Sendo este um  espaço de marés, a inconstância delas reflectirá a intranquilidade do mundo.
Ficar-nos-á este imperativo de respirar o ar em grandes golfadas.

CONVITE

Amizades, 
Concluir-se-á mais uma «temporada» das nossas sessões, no próximo dia 19 de Julho de 2013 (sexta-feira), pelas 21h30, na Biblioteca Municipal de Cascais – em São Domingos de Rana, com mais uma ronda pelos Poetas da Apenas Livros, editora que tem, contra ventos e marés, sustentado a irreprimível vontade de partilha que a tantos move, em modo e forma de poesia. Por lá estaremos e estamos, também, a contar convosco. 
Eis um esboço, não exaustivo, do programa previsto:
– Por certo tenho eu que nos visitará, de novo, o poeta asturiano José Luis Campal, a trazer-nos um amor para além da vida, Los Poemas de la Aurora, e que abrirá a sessão.
– Contaremos, também, com a companhia de valente representação de elementos que alimentam a tertúlia Um Poema na Vila, em Coruche, pela mão de Ana Freitas, sua dinamizadora, grupo este em que a pujança criativa não cessa de nos surpreender. Essa surpresa consubstancia-se já na produção de dois livros: A Minha Rua e O Montado – Um Lugar Poético, que estarão disponíveis nesta sessão. 
Surpresas várias nos reserva, ainda, esta «delegação» de Coruche… Talvez não me fique mal desvendar que, entre poemas, gastronomia, danças e outros desvarios, a noite decorrerá cheia de vida. Presumir-se-á, também, que o salão da Biblioteca não seja demais para abarcar tão prazenteira confraternização… 
Façam, então, o favor de entrar. Esta casa é nossa.

as contas que contam – prosaico poema

Então,
vamos lá a contas. Contas de nós tão mal prontas que nos sufocam a voz…
Mas
tu, aí, que me contas? Eu que venho desse tempo em que se pagava em contos as
contas que alguém fazia. E não era nada bom mas o que de mau havia tinha rosto,
cara à vela, e nem usava à lapela bandeiras de fantasia… ou de lata que, também,
se bem virmos, vendo bem, há gente desta que avonde e vem nem se sabe de onde,
a caminho de Belém.     
Hoje,
paga-se em histórias, dá-se de troco umas lérias quando há demais demasia. Será
isto Literatura de braço dado à Matemática, alto voo de cultura? Ou laparoto na
lura, cheio de manha e de astúcia, contrariando a urdidura? 

vão dando ao BPN, ao BCP, ao BANIF, a um patife que lhes dê a palha e o bom
sustento. Dão às PPP, ao vento, dão tanto que nem aguento contar contas de
rosário quando tanto salafrário vive à custa de salário com o qual mal me
governo pois vai todo para o governo, sem haver qualquer retorno nesta vida
feita inferno.
O
mandante a tempo inteiro, papagaio garganeiro, vai de ministro a banqueiro e de
banqueiro a ministro, sempre num jogo sinistro, sempre em dourado poleiro e,
perdoem-me se insisto, à custa do meu provento – que digo eu? – do nosso, que
estou pr’àqui que nem posso, de bolsos cheios de vento.  

