Dizem-me que houve, há dias, o dia do beijo. Ora, para o bem de nós, é melhor que nos beijemos sempre que apetecer.
E, por falar nisso, preparando uma sessão em que estarei, hoje, envolvido, tropecei com este meu poema, que vos deixo, e que já conta com uns anitos de ver a luz do dia. Espero que ele vos estimule o dia…
beijo
vês? chegámos de novo a Abril e os teus olhos abrem-me sempre novas madrugadas os teus seios de oferendas mil ensejos mil moradas
o teu ventre abre-se em flor e cruzas o tempo na promessa de um prazer que é quase dor ou quase sede de que abusas
e a tua pele quando me acolhe de veludo a maciez mas quase ardência nessa urgência em que eu pare e p’ra ti olhe e ao de leve te pressinta uma premência de ti um fremir quase ventura que estremece porque tanto me apetece dos teus lábios a suave comissura
a minha língua toca-a levemente e os teus lábios recebem-me e desenham-se em sorriso e afogam-me e bebem-me sem aviso e o tempo voa assim sem dor nem hora porque é feito de Abril o que em nós mora.
Porque hoje é sábado, como diria o velho Vinícius, fui passear até ao parque para tentar corresponder ao desafio que o Carlos Peres Feio fez para o próximo dia 15 de Abril.
DESENHANDO NO PARQUE
– em contemplação bucólica (também faz falta…) num jardim que me acolheu
vou ao parque e faço um traço no espaço que deslaço onde a vida se entretém risco a risco lá me arrisco enquanto o sol permanece enquanto a noite não vem
sinto o verde que apetece e as flores que mal despontam sob os pés de mil passantes e na sombra do arvoredo estão dois jovens amantes que despertam nostalgia num beijo que é dado a medo à pressa e sem demasia
no espelho da lagoa as aves criam enredos perturbando a quietude que os peixes cruzam à toa e os meus traços são vontades que afloram o papel recriando realidades como ave quando voa
nesta paleta de cores não me cabem os odores nem os gritos de criança é o que vejo e pressinto neste parque onde me sento p’ra além do que a vista alcança
nem há guerra nem há paz só tanto o que à vida vem quanto à vida satisfaz
lá estou eu sem lá estar bem pois por mim nem sequer dou em tanto que o parque tem.
Proponho-vos um pequeno passeio por algumas das famílias que temos cá por casa, a maioria produto de trabalho artesanal, acompanhado do poema que destino, este ano e como habitualmente, à época que atravessamos.
O vídeo, naturalmente, ainda é o mais artesanal de todos os trabalhos, mas vai carregadinho das melhores intenções.
Com renovados votos de boas festas, um novo ano pleno de felizes realizações… e saudinha da boa!
Apenas como exercício mental ou de divulgação da nossa Literatura, ocorreu-me desenvolver quadras que me fossem suscitadas por títulos de obras de escritores portugueses, sendo que cada título deve rematar cada quadra. Enfim, podia dar-me para bem pior… Assim, para as primeiras impressões, cá ficam:
Luís de Sttau Monteiro
quando a Lua predomina num enredo junto ao mar é a vida que se anima pois FELIZMENTE HÁ LUAR
Vitorino Nemésio
era o vento agreste o vento um tormentoso sinal nesse mar fero lamento por MAU TEMPO NO CANAL
Fernando Pessoa
nas pessoas de Pessoa tais e quais de ego a ego é Soares quem nos entoa o LIVRO DO DESASSOSSEGO
José Cardoso Pires
não será só um cetáceo mas tenho cá para mim sentir algo mais coriáceo no enredo d’O DELFIM
Raul Brandão
valerá por mais razão saber porquês saber comos ao ler de Raul Brandão a obra maior – o HÚMUS
António Lobo Antunes
saber de cus? – bom sinal já que assim bem mais me ajudas pois que eu procuro afinal onde são OS CUS DE JUDAS
Herberto Hélder
das voltas que a vida dá em volta da vida à solta volta e meia volto lá a dar OS PASSOS EM VOLTA
Carlos de Oliveira
leio muito sem canseira e se o tino me não erra era Carlos de Oliveira o autor de FINISTERRA
Jorge de Sena
na sua escrita indócil não faz da escrita um jogo nem é de leitura fácil leiam-lhe OS SINAIS DE FOGO
Valter Hugo Mãe
há coisas estranhas também neste mundo em maus lençóis ser criada por um Mãe A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS
Lídia Jorge
da vida e do seu alforge retratando as almas nuas traz serena a Lídia Jorge O VENTO ASSOBIANDO NAS GRUAS
Afonso Cruz
se não sabeis sabereis não que se diga ou se veja mesmo ao contrário das leis JESUS CRISTO BEBIA CERVEJA
Ramalho Ortigão e Eça de Queirós
há um riso desabrido e ouço um soar de harpas quando leio embevecido um episódio d’AS FARPAS
apelo despudorado deste povo hospitaleiro muito alegre e estouvado mas carente de dinheiro
entre entre senhor Turista tome assento faça vista pois se o senhor não vier vamos de mal a pior nem haverá gente aqui nem aqui nem acolá com todos ao deus-dará sem saber o que fazer neste país de aluguer onde o destino de tantos é buscar pelo mundo afora alguns cantos e recantos onde ganhe a vida à hora já que por cá só a perde e encontrá-la… demora
se não vier com presteza cá lhe deixo uma certeza: o governo ruirá tribunais – outros que tais o parlamento um tormento e presidente outro mais todos quais baratas tontas sem saber o que fazer com as tantas soltas pontas deste país a encolher e se o senhor não vier se faltar a sua ajuda vai ser um deus-nos-acuda ou pior se-deus-quiser
venha lá senhor Turista traga o euro e a alpista que a pardalada tem fome pois ele há muito olival fruta avulsa amendoal mas ninguém lhes sabe o nome entre estufas escondidos como outrora alguns bandidos se escondiam no arvoredo desses não há pois coitados por tanto incêndio assolados estão expostos demais … ou então esturricados como os outros animais
venha ao golfe ao futebol às praias com pôr do sol e à noite cheia de estrelas venha ver as caravelas que fazemos no chinês e se não lhe bastar isso ainda terá na paisagem o baloiço o passadiço a sardinha o arraial que dizem por sua vez muito made in Portugal
venha ao magote às carradas à molhada em dasatino que ele há cerveja às litradas ou um Porto de honra fino à espera de tal hoste para que não se desgoste e connosco se confunda
venha lá mas não abuse pois com tal peso não aposte que este país não se afunda…