sempre que o homem quiser…

estar em Abril é assim…

estar em Abril é assim 

uma vontade de ser 
de criar e de crescer 
num tempo que é de outro modo 
o tempo de criar pão 
e saber ser mundo todo 
sempre ao alcance da mão 
estar em Abril é assim 
um olhar de frente a vida 
por mais que alguém o desdiga 
e um desdenhar da sorte 
quando se dá a passada 
naquela dura jornada 
em que a vida perde o norte 
estar em Abril acontece 
quando dentro de alguém cresce 
um grito cru de esperança 
e na espuma do medo 
num velho muro se escreve 
um poema – um cravo breve 
verde e rubro de mudança 
estar em Abril é bandeira 
que se hasteia numa praça 
quando vem lá outro alguém 
que é alguém de outra maneira 
e na orla da desgraça 
canta contigo também 
canções no vento que passa 
estar em Abril é assim 
sentir-te perto de mim 
quando a mágoa nos afasta. 

– Jorge Castro 



25 de Abril de 2013



A Poesia Está Na Rua – Vieira da Silva

o Mirandês, com Amadeu Ferreira,
nas noites com poemas

Tratava-se, então, no passado dia 19 de Abril e na Biblioteca Municipal de Cascais – São Domingos de Rana, de dar voz ao Mirandês e à sua espantosa resiliência – digo eu, lançando mão deste «palavrão» tão em voga – através da voz de quem tão bem lhe conhece o corpo e a alma, o nosso convidado Amadeu Ferreira, personagem de créditos bem firmados na matéria.
Como sempre, perante uma sala confortavelmente preenchida, coube-me sucinta intervenção de apresentação, anunciando o que estava para vir:
– fotografia de José Freitas
– uma sessão integralmente em torno do Mirandês e da poesia de Amadeu Ferreira, vertida nas autorias de Fracisco Niebro e de Fonso Roixo, bem como de Marcus Miranda, sendo este, preferencialmente, um tradutor de clássicos latinos (Catulo e Horácio), com preponderância em peças de teatro, mas com incidência próxima também na poesia daqueles autores.
Tratando-se de Miranda – que tentei trazer para perto de todos, até na vestimenta – algum arrebatamento, ao nível dos afectos, se me impunha, para o que contei com a complacência do nosso convidado. 
Depois, a palavra ao excelente comunicador que o professor é. Com vivacidade, ritmo e paixão, Amadeu Ferreira levou-nos a passear pelo linguajar (linguajares?) das terras do nosso nordeste… mas sempre em Mirandês, obrigando-nos a redobrada atenção, para não lhe perder pitada… 
… ainda que sempre mantivesse a preocupação da sua inteligibilidade, em relação à assistência.
Assim percorremos, afinal, diversas disciplinas da História, enriquecendo a moldura do quadro mirandês que Amadeu Ferreira nos ia, vividamente, pintando… 
… e ilustrava com poemas extraídos dos seus diversos heterónimos em livros como Cebadeiros, Pul Alrobés de Ls Calhos, L Mais Alto Cantar de Salomon, Ars Vivendi-Ars Moriendi, LPurmeiro Libro de Bersos
… através dos quais dá livre curso, também, ao seu combate em defesa da grandeza e dignidade de uma língua que o é de corpo inteiro, como muito bem documentou também através da leitura 
de diversas estrofes de Ls Lusíadas an Mirandés, com retroversão de sua autoria.
Foi-me dado, ainda, o privilégio de usufruir de um mano a mano e partilhá-lo com toda a assistência, em volta de um poema de minha autoria, em pertués i mirandés, 
com a prestimosa ajuda do professor Amadeu Ferreira
– fotografia de José Freitas
Por fim e continuando a matriz que enforma estas nossas sessões, 
foi dada a palavra a quem se afoitasse a usá-la:
– fotografia de José Freitas
Adelaide Monteiro trouxe-nos poemas mirandeses de sua autoria,
colhidos no seu livro Antre Monas i Sebolácios
E mais disseram, nesse entrelaçar de poemas que ocorre na parte final das nossas sessões: 
– Mário Baleizão Júnior
Ana Freitas, que ousou homenagear Adelaide Monteiro, lendo um poema desta autora em Mirandês… 
… o que bem pareceu cair no goto do nosso convidado, para além do da própria autora, claro.
– Rosário Freitas
– João Baptista Coelho
– Inês Santos
– Eduardo Martins

E assim decorreu prazenteira e alegremente esta sessão em redor do Mirandês da qual vos poderei assegurar, com o maior respeito por todos os anteriores convidados, que não terá sido melhor nem pior, mas que foi, seguramente, diferente.