viste? Fizeste as contas? Soma lá esses milhões e, sem mais ideias tontas,
apura o quanto a ganância desses tais senhores do mundo te afasta, aos
tropeções, p’ra tão longe da abundância, a este abismo sem fundo.
Conto-vos
contos de encanto, em cantochão, desencanto de ouvirmos tanto poltrão em
matraqueio de socos. E debaixo do colchão voltei a guardar uns trocos, poucochinhos,
só uns poucos, uns centavos taralhoucos, para dias de aflição, pois eu, com tais
saltimbancos, já nem confio nos bancos, em perpétuos solavancos, sem saber para
onde vão.
Em
redor lá cresce a fome, adição vil e sem nome, que subtrai o viver. E a divisão
que fazem multiplica esta maleita da vida feita a morrer.
Ocorre-me
aqui a outra, a caridosa esmoler, a dar quanto se quiser ao pedinte e à
desgraça. Mas, antes, a encher bem a carteira desse alguém que é o dono da
praça… E quem precisa lá come o pão que o Diabo amassa, pois tem a fome dos
filhos numa urgência que não passa.
E
só nos faltará ouvir que tanta gente a pedir por uma côdea de pão assim é
porque Deus quer mas, que o diga quem souber, sempre a bem da nação. 
Aos
dias somam imposto, taxa, coima sem ter rosto, espécie de fogo posto sem nos
dar margem de fuga, sequer de respiração. E o portuga lá vai, cordeiro, manso,
tal cão a dar ao rabo ao serão, sem um ai e sem tostão; um ai de nós ou de
peito, de tanto estarmos a jeito deste fado violento:
Ai,
meu Deus, que não me aguento!
Ai,
patrão, e o meu sustento?
Ai,
ó mãe, quem nos acode?
Talvez
voltar a ser cão mas aquele que bem sacode, que coça, morde e escorraça a pulga
como a carraça, à dentada e à unhada, a ver se a coceira passa.   
O
avô ao filho dá e o filho dá ao neto e, se hoje há, amanhã já vivem todos sem
tecto. E tantas necessidades, vos digo em pobre rima,  porque uns quantos se amanham, quanto mais
alto se apanham, muito além e muito acima das nossas possibilidades.  
Então,
vamos lá a contas…?
Diz-me
lá tu que remontas a passados de eleição, dos Lusíadas de antanho, com quantos
cantos faremos, hoje em dia, o nosso amanho?   
Ou
será que já só contas, que só és de corpo inteiro, quando, fugindo de afrontas,
das maleitas destas seitas, és português no estrangeiro?
Enfim,
eu cá te conto, por fim, não ser dado a equações que não passem de travões à
vida que é tão nossa. Assim sendo, aqui declaro que não é nosso este fado nem a
letra é confiável. Porque ele há um mar arável e uma terra ondulada onde o
porvir é fecundo e neles – vê lá bem, por todo o lado – há uma rede, um arado,
que deram mundos ao mundo.
Do
desgoverno aos vilões, tal como nos diz Junqueiro, em preceito que se aplica à
cáfila de aldrabões que assola o mundo inteiro, à «truculenta manada obesa de hipopótamos, ó
Humanidade, enxota-mos
!».
Está
em ti, em mim, em nós darmos a volta outra vez criando outro mundo novo, onde a
História de alguns é coisa de pouca monta e bem vista pouco conta.
Mas
vale a História do povo.   
E
nela, somados todos, abriremos a janela para entrar o Sol a rodos!
E
conclui-se a equação mesmo que a solução contra esta praga daninha,  muito mais do que a galinha, para criar homem
novo esteja ainda no ovo…

uma sugestão para hoje, em Coruche…

… nas instalações da Biblioteca Municipal de Coruche, ali onde se situava o antigo mercado, mesmo juntinho ao Sorraia, pelas 21h30, os poetas de Um Poema na Vila, homenagearão os amigos.
Como prato forte contarão com o Oeiras Verde – onde, ocasionalmente, também participo – que nos convida a fazer, entre outras desvairadas coisas, um passeio por diversas canções do  José Afonso, com preponderância pelo tema desta sessão: Amigo, maior que o pensamento.

