíveis, bem como dos infernos inevitáveis, ei-los que partem numa viagem de um ano, calcorrendo as veredas do mundo, em duas dezenas e meia de destinos determinados.
A palavra e a imagem os acompanham. Nós, receptores, vemos e sabemos com os olhares emprestados em Histórias do Mundo Uma Volta ao Mundo. Mais de 70 000km. Doze meses em viagem. Cinco Continentes. Quatro biliões de pessoas. Três Oceanos. Dois Olhares. Um Planeta Único.

Vejam, disfrutem, vivam e divulguem. Por aí passa, também, um apoio possível. Do aconchego relativo do meu lar, não consigo evitar um estremecimento de inveja… Ou será uma vontade de acompanhar o voo?

algum desânimo… ainda que muita revolta!

– Temos, em Portugal, 2.000.000 (dois milhões) de pobres, oficialmente reconhecidos, ou seja, cerca de 1/4 da população, sendo que outro tanto vive na dependência de subsídios do Estado para sobreviver;

– Temos, em Portugal, a gasolina mais cara do mundo;

– Temos, em Portugal, fome às escâncaras nos grandes meios urbanos;

– Temos, em Portugal, a electricidade das mais caras do mundo;

– Temos, em Portugal, das mais elevadas taxas contributivas do mundo;

– Temos, em Portugal, a maior taxa de abandono escolar da Europa;

– Temos, em Portugal, uma Ministra da Educação e um Ministro da Saúde absolutamente determinados em acabar com a razão de ser dos ministérios de chefiam;

– Temos, em Portugal, o José Sócrates como Primeiro Ministro;

– Temos, algures, António Guterres como Alto Comissário da ONU para os refugiados;

– Temos, em Bruxelas, Durão Barroso como Presidente da Comissão Europeia;

– Temos, em berço de oiro, Victor Constâncio como Governador do Banco de Portugal – com um rendimento declarado, em 2005, de mais de € 280.000 e aplicações financeiras, também declaradas no mesmo ano, superiores a € 570.000 (vide DN online).

– Temos, em Portugal, o maior treinador de futebol do mundo no desemprego e o outro maior treinador do mundo de castigo internacional, por caceteiro;
– Temos, em Portugal, um Jardim Gonçalves e um Alberto Jardim, o que nos deixa esclarecidos quanto à beleza e majestade das nossas zonas verdes;
Conclusão:

Sabemos que o mundo não está um sítio muito respeitável e apresenta, até, baixos índices de segurança para nele se viver. Mas neste recanto ensolarado do mundo, fede e tresanda de tal forma o desviver e as malas-artes em destruir cada alento de vida que, muito rapidamente, ou inventamos determinação e coragem para correr com estes espantalhos ou, então, talvez não mereçamos mais, realmente, do que vir a ser colonizados por alguém que a tal aventura se proponha…

convites

“… maldigo la poesía / concebida como um lujo / cultural por los neutrales / que, lavandose las manos, / se desentienden y evaden…” – Gabriel Celaya, in La poesia es una arma cargada de futuro. Com um agradecimento ao Morfeu, veja-se aqui a versão de Paco Ibañez.
Porquê? Ora, porque vem a propósito de tantos dislates que vou ouvindo… e porque me estava mesmo a apetecer!
Entremos no assunto: semana de trabalho poético árduo, em cima do trabalho das rotinas. O melhor que vos posso dar é convidar-vos para as diversas sessões em que estarei envolvido:
1.
Quarta-feira, dia 17, pelas 22 horas, na Biblioteca de São Domingos de Rana – nova sessão de Noites Com Poemas 2, tendo como convidada Ana Paula Guimarães, em redor do tema Poesia Com Tradição.

2.
Quinta-feira, dia 18, pelas 16 horas, na Livraria-Galeria Verney, em Oeiras, sessão a meu cargo, com o tema Poemas Contra A Corrente.


3.
Sexta-feira, dia 19, pelas 21h30, no Padrão dos Descobrimentos, em Belém-Lisboa, apresentação do livro com o relato de viagens pelas quatro partidas do mundo, da autoria de Pedro Mota, com o título Quatro Ventos, Sete Mares… aqui apenas como convidado.

