ah, grande Lisboa!… (10) – La Farse Manouche

Preciosidades – para quem diga que passo a vida a dizer mal, o que nem é verdade, mas não faz mal porque, por enquanto, eu vou dizendo o que dá na veneta… – e sugestão: se ouvirem falar do grupo La Farse Manouche, vão lá ver e ouvir e, depois, digam-me de vossa justiça.
Como anunciado em entrada anterior, na Sociedade Guilherme Cossoul, em Lisboa, assisti a uma sessão de jazz com este terceto (na foto, o guitarra Nuno Serra). Sugestões de Django Reinhartdt, inspiração em Biréli Lagrène, dois guitarras e um contrabaixo garantem a festa. Garanto-vos eu que saí de lá sem me doer nada e mortinho por saber onde será a próxima. Terapia ocupacional urbana do melhor.

No intervalo até se me deu para um “repente”:

se ao som de notas me embalo
se noto em mim este som
porque não hei-de escutá-lo?
porque não sentir-lhe o tom?
porque lá falar eu falo
porque falar é um dom
mas ouvir é um regalo
que dá ao vento a feição

se ao som de notas me embalo
se eu bailo até mais não
se houver um céu vou tocá-lo
de pés assentes no chão

e na música revolta
que vai de mim ao infinito
hei-de em cada nota solta
soltar a voz com que grito

jamé, jamé!…

– Esta indecisão de Suas Excelências é susceptível de provocar perturbações no mais avisado… Tanta certeza, tanto jamais, tanto deserto e tanto camelo, vai a ver-se e dá nisto. Não pode um cidadão confiar em ninguém. Abençoadas mãos caridosas que guiaram tanta cegueira, tanta imponderabilidade… E foi acto de caridade, que ainda hei-de ver o freeport de Alcochete ir, de joelhos, reverencialmente a Fátima.

Estava capaz de ensaiar um passinho de dança ao jeito popular:

Juraria ter ouvido
A decisão do ministro
Mário Lino pela Ota
Afinal foi um falsete
Indo da finta à batota
Sócrates quer Alcochete

Já não sei se faz sentido
A cantiga do bandido
Manobrada a toda a hora
A ver bem por este andar
Inda descobrem j’àgora
Ser melhor no alto mar…

– acróstico de Jorge Castro *Ainda a tempo de um bom início de fim de semana:Hoje, à noite, pelas 21h30, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul -Av. D. Carlos I, nº 61 – 1º, em Lisboa – Alcides Miranda (guitarra) Nuno Fernandes (contrabaixo) Nuno Serra (guitarra), inserido nos Encontros de Jazz, La Farse Manouche.Música, pois. Toujours, toujours!…

nem referendo, nem vergonha, nem Sócrates…

Parece-me evidente que, depois de tanta encenação, Sócrates não se arriscaria a correr o mais ínfimo risco de que um referendo, em Portugal, chumbasse o novo Tratado. Poder admitir o contrário é que me pareceu, desde sempre, algo néscio.
De Lisboa, já viram bem? Quanta glória imediata para quem enferma deste provincianismo militante de julgar que o título bastará para a nossa glorificação futura na História.
Curiosamente, dou por mim pouco ralado com esta aldrabice do Tratado… Ou também já estou a sofrer os efeitos das anestesias, ou é o meu inconsciente que, mais clarividente do que eu, já sabe que mais tratado, menos tratado, tudo irá seguindo o seu caminho: de um lado quem quer, do outro quem pode.
O que me interessa reter é, tão apenas, o seguinte: o referendo ao Tratado foi uma promessa eleitoral de Sócrates, com base na qual, entre outras, o bom povo português lhe proporcionou a maioria absoluta. Ponto final e não se fala, também, mais nisso.
Ele sabia bem ao que ia quando fez a promoção que fez durante a presidência europeia. Obviamente não iria deitar tudo a perder com uma eventual nega do bom povo português, algo imprevisível em momentos cruciais, o que iria criar um embaraço insustentável aos nossos queridos (des)governantes.
Os seus pares podem estar seguros: Sócrates não os trairá.
Da mesma forma, os portugueses podem estar seguros: Sócrates trai-los-á sempre que lhe for preciso ou conveniente.
Ninguém tem, pois, razões para andar enganado.
*
Amante fervoroso da liberdade, não cesso de me abismar com a estultícia do homo sapiens democraticus revelada em algumas formas que descobriu para atingir a chamada democracia representativa.
Aí está a campanha dos EUA. Os candidatos “democráticos” estoiram fortunas para ganharem posição sobre os outros candidatos… “democráticos”. Os candidatos “republicanos”… fazem o mesmo em relação aos “republicanos”.
No fim, o melhor de cada lado corre o risco de vir a ser vencido pelo (finalmente) suposto adversário não nas urnas, mas através de uma golpada administrativa qualquer, como aconteceu com Al Gore. O povão, entretanto, por lá anda…
E o mundo todo tão necessitado de recursos que assim se malbaratam em palhaçadas.