quotidiano delirante (17) – alguma insegurança social

Imaginem uma necessidade premente de contactarem telefonicamente os serviços da Segurança Social em nome de um familiar que, por razões de doença, não está em condições de o fazer. Sei lá… por exemplo, para tratar de uma isenção em taxas moderadoras que tarda em efectivar-se…
Sabem o que vos vai acontecer? Uma senhora simpática, do outro lado, diz-vos que poderá transmitir a informação necessária, também telefonicamente, mas apenas mediante a autorização, outra vez telefónica, do próprio beneficiário.
Então, mesmo sem desligar a chamada, vocês chamam o tal próprio beneficiário – que pode mesmo ser ele ou talvez não –  que, ainda uma vez mais e sempre ao telefone, confirma que, sim senhora, está a autorizar a prestação da informação a terceiro.
E a informação é-vos transmitida.
Se isto não é a manifestação cabal de que estamos a viver num regime de estupidez institucionalizada, então é o quê?
Claro que vos serão solicitados alguns dados identificativos. Mas esses obtêm-se em qualquer lado e sobre qualquer cidadão, sem grande esforço.
Pessoalmente, até considero aligeirado o procedimento, que nos alivia de deslocações sempre incómodas. Mas, por outro lado, onde é que mora a reserva de confidencialidade que se deve esperar em matérias onde ela é ponderosa?
Vejamos: estas coisas têm sempre por trás um despacho regulamentar interno qualquer, que alivia os funcionários de responsabilidades espúrias. Assim sendo, também neste caso, terá existido uma inteligência qualquer que definiu que, a bem do cidadão, esta confirmação telefónica seria útil e necessária e, seguramente, muito mais simplex.
Mas a verdade é que, pelo menos enquanto os telefones não reproduzirem a imagem de cada utente, qualquer um pode dizer, ao telefone, que é o senhor fulano de tal e que confirma tudo e mais alguma coisa… ou não será?
Colocada perante esta dúvida, a senhora funcionária simpática, em resposta, riu-se muito simpaticamente. Eu também. Mas agradeci muito a informação que me foi transmitida.

quadra a Santo António

Apresentando como mote Santo António está pasmado/Milagre já paga imposto, os Amigos de Lisboa promoveram um concurso de quadras alusivas, onde obtive uma Menção Honrosa com o seguinte desenvolvimento:
Santo António está pasmado:
Milagre já paga imposto
E o povo está calado…
Mas se ficar mal disposto?
– Figuras típicas das cascatas de S. João,
em imagem recolhida na casa de artesanato Memórias, na Rua das Flores, no Porto,
que podem acompanhar perfeitamente a quadra acima, 
em saudável comunhão norte-sul

GREVE GERAL

Perante o estado a que os nossos desgovernantes conduziram ou deixaram conduzir Portugal e como modo de manifestar o meu repúdio pelas reiteradas decisões e práticas contra os interesses da nação que somos, este autor de Sete Mares encontra-se em greve.

Contas x Contos x Cantos e Que +
Cumplicidades Entre Literatura e Matemática

Contámos, com contas, contos e cantos, mas essencialmente com os nossos convidados, Carlos Augusto Ribeiro, Ana Paula Guimarães e Adérito Araújo (nessa sequência, da esquerda para a direita, na imagem abaixo)…  
 

… para nos ilustrarem sobre inesperadas ligações, articulações, enlaces, enfim, as cumplicidades entre a Literatura e a Matemática, saberes entretanto sedimentados nesse livro em volta do qual se realizou esta sessão das Noites com Poemas.


Ana Paula Guimarães, sempre envolvida em palavras, nos seus jogos e fruição, comunicativa por todos os poros e sempre trazendo consigo o alento necessário e urgente que esses verdadeiros nós entre nós, que são as palavras, nos propiciam.

Adérito Araújo, de Matemática literalmente vestido, transbordando complexos mas desafiantes conceitos que nos levaram de passeio por entre o caos e até ao infinito, tantas vezes ao colo de um poema.

Carlos Augusto Ribeiro, que nos propôs uma visita guiada a outros modos de ver (sentir? aperceber?) as palavras, os símbolos que nos rodeiam e enformam, que podemos recontextualizar ou recombinar até ao infinito, também, promovendo outros enlaces, outros entendimentos, outras desvairadas conjugações, tantas quantas o engenho humano se disponha a criar, interpretando.