Aqui deixo testemunhado o meu enorme agradecimento ao professor Amadeu Ferreira pela sua disponibilidade, empenhada e, diria até, militante, tanto quanto pela vivacidade que teve artes de imprimir a este nosso encontro.

– Todas as fotografias, com excepção daquelas devidamente identificadas, são da autoria de Lourdes Calmeiro.

Maria Francília Pinheiro
(30/01/1934 – 20/04/2013)

Faz-te ao Largo

Depois da ventania me levanto
Como o bambu em pleno canavial.
O choro aprendi a afogar e o pranto,
Lembrando dizeres de velho ancestral:

É tempo de arribar do teu quebranto!
Vê como é belo o espaço sideral…
Cuida a ternura, a graça e o encanto
Dos pombos que namoram no pombal…

O medo de ter medo é que destrói.
Lava as feridas. Não te importes se dói.
E faz-te ao largo em estrada não andada…

Procura a força. Está dentro de ti.
Mas nada importa. Olha o mundo e ri, 
Que o Sol traz amanhã outra alvorada!…

Maria Francília Pinheiro,
in Poesia que a Mágoa Tece, Lisboa, 2007)
Adeus, boa amiga, companheira das palavras e dos versos que nos sustêm. Deixas-nos a inveja dos deuses do Olimpo – de quem tanto nos falavas – pois serão apenas eles, agora, a sentir o teu arrebatamento poético… Pelo menos até àquele dia em que todos nós, pó das estrelas, partilharmos de novo a comunhão das palavras onde tu, com especial mestria, nos envolvias.
Até sempre, pois, amiga Francília, tu que pela força dessas palavras asseguraste um lugar imorredoiro na nossa memória. Daqui, deste terreal lugar, o meu beijo, o nosso abraço. 

noite com poemas
com Amadeu Ferreira e a língua mirandesa

Cá vai o convite mensal para a nossa 85ª sessão das Noites com Poemas, que terá lugar no próximo dia 19 de Abril de 2013, pelas 21h30, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana.
Desta feita, cá vos proponho o ensejo de escutar sonoridades da nossa outra língua oficial, em território nacional, o Mirandês, por parte de quem tão bem o cultiva, Amadeu Ferreira. Dele se dirá, muito sucintamente:
Amadeu Ferreira (Sendin, 29 de Júlio de 1950) ye abogado, i porsor cumbidado an la Faculdade de Dreito de l’Ounibersidade Nuoba de Lisboua, i cuntina a ser un de ls percipales respunsables pula promoçon de l Mirandés, sendo pursidente de la Associaçon de Lhéngua Mirandesa, cun sede an Lisboua, i tenendo traduzido yá ‘Ls Quatro Eibangeilhos’, ‘Ls Lusíadas’ i bários poemas de Bergílio i Hourácio.(http://mwl.wikipedia.org/wiki/Amadeu_Ferreira)
Será, então, esta uma sessão integralmente em torno do Mirandês e da poesia de Amadeu Ferreira, vertida nas autorias de Fracisco Niebro e de Fonso Roixo, bem como de Marcus Miranda, sendo este, preferencialmente, um tradutor de clássicos latinos (Catulo e Horácio), com preponderância em peças de teatro, mas com incidência próxima também na poesia daqueles autores.
Uma língua identitária, fruto de um modo de ser e de estar que a fez sobrevivente desde tempos imemoriais, matriz de uma comunidade que teve artes de não a deixar cair em perdição, contra ventos e marés de contrariedades ou contrariando preponderâncias de cultura dominante. Um exemplo a seguir, digo eu, em tempos tão aziagos para a afirmação da diferença cultural que tantos de nós ainda persistem em cultivar, a bem da riqueza maior da Humanidade na diversidade.
Dar-se-a prioridade, no momento destinado a quem assista a esta sessão aos que se afoitem a trazer e dizer um (ou mais) poema(s) em Mirandês, claro.
Lá vos esperamos.

