Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

Cristina Carvalho e André Gago
trouxeram-nos António Gedeão
nas Noites com Poemas

Torga dizia que um poeta não morre, ainda que todos saibamos da relatividade da afirmação perante a dimensão e inexorabilidade do tempo. No entanto, está nas nossas mãos contrariar essas inevitabilidades, adiando-as até ao infinito, através da preservação da memória e a divulgação da sua palavra.  
Foi esse exercício de eterno retorno, de tributo e homenagem, que teve lugar na nossa mais recente sessão das Noites com Poemas, pela mão da escritora Cristina Carvalho, que em boa hora se fez acompanhar por André Gago, para nos falar da personalidade e da poesia de António Gedeão, dando alma e emprestando voz aos seus poemas.    

Após a recepção e boas-vindas habituais aos presentes, coube a Carlos Peres Feio fazer a apresentação da nossa convidada, Cristina Carvalho, que nos brindou com um outro olhar, mais próximo, mais envolto em afecto, sobre o nosso poeta-cientista-historiador, pedra basilar de referência – ou pedra filosofal, se preferirem – dos amantes da palavra em forma de poema.

A sala – magnificamente preenchida, diga-se e sublinhe-se, com gáudio e orgulho – esteve longe de ter dimensão capaz de acolher tantos interessados. 

A tempo e por bem justo merecimento, foi feita a referência devida à filha de peixes que sabe nadar, com referências, também, à obra escrita de Cristina Carvalho.   

André Gago foi um contraponto emocionante à amena conversa de Cristina Carvalho acerca do seu pai, dando corpo e voz à poesia, assim a modos como legendando o que ia ficando dito… 

Chegou, logo mais, a hora de dar a palavra aos demais circunstantes que, como sempre, corresponderam à chamada, partilhando com todos Gedeão ou o muito particular olhar de cada um sobre este poeta…  

– Oeiras Verde com Pedro Faro (guitarra)

– Jograis do Atlântico

– Maria Francília Pinheiro

– David José Silva

– … com mil perdões, não retive o nome deste autor, com um empolgante poema de actualidade e combate…

– Maria Maya

– Eduardo Martins

– Carlos Pedro

– Emília Azevedo

– Ana Sofia Borlinhas

– Ana Freitas

– No final de uma belíssima sessão, uma imagem de boa parte da equipagem de mais uma navegação cumprida com alegre chegada a bom porto

– Fotografias de Lourdes Calmeiro

– cartaz de Alexandre Castro
No nosso (quase, pois já nos faltou mais para tanto…) eterno retorno, vamos iniciar 2012 pelos caminhos da Poesia, nas nossas sessões na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, no próximo dia 20 de Janeiro de 2012 (sexta-feira), pelas 21h30.
Estará connosco Cristina Carvalho, escritora, filha de peixes que sabe nadar. Com ela trará a Poesia de António Gedeão e dela sempre vos digo, respigando, com a devida vénia a Luís Bento e ao seu blog bento-vai-para-dentro (http://bento-vai-pra-dentro-bento.blogspot.com/2011/09/entrevista-cristina-carvalho.html), excertos de uma entrevista que lhe foi feita:
Cristina Carvalho – «Quanto a mim, o papel da literatura não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. A vida pode ser experimentada a cada linha que se lê e sempre diferente, vista por diversos olhares.(…)»
A propósito do seu amor pela Natureza, que rescende da sua obra, Cristina Carvalho dá-nos esta singela definição, começando por parafrasear o seu pai: «(…) A Natureza sou eu. Somos nós, humanidade, os únicos capazes de a compreender e de a amar a ela, Natureza. Sento-me numa pedra ao fim do dia, cruzo os braços no colo e olho para a fina fita do horizonte tentando compreendê-la no seu todo incompreensível. Nunca chegaremos lá, mas somos os únicos que tentamos alcançá-la porque todos os outros já lá estão.»
Sentar-nos-emos, então, a seu lado, na próxima sexta-feira, esperando decerto o vislumbre do raio verde solar, no último momento em que o Sol se põe, prenunciando já a próxima alvorada…
Até lá, abraços.

uma vaidade no raiar do novo ano só me pode fazer bem…

Um excelentíssimo começo de ano, se me permitirem imodéstias: – proveniente das Astúrias, um artigo referindo, entre outras coisas, sugestões sobre a poesia contemporânea portuguesa, publicado no blog Las mil caras de mi ciudad, onde o autor, José Luis Campal, me descobriu merecedor de referência, a par de João L. Barbosa, o que ainda para mais me deixa em óptima companhia.    