Pelo caminho e por entre eruditas abordagens aos temas em apreço, saltava, a cada passo, um poema destinado a ilustrar a evidência do que ficava dito e que tem vindo a ser tratado por miríade de autores, tal como o livro Contas x Contos x Cantos e Que +, Cumplicidades entre Literatura e Matemática documenta.

Por fim, como tão bem parece sugerir a imagem seguinte, culminou em êxtase – perdoa-me a brincadeira, Ana Paula… -, ainda que de pés bem assentes na terra, este breve trajecto por saberes que, afinal, se complementam, que compõem e integram o que ao ser humano respeita, saberes que se enriquecem nessa complementarideade e que, assim, dão a si próprios outro sentido, assim como dão, nessa sua envolvência, um sentido mais claro à Vida. Às nossas vidas.
Digo, pois, com todo o à vontade que assim se cumpriu o objectivo deste nosso encontro.
Na parte final e na sequência do que é a matriz destas nossas sessões, afoitou-se quem se afoitou a dar voz aos poemas que o tema da sessão sugeriu ou, até, aqueles outros que apenas a sua vontade ditou…
 – Hélio Proença

– Francisco José Lampreia
– Eduardo Martins
– Emília Azevedo
– Mário Baleizão

Não chegaram até nós, pela distância,  os sons diversos da vizinha Lisboa que por lá orquestradamente agitavam os ares e as gentes, ocorrendo em simultâneo com esta sessão das Noites com Poemas. Mas terá sido, também, este o nosso contributo para o combate ao silêncio das vozes e ao vazio de ideias em que alguns parecem querer mergulhar-nos. E alegremente o fizemos.
A sessão de autógrafos

– Fotografias de Lourdes Calmeiro

convite para Noites com Poemas
Contas x Contos x Cantos e Que +
Cumplicidades Entre Literatura e Matemática

No próximo dia 21 de Junho (sexta-feira), pelas 21h30, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, proponho-vos que deitemos contas à vida, até por constar (por aí…) que o tempo vai propício a tais exercícios. Contas x Contos x Cantos e Que +, Cumplicidades entre literatura e matemática é a obra apresentada:
«Matemáticos, poetas, colectores de cantos e contos populares, ensaístas, pedagogos, escritores e artistas plásticos, pessoas sensíveis ou sensibilizadas para as relações tão subtis quanto óbvias entre disciplinas distantes, afinal parentes, todos se prestaram ou emprestaram textos que decidimos organizar em capítulos, a ler um de cada x (sinal inventado no século XVII). Assim nasceu este ousado livro, conjugando verbos com números, aritmética com literaturas e estas com geometria.» – Ana Paula Guimarães, in Apresentação de Contas x Contos x Cantos e Que +.
Contas de outros rosários, contos de reis como de plebeus, cantos também de diversas esquadrias; contas, contos e cantos do que somos, do que fomos e do que seremos, bem enlaçados à vida – que isto anda tudo ligado, lá se diz.
Convidados de peso e substância, todos eles integrando os efectivos do IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (http://www.ielt.org/), com eles contaremos, que isto de imaterialidades está a ficar muito visto, usual e sem eficácia se não tiver recheio que lhe valha:
Adérito Martins Araújo, doutorado em Matemática Aplicada, é professor Auxiliar no Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Desenvolve investigação no Centro de Matemática da Universidade de Coimbra onde também dirige o Laboratório de Matemática Computacional. É membro da direcção do Centro Internacional de Matemática e editor do CIM Bulletin. É o representante português no Conselho do ECMI (European Consortium for Mathematics and Industry).
Ana Paula Guimarães, Professora Associada, doutorada em Estudos Portugueses, especialidade de Literatura Oral e Tradicional. Criou e dirige o Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa.
Últimas obras publicadas: Falas da Terra – Natureza e Ambiente na Tradição Popular Portuguesa, Colibri/IELT (2004); Cuidar da Criação – Galinhas, galos, frangos e pintos da tradição popular portuguesa, Apenas Livros (2002); Artes de Cura e Espanta Males – Espólio de Medicina Popular recolhido por Michel Giacometti, Gradiva/IELT (2009); Contas X Contos X Cantos e que + (org. colaboração de Adérito Araújo), Gradiva/IELT (2012).
Dirige a colecção “a IELTsar se vai ao longe” desde nº1 (2003) ao nº 40 (2012), e duas colecções de folhetos de cordel, “À mão de respigar” (desde 2002, 47 folhetos) e “Bilhetes de Identidade” (desde 2002, 41 folhetos).
Carlos Augusto Ribeiro, Investigador no Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL e artista plástico. Última exposição integrada no Festival de Artes na Paisagem, Safira, com a peça intitulada Lacuna (2012). Últimas publicações e dossier de imagens: QUEIROZ, Ana Isabel; ORNELLAS E CASTRO, Inês de, Falas da Terra no século XXI, What do We See Green? Lisboa, Esfera do Caos, 2011; “A matemática é certeira mesmo quando erra”, in Contas X Contos X Cantos e que + (org. colaboração de Adérito Araújo). Lisboa, Gradiva/IELT, 2012.
Perdoareis a extensão do convite, ainda que eu faça questão de vos sublinhar que só me atrevo a maçar-vos assim para, conforme o meu limitado entendimento, vosso bem e melhor esclarecimento… Tereis boa oportunidade para confirmar o que fica dito, escrito e contado se pudermos contar também com a vossa presença.
Tragam convosco um amigo, um poema. Em qualquer caso, quem trouxer mãos livres ou um assobio, nem é preciso que saiba cantar, como sugeriria Luiz Goes.

