até sempre, Victor Duarte!


Foi com o maior constrangimento que recebi a notícia do falecimento do Victor Duarte.

Excelente companheiro e amigo, dentro e fora do SINDEL, um militante empenhado na causa sindical, com um profundo conhecimento da realidade de cada local de trabalho, bem como dos desafios que o combate sindical tem pela frente, tinha artes de aliar essa vertente a uma gestão de afectos que o tornava sempre próximo, à distância de um abraço, jamais se furtando a um apelo de índole sindical ou pessoal, em qualquer lugar e em qualquer hora que a sua complexa agenda permitisse…

De alguns se diz que o seu desaparecimento tem, em nós, o peso de uma montanha. Este é, seguramente, o caso do Victor Duarte.

Na impossibilidade de ter estado presente na sua derradeira despedida, o que muito lamento, aqui lhe deixo, em jeito de pobre homenagem, o abraço que não tive tempo para lhe dar.

Luiz Goes – é preciso acreditar!

Luiz Goes (1933-2012) deixou-nos uma voz identitária. Ao ouvi-la, em qualquer recanto, por mais recôndito do globo, um português reconhece-a e reconhece-se. É assim e de algum modo uma voz que representa a consciência de uma cultura.
E porque uma evocação faz-se sempre que um homem quiser e porque, ao ouvi-lo, há palavras que se mantêm de sentido tão actual, agora me apeteceu fazer esta:


A nós, sobrevivos, fica a missão de o trazer ao nosso convívio em cada momento em que essa voz faça sentido… O que o mesmo é dizer-se sempre.

a falta que um Miguel Portas pode fazer-nos

Uma persistente, incómoda e inabitual indisposição impediu-me, muito lamentavelmente, de me associar fisicamente às homenagens a Miguel Portas.
Aqui fica, então, um frágil apontamento que se pretende, ainda assim, apenas ser o testemunho solidário de um cidadão.
Miguel, um exemplo supremo de ser humano. Um exemplo a ter em conta, indubitavelmente. Uma referência diversa e sublinhada num panorama de figuras políticas sem graça e sem nexo.
Um daqueles homens que nos fazem sentir que a Vida vale a pena ser vivida e que nos lega a responsabilidade, não de o imitar, mas antes de erguer o estandarte por momentos caído e que nos cumpre erguer de novo e prosseguir na estrada larga da defesa das causas e da prossecução do objectivo de uma Humanidade mais justa, mais solidária, mais esclarecida, mais digna para todos.
Um Homem, enfim. E já lhe sentimos a falta.  

a Dimitris Christoulas, em Atenas, Abril de 2012

de súbito
insustentável
na praça Syntagma a relva surgiu vermelha
junto do tronco impassível da árvore abandonada

e toda a Grécia estremece com o espanto de um grito
um grito só e aflito que cruzou a Terra toda
como se fora pequena
como se valesse a pena despertar ainda a aurora
e jaz num corpo vazio que nos perturba a cidade

foi cada passo contado que o levou ao destino
foi a certeza da Vida que lhe aconselhou a morte
e um tiro redentor que suas mãos libertaram
agitaram o torpor das consciências paradas

ali foi digno
Dimitris
contra os tiranos da vida
a provar-nos às mãos-cheias que somos senhores de tudo
e só nós somos os donos da hora da liberdade
quando a centelha da honra se acende dentro de um peito
vestido de humanidade

legou uma nota breve bordada a sangue e a revolta
por não mais o merecerem os tiranos que nomeia
mas o olhar derradeiro abrange este mundo inteiro
adivinha-se fraterno
militante
solidário
numa paz feita na guerra que vestiu de dignidade
como a marca do trabalho na camisa de operário

há-de ter nome de rua
há-de erguer-se em monumento
e ser contado na lenda
se o soubermos merecer
se o sentirmos irmão ao alcance de um abraço
sem fronteiras de lamento
sem o esquecimento eterno
há-de ser céu e inferno
há-de ser a voz do vento
sempre que alguém se levante
num grito só e aflito que estremeça o universo

Dimitris não morreu só
pois com ele morremos nós
cada um para o seu lado
e todos morrendo sós

Dimitris
Dimitris
porque nos abandonaste?
qual o apelo sentido?
qual o rumo que traçaste?
porque nos ecoa ainda
esse grito que legaste?

– Jorge Castro