POESÍA PORTUGUESA DE AHORA, por JOSÉ LUIS CAMPAL
(Artículo exclusivo para el blog Las mil caras de mi ciudad, gentileza del filólogo JOSÉ LUIS CAMPAL)
¿Y ahora mismo? El número de poetas en activo en Portugal seguramente es tan abundante, me imagino, como en nuestro país (y algún día habrá que elaborar un repertorio bibliográfico al uso). Dado que la mejor carta de presentación de los escritores es su propia palabra, aportaré, por mi parte, y sin ánimo de jerarquizar su relevancia en el panorama general de las letras lusitanas, una traducción castellana (excusándome por la inevitable cojera que toda traslación idiomática comporta) de dos concisos poemas pertenecientes a dos creadores contemporáneos de cuya obra tengo excelente opinión: Jorge Castro y João L. Barbosa.
JORGE CASTRO, nacido en Porto en 1952, ha publicado los siguientes poemarios: Sopa de pedras (2003), Odes no Brejo & Alguns pecados (2005), Contra a corrente (Poemas que eu digo) (2005), Coisadas… assim ao correr do poema (2006), Havia trigo (2006), Auto das danações (2007), Poemas de menagem (2008), Ti miséria (2009), Apenas alguns poemas de cordel (2010) y Vinte poemas por amor e uma canção inesperada (2011). Del libro Poemas de menagem (Lisboa, Apenas Livros) vierto a continuación, respetando escrupulosamente la ortografía del original, la pieza «Casi nada en fin de casi todo» (página 33), una reflexión existencial sobre el plan de vida en cuyo espejo más de uno verá quizá reflejados sus íntimos afanes y congojas:
Casi nada en fin de casi todo
se alcanza de cuanto en la vida pretendemos

casi nada más delicado y estrecho
que lo que la línea de un abrazo nos hermana

casi nada o casi todo
y desengaños
serán lazos más unidos que creamos

en la urgencia vital
nos queda el modo
de vivir así mejor
cuando nos entregamos.
JOÃO L. BARBOSA, nacido en 1970, ha publicado los siguientes poemarios: Ninfa (2004), Tejo (2005), Eros (2005), O movimento do pêndulo (2007), Memória da terra (2008), Visíveis a olho nu (2008), O sol quando nasce (2009) y Debaixo de chuva (2011). Del cuaderno Memória da terra (Lisboa, Apenas Livros) vierto a continuación, respetando escrupulosamente la ortografía del original, la pieza «Piel de la tierra» (página 14), en la cual la voz poética ansía fundirse con el elemento telúrico de donde en su día emergiera, borrando las distancias que separan a ambos, hombre y medio:
la tierra labrada.
llego descalzo
de todo, desnudo.

poros con poros

heme aquí cuerpo maduro, fruto
de semilla lanzada en otra tierra

heme aquí erguido,
tronco desnudo de tierra

heme aquí tierra con piel
sobre la piel de otra tierra.
El escrutinio le corresponde ahora al lector. ¿Acaso no sería más que deseable que conociéramos en profundidad la realidad poética portuguesa?

oito anos de sete mares…
venha lá outro!

Olá, amigos. 
Claro que vim aqui hoje, numa corrida, apenas para vos desejar um excelente ano de 2012.
E, se aceitarem um conselho meu, que seja cada um de vós a construí-lo, 
de mãos firmes e peito aberto.
Se escutarem algum habitual anúncio de maior desgraça, não lhes dêem grande crédito. 
Perto de mim, estrelícias florescem com um inusitado vigor 
e estou em crer que também elas terão notícias da crise…
Por outro lado, o diospireiro desdobra-se em matizes outonais, deixando crescer em si uma diversidade invejável e assazmente criativa. Do ramalhete de folhas acima, apenas uma não é da mesma árvore.

Também o invólucro da fisális, recolhido num canto do jardim e perdida a sua função protectora, nos presenteia ainda com outros encantos, em rendilhados improváveis, que a mais ténue brisa vai desfazer.  

Vamos, então, aproveitar exemplos destes alguns que a Natureza oferece, assumindo que esse é muito mais o nosso habitat natural do que esse penoso desviver que querem impingir-nos. 

Eu tenciono continuar cada um dos múltiplos desafios que a vida me vai proporcionando.

Mas, em termos de confidência, atenção! 

– Olhem sempre com atenção para o que surge escrito nas paredes!

FELIZ 2012

memorando reflexivo contra a crise

Com a devida vénia ao sítio www.tabonito.pt, de onde recolhi a informação e imagem abaixo, aqui vos deixo uma pequena reflexão acerca dos tempos acrisolados que insistem em nos querer fazer viver, para nos amarfanharem o direito que temos de… viver.
Por outro lado, na VISÃO de 30 de Abril de 2009, pode ler-se:
O número é gordo: 810 891 euros. Foi este o salário médio que cada administrador executivo, de dez das maiores empresas portuguesas cotadas em bolsa, ganhou ao longo de 2008. Um rendimento 136 vezes superior ao de uma pessoa que tivesse auferido o salário mínimo em vigor durante o mesmo ano. Veja as contas: 14 meses x 426,5 euros = 5 971 euros. E um português que ganhe um salário médio estimado em torno dos mil euros necessitaria de duas vidas para conseguir um rendimento igual ao que um daqueles gestores aufere num ano.