nunc est bibendum… et comendum et cantandum et coetera…
enfim combibendum

Do que se fala aqui é tão simplesmente dessa coisa prosaica e, no entanto, tão transcendente, que é a nobre arte do convívio. 
Alimentada por uma bela comezaina, regada com uma boa vinhaça, temperada de risos e despautérios, estabelecendo enlaces que perdurarão mais ou menos, mas que são, esses sim, novas janelas de oportunidades pelos caminhos dos afectos, buscando muito mais o que una, mesmo que ocasionalmente, do que aquilo que irremediavelmente nos afaste, sem proveito, sem gozo, sem juízo.  
Aos dois de Junho e por Coimbra, no Joaquim dos Leitões, fomos grandes e fomos belos, digo-vos eu, todo vaidoso desta condição de ser humano.
Com crise e com troika e por maus Passos dados e os mais a dar, determinados tão-só por esse ilustre peito lusitano, que mesmo inexplicavelmente tem sempre em si a capacidade de dar novos mundos ao mundo, por ali nos encontrámos. Para alguns uma estreia, outros velhos conhecidos…   
… dando de si cada um o que pôde ou tinha mais à mão, apenas pela alegria do momento, o desvario apetecido, a partilha sem preconceito – pelo menos que se desse por eles… 
Do que por lá se passou, não deixo relato. A sessão era aberta, foi anunciada e lá foi quem quis ou pôde. E a graça está em vivê-la. Qualquer descrição a empobreceria. Lá está: melhor experimentá-lo que julgá-lo, mas julgue-o quem não pôde experimentá-lo

Da Tuna Meliches aos poemas circunstanciais, das rábulas presidencialícias… 

… às deslumbrantes cenas cardinalícias…

… Tanto riso, ó quanta alegria, mais de mil palhaços no salão…

No final, as últimas bençãos…

… e, cá fora, o Bazófias, condescendente, continuava a correr para o mar, como se nada fosse, mesmo sob o olhar atento e curioso de Torga… 

– Fotografias de Lídia Castro, Lourdes Calmeiro e Jorge Castro

com o Oeiras Verde, em Oeiras
e com O Montado – um lugar poético, em Coruche

No corre-corre dos dias que se acinzentam, há sempre alguém que, desperto para outros modos de vida, permanece nela alimentando o sonho e lembrando-nos, a cada passo, que da nossa língua vê-se o mar, como nos diria Virgílio Ferreira. Aliás, como referência que norteia os dois eventos de que faço referência a seguir, nada melhor do que as palavras deste autor para o ilustrar:

Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor,como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.



