Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

outro dia intencional da Mulher

a mulher
que coisa doce
que parte macia trouxe
o mistério do universo
e como querem que a deixe
neste espaço sem espaço
na pobreza de algum verso?

das roliças
das magrinhas
das altas
das pequeninas
cada uma tem seu quê
umas e outras mais belas
cintilantes quais estrelas
ao olhar de quem as vê

já nos trazia um poeta
a mulher amante
amiga
a mãe que nos aconchega
a irmã que nos abriga
mas há outras mulheres mais
a que nos mói a cabeça
a que nos dói que aconteça
a que nos traz na barriga
a que é melhor que anoiteça
a que nos lava a fadiga
a que nos suporta os ais

a mulher
sempre sublime
quando algum peso oprime
um homem com dores demais…

– Jorge Castro

reflexão (algo mórbida, convenhamos…)

Da Lusa, em 02 de Fevereiro:
Mortes em excesso “por todas as causas” ultrapassaram as seis mil em duas semanas.
Será caso para se apurar se, em Portugal. se está a morrer «custe o que custar»?  
Porque à míngua de quase tudo para tantos e com a Saúde inacessível a tantas bolsas, haverá talvez aqui uma mórbida relação de causa-efeito que nos amesquinha o viver…

Restará aos sobreviventes apurar, também, quando o processo histórico o permitir ou aconselhar, se depois de salvos os anéis, não teremos todos ficado manetas.

Ah, este é que é o Paul Krugman? Ora, bolas…

Depois de me ter deliciado, atemorizado, atrapalhado e embasbacado perante a entrevista deliciosa, atemorizadora, trapalhona e basbaque com que, ontem mesmo, Paul Krugman, eminentíssimo economista americano, nos brindou, deixei-me resvalar no sofá das grandes ocasiões e dei comigo a matutar sobre as transcendências inacessíveis e muito para além de iniciáticas da Nova Economia e de como já é chegado o tempo de ser fundada uma nova religião.
Religião panteísta, obviamente, com incontáveis deuses e não menos inumeráveis apóstolos, seitas que avonde, pitonisas, oráculos e seguidores à fartazana…
Ouve-se, então, tão eminente sapiência, com tantos laivos de democrata à americana – que é uma espécie de coisa que não se sabe bem o que é…. – vestindo um ar compungido a falar, reticente, da eventualidade de baixar remunerações, a bem da competitividade das empresas portuguesas em relação à dos «estados fortes» da Europa, como condição de sobrevivência.
E não se lhe ouve uma palavra, uminha, sobre os custos de produção, como energias, combustíveis, impostos, burocracias várias que deixam as empresas portuguesas a perder de vista, pelo lado mais negativo e sombrio, em relação às suas congéneres europeias. Ora, assim, também eu…

Ver esta crónica completa AQUI, no blog PersuAcção

viva José Afonso!

Não é da natureza deste espaço dar destaque a comemorações por morte de alguém.
Talvez por isso mesmo hoje e aqui se celebre uma memória viva, presente e actuante que nos enforma a todos, mesmo até àqueles que o desdenharam em vida ou que o receiam na morte.
Por quanto lhe estamos ainda a dever, enquanto Povo, enquanto gente, 
que nos viva José Afonso!

noites com poemas
– cruzando mares

Em 1498, Vasco da Gama aportou o lugar que hoje se chama Quelimane, junto ao Rio Cuacua, onde foi construído o Forte de São Martinho.

Houve um cordial encontro com o hospitaleiro e afável povo Chuabo. Deste encontro nasceu Poesia!

O Rio foi baptizado como o Rio dos Bons Sinais, por tudo de bom que augurava e então se passou com a descoberta do caminho marítimo da milenar índia.

Do encontro nasceram, entretanto, vários reencontros que desembocaram poeticamente no Tejo, de onde partiram as Naus.

E lá fomos, navegando ao sabor das palavras, quais ventos e marés, com as mesmas inquietações e imprecisas certezas ou  mutáveis constâncias…

De timoneiros, o Delmar Maia Gonçalves e a Vera Novo Fornelos. E outros havia, que se terão perdido nalguma inesperada tormenta… 

Mas chegam sempre os que nos chegam. E bastam-nos se, no fim, deles querermos ainda mais…

Não se cumpriu Moçambique ou Portugal, nem tão longe iam os nossos desidérios, que se constroem em cada dia que passa e sempre renovados. Mas ficamos todos mais próximos, decerto. 

