Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

súmula descritiva


de uma romagem a terras do planalto mirandês com a
EMACO – Espaço e Memória Associação Cultural de Oeiras,

nos dias 09, 10 e 11 de Fevereiro de 2013


Dia 09 de Fevereiro
– Saída de Oeiras – Galerias Alto da Barra – Previsão de hora de saída: 6h. Saída efectiva pelas 6h45, em camioneta da DELTA BUS conduzida por José Gomes, entretanto vítima de pequeno atraso involuntário.

– Grupo constituído por 29 romeiros. Distribuição de documentação diversa, por parte da direcção da EMACO, relacionada com a temática dos lugares a visitar e distribuição do livro Havia Trigo – Habie Trigo, da autoria de Jorge Castro e retroversão para mirandês de Bárbolo Alves, edição da Apenas Livros (2003).    

– Chegada a Miranda do Douro às 13h30 – check in no Hotel Turismo (Rua 1º de Maio – vide http://hotelturismomiranda.pai.pt/), unidade hoteleira que, após minuciosa investigação, sempre confirmámos que, afinal, dispunha de água quente, bem como dos demais aconchegos expectáveis. Mais do que isso, todos se manifestaram muito satisfeitos e aconchegados com o alojamento.

– Recepção, no largo do mercado e à entrada do Restaurante Capa d’Honras, por um conjunto de três jovens, equipados com gaita-de-foles, caixa e bombo e trajes a rigor, anunciando que, por ali, a música é outra.

– 14h – Almoço no Restaurante Capa d’Honras (capadhonras@hotmail.com), situado na Travessa do Castelo, com início de pequeno (…?!…) festival gastronómico, proposto por Paulo Gomes, dono do restaurante e nosso anfitrião. Para além das soberbas entradas, a fazer honra ao fumeiro da região, e do vinho da casa – vítima, aliás, de profusas e reiteradas libações –, o prato forte foi o Cozido à Mirandesa, para retempero do desgaste da viagem.

– Pelas 16h30, visita guiada e minuciosa à Central Hidroeléctrica de Miranda do Douro (EDP), muito interessadamente conduzida por dois jovens – David Silva e Hugo Palhares – que não se pouparam a esforços para divulgar até onde pode ir a mão e o engenho humanos, quer metafórica como materializado no terreno.

 

– Após uma breve passagem pelo Hotel Turismo e atendendo ao adiantado da hora, rumámos, de novo, ao Capa d’Honras, onde nos esperava um Cabrito Mirandês grelhado, que suscitou inúmeras comoções ao rés das lágrimas, ao longo do repasto. Uma referência especial a uma saladinha de merujas ou meruges, planta selvagem, aquática e susceptível,que fez as nossas delícias. Já num registo mais apurado, em modo de Rui Costa Pinto dixit, estaremos em presença de uma erva anual, ou bienal, da família Portulacaeae, com caules (5-50 cm) ramificados nos nós inferiores, com ramos geralmente prostrados; folhas algo suculentas, sésseis, aproximadamente espatuladas, inteiras, opostas; flores diminutas, com 5 pétalas brancas, dispostas em cimeiras terminais e laterais, em qualquer caso, com poucas flores…

– Passeio noctuno para esmoer, a 1º acima de zero, pela cidade de Miranda – Sé (e ninguém conseguiu ver o 2…!), Paço Episcopal, Biblioteca Municipal (antiga Igreja dos Frades Trinos), zona exterior da muralha, Rua da Costanilha, etc.. Todos sobreviveram, apesar dalguma refrigeração ambiental, após o que se dirigiu cada um a seu quarto.

Dia 10 de Fevereiro
– Pequeno-almoço no Hotel Turismo entre as 08h15 e as 09h da manhã.
– A partir das 09h, passeio diurno por Miranda do Douro, em busca das coisas da terra e modo airoso de aliviar um pouco as bolsas.
– Às 09h, na porta de entrada da zona histórica da cidade, dissertação a cargo de Joaquim Boiça sobre as origens e evolução da povoação de Miranda do Douro, com especial incidência na sua praça-forte e as suas tremendas vicissitudes.

– Às 09h30, visita do grupo ao Museu da Terra de Miranda, onde se pode ver muito da etnografia da região mas onde uma senhora, aqui e ali austera e em bom cumprimento de superiores ditames, não permitia que tirássemos fotografias…

– Pelas 10h15, visita à Sé de Miranda do Douro e ao Menino Jesus da Cartolinha, para além dos anjos e das anjas, mais ou menos alados e/ou expostos. No final, várias e vários conseguiram descortinar o 2 na arriba espanhola do rio Douro!
  