4.
Sábado, dia 20, pelas 16 horas, na Junta de Freguesia de Carcavelos, apresentação do livro de poesia da autoria de Carlos Peres Feio, PodiamSerMais.

fotografando o dia (92)

– Padrão dos Descobrimentos, Lisboa
conduzir à mão a pena e a caravela
num sonho de poente iluminado

tanto o mar que apetece
e de repente
descobrir o que é do mar
no outro lado

– foto e poema de Jorge Castro

perplexidades…

– A (pobre, pobrinha) unidade de Oncologia do Hospital de Cascais vai fechar por ser tão pobre, tão pobrinha… Então e não será mais avisado melhorá-la, reconstruí-la, recauchutá-la do que fechá-la?… Os doentes oncológicos deverão deslocar-se a Lisboa, em alternativa? Essa tal curta distância de 25 quilómetros que chega a levar duas horas a percorrer? E recorrerão a quê? A outra Instituição com deficientes condições? É que a oferta é tão pouca…
*
– Catalina Pestana diz que os abusos sexuais sobre menores continuam na Casa Pia – a propósito, o que é que ela lá esteve a fazer? – mas vem de lá a secretária de Estado para a Reabilitação e diz que desconhece tais factos ou eventuais denúncias; mas returque o casapiano Pedro Namora que, sim senhor, aquilo voltou a ser uma pouca vergonha; ao que o seu companheiro de infortúnio, Adelino Granja, se apressa a comentar que nem tanto ao mar, nem tanto à terra… A actual provedora, Joaquina Madeira, diz que nem sabe de nada nem Catalina Pestana a terá informado do assunto, o que Catalina, de imediato, diz que é mentira… Está mesmo tudo a ficar parvo, ou é da minha vista cansada?
Catalina, se estiver cheia de razão, como explicará que, mal passados cinco meses da sua saída, tudo tenha voltado à estaca zero? E não achará que uma denúncia deste teor, assim lançada aos ventos, vai conspurcar tudo e todos, por muita razão que tenha? Se eu fosse funcionário da Casa Pia, creio que estaria agora com vontade de lhe ferrar uma valente e merecida bengalada. É que ele há uma coisa chamada Constituição da República que nos fala do direito ao bom nome e reputação… A suspeita sem nome nem cara atinge todos. Ainda que quem se lixe sejam geralmente os mais fracos, os coxos, com menos ‘pernas’ para fugir, claro…
*
39,2% de abandono escolar em 2006; 35 mil docentes no desemprego; investimento na tecnologia da educação 48% da média europeia e 80% das despesas das escolas em Tecnologia de Informação e Comunicação a serem suportadas maioritariamente por receitas próprias, professores no ensino oficial a ganharem à hora (vulgo recibo verde), por trabalho à peça” – isto é tudo verdade, senhora Ministra? Esclareça-nos depressa, carais, que a coisa assim está preta!
*
Porque será que eu pago, todos os dias, das sete às dez da manhã, uma portagem de 30 cêntimos, em Oeiras, para percorrer 15 quilómetros numa hora e meia de ‘bichas’ até Lisboa? Pelo caminho vou largando os impostos sobre o combustível, os impostos sobre a aquisição da viatura, o imposto de circulação… Por este andar, um destes dias pago isto tudo para andar parado. Está bem, a esta respondo eu: é porque sou parvo. Está certo e adiante, que o assunto não interessa nada, nem a ninguém!
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Na rua onde habito vai para vinte e cinco anos só vi uma vez um carro-patrulha da polícia, e foi porque houve um acidente tramado à minha porta e alguém os chamou. Estou, pois, cheio de inveja daquele sindicato de professores que, só porque o Sócrates andava nas imediações, teve direito a uma visita privada da polícia e, ainda por cima, lhes acartaram uns papéis velhos que tinham lá para um canto… É assim: isto já não há igualdade de direitos ou de oportunidades!
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Ele há a doença do nemátodo que ataca os pinheiros, ali na margem sul do Tejo. Vai de os abater, para não haver contaminação ao país inteiro. Diz que o custo era de três milhões de euros, mas o milhão de pinheiros a abater passou para cinco milhões, que isto das doenças, em pegando, é de estaca! Bruxelas, condoída, manda dezassete milhões de euros para ajuda. A empresa que deitou abaixo os pinheiros diz que, afinal, o trabalho arremata-se por setenta (!!!) milhões… Mas, bem negociado, está na disposição de se ficar pelos trinta milhões de euros (!!!???). Eeeeeeeeeena, pá…. tantos milhões!!!!
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Mas o que é que esta tropa fandanga toda anda a fazer com o dinheiro dos impostos? A mim o que sinceramente me espanta é que nesta terra não haja (ainda) mais poetas!