A Carlos Peres Feio e a mim cumpriu-nos fazer as honras aos convidados, outra vez na irmandade das palavras de uma língua única, mas de colorido diversificado, daí a sua maior riqueza e vitalidade.

A sala, como sempre, bem composta, de gente, de afectos e de interesses.  

– Maria Francília Pinheiro – 

– Francisco José Lampreia – 

– José Proença – 

– Ana Freitas – 

– João Baptista Coelho – 

– Maria Maya – 

– David Zink – 

– David José Silva – 

– Eduardo Martins – 

Talvez a nossa fluência não se tenha equiparado à do Tejo ou do Zambeze, mas não nascem os grandes rios de pequenas fontes? 
– Fotografias de Lourdes Calmeiro e de Lídia Castro – 

convite
noites com poemas
Zambeze e Tejo irmanados – cruzando mares

Terá lugar, já no próximo dia 17 de Fevereiro (sexta-feira), pelas 21h30, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana (Bairro Massapés, Tires) a nossa próxima sessão, com poemas à volta.
Desta feita contamos com a presença de Delmar Maia Gonçalves, a trazer-nos a poesia de Moçambique, pela sua mão e pela de uma outra mão-cheia de poetas.
O tema proposto: Zambeze e Tejo Irmanados – Cruzando Mares, estimulante quanto baste mas, ainda assim, condimentado com a seguinte sugestão: Em 1498, Vasco da Gama aportou o lugar que hoje se chama Quelimane, junto ao Rio Cuacua, onde foi construído o Forte de São Martinho.
Houve um cordial encontro com o hospitaleiro e afável povo Chuabo. Deste encontro nasceu Poesia!
O Rio foi baptizado como o Rio dos Bons Sinais, por tudo de bom que augurava e então se passou com a descoberta do caminho marítimo da milenar índia.
Do encontro nasceram, entretanto, vários reencontros que desembocaram poeticamente no Tejo, de onde partiram as Naus.
Poetas convidados:
Delmar Maia Gonçalves
Ana Mafalda Leite
Cláudia Leal
Gisela Ramos Rosa
Vera Novo Fornelos
Hélder Ramos Rosa Pando
Estes todos e mais quantos sempre nos confortam com a sua presença… mais quantos ainda queiram «dar à costa» nesta aventura. Partida para Moçambique e volta nesta jornada, sempre em primeira classe: a dos afectos, temperados com poemas – o melhor das especiarias.

poemas na vila
em Coruche com Ana Freitas

Era o dia 10 de Fevereiro de 2012. Anoitecia.
Aqui, o projecto teve, como elemento aglutinador, estruturante e dinamizador, a determinação de Ana Freitas. Poemas entre amigos, poemas de mãos dadas com afectos e – como se quer – abertos à comunidade, que sabe e quer participar.
Maestrina nessa comunidade, verdadeiro santo e senha nessa actividade iniciática que a poesia também sabe ser, Ana Freitas replicou, criando, em Coruche e nas margens do rio Sorraia, uma noite de poemas em tudo igual tanto como diferente, daquelas em que nos temos encontrado aqui mais junto ao mar        
Congregou amizades e afeições poéticas; conjugou os do litoral com os do interior – para o que contou com Carlos Peres Feio a estabelecer as pontes de consistência necessária para a travessia airosa e para que a arte do encontro tivesse caminho aberto…    

Pelo caminho, as amizades, como é de bom tom e muito nosso, sentaram-se em volta de uma mesa, em lides com um caril de frango – obrigado, Graça! –  e muito jovial cavaqueira, temperando ânimos para o que havia de se seguir…

Postas, então, assim as coisas, chegou a hora para a partilha. Primeiro arranjos e desarranjos do lugar, constrangido de gente, onde tantos que não se conheciam descobriram ou inventaram lugares para novos conhecimentos… 