este IRS troicado…

O que eu mais aprecio, mas aprecio mesmo, neste atoleiro do qual não há modo de sairmos, é a disfunção sistémica de que enfermam os «serviços» na sua relação com o povo.
Vejamos: o cidadão sai cedo do seu emprego; corre para casa, através do trânsito urbano abstruso. Arma o estendal papeleiro em casa, avisando a família de que, hoje, o jantar deve atirar para mais tarde. Tudo avisado, arregaça as mangas, limpa os óculos, cata a máquina de calcular, distribui criteriosa e ordenadamente os incontáveis papelinhos que coleccionou, religiosamente, toda a família durante um ano.
Apresta-se a cumprir esse ritual de cidadania, ainda mais urgente nesta «terrível crise que atravessamos», mas ritual que tem tanto de imperativo cívico como de masoquismo penitente… e liga o computador portátil.
Passwords e o camandro, ei-lo a digitar… ou melhor, a tentar digitar as permissas de acessibilidade. E eis-nos no reino do Serapião, que é uma coisa que ninguém sabe o que é e eu também não:

(NOTA – acabadinho de ocorrer num sítio perto de mim…)
Pois eles serão «o mais breve possível», seja lá isso o que for no mau português que esta gente (ab)usa. Eu é que me sinto, subitamente, muito abaixo do corno da história!
E escusam de clicar aqui ou ali ou na pata que os pôs, que aquilo não abre para lado nenhum. Vais ver que isto tudo é por culpa do chumbo do Tribunal Constitucional…
Vá, agora cantemos todos: 
meninos, vamos à tróica, ó ai,
que a tróica é maravilha
metei o IRS, ó ai,
ali onde o Sol não brilha!
Raismaparta mais esta incomodidade constante de não ter nascido no Canadá, carais!!!   

homenagem a José Leite de Vasconcelos
no Museu Nacional de Arqueologia (Lisboa)

No passado dia 22 de Março, no seguimento de convite formulado pelo director do Museu Nacional de Arqueologia e em sessão integrada na comemoração do 120º aniversário do Museu, mas abrangendo também o Dia da Poesia e da Árvore, tive o grato prazer de fazer uma homenagem a José Leite de Vasconcelos, em forma de poemas.
Para além do apontamento em imagens do evento, deixo-vos, mais abaixo, o meu breve texto introdutório da sessão.
– Acolhimento pelo director do Museu, Dr. António Carvalho

 – Visita guiada à exposição permanente, patente no Museu, sugerida pela selecção de poemas apresentados

Sessão de homenagem a José Leite de Vasconcelos, 
na comemoração do 120º aniversário 
do Museu Nacional de Arqueologia
José Leite de Vasconcelos, fundador deste espaço museológico, então chamado Museu Enográfico Português, é exemplo maior e perene de um amor entranhado a esse todo difuso mas preciso que é o SER PORTUGUÊS e da História maiúscula deste povo, amálgama de povos, para o que contribuiu calcorreando incansavelmente as sete partidas de um mar multidisciplinar de saberes, do passado como do presente, em áreas tão diversificadas como complementares, tais como a Etnografia, a Numismática, a Arqueologia, a Filologia e a Linguística, a Literatura e, dentro desta, a Poesia!

Perante tantos e tão profundos conhecimentos e testemunhos que apercebo, eu retiro-me discretamente, deixando espaço a investigadores credenciados, a quem cumprirá transportar, para nosso gáudio e ilustração, esse archote de luz dos saberes nas trevas que teimam em pretender invadir-nos.

Mas que me seja, então, permitido, abusando da vossa condescendência, dar destaque exclusivo – aquele que está ao meu alcance tão só pela minha voz e entendimento – a esta sua costela, a de poeta…

Quem sabe, neste espaço que nos transporta pela vida fora, fazendo reviver a missão dos bardos ancestrais, transmutando, então, o Museu de Arqueologia que desfrutamos hoje na clareira iluminada da floresta, rodeados de frondosas árvores – que também aqui se celebram –  ou em redor do fogo primordial, onde a transmissão de saberes ocorria pela oralidade, no afecto e aconchego da palavra e na proximidade e comunhão de destinos dos elementos do clã.       

Com uma actualidade que emociona e desperta, a poesia deste nome maior da cultura portuguesa mantém-se fonte de inspiração que atravessou o tempo em busca de nós. 
Lisboa, 22 de Março de 2013