Apesar de alguma desactualização da informação obtida na VISÃO (Abril de 2009), podemos, ainda assim, ajuizar que com a disparidade verificada no referencial social que o salário mínimo não pode deixar de representar e coexistindo ele com tais «pináculos» remuneratórios dos gestores, ainda para mais gente ininputável e em quantidade imensa, talvez resida aqui uma prova dificilmente contestável da origem e manutenção da dita «crise» que afecta o mundo, com especial incidência na Europa e com curiosas particularidades em Portugal.   

Pelo caminho, hoje encerrou mais um serviço de urgência, desta vez no Hospital Curry Cabral, em Lisboa. Ouvi dizer que tinha uma afluência média de 190 pessoas por dia. Nada de muito relevante, pois.

Não pude confirmar estes dados. Mas o Ministro da Saúde parece que pôde, pois disse o senhor ministro que tinha estudos a justificarem que uma cidade como Lisboa apenas deve ter três serviços de urgência hospitalar, dado o número de hospitais que circundam a grande urbe.

Valham-nos estes homens que dominam os números, já que os números, esses, quando toca a caírem sobre nós quando temos de recorrer a uma urgência hospitalar, ainda nos pesam mais do que os ministros. Honni soit…

um Natal para quem quiser…

era uma vez…
um natal feito desgraça
tão sem graça
a meio gás
sem luz nem riso na praça
às ordens do capataz
sem se iluminar a noite
com tudo o que nos apraz
sem coragem que se afoite
por raiva
amor
ou objecto
de saber que se é capaz
de dar brado e colher eco
cada um sob o seu tecto
mas irmanados na paz

era uma vez…
um natal de tal vergonha
dessa coisa vil
medonha
de não erguermos a voz
contra mantos de negrume
ou solitário azedume
sem vontade que se arrume
por não sabermos de nós…

e tudo era o que só era
sem apurarmos porém
que o amanhã está à espera
do dia que já lá vem…
não fiques então à espera
pois quem espera desespera
seja cá
seja em Belém

talvez se unirmos a voz
um ao outro
sem temores
seja o Natal mais de nós
e não de um outro qualquer
mais nosso
com mais valores
e será de mais amores
sempre que um homem quiser.

– Jorge Castro… Sendo esta a mensagem de Natal que me apetece deixar a quem por aqui passar.

o CRAMOL
no Natal das Noites com Poemas

Recorri ao texto do professor Domingos Morais que prefacia o mais recente duplo cd do CRAMOL para fazer a sua apresentação…

Depois, como sempre acontece nos espaços que estas magníficas vozes preenchem…

… foi proporcionada a todos os presentes uma viagem primordial, tendo como pano de fundo e pretexto a quadra natalícia… 

… viagem essa pela qual nos é facultado o regresso aos ancestrais sabores e saberes de que a Mãe-Terra foi e deve continuar a ser a escola primeira…

Cânticos de trabalho, lúdicos, de adoração e de encantamento…

… algo assim de que cada um de nós terá já apenas uma noção imprecisa, 

… mas que habita o nosso inconsciente colectivo… 

… e que, graças a este precioso grupo de mulheres…  

… de tempos a tempos se reacende e revive…

… mantendo viva essa ancestralidade que nos enriquece e que é, afinal, a nossa matriz, enquanto povo.

Com a inestimável colaboração da editora Apenas Livros, foi oferecido a cada uma das moçoilas, um «chouriço literário» que, para além de despertar inocentes sorrisos, representou, ainda assim, um singelo mas sentido tributo a tão empolgante cantoria.   

Depois, Pedro Jardim falou-nos da sua homenagem, em forma de livro, a vivências de meninice alentejana na sua obra Crónicas do Avô Chico, com toda a lógica que o CRAMOL proporcionara ao tema.

Não faltaram, até, em jeitos de remate, uma modinhas à maneira, para aquecer o serão e as memórias. 

De seguida, com o destaque merecido por tão notável empenho,

… os poetas sempre presentes e participativos – que tal é, por força deles, também a matriz maior destes encontros – …

.. trouxeram a todos o melhor de cada um…
… afoitando-se por esses caminhos, ora pedregosos, ora em mar de nuvens…

… de que a poesia é feita.
Por entre os primeiros passos dados…

… ou pelos caminhos já tantas vezes trilhados…

… surge-nos sempre o alento de partilhar as palavras que nos enformam…

… por conhecimentos antigos que se fazem novos, ou por aqueles mais recentes que, de súbito, nos parecem longevos…

… e que dão mais sentido a essa liminar circunstância de sermos humanos.

Rematou-se a sessão com as artes do encontro entre os presentes – quando há tanto desencontro nessa vida –, o que se vai tornando, também, habitual e parte não despicienda destas nossas Noites. 
– fotografias de Lourdes Calmeiro

E cá deixo, para quem lamentavelmente não pôde estar presente, uma pequena mas sumarenta amostra daquilo que perdeu:
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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