E tudo decorreu em esplêndida harmonia. Com lugar para todos e espaço para cada um. Onde dissemos o que apeteceu dizer e sobrou-nos tempo, sem constrangimentos e com toda aquela margem de excelente amadorismo, em que cada um teve artes de transportar a coisa amada. Pelos vistos e anunciado, em muitos casos, em estreia mundial absoluta. Ora ainda bem que há sempre uma primeira vez… 
– fotografias de Lourdes Calmeiro e de Jorge Castro – 

quotidiano delirante (11)
– breves, muito breves reflexões aleatórias…

Uma vaga de frio polar assolou-nos, pelo menos segundo tudo quanto são os avisadores da catástrofe nacional… e quase ninguém deu por isso. Num qualquer sinistro, as vítimas mortais foram setenta e duas ou três ou quatro ou oitenta e cinco, consoante o «órgão noticioso» que propala a notícia. A libertação de um prisioneiro israelita é «trocada» pela libertação de quatrocentos e cinquenta palestinianos. Este ano o Carnaval português é só para alguns e pensa-se que esses alguns possam (ou devam) não ser piegas. O quadro «Os Jogadores de Cartas», de Paul Cézanne, é vendido e comprado por 250 milhões de dólares, sendo o comprador a real família do Qatar, a qual vive repimpada sobre os custos do petróleo que promove em seu benefício. Onze mil crianças morrem de fome no mundo, a cada dia que passa. Um sem-abrigo foi condenado a multa de milhares de euros por furtar um champô e uma bebida num supermercado do norte. O governo português prepara-se para injectar mais 600 milhões de euros no BPN, para o vender, de seguida, por 40 milhões. Na Europa começam a proliferar os políticos não eleitos à frente dos destinos dos respectivos países, ditos democráticos…
Não há qualquer fio condutor nestes nacos desgarrados, para além de serem eles sinais palpáveis da actualidade a que nos deixamos conduzir, um pouco por todo o mundo.
Qualquer noticiário desta actualidade num simples dia é profundamente mais surreal do que foi alguma vez um filme como «O Mundo Cão», que nos sobressaltava de estranheza há umas poucas dezenas de anos.
Urge acabar com isto antes que isto acabe connosco.

E ñem sei se estou a ser piegas ou se estou a ser pessimista em demasia. Mas estou, seguramente, a reflectir aquilo que uma misérrima mão-cheia de políticos de pacotilha anda a fazer.

almas que não foram fardadas
de Rogério Pereira

É certo que, tendo passado a data, este não se trata de um convite, mas já do anúncio de uma efeméride.  
Mas que faz sentido referir. Teve lugar, em 28 de Janeiro de 2012, no Auditório Municipal Maestro César Batalha, nas Galerias Alto da Barra, em Oeiras, o lançamento do livro Almas que não foram fardadas, da autoria de Rogério Pereira, com edição da Associação Espaço e Memória… 
… lançamento para o qual fui honrado com convite para integrar a mesa neste dia do seu surgimento.

.

Um relato por afectos em tempos de guerra. Angola, nos idos de sessenta, sem nunca perder de vista essa circunstância primeira de se ser humano.  

O autor descreve esse seu involuntário destino, degladiando-se entre si próprio, a sua Alma e o seu Contrário, deixando-nos um testemunho original desses tempos que tanto repudiamos, mas testemunho que a todos enriquece.  

Por mim, limitei-me a dar voz ao autor, que trazia a sua embargada de acontecimentos.

E lá navegámos todos, entre o Mar Arável e este Sete Mares e quantos mais ventos e correntes de feição tiveram artes de nos guiar a bom porto.
Vejam mais em:

O desconcerto da «concertação» II
– o benefício da dúvida perante o malefício da dívida

Não me parece que João Proença pudesse fazer outra coisa a não ser assinar aquele «acordo de concertação». E apoio esta afirmação após a apreciação de uma sequência de lógicas, porventura daquelas que o bom senso comum repudia – e ainda bem -, mas que existem e estão aí, como punhos, em que a UGT assume, de algum modo, o actual estado de refém da «troika», que lhe chega pela proximidade, identificação e miscegenização com o PS.
Isto não fará sentido nenhum, se quisermos cultivar ingenuidades estapafúrdias. Mas, numa tomada de posição mais pragmática – senhores, quanto me chateia este termo… – e com maior noção das realidades em que nos atolamos, faz todo o sentido.
Dizer que eu, no lugar de João Proença, não assinaria este nonsense não servirá para nada pela elementar razão de que eu sou eu e o João Proença é ele, por muito lapaliciano que surja este meu arrazoado.

Ver este meu artigo completo AQUI
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

Arquivo

Categorias