Assim foi, primeiro com o Grupo Oeiras Verde, no Centro Cultural Palácio do Egipto, em Oeiras, no passado dia 25, ocorreram 15 Ecos de Poetas, efeméride que culminou um ano de acções em torno da poesia que Ana Patacho, acompanhada por Lurdes Pereira, Magnólia Filipe, Filomena Vale, Francisca Patrício e Luzia Pinto da Costa naquele espaço levaram a cabo.
Como convidado participei nesta sessão, mas muito mais como companheiro deste grupo que integrei durante algum tempo e do qual me retirei, com suavidade, por manifestamente o tempo não se compadecer com tanta disparidade de exercícios… 
Mas há sempre um tempo para dar ao tempo a oportunidade de um abraço que, aqui, foi também partilhado com a Heloisa Monteiro, a Teresa Rosa, a Teresa Pereira Coutinho, o Luís Cara d’Anjo, o José Rato Machado, o Vox-4… enfim ficou-se aquele espaço plenamente preenchido com os ecos da vozes que importam e, claramente, daquelas janelas passou a ver-se o mar.
     Ver mais informações e imagens deste evento AQUI


*

Depois, no dia 26 e no espaço disponibilizado pela Biblioteca Municipal de Coruche, a Galeria do Mercado, Ana Freitas, muito bem acompanhada de afectos, deu asas concretas a mais um projecto que tem sabido crescer com o húmus do montado. 
Poema a poema, voz a voz, por entre sobreiros e azinheiras e de Sorraia ali mesmo ao lado, pegou de estaca e floresce um projecto que tem também sabido criar as raízes de que se alimenta o futuro.
O Montado – Um Lugar Poético é o segundo livro lançado, com edição da Apenas Livros, nascido e criado pela participação de todos quantos olharam com olhos de ver para este projecto poético e o assumiram como seu.   

Um Poema na Vila, assim se denomina a acção que leva já mais de um ano regular de vida, em Coruche, com participações múltiplas e pluridisciplinares, mas sempre com a poesia como pano de fundo. 
Entre outras, uma belíssima surpresa: o Grupo de Cantares Alentejanos, que nos encheu as medidas com a sua arte de cante. Património imaterial da Humanidade? Claro! Basta ouvi-los… 
– Uma palavra sublinhada, outra vez e sempre, para a Fernanda Frazão, alma mater da editora Apenas Livros, com quem sabemos poder contar para a concretização atempada e interessada de algum projecto, por mais estranho ou original que possa antever-se, mas que consegue chegar a bom porto graças a tais qualidades e virtudes com que dela contamos. 
A mim muito me apraz acompanhar e colaborar com esta iniciativa, que tem contado, também, com o mesmo empenhamento por parte de vários dos colaboradores das Noites com Poemas, que partem de cá das terras de Cascais, em retribuição prazenteira ao movimento inverso que se tem registado, das nossas amigas de Coruche, para com as nossas sessões mensais 
E, pronto, ei-lo! Com capa de cortiça, claro! Edição esgotada no seu lançamento, uma colectânea nascida em sessão com o mesmo nome, oportunamente realizada em Coruche, que integra, também, diversas manifestações plásticas que ocorreram, à data, e que ficam documentadas neste precioso livrinho. 
Ver mais notícia e imagens deste evento AQUI.

– Fotografias de Lourdes Calmeiro
Todas as coisas têm o seu mistério
e a poesia
é o mistério de todas as coisas
– Federico García Lorca

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