– Convívio de café e novo passeio, agora diurno, por alguns locais emblemáticos da cidade, com relevo para os cachorros zambargonhados encontradiços na Rua da Costanilha, e torres das muralhas. A chuvinha, condimentando um vento frio de rachar, rapidamente aconselhou a deslocação ao almoço.

– Pelas 12h30, almoço no Capa d’Honras. Prato que nos esperava – outra vez, depois de excelentes entradas variadas – era um Bacalhau à moda da casa, que nos aqueceu para o período da tarde.

– 15 horas: visita à albufeira da barragem de Picote no Barrocal do Douro, seguida de vista de olhos, lamentavelmente perturbada pela chuva intensa, ao Moderno Escondido, estilo arquitectónico único (meados do século XX), que integrava as infraestruturas do estaleiro edificado para a construção da Central Hidroeléctrica de Picote, da Hidro-Eléctrica do Douro. Este conjunto encontra-se em franca recuperação (igreja, «centro comercial», pousada, habitações de quadros superiores, etc.).

– 16h30, chegada à aldeia de Picote, com passeio (chuvoso) até ao miradouro de la Peinha de l Puio, para vista dramática sobre o rio Doutro, tendo como anfitrião o professor António Bárbolo Alves que, logo mais, nos levou até ao Ecomuseu Terra Mater – Ecomuseu de la Tierra de Miranda, instituição que dirige através da FRAUGA – Associaçon pa l Zambolbimiento Antegrado de Picuote (http://www.frauga.pt/). Projecção de um filme sobre as actividades da Associação e do Ecomuseu, a que se seguiu dissertação sobre o tema, com sessão de perguntas e respostas. Por fim, ouviu-se a sonoridade do linguajar mirandês, através de leitura de textos e breve sessão de poesia.    

– 20h – Regresso a Miranda do Douro, ao Capa d’Honras, para fazer as honras a um Cabrito Mirandês na grelha, já alcandorado a património bem material da Humanidade. Convívio e conversa da boa, pela noite fora.
–  De regresso ao Hotel Turismo, alguns houve que ainda prolongaram o dia em bar aberto (ainda que seco…), onde a única coisa bebível foram as palavras e a boa disposição que encheram a noite.
Dia 11 de Fevereiro
– 08h15 – Pequeno almoço e check out. Pelas 09h30 e alguns minutos mais, depois de desbaste nas publicações disponíveis no Turismo e em presença de uma bela manhã ensolarada, saída de Miranda do Douro, até mais ver.

– 09h45 – breve paragem na antiga e abandonada estação de comboios de Duas Igrejas para, a par da constatação de breve queda de neve durante a noite que nos deixou um inefável e inconstante véu branco na paisagem, observarmos os curiosos painéis de azulejos, documentando usos e costumes da região, que forram o exterior do edifício.

– 10h15 – chegada a Palaçoulo e, aqui, às Cutelarias FILMAM, Lda. (http://www.filmam.com/), onde se efectuou visita guiada a esta unidade fabril, com 140 anos de arte na cutelaria, e onde cada um, no final, se muniu de navalhicas M.A.M. para todos os gostos e desvairadas funções. (Aqui também não permitiam fotografias…) 

– 11h30 – Visita guiada à empresa Tanoaria J. M. Gonçalves (http://www.jmgoncalves.com), também em Palaçoulo e também com actividade centenária, onde são produzidos os «Rolls Royce das pipas», com exportação para todo o mundo… conceito extensivo a Oeiras, pois são elas que acolhem o vinho de Carcavelos, actualmente produzido na Estação Agronómica de Oeiras, conforme recente visita da EMACO nos permitiu observar. Entretanto e pelo meio da viagem, deparámos com um simpático passageiro clandestino que logo se fez velha companhia…

– 12h30 – Visita, em Atenor, à AEPGA – Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (http://www.aepga.pt/), onde assistimos a uma excelente e motivadora prelecção de Miguel Nóvoa sobre os objectivos e os resultados já alcançados por esta Associação na protecção, salvaguarda e sustentabilidade desta espécie asinina, e onde tivemos oportunidade para travar conhecimento muito próximo com os burros lhanudos mirandeses, animais dóceis mas ponderados, donos de uma inteligência persistente, dir-se-ia. No final, registou-se um «assalto» por curiosidade às instalações administrativas da Associação, talvez decorrente de uma súbita apetência para também podermos e querermos assumir ser «burros» de uma outra maneira… Desta visita decorreu uma outra ideia: vir a ser a EMACO madrinha de um burrico lanudo mirandês – e está a ideia no ar.

