fotografando o dia (83)

Entre o que eu vejo
e tu vês
há um espartilho de espelhos

Vemos mais do que mostramos
do que vemos dos enleios

Ah se um dia espreitarmos
por aqueles olhares alheios
seremos talvez de nós
mais completos
mais inteiros


– foto e poema de Jorge Castro

fotografando o dia (82)

depois do voo
o pássaro procria

ficam-lhe mãos que voam
e as penas cheias de sol
descem à terra insegura

são assim as aves

também elas vivem
a aventura.

– foto e poema de Jorge Castro

(Imagem de Sete Sonhos de Pássaros,
da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo,
com coreografia de Vasco Wellencamp,
levado à cena no Auditório Fernando Lopes-Graça, no Parque Palmela
– Cascais – Julho de 2007)

Desafia-me o meu amigo Morfeu, do Anomalias, a que divulgue cinco livros marcantes na minha vida. Estes desafios são sempre da maior complexidade, pois cada dia nos traz novos desafios e novas surpresas. E a relevância de cada um pode ser – e geralmente é – determinada pelas nossas circunstâncias temporais.

Tentando não matutar muito no assunto, para não subverter a espontaneidade, eis o que me ocorre, não com a preocupação da obra de arte literária, mas como, na verdade, momento marcante e influente na minha vida – tanto quanto um livro possa ser:

Um Estranho Numa Terra Estranha – de Robert A. Heinlein

A Última Fome – de Pierre Boule

Uma Campanha Alegre – de Eça de Queirós

O Nariz – de Nikolai Gógol

A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado – de Friedrich Engels

provérbios educacionais pós-modernos

Afinal, o Professor Charrua sempre foi vítima de “excessos”, conforme terá reconhecido hoje o Ministério da Educação: excesso de zelo, excesso de hipocrisia, excesso de pulhice, excesso de servilismo, excesso de… excessos, digo eu.
A quantidade de coisas óbvias que este Ministério anda a concluir, nos últimos tempos e com uma rapidez esfuziante, fazem-me suspeitar de que andam por lá com acções de formação aceleradas. Ou serão os parceiros da Europa a darem-lhes umas toutiçadas, pois o que é demais é moléstia e incómodo a mais também cansa? E fica sempre bem dar uma de magnanimidade…
A propósito, ocorrem-me alguns provérbios ou ditos populares, actualizados, com a devida vénia:

– Os cães ladram e o Charrua passa.

– Vale mais um Charrua na mão que duas DREN a voar.

– Processo a processo, enche o Charrua o papo.

– Charrua que vai à frente alumia duas vezes.

– Se um Charrua incomoda muita gente, dois Charruas incomodam muito mais.

– Mais vale Milu que me leve, que Charrua que me derrube (lamentação dreniana).

– Diz-me com quem andas… e eu contar-te-ei a história do Charrua.

– Fia-te na DREN e não corras e verás o tombo que levas.

– Milu és, DREN terás.

– Amigo que não presta e DREN toda torta, que se percam pouco importa.

– Ir buscar Charrua e sair lavrado.

– Por São Charrua se vê que a DREN vai nua.

– Por um Charrua perdeu a DREN o mundo.

– Perde-se a DREN por não poder e a Milu por não saber.
Ah, pois, ainda a propósito, que tal uma questão retórica? Assim: face aos últimos desvarios linguísticos de Jardim relativamente à não aplicação da legislação sobre a IVG na Madeira, se José Sócrates enviar, em comissão de Serviço, a Directora da DREN para o arquipélago, a quem irá a senhora aliar-se?

fotografando o dia (81)

a mesa da sueca

em redor do verdor daquela mesa
onde cartas se debatem sem destino
cada trunfo tem a cor do desatino
cada mão fecha o ciclo da certeza

voam naipes num volteio com leveza
paus espadas ouros copas como um sino
cujo timbre quase soa como um hino
ecoando pelos cantos da incerteza

cada par se entendendo frente a frente
entre voltas feitas de quatro intenções
nos olhares cada qual o mais ausente

e por fim ao somar pontuações
num ensejo de preguiça mais ridente
volta a vida a sorrir com marcações.


– foto e poema de Jorge Castro

um agradecimento público….


Um nome é algo que vale muito. O nosso nome, quando assinado por nós, tem esse valor acrescentado de ser, de algum modo, a nossa imagem, o nosso testemunho assumido, o afirmar-se aos quatro ventos: eu passei por aqui!

Acabei de receber um exemplar do meu livro “Auto das Danações” – em edição especial de lançamento, com o apoio da inefável Funda São e a condescendência aventureira da Editora Apenas Livros – que me traz, no seu interior, os autógrafos de todos os actores que o levaram à cena na Quinta do Panasco, em Caria, com o brilhantismo destemperado que noutros locais e em devido tempo já foi referido (e se documentou fotograficamente).

De actores amadores se fala aqui. Amadores porque fazem o que fazem amando, em coreografia de afectos.

Neste caso, amando a fruição, a partilha… dando assim novos mundos ao mundo, que é aquela corrente de loucura que nos atravessa, de vez em quando, sem marcação de lugar nem de hora e de resultados tão imprevisíveis, como dar a volta a esse mundo ou descobrir novos caminhos marítimos para tantas Índias.

Bem hajam, Amigos da Tuna Meliches e restante seita… Só por vós já teria valido a pena escrever o livro!

E aqui se abriu um belo tinto da Quinta dos Termos, à vossa!

“com mãos tudo se faz e se desfaz…”

Não vou a tempo de vos convidar para a inauguração da exposição de fotografia “Mãos“, da autoria de Fernando Carvalho, que teve lugar no dia 20 de Julho de 2007, pelas 19 horas, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana.
Mas, ainda assim, não tenho qualquer dúvida em sugerir uma visita, até 11 de Agosto. Mais: para aqueles que façam o culto da arte de juntar palavras, sugiro mesmo que vão munidos de um bloco de apontamentos, pois encontrarão nesta exposição, seguramente, momentos de inspiração.
O autor, Fernando Carvalho, fez idêntica aventura. Perante o poema de Manuel Alegre, as fotos foram surgindo, num encadeado lógico e coerente, pois “com mãos tudo se faz e se desfaz”, haja quem para elas saiba olhar.

Fernando Carvalho, em conversa de amizade, junto a um dos seus trabalhos.
A exposição é constituída por 22 fotografias a “preto e branco”, em papel baritado, de 20×30 cm.

Diz-nos o autor:

“- Procuro, nesta exposição, mostrar as mãos em intervenções comuns
– Fazendo, Construindo, Criando.
Não são estas as mãos que desfazem
a tranquilidade, a esperança ou o amor.”
A não perder, digo eu.
……………………………………………..

NOTA – A quem interessar possa:

Sai hoje, na página 16 da revista Perspectiva (distribuída gratuitamente com o jornal Público), um artigo meu sobre o caso da indecência cometida por uma Junta “Médica” ao Professor Artur Silva, de Braga. Para memória futura e a bem da nossa sanidade mental.