viva José Afonso!

Não é da natureza deste espaço dar destaque a comemorações por morte de alguém.
Talvez por isso mesmo hoje e aqui se celebre uma memória viva, presente e actuante que nos enforma a todos, mesmo até àqueles que o desdenharam em vida ou que o receiam na morte.
Por quanto lhe estamos ainda a dever, enquanto Povo, enquanto gente, 
que nos viva José Afonso!

Dionísio Leitão – um abraço sem tempo

Captador de imagens de primeira água, como o são todos aqueles – e apenas esses – que olham o mundo com olhos de ver e sabem descortinar o outro lado das coisas, das pessoas, da Vida, o Dionísio Leitão, através do seu blog Catedral, primeiro, e depois em várias outras circunstâncias de vida, foi um companheiro cujo convívio se me revelou sempre um estímulo para momentos de poesia – e de cidadania – de que fazíamos mútuo eco.
Recebi, há momentos, uma mensagem de amiga comum, informando-me do seu falecimento… Não encontro melhor homenagem a prestar a este amigo do que deixar aqui duas imagens com que ele nos brindou e a que eu tive o privilégio de poder juntar a minha poesia. 
Dois poemas, também, que tive a honra de ver publicados no seu blog, numa simbiose de sentimentos e sensibilidades a que, amigo Dionísio, ainda haveremos de brindar uma vez mais e outra e outra nalgum recanto do universo.  

Esta noite poderia escrever-te os versos mais tristes
como Pablo Neruda
ou dizer-te da minha recorrente vontade de ir a Samarcanda
como Bernardo Soares
diversa apenas a vontade de ir a Samarcanda
porque a tua presença me seria imprescindível
eu que nem mesmo sei que língua falam hoje em Samarcanda
ou o que por lá estará hoje acontecendo
Porque a tua ausência te cala em mim
poderia mesmo escrever-te uma carta de amar
que gritasse dentro de mim a tua ausência
e que no voo tangente das palavras
todos achariam ridícula
só eu não
– e daí quem sabe? –
Poderia imaginar-te silhueta
por entre silhuetas de pinheiros
feita de bilros e devaneios da Lua Cheia
derramando-se de luz ao longo de todo o mar
até tropeçar com o areal
e a terra toda
até envolver todos os amantes
que à beira-mar se consumam
como se o tempo se lhes acabasse ali como a terra
ou apenas se desesperam no amor
como se amassem apenas porque se procuram
quando o areal barra a luz fluida vertida pela Lua
poderia dançar contigo um tango argentino
conduzir-te na volúpia dessa dança
que
conforme dizem
ao homem compete conduzir
apenas para
e por uma vez só
te conduzir
eu de negro
Gardel
Terrível e alucinado
e tu
o teu vestido vermelho
rasgado com uma faca de seda
ambos efémeros, diáfanos e amantes
… se eu soubesse dançar
Ah, se eu soubesse dançar!
Poderia até tentar dizer-te um poema
que me impressionasse
apenas por te impressionar
um poema que falasse de Neruda
de Bernardo Soares
e de silhuetas diluídas nos pinheiros
mas que tivesse um lugar íntimo
para as estrelas de outros céus imaginados
luas
amores
e areais de vento
um lugar que nos enleasse no ritmo das marés
e seríamos românticos e dramáticos personagens de Pratt
solitários navegantes numa paixão de quimeras
Maltese com um brinco a preto e branco
vendo o Sol poente enfunando as nossas velas
com cores de luz que o Sol traz do mundo todo
E é por isso
que aqui estou
perto de ti
tenho as mãos quase cheias de nada para te dar
mas tenho um mar que não é meu
e um poema
sinto a Lua que nos foge entre os pinheiros
sinto ânsias de enleio em doce tango argentino
e hei-de sentir-te junto a mim em Samarcanda

-Jorge Castro –

Amizades inocentes. Verdadeiras.

Entretanto o OrCa resolveu legendar a fotografia e, portanto, aqui vai ela:

Beija-lhes a água os pés
Numa carícia de mãos
Será só água talvez
Mas para os dois é um chão
De crescer
E de verdade
Ao longe adivinho amor
De perto sei amizade…

– Jorge Castro –

Eduardo Simões – homenagem e exposição

 Conheci um eminente Matemático que me deu o prazer de cruzar comigo caminhos de Poesia, de seu nome Eduardo Simões. Homem sempre afável, interessado, conhecedor…

Aqui há poucos meses atrás, resolveu deixar-nos entretidos cá por este mundo e rumou a outro. Entretanto, teve, ainda, tempo de nos deixar uma (mais uma!) exposição sobre a “sua” Matemática, para a qual recomendo vivamente a vossa visita.

Deste excelente Professor se sabe, na nota divulgada na exposição, que “desenvolveu permanentemente trabalho no domínio da dinamização e divulgação da Matemática, através de uma constante pesquisa e da construção de materiais lúdico-didáticos, aspecto em que foi percursor, fabricando e adaptando os mais variados objectos para fazer entender e tornar mais simplificadas as matérias“.
Podem, pois, ir conhecê-lo na Formiga, ali à Rua de Arroios, 133 (telef. 21 315 80 85), em Lisboa, onde se encontra a exposição. Pelo caminho – e melhor ainda se tiverem convosco gente pequena – aproveitem para ver a panóplia de jogos e brinquedos didáticos em que aquele estabelecimento é especializado e que tanto têm a ver com o espírito do Eduardo.

Etimologicamente, Escola é um lugar de recreio, um espaço lúdico, onde a aprendizagem se faz pelo amor às coisas e ao saber que o lidar com elas nos traz.
Esse era o caminho do Eduardo Simões.
“Poeta e humanista também no seu dia a dia, as suas relações sociais pautaram-se pela honestidade, pela solidariedade e pelo idealismo.”
Um daqueles homens que nos constroem, que são a alma mesma daquilo a que chamamos cultura… O Eduardo Simões, o seu tímido sorriso e as suas guitarradas cheias de graça, andarão sempre por aí, a fazer contas à vida, pregando uma partida aos amigos e sendo a boa memória dos seus alunos.

vanitas vanitatum…

Comentário no dia 25:

A todos os visitantes muito agradeço os cumprimentos. Pelas Caldas da Rainha a festa correu mais do que bem e a sala estava cheia de gente boa, interessada e participativa.
A vida não nos corre sempre mal quando há empenho – e vale isto para agradecer publicamente aos que especialmente se empenharam na realização deste encontro, a Fátima, a Rosa e o Carlos, deixando um grande abraço para todos os demais.
Encontro que o foi de afectos, não deixando de ser, também, de combate pela cidadania. Só por isso valeria a pena comemorar um aniversário todos os dias…
Um grupo de amigos das Comunidades de Leitores e de Cinéfilos das Caldas da Rainha, considerou-me merecedor de uma amável homenagem, com apresentação do meu livro “Contra A Corrente”, no próximo dia 24 de Fevereiro.

Sinto-me orgulhoso, como é óbvio, e negá-lo seria néscio e incoerente. Permitam-me, pois, que extravase aqui esta vaidade.

O encontro – que terá lugar às 22 horas – será antecedido por um jantar (pelas 20h), no restaurante A Mimosa, na Praça 5 de Outubro, nas Caldas da Rainha.

Se algum daqueles que me lê quiser dar-me o prazer da sua companhia, poderá inscrever-se pelos telefones 96 534 45 00 ou 96 704 35 53.

pós-de-escrita: segundo consta no meu BI, foi também
neste dia 24 que, há uma mão cheia de anos a esta parte,
eu fui lançado a este mundo…