– 14h – Romagem ao Restaurante Burela, de regresso a Palaçoulo, onde nos esperava uma cordial recepção e uma Posta Mirandesa que, se a alguns causou alguma estranheza por não se apresentar cada unidade com as dimensões pantagruélicas de outras eras, não foi menos certo de que se estava em presença de excelentes e saborosíssimos nacos de carne mirandesa, a fazer jus ao nome e à fama. No final, sobremesa típica com queijo e marmelada (ou doces), exemplos superiores de confecção caseira e regional. 

Tempo ainda para travar novos conhecimentos…

– 15h30 – despedida às terras de Miranda, em Sendim, com visita «desesperada» ao talho da Dona Alice e à casa de confecções de Susana Castro. E se, no primeiro, nos munimos das celebradas alheiras de Miranda – que nada ficam a dever às outras, bem pelo contrário –­, na segunda, fizeram-se os derradeiros desvarios de compras nos produtos em burel, pardo e surrobeco, bem como em velhos sacos de cereais reaproveitados, matérias-primas de uma interessantíssima e muito original linha de produtos de vestuário e afins.

– 16h30 – início do regresso a casa, que se registou às 11h45, nas Galerias Alto da Barra, em Oeiras, sob chuva miudinha, que não teve artes de arrefecer os encantos da jornada.
Uma palavra final de explicação para a única expectativa gorada deste passeio – ainda que largamente substituída por alternativas disponíveis – e que foi o cruzeiro ambiental no rio Douro. Já um ex libris da cidade de Miranda do Douro, não nos esteve acessível por deficiente e tardia informação. De facto, o barco ambiental encontrava-se em manutenção e os cruzeiros temporariamente interrompidos, o que apenas pudemos apurar na véspera da nossa partida.
Entretanto, como saldo derradeiro da iniciativa, apenas me ocorre parafrasear o Luís Vaz, lá pel’Os Lusíadas: melhor experimentá-lo que julgá-lo, mas julgue-o quem não pôde experimentá-lo… E não, não se encontrou pelourinho afeiçoado o bastante para ser condigno a expor poetas às vicissitudes da jornada – ainda que presuntivo juiz não deva imiscuir-se em causa própria.

    

No próximo dia 15 (sexta-feira) de Fevereiro de 2013, como habitualmente na Biblioteca Municipal de Cascais, de São Domingos de Rana, daremos voz, tempo e espaço a duas poetisas que muito recentemente nos brindaram com obra publicada. São elas Maria Mamede e Sofia Barros. E delas eu diria serem vozes irmãs nossas, que muito me apraz ter a meu lado, promovendo a rotação do mundo, contra penas e pesares, contra os pesos e os penares que afligem o viver.
Por Amor às Palavras (Maria Mamede) – sinopse: «uma mão cheia de poemas, 40 para ser precisa, falando do meu amor às palavras, que durante estes cinquenta anos de escrita foi crescendo, crescendo e preenchendo os carreirinhos vazios da minha alma. Estas minhas palavras, escritas e ditas, mostram que eu sou, tal como escrevi um dia, “Mulher para quem escrever poesia é tão importante como respirar.”
Antes de Sermos Dia (Sofia Barros) – sinopse: «As palavras da Sofia celebram a vida, a luz e o amor. Mesmo lidas em conjunto e fora do blog que as viu nascer constituem o diário de uma necessidade de amor, amor físico, amor oferecido, roubado, agarrado, retribuído, amor de terra e água, amor integral que seja como dizia Vinícius “eterno enquanto dure”. O amor, especialmente o amor sensual, é na nossa literatura muito mais assumido e cantado pelas mulheres que pelos homens. Basta pensar em Florbela ou Maria Teresa Horta. E é nesse registo que Sofia se situa. ” (do prefácio de José Fanha).
As Noites com Poemas com poetas, poetisas. Assim como que mais dois bons exemplos da teimosa permanência e intranquila constância de se andar por cá com um braçado de poemas, apenas para conseguirmos ver, no fundo da mina, o que a luz não ilumina, com a devida vénia a José Gomes Ferreira. Uma sessão que será feita, então, por amor às palavras antes de sermos dia, na acepção exacta da expressão.
Os vossos lugares estão reservados. A vossa presença é requerida. Nós todos contamos convosco. Até lá.