fait divers, que é como quem diz
factos diversos…

ensino de burka? ensino de borco? ensino burocra?…

Garanto-vos! A imagem abaixo apresenta um espécime de pessoal docente lusitano contemporâneo, obrigado a estar tanto tempo no ambiente soturno da escola onde faz reuniões, trata de papeladas e, nos tempos livres, dá aulas, que facilmente se ofusca quando tem uma nesga de oportunidade para ver a luz do dia…

felizmente há luar… e vaidades

Tenho andado perturbado, vai para cima de uma semana, porque estou sem saber por que cargas de água é que um tal Carlos Paredes tem andado baldado aos treinos do Sporting, em Alcochete. Perturbado, mais na perspectiva de tentar perceber o que é que eu tenho a ver com isso, para tanto jornalista andar nesse afã de perder horas e de mas fazer perder a mim com tão momentosa notícia.
Claro que imagino, na minha supina ignorância das coisas dos futebóis, que este Carlos Paredes nada tenha a haver daquele outro que nos delicia, recriando imaginários em tons ardentes de guitarra portuguesa e de quem tão poucos jornalistas falam…

Aí, a redenção: um amigo presenteia-me com mimo natalício, que me envaidece. E conta-se em duas penadas: tendo participado na organização de uma caminhada pela Serra da Arrábida, durante o repouso dos caminheiros em pleno areal, frente ao mar e em exercício de descontracção, promoveu esse meu amigo uma leitura colectiva do meu livro Sopa de Pedras, com agrado geral dos circunstantes, segundo relato que me fez chegar.

Estou vaidoso, claro. E embevecido, também. E quem nunca pecou, antes de lapidar alguém com fúria desconexa… que vá atirar pedras ao mar, que isso passa-lhe!

– fotos de
Maximiano Miguel


ontem, hoje e amanhã… ou como adorar os doces deuses caseiros

Não há muito tempo, abrir uma escola era motivo de orgulho nacional. Hoje, há quem se orgulhe e vanglorie de a fechar.
Não há muito tempo, preocupávamo-nos com a dificuldade em promover a saúde ao alcance de todos. Hoje, há quem contabilize os mortos por falta de assistência como meros acidentes de percurso.
Não há muito tempo, o público e o privado eram zonas eticamente imiscíveis. Hoje, há quem os considere parceiros de um swing deliberadamente obsceno e consensualmente apetecível.
Não há muito tempo, a justiça social era conceito que passava pela justa remuneração do trabalho ou da luta por esse objectivo. Hoje, há quem considere que um gestor pode auferir balúrdios pela ‘dignidade’ da sua função – que, na generalidade, se traduz em malbaratar dinheiros públicos e promover alucinados lucros privados – enquanto ao ‘colaborador’ (termo cretinóide e embusteiro que esses gestores da treta aplicam a quem trabalha) lhe basta sobreviver no limiar da indigência.
É, aliás, curioso e formativo ouvir entendidos de meia-tigela assegurarem que no ‘mercado livre do trabalho’, quando um trabalhador perde um emprego, ao mudar para outro (milagre, desde logo!) é natural que vá auferir de um salário inferior. Sempre vai começar algo novo, sem experiência, e tal…
O mesmo entendido da mesma meia-tigela considera, da mesma forma, natural que, sempre que um gestor rode de um poleiro para outro, vá sempre ganhando um pouco mais… quiçá por uma ordem divina das coisas e por uma lógica transcendente, que distingue o mundo e o divide com a aplicação de deuses de conveniência em função dos cargos desempenhados.
Equívocos, porventura. Embustes, seguramente. Eu, cá por mim, assisto à beleza constante de um pôr-do-sol que não há muito tempo era assim belo e que, hoje, continua a sê-lo… E, enfim, com toda a presunção que a água-benta me permita, não me tenho muito na conta de reaccionário, mas, humildemente, qual soldado Chveik do Jaroslav Hasek, aqui me deixo à avaliação de algum entendido…

– foto de Jorge Castro

2008 e 4 anos de Sete Mares

Cumpre-se mais um ano e outro mais já lá vem.

Sete Mares cumpre o seu quarto ano de marés, como forma estimulante de partilha e forma privilegiada de manter um contacto com o mundo e com a vida, onde o saldo se tem revelado largamente positivo.

Se a poesia é, entre tantas outras coisas, a arte superior de juntar palavras que, ontem ainda, mal se conheciam; se é, ainda, essa forma especial de nos expormos para além do visível; se, por fim – mas ainda com tanto para dizer – é a superior forma de partilha pela qual quando ‘penso nos outros, logo existo’, que 2008 se revele, para cada um dos visitantes que me honram e alegram com a sua presença, um ano poeticamente perfeito…

Que 2008 nos permita atingir as mais felizes e alegres realizações e que delas resulte um mundo melhor para todos.

dizer o quê de profundo
só por dizer sem proveito?
trazer à boca do mundo
o quanto dele é imperfeito?
dizer o quê ao chegar um novo ano
para mais sendo ele 2008?…
– ora, que não venha com ele mais desengano
e, à falta de melhor, traga um biscoito!