Um testemunho

De um testemunho no Facebook…

Já visitei a Venezuela e Cuba. Mas, esta tarde, visitei, pela primeira vez, um país do terceiro mundo. Eu conduzia pela via de acesso ao IC19 quando observei dois homens que seguiam junto ao rail vindos do Hospital Amadora-Sintra. O mais novo aparentava 45 anos e tinha a cara tostada pelo sol. O mais velho devia ter cerca de 80 anos e trazia um dreno ensanguentado junto à cintura. O filho trazia o pai que havia tido um AVC e uma infecção urinária. Ficaram na Brandoa. Foi onde os deixei depois de ter decidido dar-lhes boleia. Não tinham dinheiro para o transporte de ambulância. Durante a viagem, envergonhado, o filho concordou comigo. Este é o país em que os donos dos bancos e das grandes empresas enchem os bolsos através da humilhação dos trabalhadores e dos reformados. O velho mal se compreendia. Muito cansado tentava comentar com muita dificuldade o que se dizia. Mas houve um momento em que encheu a voz de força e rematou: “É preciso um novo 25 de Abril”. Respondi-lhe, então, que se o havia que repetir que fosse sem cravos. Pelo espelho retrovisor, vi-lhe o sorriso. Não sei o que lhe passava pela cabeça. Mas, na minha, vi o nosso povo unido esmagar os que assim tratam os que sacrificaram o melhor das suas vidas pela felicidade de outros. E sorri-lhe de volta.

fotografando o dia (171)

mesmo à entrada da barra
no rio que vai ao mar
sem âncora nem amarra
vai a gaivota a voar
cruza os céus que o Bugio
lá de longe vê passar
preso ao fundo deste rio
com ânsias de navegar  
mas a gaivota-vontade
não corre céus ao calhar
vai em busca da cidade
de guarida ao seu pousar
e entre aquele encalhado
e esta no seu penar
não há inveja ou pecado
há só rio – há só mar

– fotografia e poema de Jorge Castro

as misérias dos poderosos

Carlos Peixoto, deputado do PSD pela Guarda, licenciado em licenciaturas (?), perorando no jornal i, aqui há uns dias atrás, acerca do que é, na sua visão limitada, serôdia e com muitas probabilidades de ser mesmo imbecil, o mal tremendo que assola Portugal, destrambelha-se com o seguinte dislate: “A nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha.
E, como forma de debelar o mal, tresvaria numa apologia à fornicação procriativa, como se não houvesse amanhã, para concluir com esta inevitabilidade: «Se assim não for, envelhecemos e apodrecemos com o País.
Contaminação, peste e apodrecimento. Eis como a bestialidade desta criatura, por associação, mimoseia os seus avós, pais e a si próprio, muito em breve, pois conta já este garboso pimpolho com 45 anitos feitos.
Eu não sei em que alfombre foram criados estes cidadãos ou, melhor dizendo, em que entulheira medraram tais fungos que assim se assanham contra quem, afinal, lhes garantiu e garante o sustento.
Sim, porque do alto dos meus grisalhos sessenta anos, com mais de trinta e cinco de vida retributiva, trabalhando por conta de outrem (isto é, pagando efectivamente impostos) e com mais cerca de meia-dúzia de anos de vida activa pela frente, sou um dos que está a sustentar a vidorra da criatura e, até, segundo os cânones distorcidos da sociedade em que vivemos, lhe estou, mesmo, a assegurar a futura reforma que, como deputado que é, lhe deve estar para muito breve.
As grandes questões que se me colocam são as seguintes:
– Esta gentinha não pode ser banida da Assembleia após uma barbaridade deste quilate? Vai tão longe a imunidade parlamentar? Os seus pares (e nós todos) não temos vergonha na cara e permitimo-lo como representante da nação? Os pais dele – se é que não nasceu de geração espontânea, por entre os tais fungos… – convivem bem com este filho ou já lhe pespegaram dois bofetões bem aplicados e o baniram do convívio familiar?
Poucos dias depois, o mesmo inefável Peixoto – que assim apurámos ser homem dado a filosofias pimba -, entulha-nos as consciências com mais este primor: quem aceita «o casamento homossexual pode também vir a aceitar o casamento entre irmãos, primos directos ou pais e filhos…».  
Ora estamos aqui com uma contradição tremenda naquela cabecinha pensadora: se é verdade que a união entre homossexuais, no estadio actual da técnica civilizacional, não gera rebentos, pelo menos sem assistência colateral, já o casamento entre irmãos, primos directos ou pais e filhos pode vir a revelar-se um modo airoso de dar bom seguimento ao que o homem acima preconiza: a procriação como desidério nacional. Afinal, sempre se diz que em tempo de guerra não se limpam armas…
O meu receio é tão só que as consanguinidades daí decorrentes venham a dar origem a muitos Peixotos como este desta fábula…

como decorreu a conversa com Joaquim Pessoa
nas Noites com Poemas

Como sempre e sempre diferente de cada sessão que a antecedeu, como sempre têm decorrido estes nossos encontros entrelaçadas em poemas e poetas, na inquietação da busca de um mundo novo, apesar do cerco insidioso do mundo que temos. 
O nosso convidado, o poeta Joaquim Pessoa, sugerira que a sua participação evoluísse em forma de conversa casual e informal…. 

…  tendo como interlocutores os elementos da assistência que, apesar dos avisos cataclísmicos intimidatórios, se afoitaram, noite adentro, a ouvir e sentir outras vozes, outros falares. Um modo outro de viver…   

… algures entre o amor e o combate, como nos foi anunciando o nosso convidado.

O que me sugere o seu poema, respigado de Ano Comum, Dia 202:
Havia um sonho. Havia uma
esperança. Havia. Havia.
Mas o sonho também cansa
e a esperança está vazia.

Havia um sonho e uma esperança
Pois havia.

De seguida, a conversa evoluiu, como parte determinante e identitária também das Noites com Poemas, para a exposição e partilha das diversas identidades e sensibilidades em forma e modo de poemas, ditos de viva voz e coração aberto, onde se cruzam primeiros passos com vivências prolongadas nesta coisa estranha e misteriosa de casar palavras sempre na tentativa – melhor ou pior conseguida, mas sempre tentando… – de encontrar o outro… ou até – quem sabe? – esse local indizível onde se esconde a tal esperança arredia que o poeta refere.   

Afinal, uma exposição de temperamentos que temperamentalmente se manifestaram… 

O espaço dedicado à troca de impressões, de contactos, que anunciam novos eventos, e a recordação colhida do convidado da noite, em forma de autógrafo. 

E assim cumprimos, uma vez mais, a arte do encontro. 

– fotografias de Lourdes Calmeiro

Conversa com o poeta Joaquim Pessoa
nas Noites com Poemas

Amizades, por favor, sigam-me durante breves momentos:
– «Sou apenas um escritor. Um cultivador. Um jardineiro. Um florista. A minha felicidade flutua entre o estrume que deponho na raiz das palavras e o aroma que me excita quando acabo de as colher»;
– «Tenho uma receita para morrer novo: envelhecer primeiro»;
– «De tanto a enrolares com mentiras, a verdade é uma múmia mentirosa»;
– «Se perderes a magia, perdes tudo. O que sobrar de ti não chega nem para cumprimentar o teu vizinho»…
Assim mesmo, folheando aleatoriamente os dias do seu recente livro, Ano Comum, Joaquim Pessoa – poeta, artista plástico, publicitário… – vai-nos confessando que vive e tão intensamente que está disposto a partilhá-lo mas deixando imensas pistas para uma amena cavaqueira. E assim pretende que se desenrole a nossa próxima sessão das Noites com Poemas, que contará com a sua presença.
Uma conversa informal, uma simples e escorreita troca de impressões/opiniões sobre o que mais interessa e que não será nem mais nem menos o que vai do tudo ao nada.
Na próxima sexta-feira, dia 18 de Janeiro, pelas 21h30, na Biblioteca Municipal de Cascais em São Domingos de Rana (vide mapa anexo), estaremos, então, com Joaquim Pessoa.
Homem de mil poemas – além de uns quantos mais ofícios –, de amor e de combate, tantos a andarem por aí, nas bocas do mundo, dir-se-ia a comporem-nos a existência e a restaurarem-nos caminhos…
Lá estaremos para a conversa. E vocês, já sabem, apareçam. Há sempre um lugar mais à vossa espera. E espaço para um poema.
Se, pelo caminho, vos ocorrer um bom argumento para trocar com o nosso convidado, não hesitem. Todos agradeceremos.

a propósito de orçamentos criminosos…

Poderá haver aqui conceitos que carecem de segunda análise mas, ainda assim, há aqui também matéria de reflexão. Se calhar, profunda:
Coloquem os idosos nas prisões para que recebam um banho por dia, vigilância de vídeo em caso de problemas, três refeições por dia, acesso a uma biblioteca, computador, TV, ginásio…
Coloquem os criminosos em casas de repouso para que recebam refeições frias, luzes apagadas às 20h, um banho por semana, vivam numa sala diminuta e paguem 400 euros por mês.
Que tipo de tratamento é que, com os avanços civilizacionais e bem vistas as coisas, estamos a proporcionar aos nossos idosos e aos criminosos? 
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

Arquivo

Categorias